terça-feira, 18 de maio de 2010

Sudarshan Kriya em casa - (Dicas fisioterapeuta e instrutora Marise Ferrer)



Passo 1:
Crie uma rotina diária, calma e serena, para exercitar a respiração consciente.

Passo 2:
Escolha um ambiente arejado e sem barulho.Não use ar-condicionado ou aparelho de som.

Passo 3:
Sente em uma cama ou superfície plana na qual se sinta realmente confortável. Feche os olhos.

Passo 4:
Apoie a mão espalmada aberta sobre o umbigo.

Passo 5:
Puxe o ar pelo nariz, inspirando profundamente, expandindo seu abdome - mas sem forçar seu limite.

Passo 6:
Solte o ar pelo nariz, contraindo o abdome e expirando profundamente.

Passo 7:
Pense nos movimentos respiratórios que está fazendo. Procure se concentrar apenas neles.

Passo 8:
Aposte numa série de 10 a 15 respirações, ao acordar e ao se deitar. O ideal é fazer sentada pela manhã e deitada à noite, de forma a relaxar mais e se preparar para uma boa noite de sono.

Passo 9:
Após a série, relaxe o corpo.


Fonte: http://mdemulher.abril.com.br/bem-estar/reportagem/auto-ajuda/sudarshan-casa-422999.shtml

Entrevista com Sri Sri Ravi Shankar - Você anda respirando direito? - (Programa Alternativa Saude)



Conheça um pouco mais sobre o homem que está mudando o mundo e como a respiração pode nos ajudar a ter uma vida mais plena, livre de estresse e tensões.

sábado, 15 de maio de 2010

O tempo fechou... e agora? - (Liane Alves)


A vida muda rápido, a vida muda num instante, você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”, escreveu Jane Didion, em seu livro O Ano do Pensamento Mágico (ed. Difel). A morte repentina do marido, que sofreu um enfarte na mesa de jantar, transformou radicalmente a trajetória dessa jornalista americana.

De uma forma ou de outra, todas nós já experimentamos dias que amanhecem como qualquer um e dão uma guinada, abalando nossas estruturas. A psicóloga paulista Sandra Taiar interpreta o modo como respondemos a tais surpresas e mostra como é possível adquirir mais equilíbrio apesar da intensidade das circunstâncias. Psicoterapeuta há 25 anos, ela pratica e pesquisa a metodologia formativa do americano Stanley Keleman, criador da terapia somática formativa, que leva em consideração, entre outras coisas, a influência do corpo, da mente, da emoção e da sexualidade na nossa maneira de pensar e agir. Nessa entrevista, Sandra Taiar nos mostra passo a passo o que acontece conosco depois de um grande choque.



BF | Por que sentimos tanto medo do que é inesperado?
ST | Numa realidade em que nada permanece no mesmo lugar durante muito tempo, o desejo básico da maioria das pessoas é de estabilidade, continuidade e duração. Por exemplo: testemunhamos um número crescente de divórcios e separações, mas o sonho de muitas mulheres ainda é ter uma relação estável e duradoura, como as de antigamente. O mesmo acontece no mundo corporativo, onde o risco de uma demissão ou a descontinuidade de um trabalho O TEMPO FECHOU... E AGORA? está sempre presente. Resultado: quanto mais mudanças nos ameaçam, mais nos apegamos com unhas e dentes a tudo que acena com um mínimo de segurança. Ou seja, desejamos que a vida permaneça a mesma.

BF | Quais as consequências sociais dessa contradição entre o desejo de permanência e a realidade em constante transformação?
ST | Nesse mundo vertiginoso, não somos estimuladas a amadurecer respostas para as sucessivas crises e desafios que enfrentamos. Temos de estar sempre prontas para mudar e, para complicar, somos seduzidas continuamente por imagens idealizadas de perfeição e sucesso e por uma forte pressão por produtividade, sob pena de exclusão. Essa é a grande crise, o pânico de que a qualquer momento podemos ser excluídas e perder territórios conquistados. O medo do inesperado e a impossibilidade de assimilar as mudanças nos levam a situações crônicas de depressão, solidão, vazio e falta de sentido. Na tentativa de compensar o ritmo dessa sociedade, nos apegamos a valores tradicionais, que ainda nos dão a sensação de segurança, como o casamento, a estabilidade no emprego e os papéis femininos tradicionais. Talvez estejamos diante de uma sociedade de transição, que emerge de uma tradicional e estável para outra mais móvel e dinâmica.

BF | Por que é tão difícil aceitar a mudança repentina?
ST | Porque, em parte, precisamos da repetição, do previsível, pois assim construímos nossa estabilidade emocional, profissional, financeira e afetiva. Durante a primeira metade da vida, essencialmente, construímos essa estabilidade. Faz parte dessa fase competir, vencer, justamente com o objetivo de adquirir segurança. Ao mesmo tempo, formas muito rígidas nos asfixiam. Também precisamos do movimento, da mudança e da fluidez. Vivemos em busca de um equilíbrio entre esses dois aparentes paradoxos.

BF | O que acontece quando uma pessoa se vê diante de algo que causa um choque emocional?
ST | A resposta depende da maturidade, do quanto se consegue lidar com a situação ou ser machucado por ela. Ao mesmo tempo, um choque sempre dispara o mecanismo do susto, uma forma de proteção automática diante de situações de emergência, desenvolvida pelo ser humano ao longo da evolução. Diante do choque, de uma dor excessiva, temos três alternativas de atitudes. A primeira seria partir para um enfrentamento e ataque – endurecemos todo o corpo e bombeamos sangue para a parte superior, preparando-nos para lutar. Na segunda, a pessoa não se decide entre o ataque e a vontade de fugir, fica indecisa, sem ação ou tem atitudes conflitantes. Uma terceira atitude é o colapso total (desmaio) ou a fuga, assumindo que somos incapazes de enfrentar a situação. Essas respostas a momentos emergenciais são resultantes do nosso processo evolutivo – cada um de nós tem uma maneira quase padronizada de reagir: há os enfrentadores, os que ficam meio paralisados entre fugir ou enfrentar e há aqueles que preferencialmente decidem não enfrentar e fugir.

BF | A reação diante da mudança repentina depende muito do que a pessoa já vivenciou?
ST | Sim. Todos nós crescemos enfrentando desafios e ameaças. Um acontecimento que é vivido como assimilável por alguém pode ser pesado demais para outra pessoa. E a intensidade dessas agressões depende do momento em que ocorreram em nossa vida, de quantas vezes aconteceram, de onde partiram e de sua duração e gravidade. A reação tem a ver ainda com o tipo de apoio que se recebeu ou não. A ausência temporária dos pais, por exemplo, pode ser vivida como agressão para uma criança pequena e apenas como um desafio para uma criança maior. Uma crise financeira pode ser um estímulo a mudar, mas, se for muito intensa, também pode implicar perdas e desagregação familiar. Em geral, a tendência é repetir um mesmo tipo de reação diante dos choques. Se a repetição for mecânica e automática, porém, é sinal de que temos poucos recursos para encontrar saídas para desafios diferentes.

BF | As pessoas que nos servem de referência também influem no jeito como reagimos?
ST | Sim. A forma de reação das pessoas que representam referências importantes é que nos ajuda a construir respostas às crises. Se tivermos pessoas estruturadas na família, por exemplo, podemos nos fortalecer diante do imprevisto. Da mesma maneira, se já conseguimos superar com relativa facilidade outras mudanças bruscas no passado, essa capacidade também nos ajuda a vencer novos traumas. Quanto mais positivas forem as experiências anteriores e as referências de pessoas próximas diante de uma dor inesperada, mais fácil será a reação e a recuperação.

BF | Depois de um choque inicial, então, o que pode ocorrer?
ST | A resposta imediata é a investigação e o enfrentamento. São momentos em que escolhemos entre avançar ou recuar, enfrentar ou fugir, lutar ou ceder. Se o choque ou a agressão prossegue, podemos ficar excessivamente rígidos, buscando manter a integridade. Se a ameaça continuar, vem a dúvida: enfrentar ou voltar e fugir? O conflito, frequentemente, nos congela na posição de dúvida. Às vezes, a resposta é desistir de lutar, inclusive desmaiar, para diminuir a pressão interna. Essas formas de reação são emocionais e corporais e geralmente devem persistir apenas sob o impacto da emergência. Se elas não são superadas, podem se tornar comportamentos com efeito nefasto, limitando nossa capacidade de responder a outras crises.

BF | Por que algumas pessoas parecem anestesiadas com um choque? Muitas delas buscam viver depois como se nada tivesse acontecido...
ST | Às vezes, precisamos da anestesia para poder suportar uma dor muito forte. É um mecanismo de proteção, desenvolvido no processo de evolução. Porém, se a situação de anestesia se prolonga, se congela no tempo, e se a pessoa prossegue negando a situação desafiadora, então ela será afetada de modo mais extenso, se anestesiando e negando outras situações de vida, o que vai comprometer seu desenvolvimento. Por outro lado, se alguém se congela no estado de alerta extremo, pode se tornar permanentemente tenso, mesmo quando não há ameaça iminente. Quando o medo faz estancar o psiquismo num momento de resposta agressiva, o risco é que a pessoa reaja sempre com agressividade seja qual for a situação. E, nesses casos, o equilíbrio está comprometido, pois o que pode ser natural e aceitável diante de um grande susto passa a ser patológico e prejudicial quando se cristaliza ao longo do tempo. Todas essas respostas são organizadas no próprio corpo, modelando sentimentos, percepções e pensamentos que limitam nossa capacidade de aprender e evoluir diante de encontros e estímulos novos.

BF | O que pode favorecer o processo de descongelamento?ST | Toda mudança precisa de um tempo de maturação, seja ela o nascimento de uma flor, seja o culminar de uma idade, seja uma transformação no modo de viver. É muito difícil viver o fim prematuro e inesperado de um ciclo. Quando uma situação ou um ciclo acaba – ou seja, quando aquilo que era estável já não pode prosseguir ou não faz mais sentido – é preciso reconhecer que algo mudou definitivamente e que a vida não será a mesma. O reconhecimento de um fim é o primeiro passo para a mudança. A vida mudou e não adianta repetir o mesmo padrão. No processo de ending (finalização) – como Stanley Keleman chama o término de um ciclo –, depois da aceitação há um período de desmanche dos antigos padrões, fase extremamente necessária para encerrar uma etapa da vida. Passar de um casamento para outro quase imediatamente, por exemplo, pode significar que trocamos de parceiro apenas para reforçar nossas expectativas não realizadas com o parceiro anterior. Se não nos permitimos o tempo interno necessário para que os antigos padrões se reformulem, como abrir espaço para um novo começo? Não se pode evitar um tempo de luto, de despedida interna. É o que Keleman chama de plano intermediário, uma pausa solitária e curativa necessária para que novas conexões e possibilidades sejam gestadas dentro e fora de nós.

BF | Quando não há essa pausa, acabamos levando velhas formas para novas situações?ST | Sim. Precisamos de um tempo para voltar a pulsar de maneira plena, com energia suficiente para fazer frutificar novos movimentos, ideias ou formas de se relacionar. Quando deixamos um ciclo de fato se encerrar, sem pressa, conseguimos voltar à vida mais íntegras. A pausa faz surgir novos hábitos, encontros, jeitos de fazer as coisas, interesses, necessidades. É extremamente importante ter um tempo para cultivar e experimentar essas novas formas de viver, senão há risco de voltar ao antigo padrão, o que significa retroceder no processo de amadurecimento.

