terça-feira, 6 de julho de 2010

MA ANANDA MOYI - (Oficial Anandamayi website Ma)


Data de nascimento: 30 de abril de 1896(1896-04-30)
Naturalidade: Kheora, Brahmanbaria, Bangladesh
Nascimento: Nirmala Sundari
Data de morte: 27 de agosto de 1982 (86 anos)
Local da morte: Kishanpur, Dehradun, Os ritos da Índia, foram realizados no passado Kankhal, Haridwar, India
Citação: "Quem é que ama e quem que sofre? Só Ele encena uma peça com ele próprio; que existe salvá-lo? O indivíduo sofre porque ele percebe a dualidade. É a dualidade que faz com que toda a tristeza e sofrimento. Encontre o em toda parte e em tudo e haverá um fim à dor e ao sofrimento."
FONTE: http://en.wikipedia.org/wiki/Sri_Anandamayi_Ma


A Mãe Impregnada de Alegria

Nirmala Sundari (em sânscrito,"Beleza Imaculada", um nome adequado para uma mulher cuja beleza, tanto física quanto espiritual, era de tirar o fôlego) nasceu em 1896, em Kheora, Leste de Bengala,(hoje Bangladesh).

Na época de sua morte, em 1982, essa camponesa virtualmente iletrada seria reverenciada em todo o mundo como Anadamayi Ma, a Mãe Impregnada de Alegria.

Nirmala era lembrada por vizinhos e parentes como uma criança excepcionalmente alegre e luminosa - mas não especialmente inteligente. A sua tendência de parar abruptamente todas as atividades e fixar os olhos abstratamente no espaço por longos períodos deixava os seus pais apreensivos. A preocupação deles tinha começado no momento exato do seu nascimento, quando a criança recém-nascida não chorou.

Anos mais tarde, quando a sua mãe lembrou esse acontecimento alarmante, Nirmala reagiu:

- Por que deveria eu ter chorado? Eu estava olhando as árvores através das ripas da janela. (.....)

Os seus pais contrataram o seu casamento com Bholanath; cinco anos depois, ela foi morar com ele. Quando viu sua estonteante noiva, Bholanath deve ter se considerado o homem mais sortudo da terra. De fato, ele tinha sido abençoado, mas não da maneira que esperava: a sua esposa recusava-se categoricamente a fazer sexo com ele.

A sua consternação transformou-se em horror quando ele acordou no meio da noite e encontrou Nirmala contorcendo o seu corpo no chão e emitindo sons estranhos e obscuros. Ficou convencido de que ela estava possuída e consultou um exorcista.

Nem Bholanath nem Nirmala tinham treinamento religioso formal, e assim, na época, nenhum dos dois reconheceu que Nirmala estava assumindo espontaneamente posturas da Hatha yoga ou que as suas estranhas vocalizações eram, na verdade, mantras sagrados.

De 1918 a 1924, Nirmala desinteressadamente se observou passar pelos vários estágios da "sadhana", a prática espiritual.

Desde o momento do seu nascimento plenamente consciente, quando ficou olhando as árvores, Nirmala aparentemente permaneceu no estado de "sakshin", como é chamado o estado de testemunho lúcido na yoga.

- O que eu sou, sempre fui desde a minha infância - afirmou ela posteriormente. - Contudo, diferentes estágios da "sadhana" se manifestaram através deste corpo. A sabedoria foi revelada pouco a pouco; o conhecimento integral foi dividido em partes.

Nirmala - que nasceu vivenciando a unidade de toda a criação - achava surpreendente vivenciar o mundo aos pouquinhos e em partes, como faz o resto de nós.

O comportamento não-ortodoxo de Nirmala chocou a sua família muitas vezes durante a sua vida. Uma de tais ocasiões ocorreu quando ela se recusou a se curvar diante dos seus antepassados, um requinte social considerado imprescindível em Bengala. Porém, Nirmala tinha ouvido uma voz lhe dizendo: "Voce não deve se curvar diante de ninguém. A quem voce quer homenagear? Voce é tudo."

- Imediatamente - afirmou Nirmala -, compreendi que todo o universo era a minha própria manifestação. O conhecimento parcial deu lugar ao universal, e eu me descobri face a face com a Unidade que aparenta ser muitas coisas.

Isto - o auge de todo o esforço místico - realmente seria uma façanha para qualquer pessoa, ainda mais para uma jovem que nunca tinha tido um guru.

Não era que o assunto de um guru ou guia espiritual não tivesse surgido. Os amigos que conheciam as inclinações espirituais de Nirmala, encorajaram-na com veemência a buscar um mestre que a iniciasse formalmente na vida espiritual. Ela foi até os pandits locais, mas nenhum estava interessado em ensinar uma camponesa pobre e iletrada. Em 3 de agosto de 1922, numa ruptura total com toda a história da tradição religiosa hindu, Nirmala Sundari Chakaravarti se sentou e iniciou a si mesma.

A yoga ensina que o guru, o mantra que ele confere durante a iniciação e o discípulo são, na realidade, uma única coisa. Já estabelecida naquela realidade indivisível, Ananda Mayi Ma dramatizou esta unidade quando interpretou os papéis de mestre e de discípulo simultaneamente, com seu Eu superior conferindo o mantra ao seu eu inferior. Assim, ela recebeu o mantra diretamente da divindade interior e tornou-se uma das poucas sábias do hinduísmo que alcançaram a plena iluminação sem a ajuda de um guru.

Em 1922, Bholanath, o aturdido marido de Nirmala, tinha visto o bastante para concluir que sua esposa estava possuída por Deus. Tornou-se o seu primeiro discípulo.

Em 1924, ele e Nirmala se mudaram para uma casa de campo no estado de Shahbag e, enquanto Bholanath cultivava os jardins, Nirmala cultivava um número crescente de devotos. Uns foram atraídos pelos rumores de curas milagrosas, outros pela músicas. A voz de Nirmala quando cantava as glórias de Deus, era sublime. A população logo começou a chama-la de Mãe do Mundo.

As palavras dessa mulher radiante surpreendiam os seus visitantes. Ela falava com autoridade sobre estados além do tempo e do espaço, como se os conhecesse intimamente.

"O tempo devora incessantemente. Tão logo a infância acaba, a juventude assume o seu lugar - uma engolindo a outra. Mas, na realidade, o surgimento, a continuidade e o desaparecimento ocorrem simultaneamente em um só lugar. Tudo é infinito; infinito e finito são, de fato, a mesma coisa. Em uma grinalda, há um único fio, embora haja lacunas entre as flores. São as lacunas que causam a carência e o sofrimento. Preenche-las é se libertar."

Nirmala ensinava os seus extasiados discípulos a preencherem as lacunas com o amor a Deus e submissão à Sua vontade. Ela insistia em que Deus não era somente o criador do universo, mas também a essência do próprio ser da pessoa. "A verdadeira natureza do homem - dê a isto o nome que voce quiser - é o Eu supremo de tudo."

Em 1924, Nirmala parou de se alimentar. Ela observou com desinteresse característico, que as suas mãos simplesmente não conseguiam levar o alimento à sua boca. Pelo resto de sua vida, os devotos precisaram alimentá-la como a um bebê.

Em 2 de junho de 1932, à meia noite, Nirmala convocou um punhado de discípulos íntimos e fez uma surpreendente participação. Estava partindo. Por que? suplicaram seus devotos. Para onde ela iria?

Ela explicou que não sabia e partiu imediatamente. Durante um ano, ela se estabeleceu em um templo abandonado de Shiva, perto de Dehradun, aparentemente se submetendo a severa penitência, mas, de fato, como ela mesma admitiu, permanecendo em uma inexprimível alegria. De qualquer maneira, esse foi o último local no qual pode-se dizer que Anandamay-Ma morou. Depois disso, ela se mudou constantemente. Em cada lugar em que parou, surgiram "ashrams" e instituições de caridade.


Algumas histórias

Apesar da ausência de um guru externo, Nirmala não estava, de maneira alguma, sem orientação espiritual. O seu Kheyal, ou Guia Interior, direcionava o curso da sua vida.(...) As centenas de histórias sobre o Kheyal de Anandamayi Ma são lendárias.

Por exemplo, uma noite, no meio de um kirtan (cântico religioso), Nirmala se levantou e saiu andando rapidamente para fora da casa. Dois devotos correram atrás dela, perguntando para onde estava se dirigindo.

Sarnath - respondeu ela.

Sarnath ficava a muitas milhas de distância.

- Por que voce está indo esta noite? quiseram saber os devotos. - Não há nenhum trem para Sarnath a esta hora!

Nirmala continuou em ritmo apressado até a estação ferroviária. A seu pedido, um devoto comprou um bilhete para o trem postal que passaria perto de Sarnath, mas que não estava programado para parar lá. Nos arredores de Sarnath, o trem parou inexplicavelmente. Nirmala e os seus dois entontecidos devotos saltaram.

- Qual o caminho para o Hotel Birla? - perguntou ela.

Eles não tinham a menor idéia. Ela continuou andando vigorosamente, com o seu minúsculo séquito correndo para acompanhar.

O hotel surgiu e os três entraram apressadamente. Nirmala ignorou o hoteleiro e se dirigiu diretamente para um quarto. Quando eles se aproximaram, os devotos escutaram uma mulher gemendo dentro do quarto. Nirmala bateu com força na porta dizendo:

- Está tudo bem! Estou aqui!

A porta se abriu e os devotos ficaram surpresos ao ver Maharattan, uma condicípula. Maharattan tinha chegado poucas horas antes em Sarnath. Estava desamparada e sem dinheiro, e, desde então, tinha estado chamando por Anandamyi Ma.

Nirmala passou o resto da noite caçoando de Maharattan.

Indubitavelmente, esta experiência curou a agradecida devota de qualquer ansiedade durante algum tempo! (....)

Em 1955, quando o juiz distrital de Vindhyachal soube que Anandamayi Ma estava visitando a sua área, correu para ter o seu darshan (a benção de ver um santo em pessoa).

Ma parecia estar esperando por ele, e levou-o para a varanda. Apontando para o jardim embaixo, ela instruiu:

- Deuses e deusas estão por aí, debaixo da terra. Eles me disseram que é muito cansativo ficar enterrado e que gostariam de ser retirados. Voce pode ajudá-los?

Imediatamente o juiz reuniu um grupo de trabalho e começaram a cavar. Penetrar na rocha sólida era um trabalho árduo.

No segundo dia, o grupo estava cheio de irritação, questionando se o juiz tinha perdido a razão. No terceiro dia, eles descobriram duzentas primorosas estátuas antigas enterradas na lama.

Anandamayi Ma era abraçada não apenas pelas pessoas simples, mas também pelos maiores intelectuais, santos e políticos da India, incluindo Mahatma Gandhi, que se encontrou com ela em 1942, e Indira Gandhi, que a admirava desde a infância.

Quando o maior intelectual da India, Gopinatha Kaviraj, visitou Ma, as respostas às suas questões filosóficas de difícil compreensão que esta mulher sem educação formal instantaneamente ofereceu, o surpreendeu tanto que ele se mudou para o ashram dela, onde passou o resto de sua vida.

A estima por Anadamayi Ma se refletia nos acontecimentos que cercavam as suas aparições nos Kumbha melas da India, feiras religiosas que atraíam milhões de peregrinos, incluindo os dirigentes de muitas das principais instituíções religiosas indianas. A rivalidade entre os vários líderes religiosos é famosa e, às vezes, infelizmente, tempera as melas com intolerância, ao invés de com o espírito de harmonia que as feiras pretendem promover.

Na última década da vida de Ma, parecia só haver uma única coisa com a qual os dignitários religiosos no kumbha mela concordavam: todos iam à barraca de Ma para se curvarem reverentemente diante da mulher idosa cuja santidade era tão plenamente evidente que até mesmo o mais rancoroso deixava o seu egotismo, junto com as suas sandálias, do lado de fora da porta. Brâmanes inimigos apareciam pedindo a Ma que arbitrasse as suas disputas; após alguns minutos em sua silenciosa e luminosa companhia, os argumentos enfraqueciam e eles podiam sair da barraca sorridentes e se abraçando.

Foi ali que Ma finalmente foi reconhecida como a Mãe Universal; a santa cuja compaixão não conhecia barreiras de casta, credo ou nacionalidade; a santa diante da qual todas as pessoas, independente da sua formação, reverenciavam a serenidade.

O encontro de Paramahansa Yogananda com Ma, como descrito no seu clássico Autobiografia de um Iogue, foi a primeira apresentação de Anandamayi Ma para muitos ocidentais.


Um verdadeiro exemplo de santidade

Anandamayi Ma não escrevia e nem dava conferências; simplesmente vivia na presença divina. Do seu ponto de vista, ela não servia às outras pessoas porque não as via como separadas de si mesma. Remover o sofrimento delas era simplesmente aliviar a si própria.

Embora os seu devotos a tivessem visto viajando por toda a India, ela nunca foi a lugar algum: "Para este corpo, a questão do ir e vir absolutamente não procede. Este corpo não vem nem vai a lugar algum. O universo como um todo é o lar deste corpo. Para onde este corpo pode ir? Em todos os lugares, só existe uma única consciência onipresente. Não há nenhum espaço para o corpo se mover ou até mesmo para se virar. Mesmo se for empurrado, ainda estará lá."

Afortunadamente para a posteridade, diversos seguidores de Anandamayi Ma anotaram as respostas dela às suas perguntas; esses diários constituem a parte principal de sua mensagem para a humanidade.

Sobre os desejos mundanos ela dizia: "se voce deseja fama ou riqueza, Deus irá dá-la a voce, mas voce não se sentirá satisfeito. O reino da consciência é uma unidade, e, até que vivencie isto em sua totalidade, voce nunca ficará contente. Ao mesmo tempo, Deus lhe concede um pouquinho da sua alegria para manter vivo o seu descontentamento, porque, sem esta insatisfação, voce não irá progredir. Voce, um filho da imortalidade, nunca pode se sentir à vontade no reino da morte e nem Deus irá permitir que voce permaneça ali. Lembre-se que o sofrimento que voce experimenta é o início de um despertar da consciência."

O que é um guru? "Todo mundo é um guru. Cada pessoa através da qual alguém aprendeu algo, não importa o quão insignificante seja. Porém, o verdadeiro guru é aquele cujos ensinamentos guiam voce em direção a compreensão do Eu. Implore continuamente a Deus para que ele possa Se revelar a voce como o seu Mestre Espiritual e a menos que voce descubra o guru interior, nada pode ser alcançado. (..........)

Ananadamayi Ma ensinava que a única realidade é a realidade divina; que a nossa percepção de nós mesmos como separados de Deus é apenas um sonho, uma imposição da ignorância, e que as pessoas que se libertam dos seus apegos a desejos mesquinhos e motivações egoístas, voltando-se sinceramente para o divino, não no céu mas em si mesmas, podem viver cada momento em perfeita alegria. Disto, ela mesma era um exemplo vivo.

A maior contribuíção de Anandamayi Ma não foi tanto o que ela fez ou o que disse; é o que ela foi. Ela surpreendeu e inspirou a milhões de pessoas - primeiro na India, depois por todos os lugares do mundo - pelo seu verdadeiro ser: incessantemente radiante, totalmente unido ao divino e, no entanto, constantemente sensível às necessidades de todos os que chegavam até ela.

A resposta enigmática de Ma à pergunta frequentemente verbalizada por seus devotos, "Quem é Voce?", era: "Eu sou tudo aquilo que voce achar que sou". Talvez isso fosse um indício de que Anandamayi Ma era simplesmente um espelho daquilo que há de mais puro e mais maravilhoso dentro de nós mesmos e de que o propósito da sua existência era somente o de nos mostrar o que todos nós podemos ser.

Para nós, hoje, a quase iletrada camponesa de Bengala oferece um exemplo radical de uma mulher realmente liberada; um ser humano que amou todas as pessoas que chegaram até ela como se fossem seus próprios filhos e, no entanto, permaneceu independente de todos; que serviu constantemente as outras pessoas sem se preocupar se elas eram suficientemente agradecidas.


Relatos de discípulas americanas:

Carol Devi


- Ela tinha uma presença e uma existência surpreendentes. O poder da sua presença se irradiava por uma enorme circunferência. Muitas vezes, voce não conseguia ficar tranquilo porque havia pessoas demais ao redor dela, mas voce também não precisava tentar meditar. As vibrações de Ma eram tão fortes que empurravam voce para a meditação.

Não importava de que religião voce era. Não havia a sensação de que uma religião era melhor do que outra. Todas as crenças e dogmas se tornavam uma só coisa para Ma.

- Eu podia ir a qualquer grupo que desejasse - diz Carol - mas nunca houve qualquer dúvida em minha mente sobre quem era o meu guru. Eu tinha uma relação de total intimidade com Ma, mas todas as pessoas na mesma sala tinham a mesma experiência. Era como Krishna com as "gopis".

Enquanto o avatar Krishna vivia na aldeia rural de Vrindavan, todas as "gopis", as camponesas que cuidavam das vacas, eram apaixonadas por ele. Uma noite, para satisfazer os desejos delas, ele as convidou para dentro da floresta. Então, ele emanou de si mesmo dezenas de Krishnas idêntidos, e cada um deles dançou durante a noite mística com uma "gopi" diferente. Cada moça acreditou que estava sozinha com o Senhor, que ele pertencia apenas a ela.

Do mesmo modo, Carol Devi era a pessoa mais especial do mundo para Ma, assim como o eram todas as outras almas admitidas na presença da santa.

Embora Anandamayi Ma já fosse idosa quando Carol a conheceu, acompanha-la era estafante.

- Contudo, foi espiritualmente estimulante. Era como andar com Jesus.
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Hari Priya

A americana Hari Priya escreveu para Ma perguntando se teria permissão de ve-la. Ma respondeu: " Voce será sempre bem vinda. Se for a hora de voce vir, Deus tomará as providências."

O dinheiro para a viagem materializou do éter e, duas semanas mais tarde Hari Priya estava em Dehra Dun.

- Se Cristo ou qualquer outra pessoa santa estivesse na terra, eu iria ve-las. Portanto, evidentemente, fui ver Ma.

Hari Priya dificilmente consegue conter as lágrimas quando se lembra da sua primeira visão diante de Ma. Ma entrou no quarto trazendo uma flor. (.....)

Providências foram tomadas, de modo que Hari Priya pudesse morar na vizinhança.

- Aquela primeira viagem foi a nossa lua-de-mel. Durante as suas "darshans," eu me sentava a trinta centímetros de distância dela. As viagens subsequentes nem sempre foram tão tranquilas.

- Muitas vezes, ela me ignorou. Era para anular o meu ego. Eu tinha um sutil orgulho espiritual. Ma o estava cortando pela raiz. Depois, fazendo algo especial, ela me preencheria novamente com a sua alegria.

Hari Priya recorda com particular ternura a vez em que a Mãe se sentou segurando as suas mãos e lhe disse:

- Voce percorreu todo esse caminho por amor a mim. Voce sofreu demais por este corpo. Esta é a sua grandeza.

Ela transformava todas as situações em uma usina espiritual, um céu. Na maioria das vezes Ma ficava sentada em silêncio, mas também podia estar espirituosa e contar histórias maravilhosas. O seu fascínio era envolvente. Vibrava com o poder espiritual. A sua risada era transcendental...podia penetrar em nosso coração.

Hari Priya se lembra da vez em que um devoto mencionou a um outro que Ma raramente tomava banho.

- Ela não precisava, o seu corpo era tão puro! Tinha uma fragrância única, como o lótus, a banana e o sândalo.

No dia seguinte em que o discípulo fez este comentário, Ma tomou trinta banhos. O devoto se absteria de fazer comentários semelhantes no futuro.

Hari Priya recorda o terrível dia em 1982, apenas nove dias antes dela partir em sua décima viagem à India, no qual uma condiscípula telefonou.

- Ela não precisou me contar. Eu o soube pelo tom da sua voz. (......)

Voltou à India e visitou os asrahms em Pune, Hardwar e Dehra Dun. (.....)

- Não há um dia que passe sem que eu me lembre dela. Pergunte a qualquer um dos devotos de Ma e ele lhe dirá a mesma coisa. O tigre o mantém no seu abraço!


Olho fixamente para a mansão branca, visível do nosso barco no Ganges. Grandes letras hindus proclamam que este é o "ashram" de Anandamayi Ma em Benares. Para o meu imenso pesar, cheguei tarde mais para encontrar uma das maiores santas de todos os tempos.

Já faz mais de uma década desde que o corpo físico de Anandamayi Ma partiu desse mundo. (Evidentemente, a própria Ma insistiria em que não foi para lugar algum - que permanece, como sempre, a mesma.)

Mas o seu legado de amor e sabedoria permanecerá enquanto a humanidade tratar com carinho este número reduzido de seres extraordinários que chamamos de santos, aqueles que enunciam um estado do ser tão abrangente e bem-aventurado quanto o próprio universo, além das limitações da nossa consciência comum.


Alguns ensinamentos de Anandamayi Ma

"Assim como na vida cotidiana, no campo espiritual o que conta mais é a paciência."

" Permaneça sempre calmo e não se esqueça de que tudo o que Deus faz a qualquer tempo é benéfico. Porque se inquietar, se no curso dos eventos, as circunstâncias se modificam? Tudo o que acontece a todo instante ocorre de acordo com a Sua vontade."

"Seja qual for a situação em que Deus o colocar a qualquer instante, lembre-se de que é o que há de melhor. Procure atravessar a vida entregando de volta o seu fardo em Suas mãos; Ele é o Protetor, o Guia; Ele é tudo em tudo".

Pergunta: "Durante a meditação e a prece, como liberar nosso espírito das preocupações com o trabalho, as responsabilidades familiares: marido, filhos, etc? O que fazer?

Ma: Deixe o trabalho se realizar por si só sem se preocupar. Trabalhe sem ter a impressão de que é você que trabalha. Considere que é o trabalho de Deus, feito através de sua intermediação, e que você é Seu instrumento. Assim seu espírito estará calmo e pacífico. É isso a prece e a meditação."

"O homem nasce a fim de esgotar seu karma e escapar do ciclo de nascimentos e renascimentos. Mas o homem que possui um poder supranormal, quer dizer aquele no qual despertou o poder divino, pode modificar seu karma. O guru se manifesta a partir do interior. Quando surge uma busca verdadeira, autêntica, a iluminação se produz forçosamente. Não pode ser de outra forma. Aquele que surge sob os traços do guru é revelado ou então Se revela Ele-mesmo."

"Você já fez tanto no mundo da ação! Agora esforçe-se para consagrar inteiramente seu espírito ao Eterno. Não perca um tempo precioso. Os que não praticam a contemplação de Deus - ou em outros termos, não avançam em direção à realização do Ser - se destróem eles mesmos. Apegue-se ao Bem, renuncie ao que não é senão prazer."

"Sorria o mais que puder. Fazendo isto, todos os nós rígidos no seu corpo serão afrouxados. Tornando seus os interesses das outras pessoas, busque refúgio a seus pés com total entrega. Então voce verá o quanto o riso que flui do seu coração irá iluminar o mundo."

Por que existem religiões diferentes e tanto conflito entre elas? "A controvérsia faz parte da trajetória, mas, na verdade, todos estão em sua própria casa. O mesmo caminho não é para todo mundo. Mesmo dentro de uma família, cada filho tem inclinações diferentes. Cada pessoa em busca espiritual é moldada em um caminho único, mas todas precisarão passar pelo portão da verdade".

fonte: http://www.almasdivinas.com.br/filhas_deusa/sob_a_perspectiva_da_de...


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Oficial Anandamayi website Ma

http://leiturasdaluz.blogspot.com

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Morte - (Maria Fernanda Vomero; Revista Super Interessante)


Nós todos vamos morrer. E, acredite ou não, esse é um evento tão natural quanto nascer, crescer ou ter filhos. No entanto, a idéia da finitude nos enche de terror. Por quê? Será que precisa ser assim? Dá para sofrer menos?

Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. "Muita gente já morreu nessa casa"; "Desculpe, já houve morte em nossa família"; "Aqui nós já perdemos um bebê também." Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: "O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte".

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu, assunto do qual a maioria das pessoas não gosta de falar. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. E que vem para todos nós. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é uma coisa tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha – e também na de nossos pais, nossos filhos, nossos ídolos e inimigos, de todas as pessoas que amamos e mesmo daquelas que jamais chegaremos a conhecer: é certo que todos nós vamos morrer um dia. Pessoas boas, pessoas ruins, gente em Xanxerê, Santa Catarina, ou em Nagano, no Japão. E esse dia pode acontecer amanhã ou daqui a 60 anos.

A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é um etapa da nossa existência com a qual temos que conviver. Pode-se conviver melhor ou pior com ela. Mas não se pode evitá-la. Pode-se aceitar a sua inevitabilidade e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas o fato é que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda, por meio da dor, do resto do mundo. Quando, ao contrário, não há nada menos exclusivo do que morrer. Nem nada que perpasse mais a humanidade do que o sofrimento de uma perda.

Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.