BF | Ao reagir, há algum modo de impedir que o jeito antigo predomine?
ST | Imagine a situação: alguém termina um namoro a duras penas e, quando está conseguindo esquecer, o ex-parceiro pede para voltar. A dificuldade é não saber o que fazer diante de uma situação que nos transporta de volta ao conhecido. Para evitar uma reação automática é preciso identificá-la e estar muito consciente dessa armadilha. Será que você cede fácil sob pressão? Será que fica confusa e não decide o que fazer? Ou logo desiste de mudar? Além de reconhecer o impulso que nos move quando ficamos entre assumir um novo desafio ou voltar ao conhecido, é preciso enxergar e alterar a imagem corporal que assumimos nesses momentos.

BF | Por que é preciso identificar a reação corporal nos momentos de desafio e decisão?
ST | Vamos supor que toda vez que um ex-namorado liga você fique confusa. Meu conselho é observar como o seu físico reage: o coração começa a bater forte? Você fica dividida entre continuar a conversa ou interromper? Se assim for, vai perceber que um lado do seu corpo vai para frente, enquanto outro vai para trás. A respiração pode ficar rápida, superficial: o peito afunda e estufa depressa, a nuca endurece, vem um aperto na garganta... O estômago pode se retrair ou a visão se turvar. Nesse estado, a mente já não pensa com clareza e então você responde o que o outro quer que você responda, e não o que você queria responder. É importante saber como o corpo reage para conseguir desacelerar essas reações físicas automáticas, um grande recurso para evitar comportamentos automáticos. Brecar esses processos automáticos lhe dá tempo de hesitar entre avançar ou recuar, o que significa uma oportunidade de entrar em conexão mais profunda com você mesma e só depois disso agir.

BF | Como se pode relaxar o corpo, livrá- lo do automatismo para obter esse tempo precioso?
ST | Concentrar a atenção na respiração é o caminho para relaxar a tensão muscular, o diafragma, desfazendo a rigidez da coluna e da nuca. Respire, respire, sem pressa. Aos poucos, você vai voltando a sentir os pés no chão, o coração mais ritmado, o fôlego de volta ao normal. Um corpo relaxado ajuda a recobrar a consciência e o controle emocional. Daí, você estará pronta para decidir o que de fato quer. Ao praticar essa desaceleração, recupera-se a chance inestimável de responder de acordo com o que realmente se deseja.



Fonte: Revista Bons Fluidos - Dezembro 2009
http://bonsfluidos.abril.com.br/livre/edicoes/0129/02/o-tempo-fechou-pag-03.shtml

CABALA: manual de instrução da vida - (Luciana Giammarino)


Quando recebi um telefonema da BONS FLUIDOS num final de tarde corrido me dando duas semanas para aprender os passos básicos da Cabala e contar sobre minha experiência nesta matéria, aceitei o desafio sem medo. Confesso que, até então, não sabia praticamente nada sobre o assunto. A não ser que a cantora pop Madonna era adepta. Imaginava ser apenas mais uma entre tantas técnicas esotéricas que pretendem tornar o dia a dia mais fácil. Cheguei a pensar que tivesse a ver com atrair dinheiro, amor ou boas energias. Nada contra essas ferramentas, pois, pessoalmente, até faço uso de algumas delas de vez em quando, mas essa não é a natureza da Cabala. Foi o que descobri logo que comecei minha busca por informações com fontes realmente entendedoras desse conhecimento.

Cabala – ou Kabbalah, em hebraico – é uma sabedoria que explica a origem espiritual do mundo, do ser humano e de tudo o que existe, nos ajuda a entender as leis que regem o Universo e contém as respostas para nossos questionamentos. Ao ouvir essa definição da professora de Cabala Jane Ribeiro, de São Paulo, mas que dá cursos sobre o assunto em todo o Brasil, senti que estava prestes a conhecer uma espécie de “manual de instrução” da vida. Aquele que tanto procuramos, especialmente em momentos difíceis, quando nos questionamos: O que eu estou fazendo aqui? Qual é o sentido de tudo isso? Por que comigo? Fora as clássicas perguntas que nos fazemos desde crianças e que também movem os filósofos ao longo dos séculos: De onde viemos? Para onde vamos? Qual é o propósito da vida? Deus existe? Por que algumas pessoas são ricas e outras pobres? Qual é a minha missão? Para Jane, a Cabala é o caminho daqueles que querem resgatar a felicidade. “Todos nós temos em comum o desejo de ser feliz. No entanto, se não conhecemos as regras do jogo, agimos por tentativa e erro e acabamos sofrendo”, me disse a professora. Apesar de existir desde a criação do mundo, esse conhecimento ficou restrito a alguns cabalistas, por séculos.

INSPIRAÇÃO DIVINA
Segundo a tradição judaica, Abraão, o Patriarca dos hebreus, teria sido o primeiro ser humano a receber de Deus a sabedoria da Cabala. O rabino israelense Joseph Saltoun, que hoje vive no Canadá e veio recentemente a São Paulo, me contou que Abraão foi a primeira pessoa a trazer ao planeta Terra a consciência de que o mundo físico estaria conectado a uma dimensão espiritual. Apesar de seu conhecimento ter sido transmitido, por muito tempo, oralmente, o pai do povo hebreu deixou algumas informações escritas, em hebraico, que ficaram conhecidas como Sefer Yetzirah, ou O Livro da Formação. Esse documento reunia todas as chaves, ou códigos de acesso à sabedoria divina. Ainda que lêssemos a tradução mais conhecida desse material, em inglês, do autor Aryeh Kaplan, sozinhas não seríamos capazes de compreender exatamente o que todas aquelas palavras querem dizer. Cada termo utilizado para se referir à Cabala é um código, desvendado por cabalistas e transmitido pelos professores a quem se interessar por estudá-lo. Isso porque a Cabala fala de uma dimensão espiritual que as palavras humanas, tão limitadas, não seriam capazes de explicar literalmente.

Na medida em que essa sabedoria foi passada adiante, sofreu algumas variações de interpretação que levaram o estudo da Cabala a se ramificar em diferentes vertentes. Às vezes, há divergências de entendimento entre pessoas que seguem uma mesma linha. Quando quis saber qual era a verdadeira Cabala ou a mais ensinada atualmente, Jane Ribeiro me tranquilizou: não há uma linha mais famosa e nem mesmo uma que seja “mais correta”. A diferença entre elas está na metodologia de ensino e na linhagem dos mestres seguidos pelo professor. O que me deixou aliviada foi ouvir de todos os meus entrevistados que “a verdade é uma só”, ou seja, todas as linhas estão falando sobre o mesmo “manual de instruções”, que é divino, único e está além de qualquer interpretação humana. Portanto, cabe a cada estudante de Cabala observar se o método de seu professor faz sentido para si.

Jane Ribeiro, o rabino Joseph e a coordenadora do grupo de estudos de Mística Judaica da Comunidade Shalom, em São Paulo, Rachel Reichhardt, seguem os ensinamentos dos discípulos de Isaac Luria, um cabalista que viveu no século 16 e deu origem à linha luriânica. Já naquela época, ele tentou mudar a percepção de que a Cabala deveria ser restrita. Sua intenção era abrir esse conhecimento para todos, o que só aconteceu centenas de anos mais tarde. No início do século 20, foi construída a primeira escola de Cabala, em Jerusalém, pelo rabino Yehuda Ashlag e, há mais de trinta anos, The Kabbalah Centre é dirigido pelo rabino Philip Berg e sua mulher, que se dedicam a disseminar essa sabedoria ao mundo.

Nem sempre foi assim. Muitos cabalistas foram duramente perseguidos ao longo da história, pelo fato de contrariarem os interesses das classes dominantes. Rachel Reichhardt me contou que, por muitos séculos, também se considerou que apenas homens, judeus, com mais de 40 anos, casados e com filhos poderiam estudar Cabala. Para a tradição judaica, somente aqueles que tivessem os pés no chão, com uma série de preocupações relativas a este mundo físico, seriam capazes de fazer uma conexão com a verdade do universo espiritual. As mulheres teriam uma tendência maior de se perder nesse conhecimento e deixar de se importar com as questões do mundo material. E esse não seria o propósito divino, já que os humanos são seres físicos e precisam aprender com essa experiência terrena. Hoje, qualquer pessoa, independentemente de sexo, nacionalidade, etnia ou religião, e mesmo sem conhecer hebraico, pode não somente aprender Cabala, como também ser preparada por um rabino cabalista para se tornar um professor. Por isso mesmo, algumas escolas têm, inclusive, aulas de Cabala especiais para crianças.

Enquanto ouvia todas essas informações práticas, minha ansiedade apenas aumentava. Mal podia esperar para saber, finalmente, como o mundo funciona e o que os seres humanos estão fazendo aqui. É claro que não obtive todas as respostas, mas a maneira como a Cabala explica a origem do mundo e a missão dos seres humanos mexeu comigo. Ainda que nada disso faça sentido para muita gente, não dá para negar que é, ao menos, uma bela história.

COMO TUDO COMEÇOU
A explicação da origem do Universo se resume a dois personagens: a Luz e o Recipiente. Num dado momento, a Luz, que é puro amor infinito, sentiu vontade de compartilhar todo aquele amor e criou o Recipiente, apenas para receber o que ela tinha a oferecer, numa união perfeita. Só que, um dia, de tanto receber amor, o Recipiente começou a absorver as características da própria Luz e também sentiu necessidade de compartilhar. Como a Luz não podia receber do Reci- piente, este começou a se sentir inferior e, usando de seu livre arbítrio, se separou da Luz e criou o seu próprio mundo, finito. Para a Cabala, esse é o instante que os cientistas definem como Big Bang, a criação do Universo a partir de uma gigante concentração de matéria e energia em um único ponto.

Para a Cabala, os seres humanos são descendentes diretos do Recipiente e, portanto, essencialmente recebedores. Isso explica a imensa dificuldade de doar e compartilhar e o desejo de sempre receber. Basta observar as crianças. Antes de elas aprenderem a dividir com os amigos, são naturalmente egoístas e querem tudo para si. Faz parte da essência humana.

No fundo, não há nada de errado com o fato de desejarmos bens materiais e não-materiais. A grande questão é o propósito com que pedimos e o que fazemos com o que conquistamos. Nosso grande desafio no mundo da matéria é aprender a transformar o egoísmo extremo em que vivemos hoje – e que gera uma série de conflitos internos e externos – num ato de receber para compartilhar amor, alegria, bondade, tempo, saúde e conhecimento. Exatamente como desejava o Recipiente, no momento em que se separou da Luz.

DA TEORIA À PRÁTICA
A sabedoria da Cabala é ampla e vai muito além da explicação sobre a criação do mundo e do ser humano, envolvendo mais uma infinidade de assuntos que não caberiam nem em uma edição inteira da BONS FLUIDOS dedicada ao tema. Isso sem falar nas diversas ferramentas que nos ajudam a adquirir mais consciência sobre as questões divinas, tais como a astrologia e a numerologia cabalísticas, as meditações baseadas em mantras e letras hebraicas.

O encantamento de quem estuda Cabala é algo, no mínimo, curioso. As pessoas que entrevistei foram unânimes em dizer que, depois que entraram em contato com esse conhecimento, assumiram uma nova postura diante da vida e passaram a agir de maneira mais consciente, evitando fazer tudo no automático, como estamos acostumados. Eu poderia resumir todas as exclamações que ouvi em três benefícios principais: 1. a Cabala nos dá um sentimento de pertença ao Universo e nos ajuda a entender que somos parte de um todo maior. Portanto, tudo o que fazemos influencia essa totalidade; 2. tudo no Universo é uma questão de causa e efeito, o que nos estimula a assumir a responsabilidade sobre nossa própria vida, em vez de permanecermos com o costumeiro discurso de vítimas do mundo; 3. quando compartilhamos de coração aberto, a sensação não é a de que estamos perdendo o que temos, mas de que multiplicamos a alegria e o prazer da troca.

Se o que você leu aqui despertou seu interesse pelo assunto, o melhor é procurar por um curso básico de Cabala. Normalmente, eles são divididos em módulos e trabalham alguns aspectos de cada vez. As aulas costumam ser semanais ou mensais, mas não há regras para isso. Se preferir, comece assistindo a uma palestra ou lendo um livro. Para aprender Cabala, não é preciso ter nenhum outro conhecimento prévio e nem mesmo crença religiosa. Jane Ribeiro apenas alerta para que nos livremos de qualquer preconceito antes de iniciarmos a busca por essa sabedoria. É que, enquanto as religiões mostram apenas um ângulo para se entender as questões relacionadas aos seres humanos e restringem a verdade a uma única interpretação, a Cabala nos mostra que todos os ângulos fazem parte da mesma sabedoria divina. Ah! Uma última dica, não tenha pressa em desvendar todos os mistérios do Universo. Quanto tempo alguém demora para estudar a Cabala? Foi exatamente isso que perguntei à Rachel Reichhardt. Ela me respondeu com outra pergunta: Quantos anos você vai viver?

Fonte: Revista Bons Fluidos; dezembro 2009
http://bonsfluidos.abril.com.br/livre/edicoes/0129/04/01.shtml

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O Tantra e os Yogas - (Entrevista com Pedro Kupfer)


1) Por que a palavra Tantra está tão relacionada a sexo e libertinagem?
Por causa dos valores sexistas, hipócritas e distorcidos da nossa sociedade em relação à sexualidade. A civilização judaico-cristã é obsessionada com o sexo e incapaz de toma-lo como algo espontâneo ou natural. Uma prova clara disso é a invasão de imagens com forte apelo sexual nas capas das revistas, seja para vender produtos de beleza, seja para vender carros ou o que for. Outra prova é o fato que alguns autodenominados 'mestres' de 'Tantra', 'Yoga sexual' ou assemelhados fazem sucesso prometendo orgasmos infindáveis e iluminação e cobrando mundos e fundos por isso.

Tantra é o nome de um vasto leque de ensinamentos práticos que têm como objetivo expandir a consciência e libertar a energia primal do ser humano, chamada kundaliní. O princípio comum a todos os caminhos práticos do Tantra é que as experiências do mundo material podem usar-se como alavanca para conquistar a iluminação, já que o este é a manifestação de uma outra realidade, sutil e superior, que está conectada com a nossa própria natureza.
Neste contexto, a visão do Tantra associada ao êxtase sexual é pateticamente superficial e parcial, se comparada com a verdadeira tradição. O Tantra não é hedonista nem orgiástico. O objetivo do Tantra é o despertar da força potencial no homem, e isso não é uma tarefa fácil nem que se possa conquistar dando prazer aos sentidos ou alimentando a sexo-dependência.

2) É correto dizermos que alguns conceitos foram distorcidos ao longo do tempo?
Não creio que essa tenha sido uma distorção temporal, mas cultural, que aconteceu aqui no Ocidente quando esses ensinamentos sagrados mudaram de contexto, embora hoje em dia haja distorção destes ensinamentos também na Índia. Ao tirar esse tipo de prática do seu contexto original para adaptá-la ao gosto ocidental, se corre o perigo de reduzir a busca da própria essência a um artigo de consumo, um "produto". Surgem assim adaptações, versões diluídas, para tornar o produto mais palatável e, conseqüentemente, mais vendável.

3) Qual é a origem do Yoga tântrico?
O Tantra é herança e patrimônio da cultura dos rios Indo e Saraswatí, no norte do sub-continente indiano, onde nasceram igualmente o Yoga e o hinduísmo. O culto da Grande Mãe está presente na Índia desde o neolítico (8000 a.C.), mas os mesmos símbolos que o tantrismo utiliza hoje remontam ao paleolítico (20000 a.C.) e estiveram sempre presentes ao longo do continente eurasiano.

O Yoga tântrico assimilou e organizou os rituais da Deusa Mãe, transformando-os num método de emancipação que busca na psique humana a manifestação da própria força da Shaktí. Este movimento teve uma forte influência sobre a religião, a ética, a arte e a literatura indianas, havendo ressurgido com inusitada força entre 400 e 600 d.C., quando chegou a transformar-se numa moda que acabou por influenciar nos modos de pensar e agir da sociedade indiana medieval. Aqui ela se afirma, populariza e estende ainda mais, dando origem a um grande número de correntes e manifestações filosóficas, religiosas, mágicas e artísticas, algumas antagônicas.

4) Existem diferentes tipos de Yoga. Existe um melhor do que o outro?
A modalidade de Yoga escolhida por cada um de nós deve estar em função das nossas expectativas e necessidades. Diferentes formas de Yoga não dão os mesmos resultados com as mesmas pessoas e não há consenso sobre o que deveria ser ensinado em uma aula de Yoga.

Entretanto, é preciso frisar que não existe um Yoga superior, mais completo ou melhor que os demais. Se um professor de Yoga afirmar o contrário, dizendo por exemplo "o meu Yoga é o melhor do mundo", estará se colocando numa postura que fere e ética do sistema e confessando explicitamente que não entendeu uma das partes mais importantes da filosofia, que é a necessidade de respeitar o Dharma, a justiça divina.

Cada método se adapta melhor para objetivos diferentes. O melhor Yoga é aquele que funciona para você, que satisfaz suas necessidades e preenche suas expectativas, sejam elas quais forem. É questão de procurar até achar algo que lhe satisfaça.

5) Poderia descrever brevemente os principais tipos de Yoga?
Vou dar uma lista incompleta, pois seria impossível enumerar todos os Yoga existentes neste espaço limitado. Há muitos métodos diferentes de chegar no objetivo final do Yoga, que é o estado de união consigo mesmo e com a alma cósmica.

Dos sistemas de Yoga que utilizam abordagens físicas, os métodos mais populares no nosso país são o Hatha Yoga, a Yogaterapia, o Ashtanga Vinyasa Yoga e o Iyengar Yoga.

O Hatha Yoga tradicional é sem dúvida o mais difundido e praticado, por ser o que chegou primeiro aqui, nos anos 50, dando origem inclusive a alguns tipos de Yoga que foram criados aqui mesmo no Brasil e que não possuem nenhuma conexão com as tradições filosóficas da Índia.

O Ashtanga Vinyasa Yoga, o Iyengar Yoga, a Yogaterapia e o Power Yoga chegaram muito mais recentemente, mas estão conquistando seu espaço na preferência dos brasileiros, despertando interesse em outros segmentos da sociedade que os originalmente interessados no Hatha Yoga.

Se estiver procurando uma atividade desafiante e energética, onde possa explorar e extrapolar seus limites físicos através de uma malhação consciente, o Ashtanga Vinyasa Yoga, o Iyengar Yoga ou o Power Yoga podem ser extremadamente exigentes, adequadas para atletas e pessoas que gostem de trabalhar o corpo com disciplina e intensidade.

Se for o caso de usar Yogaterapia por indicação médica, se recomendam uma ou duas sessões diárias de exercícios específicos que incluam ásana, pranayama e yoganidra, bem como aconselhamento alimentar. O professor neste caso precisa ter muito estudo e experiência no assunto. Há professores que preferem negar os efeitos terapêuticos do Yoga, o que é muito mais fácil que estudá-los.

Existem muitas outras modalidades que não trabalham o corpo, como o Mantra Yoga, que investiga os efeitos dos sons e das vibrações sutis sobre a consciência; o Bhakti Yoga ou Yoga devocional, conhecido principalmente através do movimento Hare Krishna; o Raja Yoga, que dá muita mais ênfase à prática da meditação; e outros sistemas que visam a atingir o estado de comunhão através de exercícios de auto-reflexão e discriminação, como o Jñana Yoga ou de rituais, como algumas formas ortodoxas de Tantra Yoga.

6) Na sua opinião, como a prática do Yoga vem evoluindo ao longo do tempo?
O Yoga é inerente ao ser humano e permanece sempre vivo na memória coletiva da Humanidade. Sabemos que as crianças fazem espontaneamente técnicas de Yoga, sempre como brincadeira, sempre de forma instintiva. Isto, porque ele faz parte da nossa essência. O Yoga nasce a partir da compreensão das manifestações externas da natureza e suas influências subjetivas sobre a consciência humana.

Durante o processo histórico de formação do Yoga, que durou milênios, foram acrescentando-se novas técnicas, experiências e constatações das sucessivas gerações de praticantes, que por momentos o enriquecem e refinam com novos achados mas às vezes o rebaixam quando, por exemplo, passam a incorporar a pequena magia popular.

Entretanto, por mais que mudem alguns dos seus conteúdos durante essa travessia, a essência do Yoga continua sempre a mesma: mágica, imutável e atemporal. A mensagem do primeiro praticante, atravessando as gerações, continua sendo válida para nós, homens do século XXI.

7) Quais os benefícios que o Yoga pode trazer para seus praticantes?
O Yoga pode literalmente dar uma vida nova a quem o pratica. Através das práticas físicas, adquire-se um corpo novo, mais saudável e flexível, que possibilitará ter uma vida mais longa e com mais qualidade de vida. Adquirindo a capacidade de relaxar, podemos observar o mundo com mais objetividade e sermos mais justos em todas as situações que a vida nos coloca. A prática da meditação é o martelo que destrói a ignorância real, que é a incapacidade de responder perguntas como 'quem sou eu?' ou 'o que estou fazendo nesta vida?'

8) Há quanto tempo você pratica? Como o Yoga influenciou e influencia sua vida?
Pratico há 19 anos. Comecei no Uruguai quanto tinha 16 anos de idade e nunca mais parei. Desde o início percebi que a capacidade de transformação do Yoga poderia me ajudar e ajudar as pessoas a terem uma vida mais feliz e saudável. Vejo a prática mais como uma forma de vida, uma atividade que permeia as 24 horas do meu dia, do que uma série de exercícios que se fazem algumas vezes por semana dentro de uma sala fechada.

O Yoga tem a ver com estar presente em todas as experiências de vida, receptivo e atento para poder realizar o propósito supremo da existência que é desenvolver a natureza divinal no homem. Esse processo de 'divinização' do ser humano inclui uma visão do mundo em que o yogi enxerga o conjunto da sociedade humana como uma única família. Portanto, implica que o praticante fará alguma coisa para melhorar as condições de vida dos seus semelhantes no lugar onde ele mora. Pessoalmente, acredito que é importante reciclar o lixo humano que a sociedade descartou. Para realizar este ideal, dou aulas no presídio masculino da minha cidade, Florianópolis.