Mas, afinal, se a morte é tão comum e corriqueira, por que ela nos causa tanto medo? "O maior desejo do homem é a imortalidade", diz a psicóloga Ingrid Esslinger, da Universidade de São Paulo (USP), acostumada a atender pessoas em situação de luto. "Por isso, muitas vezes a morte é considerada uma inimiga." E uma adversária, que poderia ser vencida pelos avanços científico-tecnológicos do século XX, que aumentaram indiscutivelmente a eficiência dos diagnósticos, dos medicamentos, das técnicas cirúrgicas etc. O sonho da permanência ganhou um reforço com as melhorias trazidas pela medicina, com o aumento da expectativa de vida, com a possibilidade de haver cura para todas as doenças, mesmo o câncer ou a Aids. Enfim, soa como um despropósito falar de morte a quem tem as descobertas da ciência a seu favor. Afinal, se existem meios de prolongar a vida útil do ser humano, de manter-se jovem, de atrasar o envelhecimento, de viver mais de 100 anos, por que pensar na finitude?

É um paradoxo: a valorização da vida e a ilusão de eterna beleza e jovialidade trazidas pela vida moderna acabam gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais tristeza e sofrimento pelo fim inevitável da existência do que felicidade pelo mais de vida que proporcionam.



O mundo ocidental transformou a morte em tabu: ela costuma ser ocultada das crianças e banida das conversas cotidianas. Tudo aquilo que possa lembrá-la – a enfermidade, a velhice, a decrepitude – é escamoteado. Os doentes morrem no hospital, longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes. E os rituais de luto são cada vez mais rápidos e pragmáticos. O medo natural que todo ser humano sente diante da própria finitude vira pânico. E mesmo a morte natural – não causada, por exemplo, pela tremenda violência que a cada dia assola os cidadãos no Brasil – acaba virando sinônimo de aniquilamento sumário, de abreviamento. O que, no mais das vezes, não corresponde à realidade por se tratar apenas de uma vida que chegou naturalmente ao fim, de uma existência que simplesmente expirou.

"Partimos de idéias preconcebidas sobre a morte, formadas a partir da nossa personalidade, da educação familiar e do ambiente sociocultural e religioso em que vivemos", diz a psicóloga Bel Cesar, do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo, e autora de Morrer Não Se Improvisa. Tais imagens são rótulos que muitas vezes não correspondem à experiência humana e que acabam alimentando fantasias amedrontadoras. "Refletir sobre a morte pode torná-la mais familiar e, portanto, menos ameaçadora", diz.

O primeiro passo para conviver melhor com a idéia da morte é esquecer aquela imagem medieval, um tanto tétrica, de um esqueleto coberto com uma capa preta carregando uma foice afiada na mão. Talvez uma imagem melhor para a morte seja imaginá-la como o fim de uma festa muito bacana: você já sabia que ela acabaria, que ela teria que acabar, em algum momento. E, pensando bem, talvez não seja de todo mal que a festa termine. Você agüentaria dançar na pista para sempre? Por melhor que seja a música, tem uma hora que seu corpo e sua mente pedem descanso. E aí, talvez, seja o momento mesmo de sair da pista, serenamente, sem traumas, e dar lugar a quem está chegando à festa cheio de gás.

Bel propõe um exercício de meditação, inspirado nas práticas budistas: repita a palavra "morte", de olhos fechados, inúmeras vezes. "Surgirão pensamentos, imagens e sentimentos muitas vezes antagônicos. Mas, se você continuar essa experiência de mergulhar até onde a palavra ‘morte’ o levar, verá que algo dentro de você mudará positivamente", diz ela.

O medo da morte é um sentimento inerente ao processo de desenvolvimento humano. Aparece na infância, a partir das primeiras experiências de perda. E tem várias facetas: trata-se de um medo do desconhecido, somado ao medo da própria extinção, da ruptura da teia afetiva, da solidão e do sofrimento. "O medo da morte é fundador da cultura", diz a socioantropóloga Luce Des Aulniers, responsável pela disciplina de Estudos Sobre a Morte, da Universidade de Quebec, em Montreal, Canadá. "Esse medo funciona como pivô e como motor de todas as civilizações. A partir do desejo de perenidade, se desenvolvem as instituições, as crenças, as ciências, as artes, as técnicas e mesmo as organizações políticas e econômicas."

Esse é o lado, digamos, vital da morte. "O medo da morte nos força a viver – a nos relacionarmos, a procriarmos, a criarmos, a construirmos coisas que nos transcendam", diz Luce. Na ilusão da imortalidade, o ser humano acredita que suas obras sejam permanentes e garantam que ele não seja esquecido. Cada um adapta, à sua própria maneira, a máxima "plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho". Isso ocorre porque, para o nosso inconsciente, a morte nunca é possível nem admissível quando se trata de nós mesmos. "A idéia da não-existência provoca tal desconforto que a mente humana acaba criando alguns mecanismos de defesa para fugir dessa realidade", diz o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla, da Sociedade Brasileira de Psicanálise, em São Paulo. A negação e a repressão da idéia de morte são exemplos desses artifícios.

Nada disso é novidade. Desde os tempos mais remotos, os homens já enxergavam a morte como elemento antagônico à vida – e não como parte integrante e inseparável dela. Talvez fosse mais fácil aceitá-la como fato natural quando ela acontecia aos borbotões, quando a expectativa de vida das pessoas era de 35 anos. Mas o estranhamento e o terror sempre existiram. As pinturas encontradas nas paredes de cavernas como Lascaux e Chauvert, na França, revelam o incômodo que a morte provocava no homem de 30 000 anos atrás. Os episódios alegres, como as caçadas, eram retratados em cores vivas, usando óxido de ferro (alaranjado) ou calcário amarelo. As imagens fúnebres, por sua vez, eram pintadas com cores escuras, com carvão.



O antagonismo se mantém dentro de cada um de nós, no jogo constante entre Eros, o deus grego do amor, e Tanatos, o deus da morte, para usar uma imagem cunhada por Sigmund Freud, fundador da psicanálise. As forças da vida, representadas por Eros, estimulariam o crescimento, a integração, a autoproteção e a sobrevivência. As forças da morte, representadas por Tanatos, alimentariam os instintos destrutivos e as atitudes de auto-sabotagem, por exemplo. Da conciliação dessas forças contraditórias, surgiria o equilíbrio e o vigor emocional necessários para viver.

No entanto, o medo de morrer pode gerar um apego desmedido a elementos cotidianos e um conseqüente desespero diante da possibilidade de vir a "perder tudo" com a morte – a companhia dos amigos, o carro novo, os imóveis, o status social, os projetos não realizados. No budismo, assim como na tradição cristã, o desapego é condição essencial para uma "boa morte". "Normalmente assumimos que precisamos dominar alguma coisa para que ela nos traga felicidade. E nos perguntamos: como é possível saborear alguma coisa se não podemos possuí-la?", escreve Sogyal Rinpoche, em seu O Livro Tibetano do Viver e do Morrer. "Mas, na morte, não podemos levar nada conosco." Nem bens, nem diplomas, nem o sucesso. Eis aqui outro paradoxo: para viver bem, sem o terror e o tormento da idéia do fim, é preciso cultivar um certo desapego em relação à vida.

Em outras palavras: para experimentar a "boa morte" e morrer serenamente – em oposição a viver atarantado pela iminência da "cadavérica" e assim morrer sofrendo – é preciso absorver a idéia de que, como quase tudo neste mundo, também nós somos impermanentes.

A vida é como um contrato que estabelece a própria vigência em uma das cláusulas. Ou seja, basta estar vivo para estar sujeito às leis da existência, que determinam o seu próprio término. Lutar contra esse fato inelutável é garantia de dor. Ao contrário, aceitar a transitoriedade da condição humana – que se aplica a você, a mim e a mais seis bilhões de indivíduos – ajuda a aliviar o sofrimento que a idéia da morte costuma trazer. Você não pode mudar o fato de que vai acabar um dia. Mas você pode mudar o modo como se relaciona com esse fato. Em certas ordens religiosas católicas, os monges, ao se encontrarem nos corredores do mosteiro, costumam dizer uns aos outros: "Memento mori", uma expressão latina que significa "lembre-se de que vai morrer". A saudação – que é o contraponto de "Carpe diem" ("aproveite o dia") – funciona como um exercício espiritual de aceitação gradual e diária da morte, vendo-a como uma conseqüência da própria vida e também de preparação para o momento em que ela acontecer.

O contrário disso é o culto ao ego, ao "pequeno eu" que há dentro de cada um de nós, manifestado na não-aceitação do curso natural dos acontecimentos, quando ele não ocorre como gostaríamos. E que está presente no indivíduo que tenta se colocar sempre acima do todo a que pertence. Ao não conseguir fazê-lo, esse "eu" sofre exagerada e desnecessariamente para aceitar a parte que lhe cabe. Na vida, quanto mais você está centrado em si mesmo, sem compartilhar suas alegrias e suas frustrações com os outros, mais você sofre com a ausência de solidariedade, com o isolamento que impõe a si mesmo, com a falsa idéia de que está desamparado. Na morte, acontece a mesma coisa. Quanto menos você compartilha a sua dor – e o sofrimento é um dos elos fundamentais da humanidade –, mais insuportável ela se torna.

As perdas que você acumula ao longo da vida podem tanto potencializar o seu medo da morte quanto ensiná-lo a conviver melhor com a finitude. "Vivemos pequenas perdas todos os dias. Uma separação, uma demissão, a morte de um amigo, a notícia de uma doença incurável", diz a psicóloga Maria Helena Bromberg, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto (Lelu), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. "Essas experiências cotidianas de morte nos ajudam a entender que nada dura para sempre. Inclusive nós, em nossa natureza mortal."

Uma história antiga ajuda a entender melhor esse processo de pequenas aprendizagens – e como muitos de nós o ignoram. Um dia, há muito tempo, um homem resolveu fazer um trato com a Morte. Prometeu a ela que não ofereceria resistência quando sua hora chegasse. Mas pediu, em troca, que fosse avisado com antecedência porque queria ter tempo suficiente para terminar todas as suas tarefas. O acordo foi feito. Tempos depois, houve um acidente grave na cidade e muitos amigos do homem morreram. Anos mais tarde, um vizinho próximo faleceu. Em seguida, foi a vez de um tio. Até que o homem ficou doente e, em alguns meses, encontrou-se com a Morte. Ela tinha vindo buscá-lo. Revoltado, reclamou: "Eu pedi que você me avisasse quando viria e não recebi um sinal!" Ao que a Morte respondeu: "A morte dos seus amigos, do seu vizinho, do seu tio não bastaram?"

Para quem busca na filosofia maneiras de lidar melhor com a morte, as reflexões finais do filósofo grego Sócrates – condenado a tomar cicuta, um veneno letal –, realizadas no século V a.C., representam um excelente exercício de aceitação. "Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas. Ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro", afirmou Sócrates. Em outras palavras: para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, é a ausência completa de angústias e desesperos, é o fim das aflições. E para quem acredita na continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra melhor. De qualquer modo, a dor estaria na vida e não na morte.

Quando chegou o momento de beber o veneno, Sócrates disse a seus discípulos, numa última lição: "Mas já é hora de irmos: eu para a morte e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus."

A morte é um assunto tão complexo que sequer há uma concordância entre os cientistas quanto sua definição. No campo filosófico, essa discussão fica ainda mais sinuosa. "Apesar de considerarmos a morte como um evento biologicamente irreversível, ela não pode ser determinada exclusivamente pelo critério biológico, pois envolve também questões ontológicas e filosóficas", afirma o patologista forense Marcos de Almeida, professor de Medicina Legal e Bioética da Universidade Federal de São Paulo. Alma e consciência são sinônimos? Existe uma alma imortal? Se sim, para onde ela vai quando morremos? Sem respostas definitivas da ciência, o homem busca, nas crenças religiosas, explicações para o fenômeno da morte. Para uns, trata-se de uma passagem, uma transição desta vida para outra, mais plena e mais feliz. Para outros, é o momento máximo de iluminação, uma forma de libertação do sofrimento.

Há ainda aqueles para quem morrer é simplesmente deixar de existir – como se fôssemos uma lâmpada que se apaga, sem qualquer possibilidade de transcendência.



"Pesquisas demonstram que pessoas com forte grau de envolvimento religioso, independente da crença, geralmente têm menos medo da morte", afirma a psicóloga Maria Júlia Kovácz, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) da USP e autora de Morte e Desenvolvimento Humano. "A fé ajuda a superar a ansiedade em relação à idéia de finitude", diz ela. Para o psicanalista Roosevelt Cassorla, "na religião o indivíduo convive melhor com a finitude porque lá encontra certezas sobre por que vive, por que morre e o que acontece após a morte."

Se há uma outra vida que se segue à morte, existiria então uma continuidade da mente ou do espírito. "Viver em função dessa continuidade nos torna mais responsáveis pelas conseqüências dos nossos atos", diz a psicóloga Bel Cesar. "O fruto apodrece, cai no chão, mas deixa a semente que dará vida a outro fruto. Assim também conosco." A visão espiritual da morte implica desapego. Afinal, é também por meio da aceitação da impermanência humana que a religião ajuda a suavizar o sofrimento causado pela finitude. Por outro lado, a idéia de transcendência, do indivíduo que vence a morte, paradoxalmente embute uma aspiração à perenidade, ao não admitir que o sujeito chegue a um fim e ao propor que ele perdure em algum outro lugar, existindo de alguma outra maneira.

Em oposição à visão espiritualista da morte, há a tradição materialista ocidental, que surgiu na Antigüidade e depois foi retomada pelos filósofos do Iluminismo, a partir do século XVIII, para a qual a morte é o fim total e absoluto. Nada mais do que a interrupção de um processo neurofisiológico, de um mero evento biológico. Essa concepção, mais tarde lapidada pelos existencialistas, como o francês Jean-Paul Sartre, funda muito da nossa visão de que morrer é um fracasso, um escândalo, uma idéia inconcebível com a qual é impossível lidar e inútil tentar conviver. "Morrer é um absurdo", escreveu o filósofo existencialista Arthur Schopenhauer (1788-1860). A morte não cabe na idéia cartesiana de vida – para a qual tudo poderia ser medido, compreendido, planejado. A finitude quebra a ilusão iluminista e antropocêntrica de que o homem poderia controlar tudo por meio da sua razão. A possibilidade de não estar mais aqui amanhã não cabe nesse jeito de entender o mundo.

O Ocidente, em seu esforço por não admitir a morte, está há pelo menos 30 anos obcecado pela idéia do jovem como metáfora de vida saudável. O envelhecimento, que também pode ser saudável, é visto sempre como decrepitude – e a morte é vista sempre como a epítome disso. "Há uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque os valores da sociedade de massa e de consumo são antagônicos à idéia de morte: o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, a acumulação de bens, a busca da imortalidade", diz Olgária Feres Matos, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. A sociedade ocidental vive um presente perpétuo, imediato. "Não há nem a visão de um futuro nem a evocação de um passado. Por isso, a morte não é admitida como uma experiência humana aceitável", afirma Olgária. O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a serenidade e a felicidade não no autoconhecimento, mas em fugas da realidade indiscutível de que um dia iremos deixar de existir.

"Atualmente se vive muito mal. As pessoas, hipnotizadas por falsas necessidades, não têm uma vida emocional rica. E morre-se de modo ainda pior", diz o psicanalista Roosevelt Cassorla. Muitas vezes, morre-se sozinho, na assepsia gelada dos hospitais, experimentando um dos medos mais primitivos do ser humano: a solidão. Até o luto é suprimido – uma exigência implícita para que a dor seja contida, pois os sinais de morte não podem transparecer aos que ficaram.

"Gastamos nossos dias tentando aproveitar a vida e chegamos ao momento da morte totalmente despreparados", afirma o filósofo Basílio Pawlowicz, da Associação Palas Athena, um centro de estudos especializado em temas ligados à espiritualidade, em São Paulo. "Se você não disse o que queria dizer, não amou o quanto poderia amar, não tentou aquilo que desejava tentar, logicamente morrerá angustiado, com a sensação de que a vida se foi e tudo ficou pela metade."

Mesmo no mundo ocidental, no entanto, sobrevivem tradições que, ao festejar a morte, celebram a vida. O "Dia dos Mortos", no México, é um exemplo disso. "Ainda existem aldeias que desenterram os mortos nesse dia. Trata-se de um costume indígena milenar. As refeições são feitas no cemitério e as crianças ganham doces e bombons em forma de caveiras", diz o historiador Leandro Karnal, professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "No interior do país, sobrevive a prática de conversar com os mortos para colocá-los a par do que aconteceu durante o ano." As famílias preparam altares para seus falecidos e neles colocam os objetos de predileção do parente morto: livros, cigarros, comidas, fotografias.

A atitude de festejar a morte também está presente na cultura japonesa. "Povoado do Moinho", o último episódio do filme Sonhos (1992), do diretor japonês Akira Kurosawa, exibe o confronto entre a antiga concepção de morte, expressa nos ritos funerários do vilarejo, e a nova, ocidentalizada, representada por um forasteiro que assiste à cerimônia. O cortejo segue, alegre, pelas ruas do povoado. Crianças, jovens e adultos cantam e dançam durante todo o trajeto do enterro. Eles celebram a morte de uma das mulheres mais velhas da aldeia. O clima de festa surpreende o forasteiro, acostumado – como nós – à atmosfera sombria de boa parte da liturgia funerária ocidental. Um velhinho centenário, então, explica ao rapaz que é uma honra encontrar a morte depois de uma existência tão plena como a daquela mulher. Por isso, tal fato merece comemoração. A história mostra como o fato de morrer pode ser encarado com serenidade e satisfação, como uma homenagem à própria vida que terminou ali.

A morte já foi vista de modo mais familiar pelo Ocidente. E não faz tanto tempo assim. Até meados do século passado, era costume morrer em casa, cercado por parentes. "A família reunia-se em volta do leito para ouvir a última palavra daquele que estava morrendo", afirma o historiador Eduardo Basto de Albuquerque, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro. "Era um momento de despedida." Não se ocultava das crianças a morte como se faz atualmente. O velório também era, na maioria das vezes, realizado em casa – tradição que ainda sobrevive em algumas cidades do interior do Brasil. "Existiam comidas típicas para a ocasião. Os parentes preparavam alguns pratos para receber os conhecidos que participavam do enterro. Havia, inclusive, cânticos e orações especiais para o momento", diz Eduardo.

Com a morte tendo sido transferida para a impessoalidade dos hospitais, perdemos a noção da importância dos rituais funerários, que conferem um sentido ao sofrimento e à morte. A expulsão da morte da nossa intimidade, privando aquele que está prestes a morrer da nossa ternura e da nossa solidariedade nos momentos finais, é uma metáfora da negação da finitude que operamos em nossas próprias vidas. "Os rituais de morte estão presentes em todas as sociedades do planeta. Servem para a compreensão ‘social’ do fenômeno: ajudam a digerir o impacto provocado pela perda do outro e funcionam como fator de agregação daquela sociedade", diz o antropólogo Guillermo Ruben, da Unicamp.



"Os rituais seculares foram esvaziados de sentimentos e significado", escreveu o sociólogo alemão Nobert Elias, na arguta análise da experiência de morte nos dias de hoje, presente em A Solidão dos Moribundos. "O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos", afirmou. "Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar."

O temor do "contágio" pela morte explica a solidão e a frieza das unidades de terapia intensiva, onde, muitas vezes, os doentes terminais morrem sem a possibilidade de dizer uma última palavra aos que amam e sem ninguém que lhe ofereça conforto espiritual. Claro que morrer assim dá muito medo. Estabelece-se aí um círculo vicioso: temos pânico da morte porque ela nos parece horrível e a tornamos muito mais horrível do que poderia ser porque nos afastamos dela – e de quem morre. O escritor budista Sogyal Rinpoche, autor de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, espantou-se quando visitou o Ocidente pela primeira vez, na década de 1970, e constatou a insensibilidade do atendimento aos doentes terminais. "O que me perturbou profundamente, e ainda continua a perturbar, é a quase inexistência de auxílio espiritual que há na cultura moderna para aqueles que vão morrer", escreveu ele. "Cuidado espiritual não é luxo para poucos; é direito essencial de todo ser humano."

No início dos anos 70, iniciou-se um movimento de humanização da medicina, principalmente no campo do atendimento aos pacientes terminais, que veio a se contrapor à frieza ainda dominante dos hospitais modernos. A enfermeira britânica Cicely Saunders inovou ao propor um atendimento multiprofissional aos pacientes portadores de câncer avançado, em locais chamados hospices. Nesses abrigos, o doente conta com os cuidados médicos e com a proximidade da família. Da equipe multiprofissional fazem parte também psicólogos e sacerdotes de diferentes religiões, prontos a oferecer assistência psicológica e espiritual. O "movimento hospice" incentivou a criação das unidades de cuidados paliativos, que funcionam ligadas aos hospitais, e do homecare, o atendimento domiciliar a pacientes terminais. A idéia é simples: tão fundamental quanto ter uma boa vida é gozar de uma morte mais humana, mais envolta em serenidade e ternura.

Eis o conceito, ainda tímido no meio médico mas bastante pertinente, de ortotanásia – a morte digna, sem abreviações desnecessárias e sem sofrimentos adicionais.

No Brasil, o pioneiro na divulgação dos cuidados paliativos foi o médico Marco Tullio de Assis Figueiredo, professor da Universidade Federal de São Paulo, antiga Escola Paulista de Medicina. Além de ter criado dois cursos voltados aos estudantes da área de saúde – um sobre Tanatologia (o estudo da morte) e outro sobre Cuidados Paliativos –, Marco Tullio implantou uma Unidade de Cuidados Paliativos no Hospital São Paulo. "Os estudantes de Medicina, em geral, nada aprendem em seus cursos sobre a morte e a dimensão do processo de morrer", diz ele, que é sócio-fundador da Associação Internacional para Hospices e Cuidados Paliativos. "Por isso, vemos médicos tentando manter a vida do paciente a qualquer preço, mesmo que isso implique em mais sofrimento para o doente." Tal prática é conhecida como distanásia, conceito que significa o prolongamento da agonia na tentativa de adiar a morte e de conseguir uma sobrevida sem qualquer qualidade – em oposição à ortotanásia.

A equipe multiprofissional de Marco Tullio também prevê o atendimento domiciliar. "Faço o possível para que meus pacientes morram em casa, próximos dos familiares. Procuramos, assim, resgatar as noções de humanidade e dignidade na morte que a medicina contemporânea perdeu", afirma ele. Outras unidades de cuidados paliativos estão sendo criadas em diversas regiões do Brasil, mas ainda existe resistência, mesmo entre os médicos, em falar de morte.

Num esforço para reaproximar o tema do cotidiano de crianças, adolescentes, adultos e idosos, a equipe do Laboratório de Estudos sobre a Morte, da USP, preparou uma trilogia de vídeos chamada Falando de Morte. Cada episódio é dedicado a uma fase da vida. E a morte é vista como uma das etapas da existência. O objetivo é estimular discussões sobre o assunto na escola, na família, nos hospitais. "Falar da morte é transformá-la em aliada, conselheira, em uma presença natural", afirma Ingrid Esslinger, integrante da equipe. "Lidar com ela de modo saudável significa ter mais realizações, finalizar mais tarefas e pedir mais perdões ao longo da vida. Só assim se vive de modo mais pleno e se pode morrer mais serenamente, rompendo com o hábito de deixar certas decisões para amanhã, depois de amanhã e assim por diante."

Na filosofia oriental, existem práticas específicas de preparação para a morte. A principal delas é a meditação, que tem o objetivo de domar a mente, a ansiedade e as emoções negativas sempre – mas especialmente no momento em que a pessoa se aproxima da morte. A maior tranqüilidade dos orientais em relação à finitude se expressa também no maior respeito em relação aos velhos. As pessoas que se encaminham para o final da vida são respeitadas, incensadas. E, não raro, têm suas existências festejadas. Não são tornadas invisíveis e indesejáveis, como ocorre com freqüência no mundo ocidental.

Uma das imagens utilizadas na meditação para caracterizar os instantes finais da existência é a de uma bela atriz sentada em frente ao espelho. O último espetáculo está prestes a começar. Ela retoca a maquiagem e repassa a sua fala antes de pisar no palco pela última vez. Está preparada para a apresentação derradeira. Esse é o objetivo da meditação: adquirir a capacidade de manter a mente tranqüila e o espírito sereno no momento da morte, independente de quando e de como ela aconteça.

Reconcilie-se com a morte. Não por morbidez, não para se esquecer de viver, não porque seja bom deixar de existir. Mas simplesmente porque ela vai acontecer e não somente com você – mas com todos os que andaram, andam ou venham a andar sobre a Terra. A você e a mim, portanto, resta apenas aprender a conviver com ela. Encará-la de frente, compreendê-la, admiti-la. Em vez de escamoteá-la, negá-la, escondê-la. E, quem sabe, assim, sofrer menos com a visita que ela nos fará um dia e com os eventuais sinais da sua presença que ela já tenha plantado ao nosso redor. Desejo uma excelente vida para você, leitor. E uma boa morte.