Fonte: http://www.yoga.pro.br/

Os Obstáculos no Caminho Segundo Patanjali - (Georg Feuerstein)


O processo yogue, que contraria a tendência exterio­rizante da mente humana vulgar, nem sempre se desenvolve tranqüilamente e sem percalços. Como já afirma o Bhagavad-Gitâ (6.6), oeu pode ser o pior inimigo do Si Mesmo. Patanjali, em seu Yoga-Sûtra(1.30),menciona nada menos que nove obstáculos (antarâya) que podem surgir no decurso da disciplina yogue:

A doença, a apatia, a dúvida, a desatenção, a preguiça, a dissipação, a falsa visão, a não-realização dos estágios [do Yoga] e a instabilidade [nesses está­gios] são as distrações da consciência; são estes os obstáculos.

Todos estes podem ser compreendidos como limi­tações que o próprio ser se impõe e que retardam ou mesmo inviabilizam o processo do Yoga. Podem ser vistos também como expressões do inconsciente que maculam a grande obra yogue e assim preservam o status presente da personalidade não iluminada, do eu não redimido. Mesmo quando o desejo de libertação (mumukshutva) está presente, o aspirante ainda está sujeito às forças antitéticas da Natureza (prakriti) que regem a sua psique. Acontecimentos aparentemente acidentais, como a doença, que frustrara o progresso yogue, são devidos em última análise à frutificação das sementes kármicas (karma-âshaya) e são, portan­to, induzidos pelo próprio ser que os sofre.

É significativo que Patanjali caracterize os nove obstáculos como "distrações da consciência" (citta­vikshepa). São distúrbios ou disfunções, como deixa bem claro o termo vikshepa, derivado do prefixo vi ­("dis") e da raiz verbal kship, que significa "lançar" ou "atirar". Os vikshepas dispersam a concentração mental do yogin e interpõem-se assim no caminho do seu esforço perseverante para cultivar a unicidade ou "unipontualidade" (ekâgratâ) da mente.

Segundo o Yoga-Bhâshya (1.1),os estágios ou níveis (bhûmi) da atividade mental são os seguintes:

1. Inquieta (kshipta) ouagitada em virtude de uma grande preponderância da qualidade rajas, o princípio psicocósmico dinâmico; no Yoga-Bhâshya-Vi­varana de Shankara Bhagavatpâda, a mente nesse estado é comparada a um celeiro excessivamente cheio cujas portas arrebentam.

2. Iludida (mûdha) oufascinada em virtude de um excesso de tamas, o princípio psicocósmico da inércia, que elimina a importante faculdade do discerni­mento (viveka).

3. Distraída (vikhsipta) ouapenas intermitente­mente estável em virtude da presença periódica de sattva, oprincípio psicocósmico da lucidez.

4. Unipontual (ekâgra) ouconcentrada em virtu­de da presença cada vez mais constante de sattva e do gradual predomínio de sattva sobre rajas e tamas.

5. Restrita (niruddha) oucontrolada em virtude da preeminência de sattva; Shankara Bhagavatpâda explica este estado como caracterizado pela ausência de pensamentos.

Os primeiros três níveis são estados mentais tipi­camente experimentados pela pessoa comum. Só os dois últimos descrevem a qualidade da consciência do yogin.

O Yoga-Bhâshya (1.30)explica que as distrações só podem ocorrer enquanto um dos cinco tipos de "flu­tuações" (vritti) mentais está presente. Em outras pala­vras, a mente tem de perceber, perceber erroneamente, imaginar, lembrar ou estar dormindo. Quando essas atividades mentais estão controladas (niruddha), porém, é evidente que os obstáculos mencionados por Patanjali perdem todo o seu poder. Ou seja, o yogin pode ficar doente, mas não será perturbado por sua doença. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o famoso sábio Ramana Maharshi de Tiruvannamalai, que viveu no século XX. No final de sua vida, ele sofria de câncer. A doença deve ter-lhe causado mui­ta dor, mas ele permanecia sereno e, vez por outra, fazia brincadeiras a respeito de seu corpo castigado pela dor e da preocupação que o médico sentia por ele.

Pode-se dizer, portanto, que os obstáculos só o são na medida em que afetam as atividades da mente. No Yoga-Bhâshya-Vivarana (1.30), Shankara Bhagavat­pâda explica da seguinte maneira a palavra antarâya: "Eles se movem numa direção ou criam um intervalo, lacuna ou rompimento - daí [serem denominados] obstáculos." Um "intervalo" (antara) é um rompi­mento da continuidade natural da apercepção pelo Si Mesmo (purusha), que é uma simples testemunha (sâkshin). Em outras palavras, é um momento em que o Si Mesmo se eclipsa e a pessoa se perde na corrente dos pensamentos, sentimentos e sensações que sur­gem em sua consciência. É daí que no Tattva­Vaishâradi (1.30)Vâcaspati Mishra afirma que os obs­táculos são especificamente "obstáculos ao Yoga" (yoga-antarâya) e "distrações em relação à consciên­cia contida pelo Yoga". Em seu Yoga-Bhâshya(1.30), Vyâsa fala dos "adversários do Yoga" (yoga-pratipa­ksha), "obstáculos ao Yoga" (yoga-antarâya) e "mácu­las do Yoga" (yoga-mala). Shankara Bhagavatpâda, no Vivarana (1.30),assevera que todos eles são igual­mente nocivos (tulya-pratyanîka), poisengendram estados mentais (em vez de colaborar com a transcen­dência da mente). Segundo o Vritti de Nâgojî Bhatta, esses nove são produzidos por rajas e tamas e condu­zem a um "estado de múltiplas flutuações" (aneka­vrittitva) da consciência. A Mani-Prabhâ declara: "Distraem a mente e fazem-na decair do Yoga." Essa afirmação encontra eco na Yoga-Sudhâkara-Candrikâ, que denomina-os "obstruções" (vighna).

Como são esses nove obstáculos em seus detalhes? Para lançar [ti: sobre essa questão, vou fazer uso das afirmações encontradas nos diversos comentários escritos em sânscrito sobre o Yoga-Sûtra.



A DOENÇA (Vyâdhi)
Vyâdhi não é definido pelo autor do Yoga-Sûtra, mas a palavra tem o sentido simples de "doença", "enfermi­dade" ou "distúrbio". É derivada dos prefixos vi e â e da raiz verbal dhâ, a qual significa "desfazer-se", "dis­persar-se". Vyâsa define a palavra como "um desequi­líbrio dos `instrumentos' [isto é, os órgãos dos senti­dos], das secreções ou dos humores". Vâcaspati explica: "Os humores - vento, bile e fleuma - são [assim denominados] porque sustentam o corpo. A secreção é uma modificação especial do alimento ingerido sob a forma sólida ou líquida. Os 'instru­mentos' são os sentidos. Um desequilíbrio deles é uma condição de falta ou excesso." 0 Bhoja-Vritti dá "febre, etc." como exemplo das causas de um tal dese­quilíbrio, e o mesmo se encontra na Candrikâ e no Yo­ga-Sudhâkara. Bhâva Ganesha substitui a palavra shleshma por kapha -ambas significam "fleuma" - e explica karana (instrumento) como "pele, olhos, etc." Sua paráfrase de vaishamya (desequilíbrio) é "perda da essência" (svabhâva-pracyava), ou seja, o abando­no do equilíbrio ou da saúde naturais do corpo. Tam­bém o Yoga-Sudhâkara fala dos três doshas (isto é, os humores ou dhâtus).

Shankara Bhagavatpâda diz: "O desequilíbrio é o estado de desigualdade (vishama-bhâva)." Afirma ain­da que o mesmo desequilíbrio é devido ao "uso exces­sivo de uma ou outra substância, etc." Acrescenta que um dhâtu pode aumentar por si mesmo ou em função de fatores exteriores. Menciona sete tipos de rasa ou secreções ("essências"): plasma (também chamado rasa), sangue (lohita), gordura (medas), carne (mâmsa), osso (asthi), medula (majjâ) e sêmen (shukla). Se­gundo ele, o "desequilíbrio dos instrumentos [senso­riais]" é a cegueira, a surdez, etc. Vijnâna Bhikshu, por sua vez, afirma que quando Vyâsa diz saha iti (jun­to com [as flutuações mentais], deve-se entender não uma simultaneidade completa, mas que Vyâsa igno­rou a diminuta fração de tempo que medeia entre a apresentação de um obstáculo e seus efeitos perturbadores sobre a mente.



A APATIA (Styâna)
Styâna (da raiz verbal styâ, que significa "adensar-se") é a apatia mental. O Yoga-Bhâshya (1.30)a define co­mo a "inatividade da mente". Vâcaspati dá "incapaci­dade para a ação". Vijnâna Bhikshu explica akarma­nyatâ ou inatividade como se segue: "Inatividade é a incapacidade de executar o Yoga. [Muito embora pos­sa haver uma] inatividade do corpo [devida à] consti­pação, etc., [não há] obstrução ao Yoga no que diz res­peito à mente. Por isso [Vyâsa] disse `da mente'." Shankara Bhagavatpâda limita-se a citar o Yoga ­Bhâshya e Bhoja faz o mesmo, ao passo que Bhâva Ganesha e Nâgoji Bhatta seguem a exegese de Vâcaspati Mishra. A Mani-Prâbha diz que "a indolência é uma incapacidade para a ação mesmo quando a mente anseia [por ela]". A Candrikâ diz simplesmente que "indolência é inatividade", ao passo que o Yoga-Sudhâ­kara afirma mais especificamente que "a indolência é a inatividade da mente". Pode-se interpretar esse obs­táculo como a procrastinação, uma forma de inércia mental pela qual as ações necessárias são adiadas.



A DÚVIDA (Samshaya)
Desde as épocas mais remotas, a dúvida foi identifica­da como um dos principais obstáculos a realizam espiritual (O Brihad-Aranyaka-Upanishad (4.4.23) declara que so podemos vir a conhecer a Realidade quando estamos livres da dúvida. 0 Bhagavad-Gitâ (4.40) assevera que a dúvida aflige a pessoa a quem falta a fé (shraddhâ) Os efeitos da dúvida podem ser devastadores e, no fim, autodestrutivos. O Matsya­Purâna (110.10) observa que o indivíduo que alimen­ta dúvidas colhe o sofrimento e não os frutos do Yoga.

0 Yoga-Bhâshya (1.30) explica: "A dúvida é o conhecimento que toca ambos os extremos [de um dilema], como `isto talvez seja assim', `isto talvez não seja assim'." Vâcaspati Mishra diz: "Muito embora isto exista pela permanência na forma, a dúvida e o erro não vêem diferenças entre ambos os extremos, que assim se tocam e não se tocam." Shankara Bhagavatpâda afirma: "A dúvida é a noção que toca nos dois extremos do dilema de saber se [um determinado objeto] é um poste ou um homem." Trata-se de um exemplo clássico do Vedânta para ilustrar a vacilação que a pessoa experimenta no estado de dúvida: vemos algo de longe e não sabemos o que é. Pode ser um poste de madeira ou um ser humano. Nossa vida é repleta dessas incertezas que vêm da percepção, mas mais importantes são as incertezas cognitivas: o Si Mesmo eterno é real ou não é? Sou idêntico ao corpo ou não sou? E assim por diante.



A DESATENCÃO (Pramâda)
O caminho yogue depende por completo da atenção e é inviabilizado pela desatenção ou negligência. O Yoga-Bhâshya (1.30) explica este defeito como "o não-cultivo dos meios do êxtase", o que se pode compreender como uma falta de dedicação. Shankara Bhagavatpâda dá como glosa "falta de persistência".



A PREGUIÇA (Âlasya)
Se styâna é a apatia mental, âlasya é a preguiça devida ao peso do corpo (como o que decorre de se comer demais). Segundo o Yoga-Bhâshya (1.30), é a falta de esforço devida ao peso do corpo e da mente, peso esse que como nos informa Vâcaspati Mishra, decorre da preponderância de fleuma (no caso do corpo) e da presença e tamas (no caso da mente). Essa interpretação, porém, não nos permite distinguir adequadamente âlasya de styâna. Infelizmente, nenhum dos comentários nos esclarece quanto a este ponto.



A DISSIPACÃO (Avirati)
Virati vem da raiz verbal ram, que significa "parar" mas também "deleitar-se em". Virati significa, pois, "cessação", muitas vezes no sentido de "renúncia", mas ao mesmo tempo é estreitamente ligada ao termo rati, que tem o sentido de "prazer sexual". Avirati é, neste caso, o oposto de "cessação", e muitos tradutores optaram pelo termo "dissipação" para transmitir o significado da palavra sânscrita. James Houghton Woods, porém, traduziu-a por “mundanidade", baseando-se para tanto no Yoga-Bhâshya (1.30), que define a palavra como "a cobiça da mente sob a forma do apego às coisas". O mecanismo o apego e da cobiça foi formulado ­há muito tempo no Bhagavad-GYtâ (2.62-63):

Quando um homem contempla os objetos, nasce o apego a eles.
Do apego nasce o desejo e do desejo nasce a ira.

Da ira nasce a confusão. A confusão resulta na per­da da atenção.
A perda da atenção destrói a sabedo­ria. Com a perda da sabedoria, ele perece.

O Bhagavad-Gitâ (2.64) nos fornece também um antídoto contra esse processo: permanecer em meio aos objetos dos sentidos, mas mantendo a mente e os mesmos sentidos sob controle. Na tradição vedântica, o termo uparati (quietude) é usado com freqüência para designar o tipo de desapego que o sábio deve cultivar a fim de superar as emoções e atitudes negativas, das quais a tendência à dissipação (avirati) não é a menos importante.



A FALSA VISÃO (Bhrânti-Darshana)
Muito embora a dúvida seja um obstáculo significativo no caminho yogue e traga consigo um certo sofri­mento emocional (inquietude), ela é potencialmente um trampolim para uma visão e uma certeza mais pro­fundas. A falsa visão, por sua vez, envolve uma (pre­matura) sensação de certeza e, por isso, não partilha da agonia da dúvida; não obstante, é potencialmente mais nociva. Isso porque a falsa visão é essencialmen­te um erro (viparyaya). O Yoga-Bhâshya (1.30) explica que, se um praticante de Yoga incorresse no erro de pensar que um determinado estágio de realização yo­gue já é um grau suficiente, deixaria automaticamen­te de progredir na via espiritual. Só o entendimento claro, ou o que se chama de "discernimento" (viveka), pode nos dar uma orientação confiável no caminho de fio de navalha que leva à libertação.



A NÃO-REALIZAÇÃO DOS ESTÁGIOS (Alabdha-Bhûmikatva)
O progresso no caminho yogue varia de pessoa para pessoa e depende da capacidade psicológica do indi­víduo e, num nível mais profundo, do seu karma. Tudo aquilo que representamos no momento presente, representamo-lo em virtude das nossas volições passadas (expressas ou não no nível físico). Nosso DNA é o produto da somatória de todo o nosso pas­sado kármico, e o mesmo se pode dizer, de acordo com o Yoga, das nossas circunstâncias de vida e das experiências que temos e que se impõem a nós. Uma vez que boa parte daquilo que chamamos "mente" depende das funções cerebrais, e uma vez que o cére­bro é determinado pelo DNA, também a nossa vida mental e determinada em grande medida pelo karma. Se não fosse pela nossa natureza essencial (ou seja, o Si Mesmo ou purusha), que é transcendente e eternamente livre, seríamos simples robôs. Optando constantemente pelo Si Mesmo, pela Consciência Pura, podemos superar nossa carga kármica. A opção pelo Si Mesmo se traduz no cultivo da aten­ção e na desativação dos pensamentos, emoções e atitudes negativas.

Trata-se de um processo gradual que, segundo a filosofia yogue, pode prolongar-se por várias existências e envolver muitas ocasiões de aparente fracasso. A vida é uma escola; se não aprendermos com os nos­sos erros, teremos de fazer várias vezes as mesmas lições. A chave do sucesso no Yoga é a perseverança. Como afirma o Yoga-Sütra (1.13):

... [a prática só] se firma [depois de ter sido] cultiva­da adequadamente e ininterruptamente por muito tempo.

Os que ainda não adquiriram a energia e a determinação necessárias são incapazes de alcançar o nível seguinte do processo espiritual. Além disso, uma súbita irrupção de karma - talvez sob a forma de uma doença ou de outra adversidade - pode impedir o praticante de Yoga de seguir em frente.

O Yoga-Sutra (1.30) reconhece a incapacidade de alcançar o estágio seguinte de crescimento interior como um dos nove obstáculos. O Yoga-Bhâshya (1.30) nos diz que por "estágios" (bhûmi) entendem-se aqui os quatro estágios descritos mais adiante por Vyâsa em seu comentário (3.51): 1) prathama-kalpika (fase inicial), (2) madhu-bhûmika, que o Yoga-Bhâshya (1.30) também denomina madhu-matî (melíflua), (3) prajnâ-jyotis (luzda sabedoria) e (4) atikrânta-bhâvaniya (no processo de transcender [todas as coisas]).

O prathama-kalpika-yogin é o praticante (abhyâsin) para quem a luz interior está apenas nascendo. O madhu-bhûmika-yogin játem a sabedoria portadora da verdade (ritam-bharâ prajnâ) mencionada no Yoga-Sû­tra (1.48), que é doce e preciosa como o mel. O prajnâ-jyotir-yogin detém o pleno controle dos órgãos do corpo e dos elementos e é perfeitamente capaz de realizar o estágio restante. O atikrânta-bhâvaniya-yogin transcende todas as coisas e tem como único objetivo a resolução (pratisarga) da mente no âmago transcen­dente da Natureza (prakriti).

Para complicar um pouco as coisas, o Yoga-­Bhâshya (1.1) também aplica, como notamos acima, o termo bhûmi aos níveis de atividade mental, e por isso se torna legítimo perguntar a qual conjunto de estágios ele se refere. Como Patanjali não é específico, a não-realização de um determinado estágio ou a instabilidade em um estágio pode se referir a qualquer estágio ou tipo de estágio. Por outro lado, não se pode duvidar de que o autor do Yoga-Bhâshya (1.30) tem em mente os quatro níveis especificados acima.



A INSTABILIDADE (Anavasthitatva)
Se alcançar um determinado estágio do Yoga é difí­cil, mais difícil ainda, para a maioria dos pratican­tes, é permanecer no estágio já alcançado. Quanto mais elevado o estágio (bhûmi), tanto mais energia (compromisso, unipontualidade, etc.) é necessária para alcançá-lo e conservá-lo. O folclore do Yoga (especialmente o relatado nos Purânas) é repleto de histórias de yogins que, depois de alcançar altos graus espirituais, caíram calamitosamente por apego ou orgulho. Até a realização da libertação, não existe um estágio seguro. Anavasthitatva é a negação de avasthitatva (estabilidade), palavra formada do pre­fixo ava, da raiz verbal sthâ (estar, permanecer) e do sufixo tva ("dade"). Todo o Yoga pode ser visto como um esforço para se alcançar a estabilidade em meio às infindáveis flutuações (vritti) e transformações (parinâma) da Natureza. A estabilidade supre­ma só se encontra no Si Mesmo transcendente, do qual se diz que possui aparinâmitva ou "imobilidade" ou constância.

Patanjali não se contenta em listar os nove obstáculos; no Yoga-Sûtra (1.31), diz ainda o seguinte:

A dor, a depressão, o tremor dos membros e [os erros e] inalação e
exalação são [sintomas] associados às distrações.

Quando, pela desatenção ou pela frutificação do karma, o praticante depara com um ou mais dos nove obstáculos, eles freqüentemente têm repercussões desagradáveis. Patanjali especifica estas quatro: a dor, a depressão, o tremor dos membros e os erros de respiração.



A DOR (Duhkha)
O Yoga é feito para ajudar o praticante a superar o sofrimento (duhkha). Não obstante, quando ele é vitimado por qualquer um dos obstáculos, sua experiência de dor ou sofrimento não diminui, mas aumenta. AV palavra duhkha é composta de dur (mau) e kha (espaço/cubo da roda) e significa literalmente um "mau cubo da roda", ou seja, uma roda que não está nos eixos. O oposto de duhkha é sukha, derivado de su (bom) e kha. Uma tradução contemporânea seria "espaço bom". O sentido da palavra sukha no dicioná­rio é "alegria", "facilidade" ou "prazer". Todos os nove obstáculos tendem a gerar a dor ou o sofrimento. Na verdade, ligam-se inextricavel mente a uma mente que experimenta uma limitação e, portanto, sofre. Na doença, duhkha pode manifestar-se no nível corpóreo, mas provavelmente também no nível mental. Ou senão o praticante de Yoga pode cair vítima da dúvi­da, que traz consigo seu próprio sofrimento. A apatia tem conseqüências dolorosas, e o mesmo se pode dizer da desatenção, da preguiça e da dissipação. Tam­bém não é difícil ver como o fato de não se alcançar um determinado estágio ou de perder o grau já atingi­do podem acarretar muito sofrimento.

O Yoga-Bhâshya (1.31) diz que a dor ou sofrimento (duhkha) é de três tipos: (1) âdhyâtmika causada pelo próprio ser, (2) âdhibhautika - causada por outros seres, e (3) âdhidaivika - causada pelas divinda­des ou por forças naturais.



A DEPRESSÃO (Daurmanasva)
Quando um praticante depara com um ou mais obs­táculos, tem dificuldade para cultivar uma atitude positiva. Muitas vezes o yogin ou a yoginî ficam desencorajados e entram em colapso emocional, como aconteceu com Arjuna no campo de batalha, embora estivesse acompanhado de seu guru, o Senhor Krishna (ver a descrição no Bhagava-Gitâ). Arjuna foi tomado de compaixão (kripâ) por seus parentes e sofreu com a possibilidade de ter de vir a exterminá-los. Krishna admoestou o príncipe a que deixasse de lado seu pesar (shoka), não sucumbisse ao apego (râga) e à fraqueza de coração (hridaya-daurbalya) e não caísse no "estado de um eunuco" (klaibya). Em última análise, o desânimo (vishâda) ou o que Patanjali chama de depressão (daurmanasya) são formas de autocomiseração e resumem-se a uma incapacidade de praticar a transcendência de si mesmo.



TREMOR DOS MEMBROS (Angam-Ejayatva)
O Bhagavad-Gitâ (1.29) diz que Arjuna tremeu diante de seu dilema. Também a raiva nos faz tremer, e a mesma coisa acontece, na verdade, sempre que o nos­so sistema nervoso é excessivamente estimulado. Assim, o tremor dos membros é a manifestação externa da agitação mental (kshobha).