NA LIVRARIA
A Arte de Morrer, Marie de Hennezel e Jean-Yves Leloup. Editora Vozes, Petrópolis, 1999
A Solidão dos Moribundos, Nobert Elias. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001
Da Morte, Roosevelt Cassorla (org.). Papirus Editora, Campinas, 2001
Distanásia – Até Quando Prolongar a Vida?, Leo Pessini. Edições Loyola/Editora do Centro Universitário São Camilo, São Paulo, 2001
Memento Mori, Muriel Spark. Companhia das Letras, São Paulo, 2001
Morrer Não Se Improvisa, Bel Cesar. Editora Gaia, São Paulo, 2001
Morte e Desenvolvimento Humano, Maria Júlia Kovácz. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1992
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche. Editora Talento, São Paulo, 1999
Reflexões sobre a Vida e a Morte, Vera Lúcia Rezende (org.). Editora da Unicamp, Campinas, 2000





Autor: Maria Fernanda Vomero
Fonte: Revista - Super Interessante

A vida não acontece para pessoas mornas - (Osho)


Por que tantas pessoas parecem tão obtusas, tão entediadas, simplesmente levando a vida de qualquer jeito? Desperdiçando um tempo imensamente valioso que nunca serão capazes de recuperar - e desperdiçando com tal tédio, como se estivessem esperando a morte.

O que aconteceu com essas tantas pessoas? Por que elas não têm o mesmo frescor que as árvores? Por que o ser humano não tem a mesma canção que os pássaros? O que aconteceu com os seres humanos?

Aconteceu uma coisa: o ser humano imita os outros, tenta ser como outra pessoa. Ninguém está em casa; todos estão batendo à porta de uma outra pessoa; daí o descontentamento, o tédio, o embotamento, a angústia.

Uma pessoa inteligente tentará ser apenas ela mesma, seja qual for o custo. Ela nunca copiará, nunca imitará, nunca será como um papagaio; ela escutará sua própria chamada intrínseca, sentirá seu próprio ser e caminhará de acordo com ele, seja qual for o risco.

Há risco! Quando você copia os outros, há menos riscos. Quando você não copia ninguém, você está sozinho - há risco! Mas a vida acontece somente para aqueles que vivem perigosamente, para a queles que são aventureiros, corajosos, atrevidos - a vida acontece somente a eles. A vida não acontece para pessoas mornas.



Fonte: Osho, em "Inteligência - A Resposta Criativa ao Agora"

terça-feira, 29 de junho de 2010

Marble Halls - (Enya)


Enya Marble Halls from Enya 's Shepherd Moons Album.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O retiro e a verdade - (Monja Coen)


"Acordávamos antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nos sentávamos em meditação. No silêncio de nossas bocas, ouvíamos o primeiro piar anunciando a manhã. Assim passávamos os dias. De meditação em meditação, silêncio e orações. Plena atenção aos gestos, passos, olhos baixos. Havia dor. A dor do corpo não acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.

Havia a dúvida. Havia o medo de perder a razão. Como se perde a razão? Primeiro, seria de bom senso encontrá-la. O que é a razão? Eu tenho razão? Ele tem razão? Estaria ela com a razão? Que arrazoado é esse?

Em um vitral da sala em que meditávamos, estava escrito: "Não há religião superior à verdade". Era o que nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre nós mesmos. Será que nos enganamos, nos iludimos e logo nos desiludimos? Será que esquecemos a verdade em um baú trancado em um sótão antigo, cujas escadas rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela deveria ser clara e luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva, o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais procuramos? Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século 13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles dizia que o universo é uma jóia arredondada e que não há nada fora dele.

É impossível jogar qualquer coisa fora, pois o fora não existe. Tudo está incluído e se transformando a cada instante.

Esperando o momento de me levantar, com as pernas doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de meu propósito e de minha busca. Parece tão simples e é tão difícil. Poucos conseguem, bem poucos se interessam. Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de entretenimento. Pode ser televisão, filme, música, teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser amores e desamores, afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.

Outro dia, alguém me disse que ciúme e inveja são diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento é egoísta, mas ama e protege. O invejoso quer destruir, não quer que exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa para apagar o invejado da cena. Perigoso.

Perceba suas emoções, seus pensamentos, sensações. Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas gostam muito. Responsabilidade. Escolha.

À noite, antes de ir dormir, antes do último e delicioso toque do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta e dramática foi declamado: "Vida e morte são de suprema importância. O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar para acordar, para despertar. Não desperdice a sua vida".

Saíamos da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo, outros, nada. Mas a verdade incessante não deixava de ser proclamada. Está sempre em toda a parte e, no entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos. "Somos a vida do Universo em constante transformação", outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.

Quem sou eu? Quem é você? Sou o nada, sou o tudo, sou o todo. Sou a Terra e o Universo em expansão. Sou a borboleta e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão da mente. Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana, sentindo a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as luzes e as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O retiro acabou e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo que pôde apanhar ou o que soube largar. (Homenagem à Semana da Iluminação de Buda)"




Fonte: Revista da Hora, 14 de dezembro de 2003

A relação entre mestre e discípulo - (Osho)


“Querido Osho,

Sinto um amor carinhoso quando estou na sua presença, mas percebo que quando não estou próximo a você, não é do mesmo jeito. É verdade que espaço e tempo não fazem qualquer diferença na grande relação entre mestre e discípulo?

Deva Suria, é sempre verdade que espaço e tempo não fazem qualquer diferença na grande relação amorosa entre discípulo e mestre. Não que em algumas vezes seja verdade e em outras, não. Essa questão é eterna. Mas, na experiência real, particularmente no começo, o amor do discípulo ainda não é tão puro; ainda existem expectativas. Não é um amor sem desejos; ele está poluído por muitas coisas.

Por causa dessa poluição de desejos e expectativas, tem-se a impressão que espaço e tempo fazem alguma diferença. Eles não fazem diferença no que se refere ao amor, mas o seu amor não é apenas amor; ele tem muitas outras coisas envolvidas. Mesmo a expectativa da iluminação é suficiente para destruir a sua pureza.

O princípio se aplica ao amor puro, ao amor que é simplesmente feliz sem que haja qualquer motivo, ao amor que já juntou a dança do mestre ao coração. Então, o mestre não está mais fora, você o carrega dentro de si, onde quer que esteja. É por isto que espaço e tempo não fazem qualquer diferença. Mas se o mestre ainda estiver do lado de fora, como um objeto de amor, então o espaço fará diferença, o tempo fará diferença. A diferença vem através das impurezas e elas são quase inevitáveis no começo, porque você não consegue pensar que o desejo pela iluminação seja uma impureza.

De fato, para você, a grande relação amorosa entre o mestre e o discípulo está acontecendo somente por causa de seu anseio pela iluminação. Naturalmente, quando você está próximo, você sente mais confiança. Quanto mais próximo estiver, mais você sentirá a presença do mestre. Quanto mais longe você for, mais a sua confiança começará a estremecer porque o mestre ainda é apenas um meio para se chegar a um certo fim.

Quando Gautama Buda morreu, havia dez mil discípulos que sempre o seguiam em suas longas jornadas. Naquela grande multidão de discípulos, havia pessoas como Sariputta, Maudgalyan, Mahakashyapa, Manjushri, Vimal Kirti e muitos outros que já tinham se tornado iluminados, que já haviam cruzado a barreira entre o mestre e o discípulo, que já haviam entrado no mundo da devoção.

Quando Gautama Buda morreu foi um grande choque para todo mundo, mesmo para o seu discípulo mais próximo, Ananda, que desatou a chorar. Ele era mais velho que Gautama Buda. Buda tinha oitenta e dois anos e Ananda, cerca de oitenta e cinco ou mais. Ele desatou a chorar como uma criança que perdeu a mãe. Mas Manjushri, Vimal Kirti e Sariputta permaneceram completamente silenciosos, como se nada estivesse acontecendo, ou se o que estivesse acontecendo não lhes dissesse respeito.

Muitos discípulos ficaram chocados com a frieza de Sariputta e dos outros; eles não conseguiam entender. Eles podiam entender o Ananda desatando a chorar. Na verdade, eles pensavam que Ananda era o mais íntimo. Enquanto Sariputta, Maudgalyan e Mahakashyapa permaneciam sentados em silêncio.As pessoas lhes perguntavam, ‘Por que vocês estão em silêncio, enquando Ananda está chorando?’

Sariputta respondeu, ‘Porque para mim, meu mestre nunca pode morrer. A morte não consegue nos separar. Ele apenas deixou o seu corpo, mas ele continua aqui; meu coração ainda está sentindo a sua presença, na verdade, sentindo mais do que nunca.’

E as respostas dos outros discípulos iluminados foram as mesmas, sem uma simples lágrima em seus olhos. Eles não eram duros nem frios. Eles simplesmente já tinham cruzado a barreira entre mestre e discípulo. Ou você pode dizer que eles entraram na consciência do mestre, ou eles permitiram que a consciência do mestre entrasse neles, o que quer dizer a mesma coisa: os dois desapareceram e agora existe apenas um.

O entendimento das pessoas estava absolutamente errado que Ananda devia ter amado mais o mestre, porque ele havia desatado a chorar. Perguntado, ele disse, ‘Eu estou chorando porque enquanto ele estava vivo, por quarenta e dois anos eu fui o seu discípulo mais íntimo, intimidade no sentido de que eu estava sempre com ele. Nestes quarenta e dois anos, nem por um simples dia eu me separei dele, mesmo à noite eu costumava dormir em seu quarto, só para estar presente, no caso dele precisar de algo. Eu não estou chorando porque eu era o mais íntimo; eu choro porque mesmo com essa prolongada intimidade, eu permaneci separado dele. Alguma coisa permanecia como uma barreira.’

Gautama Buda não estava morto ainda. Ele apenas tinha fechado os olhos e estava relaxando no eterno.Ele voltou, abriu os olhos e disse ao Ananda, ‘Não se preocupe. Era a minha presença e o seu amor para comigo que era a barreira, porque o seu amor tinha uma motivação. Você queria tornar-se iluminado antes de todos, e você sempre tinha uma inveja escondida quando os outros alcançavam o seu potencial, chegando à própria fonte. No fundo você se sentia machucado, porque você estava muito próximo, mas eram os outros que estavam se tornando iluminados antes de você. Você não conseguia alegrar-se com a iluminação deles. Você poderia ter se alegrado, poderia ter celebrado, mas o foco de sua mente era a sua própria iluminação, era muito você. E a sua inconsciência continuou desde o primeiro dia, preso à idéia de que você é meu primo-irmão, meu irmão mais velho. Ainda que desde o primeiro dia você não tenha mais mencionado isso, a memória piscológica estava ali. Conscientemente, deliberadamente você tornou-se um discípulo, mas inconscientemente você sempre sabia que era o meu irmão mais velho; você não conseguiu dissolver-se em mim. Mas não chore, vinte e quatro horas após o momento em que eu morrer, você se tornará iluminado. Sem a minha morte, você não consegue tornar-se iluminado.’

Ananda ainda não conseguia consolar-se. Ele disse, ‘Depois de vinte quatro horas você não estará aqui. Para quem eu irei perguntar se eu me tornei iluminado ou não? E, na eternidade do tempo, eu não sei quando eu encontrarei um homem como você, com uma consciência tão grande e vasta.’
Buda lhe disse, ‘Não se preocupe, isso vai acontecer. Eu estava observando continuamente. Eu mesmo estava intrigado porque não estava acontecendo com você. Você queria tanto.’

E esse é o problema: deseje demais a iluminação e você a perderá, retenha em algum lugar do seu inconsciente o desejo de alcançá-la e você não alcançará.

Relaxando, esquecendo tudo sobre iluminação, esquecendo tudo sobre o futuro, vivendo no presente, o seu amor atingirá uma pureza clara e cristalina, não poluída por qualquer desejo, nem mesmo o desejo maior pela iluminação.
Então você não sentirá a distinção entre o mestre e você mesmo, e carregará o mestre dentro do seu coração. Então, onde quer que você esteja, o mestre estará com você. A dualidade será deixada de lado; as duas chamas se tornarão uma. Não é a sua chama e não é a chama do mestre. Quando aquelas duas chamas se tornam uma, elas se tornam universal. Na separação, você é um discípulo e existe um mestre. Tornando-se um, o discípulo desaparece e o mestre desaparece; o que permanece é apenas a pura consciência.

A transformação do amor em pura consciência é a alquimia a ser aprendida quando se está próximo de um mestre. Estando próximo de um mestre, você pode desfrutar de seu carinho, da sua presença, das suas palavras, da batida de seu coração. Mas quando você se afasta, você não é capaz de ouvir a mesma batida do coração, você volta de novo à estaca zero. Você ouvirá a batida do coração, mas será do seu próprio coração. Próximo ao mestre você está sob a sua influência.

O segredo do aprendizado é a purificação de seu amor.
Abandone todas as ambições.
Nada há para ser alcançado.

Tudo que você deseja já está presente em você. O mestre não vai lhe dar algo que você ainda não tenha. Na verdade, o mestre continua tirando coisas que você pensa que tem, mas que não tem. E o mestre não pode, naturalmente, dar-lhe aquilo que você já tem. Ele só consegue retirar todas as barreiras, todos os estorvos, todos os obstáculos, de modo que só permaneça aquilo que lhe é próprio. Em tal espaço não poluído, a distinção entre o mestre e o discípulo deixa de existir. Isto não significa que você não se sinta agradecido ao mestre. Na verdade, somente depois que isto tenha acontecido, você sentirá pela primeira vez, uma tremenda gratidão.

Sariputta estava muito relutante em partir para espalhar a mensagem. Buda pediu-lhe para ir ao seu próprio reino. Ele era um príncipe, antes de se tornar um discípulo. Buda disse, ‘Agora é sua responsabilidade e sua compaixão ir até o seu povo: ao seu pai, sua mãe, a todo seu reino. Deixe que eles fiquem cientes do que você alcançou. Compartilhe, eles também têm o potencial.’

Ele estava muito relutante para partir. Buda disse, ‘Qual é a relutância? Agora eu estou dentro de você. Eu estou enviando-o para longe, sabendo perfeitamente bem que você não sentirá qualquer distância.’

Sariputta disse, ‘A distância não é o problema. Eu posso ir até a estrela mais distante e você ainda estará dentro do meu coração. O problema é que, estando aqui, eu toco os seus pés todos os dias. Você poderá estar em meu coração, mas como eu vou tocar os seus pés?’

Gautama Buda disse, ‘Você é um ser iluminado. Você não tem que tocar os meus pés.’

Sariputta disse, ‘Antes da iluminação, isto era um ritual. Eu tocava os seus pés apenas porque todo discípulo estava tocando. Mas agora não é mais um ritual. Agora é autêntica gratidão, porque sem você, eu não teria alcançado a mim mesmo. Embora isto estivesse sempre dentro de mim, eu não acho que sozinho seria capaz dessa descoberta, pelo menos, não nesta vida. A sua compaixão, o seu amor, as bênçãos que continuamente você derramou sobre mim, pouco a pouco, removeram tudo aquilo que não era eu mesmo. Agora, quando eu toco os seus pés, não é um ritual, é um alimento do coração. Eu me sinto nutrido. No dia em que eu deixo de tocar-lhe os pés, sinto um vazio. E sei que você está dentro de mim.’

Buda disse, ‘Todos vocês que se tornaram iluminados terão que aprender a estar longe de mim, e ao mesmo tempo não estarem longe de mim. É verdade que vocês não conseguirão tocar os meus pés, mas, de onde vocês estiverem, simplesmente se voltem para o lado onde vocês acham que eu estou e curvem-se até a terra. O meu corpo pertence à terra. Se vocês tocarem a terra com a mesma gratidão, estarão tocando a mim.’

Sariputta partiu. E as pessoas de seu reino não conseguiam acreditar; ele havia alcançado uma grande glória, uma grande magnificência, uma grande beleza. Tudo isto era milagroso, mas a curiosidade deles era porque todos os dias, pela manhã e ao anoitecer ele se voltava para a direção onde, longe, Buda estava morando, e tocava a terra com tremenda gratidão.

Eles diziam, ‘Você é um ser iluminado, não tem que tocar a terra.’

Ele dizia, 'Eu não estou tocando a terra. Aprendi um novo segredo, que o corpo nada mais é do que terra, e que ela contém não apenas os pés do meu Buda, meu mestre, mas todos os budas do passado, do presente e do futuro. Tocando-a, eu toco todos aqueles que tornaram-se despertos e fizeram com que o caminho ficasse claro para mim, mostraram-me o caminho.’

Mesmo depois que Buda morreu, ele continuou curvando-se, voltado para a mesma direção onde estava o corpo de Buda em seus últimos momentos. Ele nunca sentiu qualquer separação. E isto não foi apenas com ele, mas com todos os vinte e quatro discípulos que haviam se iluminado.

Ananda iluminou-se, conforme Buda predisse, vinte quatro horas após ele deixar o corpo. Na verdade, ele nem se moveu do lugar. Quando Buda morreu, ele fechou os olhos e permaneceu sem comer, sem beber, sem dormir. Aquelas vinte e quatro horas foram o tempo mais importante de sua vida, um tempo de transformação de um ser ignorante em uma alma desperta. Ele somente abriu os olhos quando as lágrimas haviam desaparecido e um sorriso havia brotado em seu rosto.

Manjushri estava próximo e disse, ‘O que aconteceu? Você esteve chorando, esteve sentado como se estivesse morto, e, de repente, você está rindo’.

Ananda disse, ‘Eu estou rindo porque a sua predição provou estar certa. O obstáculo era a impureza de meu amor. E agora que ele se foi, não há mais razão para sentir-me como seu irmão mais velho, para sentir qualquer apego. Em sua pira funerária, na medida em que o seu corpo desaparecia na fumaça, todos os meus apegos também desapareciam.’

Não será necessário, Suria, que eu tenha que estar numa pira funerária para você se tornar iluminada. Pode ser assim, se você precisar. Um dia eu estarei lá, mas será muito mais bonito se no dia em que eu estiver numa pira funerária, você estiver sem lágrimas. Quando eu desaparecer do corpo, você saberá que eu tornei-me mais profundamente envolvido dentro de você e dentro de toda a existência.”

Entre o céu e o inferno - Como tratar os animais? - (Rodrigo Vergara)


O homem convive com os animais desde quando ainda tinha a sensação de que era um deles. Ao longo dos anos, já os adoramos como deuses e já os maltratamos como se fossem coisas. Hoje, enquanto várias pessoas pregam que devemos nos isolar dos bichos, outras acreditam que deveríamos tratá-los como membros da família. Afinal, como conviver com eles?

O cachorro é todo marrom, da cauda às longas orelhas, a não ser por uma mancha sobre o olho esquerdo. Se fosse um bicho de estimação, podia ser batizado de Pirata ou Camões, por causa do tapa-olho. Mas esse cachorro não tem nome. Nascido há semanas, ele foi logo separado da mãe e passa a vida em uma jaula pouco maior que seu corpo. Sem ter o que fazer, ele come e dorme. Rapidamente engorda. Um dia, ele é enfiado em uma gaiola com outros cães e levado a um galpão. O cheiro de sangue e fezes é forte. Ouvem-se ganidos. Uma pessoa se aproxima e lhe aplica um choque violento. Em instantes, o cão sem nome morre. Seu corpo é jogado sobre uma grelha e seu pêlo, tostado. Em alguns minutos ele é cortado em pedaços para virar churrasco.

A cena descrita acima é real e acontece diariamente na Coréia, onde carne de cachorro é muito apreciada. Fora dali, porém, o abate de cães é considerado uma afronta, uma ofensa aos padrões civilizados. Não deixa de ser curioso, já que porcos, vacas e galinhas têm destinos bem parecidos com o do anônimo cão coreano, mas bem pouca gente ergue a voz para protegê-los.
O fato de aceitarmos que alguns animais sejam torturados enquanto enchemos outros de cuidados reflete a confusão que fizemos com os seres de outras espécies. Por um lado, nunca houve tanta preocupação com a vida dos bichos. Por outro, nunca tantos sofreram e morreram por nossa culpa. Em um ano, a indústria de artigos para animais de estimação fatura 30 bilhões de dólares nos Estados Unidos vendendo conforto para bichos domésticos. No mesmo prazo, oito bilhões de frangos são atormentados e mortos por lá. E na mesma Alemanha em que, no ano passado, os animais ganharam um direito constitucional – a lei agora obriga o Estado a respeitar e proteger a dignidade dos homens "e dos animais" – , a carne de porco ainda é a base protéica da população e os suínos vivem confinados a maior parte da vida.

Não é fácil entender como chegamos a essa confusão cultural. Conhecer o passado ajuda a esclarecer as coisas.

Uma relação antiga
O homem come carne de outras espécies há quase 2,5 milhões de anos e já faz mais de 6 mil anos que os criamos, com o único propósito de digeri-los ou vestir sua pele. Curiosamente, muitos deuses dos povos primitivos eram animais. Então o homem primitivo matava seus deuses? Isso mesmo. "O caráter sagrado do animal pode ser visto como um pedido de desculpas, uma solicitação de autorização ou uma compensação, uma homenagem pela sua morte", diz Antonio Fernandes Nascimento Júnior, antropólogo e etólogo (que estuda o comportamento animal) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru. Em outras palavras, os caçadores podiam matar o bicho, desde que depois rezassem para ele ou por ele. Pecado era faltar com o respeito. "Tratá-los sem o devido respeito poderia causar vinganças dos deuses." Alguns povos exigiam que o animal a ser degolado concordasse com sua morte, o que se conseguia com alguma trapaça, para a qual todo mundo fazia vista grossa.
Na Grécia, os sacerdotes derramavam água benta sobre a cabeça do animal. Os gregos espertamente entendiam o chacoalhão de cabeça que ele dava para se secar como um "sim".

Hoje em dia, ninguém reza ao deus-chester no almoço de domingo, graças às religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), que retiraram os poderes mágicos do mundo real e os concentraram em Deus. E é Dele, o Todo-poderoso, que vem a autorização para desfrutarmos dos outros seres. Está na Bíblia: o Jardim do Éden é um paraíso preparado para o homem no qual temos o domínio sobre todas as coisas vivas. A natureza passou a ser como uma massa virgem, pronta para ser moldada e dominada. "Há poucos séculos, a idéia de resistir à agricultura, ao invés de estimulá-la, pareceria ininteligível", escreve o historiador Keith Thomas em O Homem e o Mundo Natural. "A agricultura estava para a terra como o cozimento estava para a carne crua. Terra não cultivada significava homens incultos", diz ele.

Sem seus poderes, a natureza ficou à mercê do ser humano, que se aperfeiçoou em explorá-la. O respeito do passado deu lugar a uma visão utilitária, ou seja, tudo o que servia ao ser humano estava liberado. Matar bichos por prazer já não chocava ninguém, mesmo porque todo mundo praticava alguma tortura de animais. Keith Thomas dá muitos exemplos dessas crueldades. Um deles: donas-de-casa do século 17 cortavam as pernas de aves vivas, acreditando que isso deixava a carne mais tenra. Açular um touro significa atiçar cães contra ele. Há cerca de 350 anos, acreditava-se que o açulamento melhorava o sabor da carne do touro e a maioria das cidades inglesas tinha uma lei que não só permitia o açulamento antes do abate, como o tornava obrigatório.

A visão que se tinha da natureza era antropocêntrica. Os animais eram classificados em comestíveis e não-comestíveis, ferozes e mansos, úteis e não-úteis. O reino vegetal era loteado de forma parecida. Só em 1500 surgiram os primeiros naturalistas, que passaram a classificar os seres por suas caraterísticas e não pela relação que tinham conosco.



Somos iguais, diz a ciência
Não é segredo que a ciência desbancou a religião no papel de intérprete do mundo natural. E a ciência diz que a Terra não é um jardim dado de presente por Deus à humanidade, cheio de bichinhos para desfrutarmos como quisermos. Na versão científica, a vida evoluiu por tentativa e erro, gerando desde bactérias até os mamíferos e o homem. Aos poucos, foram caindo as barreiras que nos diferenciavam das bestas. Percebeu-se que nossos corpos e os dos animais eram muito parecidos, que eles também tinham linguagem, embora mais rudimentar, e que podiam raciocinar. Aristóteles dizia que o homem era o único animal político, mas os primatologistas hoje sabem que os chimpanzés têm uma vida social de digna de uma novela, com favores, amizades e falsidades. Já para Benjamin Franklin, o homem era o único animal que fabrica utensílios, mas primatas não só fazem suas ferramentas como ensinam os colegas a fabricá-las, gerando uma "cultura animal".

Esse conhecimento científico abriu caminho para a idéia de igualdade entre todas as formas de vida. Em algumas décadas, o oceano que nos separava dos animais virou um córrego. Muitos não gostaram dessa proximidade e procuraram formas de se diferenciar dos bichos. Uma delas foi apelar para uma das poucas diferenças que até hoje se sustenta: a religião. O homem é o único ser com uma alma imortal, ou, em outras palavras, é o único com moral, capaz de discernir o que é certo e o que é errado. "A religião e a moral são tentativas de restringir os aspectos animais da natureza humana, o que Platão chamava de ‘o animal selvagem dentro de nós’", diz Keith Thomas. Não por acaso, o diabo é representado por um bicho. No século 17, isso era uma novidade. Até então, as pessoas pensavam que os animais também sabiam o que era certo ou errado. Bichos que desrespeitassem a lei eram levados a julgamento. O Antigo Testamento previa a pena de morte para animais que matassem pessoas.