OS ERROS DE INALAÇÃO E EXALAÇÃO (Shvâsa-Prashvâsa)
Os comentários tradicionais compreendem o termo composto shvâsa-Prashvâsa simplesmente como a respiração involuntária que acontece toda vez que não praticamos o controle deliberado da respiração (prânayâma). Parece, porém, que Patanjali tinha outra coisa em mente: aquele tipo de respiração irregular que acompanha a agitação mental e que podemos caracte­rizar como um "erro" de respiração. A palavra "erro" não se encontra no Yoga-Sútra, mas, pelo contexto, parece implicada no composto shvâsa-prashvâsa.

Os nove obstáculos podem ser resolvidos direta­mente no nível da mente. Mesmo assim, as intervenções que partem do corpo como uma dieta correta e um programa adequado de exercícios - podem colaborar. Porém, para fazer uso desses remédios físi­cos, já temos de ter um certo grau de visão correta (samyag-darshana). As muitas práticas do Yoga constituem um todo integrado, mas sempre é preciso começar por algum lugar. Felizmente, a tradição yo­gue nos oferece muitas opções para dar o primeiro passo e, depois, cultivar diligente e perseverantemen­te nossa prática espiritual.



Fonte: Livro – Tradição do Yoga - Cultrix

Espiritualidade e Natureza - (Dalai Lama)


Penso que vocês vieram aqui com alguma expectativa, mas essencialmente eu nada tenho a oferecer-lhes. Quero simplesmente tentar compartilhar algumas de minhas próprias experiências e meus pontos de vista. Cuidar do planeta não é algo especial, algo sagrado, ou algo santo. É como cuidar de nossa própria casa. Não temos outro planeta ou casa a não ser este. Embora haja tantas perturbações e problemas, a nossa única alternativa é esta. Não podemos ir para outros planetas. Veja a lua, por exemplo, ela parece ou surge belamente à distância, mas se for viver lá, será horrível. E isto que eu penso. Então, o nosso planeta azul é muito melhor e mais feliz. Portanto, precisamos cuidar de nosso próprio canto, ou casa, ou planeta.
Afinal, o ser humano é um animal social. Freqüentemente digo aos meus amigos que eles não precisam estudar filosofia, estes assuntos profissionais complicados. Só de olhar estes animais, insetos, formigas, abelhas, etc. inocentes, eu desenvolvo com freqüência algum tipo de respeito por eles. Como? Porque eles não têm qualquer religião, qualquer constituição, qualquer força policial, nada. Mas vivem em harmonia através da lei natural da existência, ou da lei ou sistema da natureza.

O que há de errados em nós, seres humanos? Nós humanos temos inteligência e sabedoria humana. Penso que freqüentemente usamos a inteligência humana de maneira errada ou na direção errada. Como resultado, de certa forma, estamos fazendo certas ações que essencialmente vão contra a natureza humana básica.

De certo ponto de vista, a religião é, um pouco, um luxo. Se você tiver uma religião, ótimo; até sem religião você pode sobreviver e consegue manejar, mas sem afeto humano não consegue sobreviver.

Embora a raiva e o ódio, como compaixão e amor, sejam parte de nossa mente, eu ainda acredito que a força dominante de nossa mente é a compaixão e o afeto humano. Portanto, normalmente chamo estas qualidades humanas de espiritualidade, não necessariamente no sentido de uma mensagem religiosa ou religião. Ciência e tecnologia junto com afeto humano serão construtivas. Ciência e tecnologia sob o controle do ódio serão destrutivas.

Se praticarmos a religião corretamente, ou com sinceridade, podemos ver que a religião não é algo fora de nós, mas algo que está em nossos corações. A essência de qualquer religião é um bom coração. Às vezes chamo amor e compaixão de religião universal. Esta é minha religião. Uma filosofia complicada, isto ou aquilo, às vezes cria mais transtornos e problemas. Se estas filosofias sofisticadas forem úteis para o desenvolvimento do bom coração, então isto é bom: use-as inteiramente. Se estas filosofias ou sistemas complicados se tornarem um obstáculo para o bom coração, então é melhor deixá-las de lado. É assim que eu sinto.

Se olharmos atentamente para a natureza humana, vemos que o afeto é a chave para o bom coração. Penso que a mãe é um símbolo da compaixão. Todos nós temos uma semente do bom coração. O que importa é se cuidamos ou não de realizar o valor da compaixão.

(Um discurso feito no quarto dia do Simpósio Ecumênico de Middlebury sobre religião e o meio ambiente, Universidade de Middlebury, Vermont, EUA, de 14 de setembro de 1990. Traduzido por Marly Ferreira.)



Fonte: http://www.dalailama.org.br/

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Oração ao Sol - (Carlos Cardoso Aveline)

Brota botão ... - (Tagore)


Brota botão, e floresce!

Explode teu coração, e desabrocha!

Fostes surpreendido pelo espírito

que abre todas as coisas.

Poderás continuar sendo apenas um botão?

Primeiro seja - (Osho)


Um homem foi a Buda e disse: "Eu tenho muito dinheiro. Tenho muito poder." Ele era um dos homens mais ricos daquela época. E ele disse: "Apenas me diga como servir às pessoas, como servir à humanidade."

E diz-se que Buda ficou muito silencioso. Ele fechou os olhos. O homem estava perturbado, confuso. Ele ficou irrequieto. Ele perguntou:" por que você fechou seus olhos, e por que está tão triste?"

Buda abriu os olhos e disse: "Sinto uma grande compaixão por você. Você quer servir à humanidade e você não é. Seja, primeiro!"

Essa é a exigência básica: primeiro seja! Entregando-se, pela primeira vez você atinge aquele estado de ser. Você entrega tudo o que não é, você entrega apenas o falso, você entrega apenas a persona, você entrega apenas a máscara, você entrega aquilo que pensa que tem, mas não tem, você obtem aquilo que já tem e que sempre teve. O falso tem apenas de desaparecer para que o real seja revelado. Isso é crescimento.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Confia - (Chandra Lacombe)

"A Voz do Conhecimento" - capítulo 9 - (Dom Miguel Ruiz)


Transformar o Contador de Histórias
Os Quatro Compromissos como ferramentas favoritas




“Você viu como criar uma realidade virtual, o sonho de sua vida, e sabe que sua vida é uma história. Agora, com esta consciência, a questão é: você está satisfeito com sua historia? É importante entender que você pode ser o que quiser, já que você é o artista, e sua vida é criação sua. É sua história. É sua comédia ou sua tragédia, e de uma forma ou de outra a história fica mudando, então por que não usar a consciência para conduzir a mudança?

Agora que você é um artista com consciência, poderá avaliar se gosta da sua arte e melhora-la. A prática faz o mestre. Mas é a ação que faz a diferença. Quando descobri isso, a ação que empreendi foi assumir responsabilidade por minha arte e purificar meu programa. Na qualidade de artista comecei a investigar as possibilidades – cada ação e cada reação. E, a propósito, esta é a nossa verdadeira natureza: investigar. Mas investigar o quê? A vida! O que mais poderíamos investigar?

Mudar a própria historia de vida é o que os toltecas chamam de o domínio da transformação. Envolve a transformação do próprio individuo, o contador de historias, o sonhador. A vida muda muito depressa, e você se percebe em constante transformação, mas só tem domínio sobre ela quando deixa de resistir à mudança. Em vez de resistir você tira partido da mudança e se alegra com ela.

Dominar a transformação é viver o tempo todo no momento presente. A vida é um eterno agora, pois a força da vida está criando tudo nesse exato momento, e transformando tudo neste exato momento.

Como você mudará sua história? Bem, agora você sabe que a está criando de acordo com as crenças que tem sobre si. A forma de transformar o que você acredita sobre si é desaprender o que já aprendeu. Quando você desaprende recupera sua fé, amplia seu poder pessoal e pode investir sua fé em novas crenças."

Se quiser saber a verdade, se está disposto a retirar sua fé das mentiras, então lembre-se: não acredite em si e não acredite nos outros. Isso lhe dará clareza sobre muitas coisas. Mas você talvez precise de um pouco de apoio para deixar de acreditar nas mentiras e romper com todos os compromissos que lhe prejudicam.

Os Quatro Compromissos oferecem o apoio necessário.

Eles se destinam exatamente a você, o personagem principal de sua história. Esses compromissos simples podem conduzir você pelo caminho inteiro até alcançar sua integridade:

Seja impecável com sua palavra.

Não leve nada para o lado pessoal.

Não tire conclusões.

Dê sempre o melhor de si.


Muitas ferramentas podem lhe ser úteis para mudar sua historia, mas os Quatro Compromissos são minhas ferramentas de transformação favoritas. Por quê? Porque têm o poder de ajudar você a desaprender as diversas maneiras que aprendeu de usar a palavra em detrimento de si mesmo. Com a mera adoção desses compromissos você desafia todas as opiniões que não passam de superstições e mentiras. Seja impecável com sua palavra porque você usa a palavra para criar sua historia. Não leve nada para o lado pessoal porque você vive em sua própria história e as outras pessoas vivem nas histórias delas. Não tire conclusões porque na maioria das vezes elas não correspondem à verdade; elas são ficção, e quando o contador de historias inventa histórias – especialmente sobre outros contadores de histórias - isso cria muita dramaticidade. Dê sempre o melhor de si porque isso evita que a voz do conhecimento julgue você, e ao empreender ação você evita que a voz lhe fale.


O contador de histórias, o mentiroso em sua mente, lhe faz usar sua própria palavra contra si.

Ele induz você a levar tudo para o lado pessoal, tira muitas conclusões e impede você de dar o melhor de si.

O primeiro compromisso, seja impecável com sua palavra, é o supremo compromisso porque ajuda você a reconhecer todas as mentiras que governam sua vida.

Ser impecável é usar o poder de sua palavra na direção da verdade e do amor.

Já os três compromissos restantes são mais um apoio ao primeiro compromisso – eles são a prática que faz o mestre – porém o objetivo é o primeiro compromisso.

Pela prática dos Quatro Compromissos você chega a um momento em que vivencia a verdade e sua reação emocional é incrível.

Escrevi um livro sobre os Quatro Compromissos e tentei mante-los com a máxima simplicidade possível. O livro talvez lhe traga a sensação de já saber sobre os compromissos. E isso é verdade, porque os compromissos se originam do verdadeiro você, e o verdadeiro você é também e exatamente o verdadeiro eu.

Seu espírito está lhe dizendo a mesma coisa, e é questão de puro bom senso. O livro é uma mensagem de amor. É como um portão aberto que lhe levará pelo caminho até o verdadeiro você, que, no entanto, é exatamente quem precisa fazer o percurso. Você precisa ter a coragem de aplicar as ferramentas para se encontrar e recriar sua própria historia à sua maneira. Você pode transformar sua historia inteira mediante a simples pratica dos Quatro Compromissos. Vamos examinar de perto cada um deles.

O primeiro compromisso, seja impecável com sua palavra, significa que na criação de sua historia você nunca usa contra si o poder da palavra. Impecável significa “sem pecado”.

Qualquer coisa que induza você a agir contra si é um pecado.

Quando você acredita em mentiras, está usando contra si o poder da palavra.

Quando acredita que ninguém lhe quer bem, que ninguém lhe entende, que você nunca vencerá, está usando a palavra contra si.

Neste mundo, muitas filosofias tiveram conhecimento do fato de que as mentiras são uma distorção da palavra, e algumas tradições chamam de perversidade essa distorção.

Prefiro dizer que estamos usando a palavra contra nós, porque quando nos julgamos e nos consideramos culpados não chamamos a isso perversidade.

Quando nos rejeitamos e nos tratamos pior do que a nossos animais de estimação não chamamos a isso perversidade.