Segundo Keith Thomas, houve um caso em que marujos atacados por tubarões vingaram-se dos peixes capturando um cardume e torturando-os.

Outro jeito de se diferenciar dos bichos era pelo comportamento. Foi assim que surgiram os primeiros manuais de etiqueta: para que as pessoas não agissem como animais que eram. Ficar nu, ter cabelos compridos, trabalhar à noite e até nadar eram atitudes condenáveis. Passaram a ser suspeitas também as pessoas que viviam muito próximo dos animais, o que significava quase toda a população da época. Até o final do século 18, mesmo nas cidades apinhadas a família dividia o teto com patos, porcos e cabras. O estábulo era separado do quarto de dormir por uma parede. Não demorou muito e os animais foram expulsos de casa. Como não podiam viver pelas ruas, foram expulsos também das cidades.

A partir de então, tirando os animais de estimação, os bichos só entravam na casa mortos, para serem comidos. Alguns, nem assim. Afinal, são poucos os animais aceitos à mesa, graças a alimentares baseados em costumes antigos, sem critérios científicos. Um desses critérios era a dieta do animal. Não se comiam carnívoros e devoradores de carniça ou excrementos, nem animais de trabalho. Não por acaso, o rosbife inglês popularizou-se ao mesmo tempo que o boi perdeu sua função como animal de tração. Outros critérios eram a semelhança com o homem (que tirou os macacos do cardápio) e o ambiente do bicho: na Inglaterra, rãs, lesmas, cogumelos e ostras eram considerados nojentos. Mas, como diz a mãe para a criança que faz cara feia à mesa: "Tudo é costume". Os franceses comiam pernas de rã revirando os olhos de alegria.

Nessa época, foi tomando corpo uma teoria que acabou servindo de justificativa moral para as pessoas que queriam continuar comendo carne: o mecanicismo. "Para os mecanicistas, os animais e o corpo humano eram apenas máquinas. Mas nós temos mente e, portanto, uma alma separada", diz o filósofo Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O filósofo francês René Descartes (1595-1650), um dos mais conhecidos mecanicistas, dizia que os sentimentos, como a dor e o sofrimento, moravam na alma. Como animais não têm alma, também não sentem dor. "A explicação cartesiana era uma ótima justificativa para o tratamento que era dado aos animais, porque eliminava a culpa pelas crueldades", afirma Thomas.
A tese de que os animais eram insensíveis perdeu popularidade, mas a atitude que ela incentivou sobrevive até hoje entre gente que lida com animais: vaqueiros que maltratam o gado, cientistas que matam animais à toa. Para a maioria das pessoas, porém, cujo único contato com animais era com seu cachorro ou com seu cavalo (algumas das poucas espécies que ainda eram aceitas nas cidades), a história de que só homem sente dor não colou. Pelo contrário. A multiplicação dos bichos de estimação fez aumentar o sentimentalismo em relação aos animais. As pessoas enxergavam neles cada vez mais traços humanos. Além de dor, eles passaram a ter ataques nervosos, vícios e carências. Aos poucos, o tempo foi apagando as lembranças ruins do trabalho rural e só restou uma nostalgia campestre. De repente, a floresta, antes chamada de "terrível", passou a ser bela.

Até o século 16, matar animais selvagens considerados perigosos ou daninhos rendia recompensa. Menos de 300 anos depois, já havia gente querendo proteger o urso, que estava desaparecendo da Europa.
Para algumas pessoas da cidade, passou a ser intolerável o uso de animais. Qualquer uso, mesmo para comer. Foi o primeiro surto de vegetarianismo no Ocidente. Logo alguém achou na Bíblia uma justificativa para se viver de alface: o homem não era originalmente carnívoro, diziam, só depois do Dilúvio é que fomos comer carne. É claro que havia gente menos sensível, que não se incomodava em comer uma boa bisteca. Mas mesmo esses tiveram que mudar sua atitude à mesa, para não ofender a sensibilidade alheia. Nada de servir leitões, lebres ou vacas acompanhados de suas cabeças, como era comum até o século 18. Entre o descaso de uns e o zelo excessivo de outros, foram surgindo leis para regular o trato dos animais. Em linhas gerais, até hoje elas permitem o uso de algumas espécies e a eliminação das ameçadoras. Mas causar sofrimento por prazer é proibido.



Temos direito de úsa-las, TEMOS DIREITO DE ÚSÁ-LOS?
Como todas as outras espécies, a humanidade tem o direito de fazer o que achar necessário para sobreviver e se multiplicar. Qualquer coisa, desde dizimar os búfalos norte-americanos até virar vegetariano. Os únicos limites a isso são aqueles impostos por nós mesmos, que começam como regras morais e acabam virando leis. Portanto, se alguém conseguiu convencer o resto da humanidade (ou a parte mais influente dela) de que não é legal maltratar animais, nada mais justo que se proíba os maus tratos. Agora, entidades como a Peta (People For the Ethical Treatment of Animals, ou Pessoas pelo Tratamento Ético de Animais, em português) querem nos persuadir a deixar de usar os animais para tudo. E, para nos convencer dessa idéia, estão jogando pesado (como comparar matadouros com campos de extermínio nazistas).

A proposta de abandonarmos de vez os animais não é nova. Ela já está por aí, tentando conquistar adeptos, desde 1975, quando foi publicado Animal Liberation ("Libertação dos Animais", inédito no Brasil), escrito pelo filósofo australiano Peter Singer. Na época, o livro foi saudado como uma sequência lógica dos fatos recentes. A escravidão dos negros foi banida no século 19, mas sua igualdade só foi reconhecida na metade do século 20 (muita gente dirá que ainda não foi). A fumaça dos sutiãs queimados, marca do movimento feminista, ainda estava no ar. E os homossexuais começavam a ser admitidos como iguais. Parecia que, na infinita fila dos oprimidos, era chegada a vez dos animais.

E Singer mostrou-se um bom advogado dos não-humanos, com boas respostas para tudo. Sua teoria se baseia na idéia da igualdade entre os homens. Certo, somos todos iguais perante a lei. Mas igualdade, diz ele, não quer dizer que somos idênticos. Algumas pessoas são mais inteligentes que outras. Para o conceito de igualdade, isso não importa. Se o físico alemão Albert Einstein precisasse de um transplante de rim, não poderia obrigar ninguém, nem o pior aluno da escola local, a doar seu órgão a ele. Por que? Porque o interesse dos dois tem o mesmo valor. Para Singer, não há razão para que isso não valha também para os animais. "Se a posse de um grau mais alto de inteligência não autoriza um ser humano a usar outros seres humanos para seus próprios objetivos, como poderá autorizar os humanos a explorar, com o mesmo propósito, os não-humanos?"

Mas isso não significa conferir aos animais os direitos ou o tratamento dados a uma pessoa. Conceder direito de voto aos cavalos não faria sentido nenhum. Só os interesses iguais podem ser comparados. E onde é que nossos interesses se igualam aos de um boi? Na aversão ao sofrimento, diz Singer. Animais, assim como humanos, sentem dor e não gostam dela. Ou seja, devemos evitar causar dor a eles com o mesmo cuidado que evitamos causar dor a uma pessoa. E isso vale para vários tipos de sofrimento, inclusive psicológico: medo, ansiedade, frustração e estresse. É nossa obrigação evitar causar esses sentimentos a eles, com tudo o que isso significa: parar de comer carne, abandonar experimentos científicos com cobaias e banir os animais de estimação, para ficar nos três exemplos mais dramáticos.

Não é uma mudança das mais fáceis, mas, mesmo assim, é difícil escapar do raciocínio de Singer. Afinal, por que temos consideração pelo sofrimento de outro ser humano e não pelo dos não-humano? Se você pensou em responder "porque somos humanos", cuidado. Reservar privilégios ao grupo a que você pertence é preconceito, diz Singer, como racismo e sexismo. Discriminar animais só porque são animais é chamado de especicismo, uma atitude moralmente indefensável, diz ele.

Mas humanos têm uma noção de futuro que os animais não alcançam. A morte de uma pessoa, portanto, tem mais significado que a de um animal, porque com ela morre um plano para os dias que virão. "Uma pessoa com uma deficiência mental grave e órfã não tem essa noção de futuro", diz Peter Singer. "Um chimpanzé ou um porco tem um grau mais alto de autoconsciência e uma maior capacidade de relacionar-se do que uma criança com uma doença mental séria." Os animais, portanto, merecem um direito à vida tão consistente quanto o assegurado aos doentes mentais. É claro que ele não está sugerindo que ocupemos o manicômio e cortemos os internos em bifes. Sua intenção não é degradar doentes mentais, senis ou crianças, mas justamente o contrário: elevar o status dos animais.

Então, professor Peter Singer, como deveríamos tratar os animais? "No que diz respeito aos animais selvagens, deveríamos abandonar o contato com eles. Quanto aos outros, deveríamos parar de reproduzi-los, exceto por um pequeno número deles, que poderíamos manter em reservas para que não fossem extintos", disse ele em entrevista à Super.

É bom que se diga que Singer é um filósofo utilitarista, ou seja, para dizer se uma atitude é certa ou errada, ele estima seus efeitos e decide baseado na comparação entre o prazer e o sofrimento que ela causaria a todos os afetados. O detalhe é que ele põe no cálculo também os sentimentos dos bichos (vertebrados somente, porque, até onde sabemos, são os únicos que sentem dor). Mas há ressalvas. Se nosso interesse entrar em conflito com o dos animais, temos prevalência, porque nossa capacidade de planejar o futuro eleva nossa existência. Também está liberada a autodefesa contra ameaças animais. Ou seja, se você acabar em uma ilha deserta com uma vaca, fique à vontade para devorá-la. E, se sua casa for infestada por ratos, tudo bem eliminá-los.

No mundo de hoje, se calcularmos o sofrimento usando a fórmula de Singer, vamos descobrir uma dívida moral imensa. A fazenda está longe de ser um lugar bucólico cheia de bichos felizes (leia quadro na página xx). Ponha-se no lugar de um frango que vive amontoado sob luz artificial quase ininterrupta, equilibrando-se no arame do fundo da gaiola e que tem seu bico cortado com uma lâmina quente, para evitar que ele selecione a comida que lhe é dada (e para que, de nervoso, não ataque e mate os outros frangos), até que, um dia, uma descarga elétrica o ponha para dormir enquanto uma lâmina corta seu pescoço. Sua vida está mais próxima de um pesadelo sem fim do que de um sonho idílico. Multiplique essa tortura por 14,85 bilhões de aves que vivem nas condições acima e você verá o tamanho da nossa culpa.

Onde foi parar aquele respeito ancestral, que exigia desculpas por cada animal abatido? Segundo o jornalista americano Michael Pollan, em seu artigo na revista do jornal The New York Times, a consideração foi soterrada pelo dinheiro. "Sempre houve uma tensão entre a pressão capitalista para maximizar os lucros e as regras religiosas da comunidade, que serviam como um contrapeso para a cegueira moral do mercado", diz ele. "As criações industriais são um exemplo do que pode ocorrer na ausência de constrangimento moral." Mateus Paranhos da Costa, etólogo da Unesp em Jaboticabal, especialista em bem-estar animal, diz que o problema é medir nosso convívio com os bichos pela relação custo-benefício.

E aí, você se convenceu de que devemos abandonar o uso de animais? Antes de responder, talvez seja melhor saber se isso é possível.



Podemos viver sem eles?
Não. Primeiro, por questões alimentares. É verdade que o consumo de carne, que ao longo da evolução humana desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de nosso cérebro potente, já não é mais fundamental. Apesar de sermos onívoros por natureza (digerimos carne e vegetgais), conhecemos hoje fontes protéicas capazes de substituir o bife. Mas submeter crianças a uma dieta vegetariana, como sugere Singer, seria no mínimo leviano. Para obter proteína suficiente da dieta vegetariana, precisamos ingerir grandes porções de vegetais protéicos, como soja e feijão. E muitos nutricionistas acham que algumas crianças não conseguiriam processar a quantidade de soja necessária para um crescimento saudável. Enquanto restar essa dúvida, é legítimo que os pais tenham a opção de oferecer um filé aos seus filhos.

Além do que, uma humanidade vegetariana causaria um impacto ambiental razoável, porque consumiria muito mais petróleo. Primeiro porque o vai-vém de alimentos pelo planeta aumentaria. Vivemos em todos os cantos do globo há tanto tempo porque comemos carne, mas são poucos os locais do planeta capazes de produzir uma dieta completa de vegetais. Para driblar essa deficiência, seria preciso transportar muita comida ou investir pesado em fertilizantes (se bem que o melhor adubo, o esterco de boi, estaria escasso). Além disso, a principal alternativa ao couro são os tecidos sintéticos, feitos de derivados de petróleo (sem contar os produtos industriais que levam algum composto animal. Leia alguns exemplos na página XX).

Mantenhamos os bois e libertemos os demais, então? Ainda não. Se a controvérsia quanto à carne persiste, a briga esquenta mesmo quando se fala de pesquisa científica com cobaias, chamada de vivissecção. De um lado, os cientistas defendem que estudar doenças e tratamentos em seres vivos é fundamental para os avanços médicos e farmacêuticos. A cura do câncer, a vacina contra a Aids e a luta contra o Alzheimer e o mal de Parkinson, por exemplo, dependem da pesquisa de corpos inteiros, em funcionamento. Em posição oposta, os ativistas de proteção animal afirmam que pesquisas em animais não servem para nada, porque nossos corpos são muito diferentes. A falta de diálogo entre os grupos torna difícil saber se vale a pena brigar pelo fim dos experimentos.

Mas nossa dependência dos bichos vai além. Temos uma necessidade psicológica de nos relacionar com os animais que não pode ser satisfeita pelo contato humano. É o que diz Hannelore Fuchs, médica veterinária e psicóloga de São Paulo, especialista na relação entre humanos e animais. Hannelore leva cães e coelhos para visitar pacientes em hospitais e diz que há muitos benefícios nesses encontros. "O contato com os bichos faz o corpo liberar endorfinas (um analgésico natural), relaxa, melhora a resposta imunológica e comprovadamente diminui o tempo de hospitalização. Para pacientes deprimidos ou solitários, as visitas diminuem as queixas e o uso de tranquilizantes." Uma característica fundamental da relação com o animal, diz ela, é a disponibilidade. Um cão saudável atenderá feliz e prontamente o chamado do dono a qualquer hora do dia ou da noite. "Ninguém dá esse tipo de afeto", diz ela. O biólogo americano Edward O. Wilson chama essa afinidade de biofilia.

Para ele, há algo no nosso DNA que nos faz querer bem tudo o que é vivo.

Para o etólogo e antropólogo Antonio Fernandes Nascimento Júnior, o animal preenche uma lacuna existencial em nós. "O animal serve como um espelho, em que o ser humano procura ver a si mesmo. Os índios americanos comiam o bisão não só pela carne, mas também para adquirir sua força, seu espírito", diz ele. E isso continua valendo. "O dono do pitbull enxerga no cão características que ele admira, que valoriza para si. E o caçador, em geral, tem uma reverência por sua caça."

Enfim, viver sem animais seria um sonho pouco realista. Para o etólogo Cesar Ades, da Universidade de São Paulo, especialista em comportamento animal, o homem nasceu entre os animais e sempre teve relações com eles. "Não usar animal nenhum faz parte das utopias", diz Ades.



Então, como tratá-los?
Se você acredita nas idéias de Peter Singer e acha que só devemos utilizar os animais no que for indispensável, há uma expressão utilizada pelos ativistas que pode ajudar: "redução, refinamento e substituição". Isso significa reduzir o consumo de animais onde eles são indispensáveis (carne só para as crianças, por exemplo), melhorar o tratamento aos bichos que forem utilizados (ainda há frangos criados soltos) e substitui-los onde for possível (algumas marcas de cosméticos não testam produtos em cobaias). Essa é a atitude mais radical. A partir daí, até os limites aos maus tratos impostos pela lei, há vários caminhos, que só cabe a você escolher.

Mas é impossível tratar melhor os animais se não soubermos como eles querem ser tratados. É preciso conhecer suas vontades. E cada vez há mais informação sobre suas necessidades.

Em primeiro lugar, é preciso entender que a domesticação não precisa ser uma exploração. Do ponto de vista ecológico, a domesticação é uma simbiose, uma associação entre espécies em que ambas se beneficiam, ou seja, elas se tornam mais aptas a se multiplicar e sobreviver, mesmo que nas condições mais hostis. Por esse ponto de vista, os animais de estimação podem ser considerados um caso de sucesso. É bom lembrar que os bichos domésticos proliferaram, enquanto os selvagens foram dizimados. Nos Estados Unidos, por exemplo, há 10 mil lobos, contra 65 milhões de cães. Além disso, se a domesticação fosse algo imposto aos bichos, como explicar os muitos casos de animais que se entregam voluntariamente ao convívio humano? O pato crioulo, por exemplo, uma ave selvagem brasileira, pousa às vezes em uma granja, atraído pelo alimento e pela tranquilidade. Vai ficando, ficando até que, de tão pesado, não consegue mais voar e fica na fazenda. Acaba na panela.

Pode-se dizer que o animal de criação não tem liberdade para fazer o que quer. Mas, afinal de contas, quem tem?

A teoria de Singer (e a motivação dos ativistas) soa tão diferente porque ele não acredita nisso. Ele discorda de uma premissa básica da teoria mais difundida sobre a natureza. Em outras palavras, ele não acha que as espécies tenham como interesse fundamental a sobrevivência. "Eu não acho que a reprodução é um interesse básico para os animais", disse ele à Super.

E se criássemos animais com respeito por suas necessidades e os matássemos sem dor? Nesse caso, nem Peter Singer iria se opor: "Eu não estaria suficientemente confiante nos meus argumentos para condenar alguém que comprasse carne de um lugar desses", disse o filósofo em entrevista à revista do The New York Times. De fato, viver confortavelmente e no final ser morto de um golpe, sem desconfiar do perigo, parece bem melhor do que viver sob perigo constante em liberdade e, um dia, acabar perseguido por um um grupo de lobos recebendo mordidas nas canelas ou ser devorado vivo por um urso. Guardadas as diferenças, é uma troca parecida com a do sujeito que abre mão do impulso genético de transar com o maior número de garotas para viver no conforto do casamento.

Em outras palavras, não é preciso abandonar os animais para evitar causar sofrimento a eles. Basta tratá-los da melhor maneira possível. Mas como saber o que eles querem, se eles não falam? O movimento de proteção animal desenvolveu uma lista de mandamentos que, se cumpridos, eliminam o sofrimento animal. Chama-se As Cinco Liberdades Básicas e diz que devemos livrar os animais de: 1) fome e sede, 2) desconforto, 3) dor, machucados ou doenças, 4) limites ao seu comportamento normal e 5) medo e estresse. Para o etólogo Mateus Paranhos da Costa, da Unesp, em Jaboticabal, a cartilha é uma fantasia de quem não lida com animais. "A busca pela ausência de sofrimento é justa, mas não é realista. O sofrimento faz parte da vida." O fundamental, diz ele, é o respeito pelo bicho. E, para isso, é preciso despertar o respeito nas pessoas que lidam com animais e informá-las sobre as necessidades dos bichos.

Até os animais de estimação precisam de mais respeito. Segundo o veterinário canadense Charles Danten, bichos de companhia sofrem, e sofrem muito. Tudo começa na infância do animal. O filhote se liga em quem cuida dele, seja a mãe ou o dono. Na natureza, a mãe corta essa ligação para que o filhote aprenda a cuidar de sua vida, mas, fora dela, o dono a incentiva, impedindo o mascote de alcançar a maturidade emocional. Como um filho mimado, o animal vive carente de atenção e adota comportamentos bizarros para conquistá-la, como se masturbar, derrubar coisas ou morder as visitas.

Quando isso acontece, a maioria dos donos abandona, passa a tratar mal ou dá ainda mais cuidados ao animal, o que só piora a situação. Alguns levam o bichinho a um psicólogos de animais, mas, quando descobrem que eles também precisam mudar seus hábitos, acabam aceitando a sugestão de dar remédios como Prozac ou Valium para o mascote ficar mais tranquilo. A atitude mais saudável seria deixar o animal à vontade para se expressar como queira, mesmo que isso signifique não dar a mínima para o dono. Mas, diz Danten, como há pouco sentido em ter um animal que não pode ser moldado à nossa maneira, o melhor é não ter animais, coisa que ele promete fazer assim que seu gato morrer.

Mas aos poucos o respeito está voltando. Em algumas granjas, as galinhas ganharam puleiros, ninhos e brinquedos para passar o tempo. Na fazenda, os vaqueiros que são alertados para ter mais cuidado com o animal facilmente percebem os abusos que cometem e melhoram o trato. Nos laboratórios, a anestesia é cada vez mais usada nos testes com cobaias. No zoológico, tratadores escondem a comida pela jaula, para o animal passar mais tempo procurando por ela, como na natureza. Quem sabe, em algumas décadas, estaremos novamente rezando para o bife que nos é servido.



Animais de estimação
Há cerca de 800 milhões de gatos e cães no mundo. Nos Estados Unidos, uma em cada três casas têm um bicho de estimação.

Experiências científicas
Para estudar doenças e testar remédios e produtos químicos, usa-se cobaias. Mais de 30 milhões morrem por ano no mundo nesse tipo de testes.

Carne, carne, carne
No mundo, há 15 bilhões de frangos e galinhas, 1,5 bilhão de patos, gansos e perus, 1,5 bilhão de cabeças de gado e outros 1,75 bilhão de bodes e ovelhas. A maioria destina-se ao abate

A vaca está em tudo
Produz-se muita coisa com o corpo da vaca. Com o sangue faz-se cola, espuma para extintores de incêndio e vacinas. O sebo vira sabão, tinta e até explosivos. Os tendões das patas rendem cosméticos e medicamentos. Os ossos são usados para fazer filmes fotográficos e de raios X.

Os intestinos viram fios de sutura. E o esterco é o melhor fertilizante.

O porco também
A constituição física do porco é muito parecida com a nossa. Por isso, eles servem como doadores de órgãos. Usamos sua pele e seu coração, entre outros

Morte lenta e violenta
A vitela é a carne de um bezerro anêmico que passa seus cinco meses de vida em um cercado minúsculo, impedido de se mover, para a carne ficar macia.

Pesadelo sem fim
Galinhas poedeiras vivem espremidas ob luz quase ininterupta para que comam e botem ovos sem parar. Seus bicos são cortados para evitar canibalismo.

Nascidos para morrer
Para obter ratos sem contaminação, os cientistas retiram o útero de uma rata em final de gestação e extraem as cobaias.

Mortos pela embalagem
Bichos com pele valiosa não dão cria em cativeiro e são caqçados. Passam dias com a pata dilacerada, presa em armadilhas

Envenenamento lento
Para testar a toxicidade de um produtos de limpeza, cométicos e medicamentos, 6 a 9 animais são forçados a ingerir doses crescentes da substância, por até 15 dias, até que metade morra. Os sobreviventes são mortos para estudo

Ácido no olho
Alguns produtos também são testados em tecidos sensíveis. Nesse caso, pinga-se a substância nos olhos de coelhos. Em alguns casos, a córnea vira uma pasta.

Foie gras
Três vezes por dia, durante 20 dias, um tubo é enfiado no pescoço do ganso e por ali bombeia-se um quilo de milho e banha. Depois, um anel evita que ele regurgite. Seu fígado adoece. É com ele que se faz o patê de foie gras.

Meu garoto!
Os bichos perdem parte do encanto quando deixam de ser filhotes. Mas incentivar o comportamento infantil é prejudicial ao animal adulto. Causa dependência emocional e deixa o bicho carente de atenção e ansioso, como um filho mimado. Se o seu animal não desgruda de você, pode ser sinal de que você não é um bom dono.

De orelha em pé
No passado, cortavam-se o rabo ou as orelhas do cachorro para torná-lo mais ágil em caçadas. Hoje, esse tipo de cirurgia é uma mutilação que já foi banida em muitos países.

Beleza demais
A tosa é uma necessidade, não uma chance para embelezar o bicho. Fazer esculturas de pêlo confunde a noção que ele tem do corpo. Tente andar de cartola um mês, para ver como é.

Venda no nariz
Cheirar é um grande prazer para o animal. Cães e gatos têm o olfato muito mais apurado que o nosso e descobrem o mundo pelo nariz. Colocar perfume no bicho, mesmo que muito sutil, é como colocar uma venda nos olhos de uma criança.



NA LIVRARIA:
O Homem e o Mundo Natural, Keith Thomas, Companhia das Letras, 1988 A Vida dos Animais, J.M. Coetzee, Companhia das Letras, 2002
Vida Ética Peter Singer, Ediouro, 2002
Animal Liberation, Peter Singer, Avon Books, 1991
The Animal Rights Debate, Carl Cohen e Tom Regan, Rowan & Littlefield Publishers, 2001, EUA
Drawing The Line, Steven M. Wise, Perseus Books, 2002, EUA

NA INTERNET:
www.angryvet.org
www.arcabrasil.org.br


Fonte: Revista Super Interessante