Quando você é impecável, nunca fala contra si, não tem crenças que lhe sejam prejudiciais e não ajuda outros a agirem contra você.

Ser impecável significa que você não usa contra si seu próprio conhecimento, e não permite que a voz em sua mente cometa abuso contra você. Talvez agora o primeiro compromisso, seja impecável com sua palavra, faça um pouco mais de sentido.

Você usa a palavra para criar o principal personagem de sua historia.

Cada opinião pessoal, cada crença se expressa em palavras: “Eu sou inteligente, eu sou burro. Eu sou lindo, eu sou feio.” Isto é poderoso.

Mas sua palavra é ainda mais poderosa, porque ela também representa você na interação com outros sonhadores.

Cada vez que você fala, seu pensamento se transforma em som, seu pensamento se transforma na palavra, e agora pode entrar nas mentes dos outros.

Se as mentes deles são férteis para aquele tipo de semente, eles a devoram e agora o pensamento também vive dentro deles.

O mundo é uma força que você não pode ver; mas pode ver a manifestação da força, a expressão da palavra, que é sua própria vida.

Você mede como usa a palavra pela sua reação emocional.

Como saber quando está usando a palavra de forma impecável? Bem, quando você está feliz.Quando se sente bem consigo mesmo.Quando sente amor.

Como saber quando está usando a palavra contra si? Ora, quando você está sofrendo por causa da inveja, da raiva, da tristeza. Qualquer tipo de sofrimento é o resultado do mau uso da palavra; é o resultado da crença em conhecimento contaminado por mentiras.

Se limpar a palavra, você recupera a impecabilidade dela e nunca se trai.
Assumir o compromisso de ser impecável com sua palavra é o quanto basta para voltar ao paraíso que os humanos perderam. É o quanto basta para levar você de volta à verdade e para trsnformar sua história inteira. Seja impecável com sua palavra. É muito simples.


O Segundo Compromisso
O segundo compromisso, não leve nada para o lado pessoal, lhe ajuda a desfazer as numerosas mentiras com as quais concordou em acreditar.

Quando você leva as coisas para o lado pessoal, reage e sente magoa, e isso cria um veneno emocional. Então você deseja vingança, deseja uma desforra, e usa a palavra contra os outros.

Agora você sabe que, seja lá o que for que alguém projete em você, é apenas como um Picasso dizendo: “Isto é você.” Sabe quer é apenas o contador de história daquela pessoa, simplesmente contando uma historia a você.

Não levar nada para o lado pessoal lhe traz imunidade ao veneno emocional em todas as relações.

Você já não perderá o controle ao reagir por ter recebido uma ferida emocional. Isto lhe dará clareza, o que coloca você um passo adiante de outras pessoas incapazes de ver suas próprias historias.

O segundo compromisso orienta você a demolir centenas de pequenas mentiras, até atingir o núcleo de todas as mentiras em sua vida.

Quando isso acontece a estrutura completa do conhecimento desmorona, e você tem uma segunda chance de criar uma nova historia, a seu estilo.

A isso os toltecas chamam perder a forma humana. Quando você perde a forma humana, tem a oportunidade de escolher aquilo em que acreditar, segundo sua integridade.

Na infância, você usou a atenção para criar o primeiro sonho de sua vida. Você nunca teve oportunidade de escolher no que acreditar; tudo com o que você se comprometeu em acreditar lhe foi imposto.

Agora tem uma oportunidade que não teve quando criança – você pode usar sua atenção pela segunda vez, para fundamentar sua historia na verdade, em vez de baseá-la na mentira.

Os toltecas chamam a isso o sonho da segunda atenção. Eu o chamo a sua segunda historia porque continua a ser um sonho, ainda é uma historia! Mas agora a escolha é sua.

Quando você perde a forma humana, sua vontade fica livre novamente. Você recupera o poder da fé e não há limite para o que fazer com ela. Você pode recriar sua vida em grande estilo, se assim desejar.

Mas o objetivo não é salvar o mundo. Não, a única missão que você tem na vida é fazer feliz a si mesmo.

A questão é muito simples. E a única forma de se fazer feliz é criar uma historia que lhe faça feliz.

Qualquer um de nós está sujeito a que lhe aconteça qualquer coisa. Você não pode controlar o que está acontecendo ao seu redor, mas pode controlar a forma como conta a historia.

Você pode narrar a historia como um grande melodrama, e ficar triste e deprimido com tudo o que lhe acontece, ou pode narrar a historia sem todo esse drama.


Terceiro Compromisso
O terceiro compromisso, não tire conclusões, é um verdadeiro salvo-conduto para a liberdade pessoal. O que acontece quando tiramos conclusões? O contador de historias está inventando uma historia, acreditamos nela e não conseguimos fazer as perguntas que poderiam lançar alguma luz sobre a verdade. A maior parte de nosso sonho se apóia em pressupostos, e estes criam um mundo inteiro de ilusão, no qual acreditamos, apesar de não ser absolutamente verdadeiro.

Fazer suposições e leva-las para o lado pessoal é o começo de uma situação infernal neste mundo. Os seres humanos criam muitos problemas porque fazem suposições e acreditam que estas sejam verdadeiras! Nisso se baseiam quase todos os conflitos.

Ter consciência é ver o que é verdade, ver tudo tal qual é, e não como desejamos que seja, para justificar aquilo em que já acreditamos. O domínio da consciência é a primeira maestria dos toltecas, mas também podemos chama-la o domínio. Primeiro você precisa ter consciência de que a voz em sua mente está sempre lhe contando uma historia. Você está sonhando o tempo todo.

De fato, você percebe, mas a forma como o contador de historias justifica, explica e faz suposições sobre aquilo que você percebe não é verdade - é apenas uma historia.

Em seguida, você precisa ter a consciência de que a voz do contador de historias em sua mente não é necessariamente sua. Todos os conceitos em sua mente têm uma voz que deseja se expressar. É o sonho. É apenas uma historia que procura atrair sua atenção e justificar a própria existência. A outra parte de você, a parte que está escutando, aquele que está sonhando o sonho é vitimado pelo abuso.

Por fim, você precisa praticar a consciência até adquirir domínio sobre ela. Quando domina a consciência como um hábito, você passa a ver a vida como ela é, e não como deseja vê-la.

Você pára de tentar colocar as coisas em palavras, de explicar tudo a si mesmo, o que lhe impede de sair tirando conclusões. Só usa a palavra para se comunicar com os outros, sabendo que aquilo que está comunicando não passa de um ponto de vista fundamentado no que você acredita. E aquilo em que você acreditaé só um programa; nada além de idéias que são, na maioria, mentiras. É por isso que você precisa ouvir e fazer perguntas. Com uma comunicação clara, receberá das pessoas todas as informações de que necessita, e já não precisará tirar conclusões.


O Quarto Compromisso
O quarto compromisso é sempre dê o melhor de si. Quando você dá o melhor de si, não deixa que a voz do conhecimento julgue você. Se a voz não julga você, não há necessidade de sentir culpa ou de se punir. Ao dar o melhor de si, você será produtivo, o que significa que agirá. Dar o melhor de si envolve agir e fazer o que se ama, pois a ação nos traz felicidade. Você está fazendo porque quer fazer, e não por ser forçado a tal.

Os melhores momentos de sua vida são aqueles em que você é autentico, em que está sendo você mesmo.

Quando está em sua criação, está fazendo o que ama, torna-se de novo aquilo que realmente é. Não está pensando naquele momento – você o está expressando.

Quando você dá o melhor de si em sua criação, a mente pára. Você está vivo de novo. Suas emoções vão brotando e você nem percebe o quanto se sente bem. A simples ação lhe faz sentir bem-estar.

Quando você está inativo, sua mente precisa entrar em ação, o que representa um convite aberto à voz do conhecimento para que fale com você. Mas quando você é absorvido pelo que está fazendo, a mente quase não fala.

Quando você está criando, a voz do conhecimento não está presente, mesmo que em sua arte você esteja usando palavras. Se você está escrevendo um poema, não está pensando sobre as palavras que usará para escreve-lo; está simplesmente expressando suas emoções. As palavras são um instrumento; são o código que voe usa para se expressar. Se você é um musico que está tocando, não há diferença entre você e a música. No exato instante em que está criando a música, é você quem está desfrutando cada nota, cada som. Você se torna um só com o que está fazendo, o que é um prazer supremo. Qualquer músico sabe do que estou falando. Você está expressando aquilo que você realmente é, o que constitui a melhor coisa que pode acontecer a alguém. Somente por meio de sua expressão você atinge o êxtase, porque está criando.
Isso é a vida como a arte.

Dar o melhor de si envolve confiar em si e confiar na Criação, a força da vida. Você estabelece uma meta e se lança nela integralmente, sem nenhum apego a sua obtenção. Você não sabe se conseguirá atingir a meta, e tampouco se preocupa. Você se empenha na meta e alcança-la é maravilhoso. E se não alcançar, será também maravilhoso. Seja como for, você está completo, porque o amor em movimento é uma coisa maravilhosa. Empreender ação é uma expressão de si mesmo, é a expressão do espírito e sua criação.



Incentivo a você a assumir a responsabilidade de cada decisão tomada em sua vida. Nenhuma decisão é certa ou errada; o que importa é a ação posterior à escolha feita.

Tudo na vida é só uma escolha. Você controla o sonho por meio de escolhas. Cada escolha tem uma conseqüência, e um mestre dos sonhos está consciente das conseqüências.

Também podemos dizer que para cada ação experimentamos uma reação. Se seu conhecimento é a ação, e suas emoções são a reação, então você pode ver a importância de estar consciente da voz do conhecimento.

A voz do conhecimento está sempre sabotando a felicidade do individuo. Nos momentos mais felizes de sua vida você está brincando, está agindo como uma criança. Mas a voz penetra em sua mente e diz: “Isto é bom demais para ser verdade. Vamos botar o pé no chão e voltar à realidade.” E a realidade de que a voz do conhecimento está falando se relaciona ao sofrimento.

A vida pode ser maravilhosa. Se você se ama, se procura dar o maximo de si, isso em breve se transforma em hábito. Quando você cria o hábito de dar o maximo de si, tudo se conjuga para sempre lhe deixar feliz, exatamente como nos tempos de criancinha. Mas primeiro você precisa silenciar o dialogo interno. Este é um dos maiores milagres que qualquer ser humano pode vivenciar. Se você conseguir impedir a voz de falar com você, então estará quase livre de ser alvo do abuso de todas as mentiras.


A Voz do Conhecimento
Já me perguntaram se incentivo o uso de um mantra para eliminar o dialogo interno. Bom, incentivo a você a usar qualquer truque de que disponha para interromper o falatório. Não há receita. Você pode explorar uma infinidade de maneiras até descobrir a mais apropriada. Para alguns, um mantra pode ser a solução milagrosa. Para outros, a meditação, a contemplação ou a musica podem ser a operação de um milagre. Para outros ainda, o milagre poderia ser caminhar ao ar livre ou viver cercado de beleza natural. Poderia ser dançar, fazer ioga, corrida, natação ou qualquer exercício. Você decide.

Quando eu era adolescente, meu avô me disse: "A música é a solução para interromper a voz em minha mente. Substituas a voz pela musica, porque esta você não pode explicar. Como poderia explicar a Quinta Sinfonia de Beethoven? Você pode usar as opiniões que tem dela, mas não pode explica-la. Você precisa tocá-la..."

Entendi o que meu avô dizia, porém eu não gostava de música. Meu avô gostava de música clássica, portanto recusei completamente aquele método. Retruquei: “ Não concordo. Música é um tédio”. É claro que, de toda forma, eu ouvia música, mas a música de que gostava era a dos Beatles. Bem, as letras eram escritas em inglês, e na época eu só falava espanhol. Eu sabia cada palavra das canções, mas as palavras não tinham significado para mim. Se naquelas canções havia algum sentimento dramático, eu não o percebia como tal; eu o percebia como beleza.

E em meu caso, realmente dava certo ouvir os Beatles, pois as vozes funcionavam exatamente como um instrumento a mais, e a música ocupava o espaço da voz do conhecimento. Em certos momentos a voz estava presente, mas em outros não havia voz. Eu gostava tanto da música que em minha cabeça só havia música, quando eu não estava colocando a atenção em qualquer outra coisa. Comecei a fazer isso sem consciência porque mesmo tendo ouvido o que disse meu avô, eu tinha formado a suposição de que ele estava falando sobre música clássica!

Ora, a música pode ser tambores, trombetas ou qualquer tipo de instrumento, desde que não haja palavras em língua que você conheça, palavras que lhe podem prender a atenção.

O problema é quando a música tem palavras de significado claro para você, o que lhe permite pensar nelas.

Há muitas formas de silenciar a mente, e basta coloca-las em prática; mas, do meu ponto de vista, a melhor forma é usar os Quatro Compromissos. Eles têm o poder eliminar milhares de pequenos compromissos que agem contra você, porém não são tão simples quanto podem parecer. Muita gente diz: “Entendo os Quatro Compromissos, e eles estão mudando a minha vida, mas depois de certa altura não consigo continuar o avanço.” Se você não consegue avançar naquele momento é porque está enfrentando uma crença forte. E a fé investida naquela crença é mais forte do que a fé de que você dispõe para muda-la. Por isso é importante que a recuperação de sua fé seja praticada por intermédio de pequenas crenças, após as quais você poderá enfrentar as crenças maiores.

Cada vez que você pratica os Quatro Compromissos, o significado deles se aprofunda um pouco mais.
Quando lê o livro Os quatro compromissos pela segunda vez, ou pela terceira, em certo momento a sensação é de estar lendo um outro livro. A sensação se deve ao fato de você já ter rompido muitos pequenos compromissos. Agora você pode ir um pouco mais fundo, e depois um pouco mais, até chegar ao momento em que terá aberto seus olhos espirituais. Quando finalmente você se transforma, sua vida se torna uma obra prima do sonho, uma expressão de seu corpo emocional, exatamente como ela foi antes do conhecimento.

O fantasma do desamor - Maria Silva Orlovas


É impressionante a quantidade de gente que sofre por amor. Parece que o amor é o maior bem que podemos alcançar nessa vida, mas também é o maior sofrimento que uma hora ou outra enfrentamos.

Quem ainda não sofreu por amor, infelizmente, ainda sofrerá. Isso é um fato. E até aí acho normal, porque de uma forma ou de outra sempre passaremos por uma situação de incompreensão afetiva. Pode ser que tenhamos vivido isso na infância ou adolescência, em nossa família, ou com amigos e colegas, ou na vida amorosa com nossos pretendentes e parceiros. O fato é que o desamor nasce da incompreensão. O sentimento de desamor acompanha ou ressoa quando nos sentimos incompreendidos e, infelizmente, muitas vezes somos incompreendidos.

Muitos dos meus clientes acham que o desamor nasceu na infância, quando foram deixados de lado pelos pais, ou quando foram muito cobrados, ou ainda incompreendidos. Algumas pessoas carregam esses sentimentos até a idade madura e não há nada mais triste do que ver um adulto, pai de família, auto-suficiente financeiramente preso a situações da infância. Muito triste mesmo, porque uma pessoa com estes traços acaba maltratando todos os outros que passarem por sua vida, num processo inconsciente de vingança.

Percebo que a maioria das pessoas que sofre por amor quer descontar o desgosto em alguém. Veja, amigo leitor, que se trata de um processo inconsciente. A pessoa não percebe que está fazendo isso, mas quando se apaixona, ou simplesmente começa uma amizade, carrega todo o ranço do desamor consigo. Assim, vem para essa nova história totalmente carente, coloca a nova pessoa na sua vida de forma rápida, sem muito critério, transforma sapos em príncipes e depois desmorona quando descobre quem é o outro.

Embalada no sofrimento não dá tempo ao tempo. Não se permite olhar para ver quem é a pessoa que está chegando em sua vida. Faz julgamentos apressados e cai constantemente na decepção. Tudo isso porque não se sentiu amado, aceito na infância. Será?

Em se tratando de um entendimento mental/emocional/espiritual nada é assim tão linear.

Sempre pergunto para meus clientes o que vem primeiro: o ovo ou a galinha. Espiritualmente, aprendemos que nascemos nos ambientes compatíveis com a nossa vibração (lei da atração). Também sabemos que podemos mudar tudo isso, mas não se trata de um processo mental, porque, afinal todos queremos ser amados, compreendidos, ter saúde, sucesso profissional. O que muda é abrir a mente e o coração.

Como ensina a oração de São Francisco, precisamos amar mais do que esperamos ser amados. E o lindo dessa história é que no momento que amamos de forma ampla, altruísta, fazemos isso porque começamos a compreender melhor o próximo e deixamos de julgar de forma prematura, ou desesperadoramente carente, pois estamos descobrindo que o amor nos faz muito bem, pelo sentimento de oferecer. Assim, naturalmente, vamos nos aproximando de pessoas que também estejam nessa busca de se melhorar, entender e amar.

O passado nos abre para essa compreensão e mostra que a cura do desamor começa em nós.


Fonte: Núcleo de Yoga Shanta - http://www.shanta.com.br/

domingo, 9 de maio de 2010

Que mãe é essa? - (blog "A Grande Fraternidade Branca Universal")


"Tem bicho mais estranho do que mãe?
Mãe é alma contraditória.
É alegria no choro.
É carinho na raiva.
É o sim no não.

Só mãe mesmo pra ser o oposto...
E depois o contrário de novo.

Vai ver que é porque filho não vem com manual de instrução. e pra conduzir as crias no mundo, ela usa só de intuição, pra tentar fazer tudo direito.

Mas como pode ser assim, tão incoerente?

Ela diz:
Filho, você não come nada...
E logo se contradiz:
Para de comer, que eu estou botando o jantar!

E aí ela lamenta:
Ai, que eu não vejo a hora desse menino crescer!
Mas logo se arrepende:
Deixa que eu faço, você ainda é uma criança...

E quando ela manda:
Tira essa roupa quente, menina!
E logo em seguida:
Veste o casaco, quer pegar um resfriado?

Esse menino dorme demais...
Esse menino não descansa...

Essa menina vive na rua!...
Filha, sai um pouquinho, vai pegar um sol...

Pois é, gente, que pessoa é essa que jura que nunca mais...
E no momento seguinte promete que vai ser pra sempre?

Essa pessoa é assim mesmo:
Igual e diferente de tudo o que a gente já viu.
É a fortaleza que aguenta o tranco, só pra não ver o filho chorar.
É o sorriso de orgulho escondido, só pra não se revelar.

Mãe dá uma canseira na gente.
E às vezes tira do sério...

Até que um dia a gente se depara com uma ausência insuportável:
É a mãe que vai embora, deixando um vazio enorme, escuro, silencioso.
E aí descobre que, mesmo errando, ela sabia de tudo, desde o início.
E fez de tudo pra acertar.
Porque criar filho não tem regra - é doação e amor simplesmente.

Então, se você tiver privilégio de abraçar sua mãe nesse segundo domingo de maio, agradeça, porque o presente é seu. E esteja certo:
Mesmo sem manual de instrução, ela continua aí, atrapalhada, contraditória...
Mas com o olhar atento, querendo entender como você funciona.
E fazendo de tudo pra você não falhar.

Feliz dia das mães!"


Fonte: "A Grande Fraternidade Branca Universal" - http://agrandefraternidadebrancauniversal.blogspot.com/2010/05/que-mae-e-essa.html

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Como dar vida às nossas vidas - As Transformações Começam Conosco - (Monja Coen)


"Há um antigo ditado japonês:
"Se houver relacionamento, faço; se não houver relacionamento, saio".
Um Mestre Zen, no final do século passado, fez a seguinte alteração:
"Havendo relacionamento, faço; não havendo, crio relacionamento".

Essa mudança de paradigma é extremamente importante. Devemos também lembrar que criar um relacionamento não significa, necessariamente, obter resultados imediatos, embora muitas vezes estes ocorram.

Novos relacionamentos em padrões antigos perdem seu significado. Precisamos criar relacionamentos a partir de novas maneiras de nos relacionar, de ver o mundo, de ser, de inter ser. Essa nova maneira pode, inclusive, recarregar de energia positiva antigos relacionamentos.

Para descobrirmos novas maneiras precisamos, primeiramente desenvolver a capacidade de perceber como estão nossos relacionamentos atuais.

Observe e considere meticulosamente a si mesmo. Perceba como está se relacionando em casa, na rua, no trabalho, no lazer. Perceba como respira, como anda, como toca nos objetos, como usa sua voz, como são seus gestos e como são seus pensamentos e os não pensamentos. Esse observar não deve ser limitante, constrangedor, confinador. Apenas observe. Como você se relaciona com o meio ambiente, biodiversidade, reciclagem, justiça social, melhor qualidade de vida, guerras, violência, terror, paz, harmonia, respeito, garantia dos Direitos Humanos? Como você e o seu logos se relacionam entre si e em relação aos projetos de sucesso, de lucro, de desenvolvimento e progresso de sua organização?

Como está se relacionando com o mais íntimo de si mesmo, com a essência da Vida, com o Sagrado?

Será que é capaz de ver, ouvir, sentir e perceber a rede de inter relacionamentos de que é feita a vida? Percebe e leva em consideração, na tomada de decisões, a interdependência?

Tanto individualmente, como no coletivo, nossa participação e compreensão como estão? Será que estamos conscientemente vivendo nossas vidas e direcionando nossos pensamentos, ações e palavras para o sentido de mudança que queremos e sonhamos?

Mahatma Gandhi disse: "Temos de ser a transformação que queremos no mundo".

Geralmente pensamos no mundo como alguma coisa distante e separada de nós, mas nós somos a vida do universo em constante movimento. Podemos até dizer que o mundo somos nós. Nossa vida forma o mundo, é o mundo, não apenas está no mundo. Inclui todas as formas de vida e seus derivados e nos inclui neste instante, instante após instante. Há um monge chinês do século VII, Gensha Shibi , que dizia : "O Universo é uma jóia arredondada. Somos a vida desse universo em constante transformação. Nada vem de fora, nada sai para fora".

De momento a momento tudo está mudando, nós fazemos parte dessa mudança e podemos escolher, discernir qual o caminho que queremos dar a esse constante transformar. É por isso que digo que a transformação começa em nós. Na verdade vai além de apenas começar. É em nós. Nossa capacidade humana de inteligência e compreensão nos permite fazer escolhas. E o que estamos escolhendo?

Outra frase de Mahatma Gandhi:
"Quando uma pessoa dá um passo em direção à Paz, toda a humanidade avança um passo em direção à Paz"

A minha decisão, a sua decisão pode transformar ou influenciar a direção da mudança.
Há um sutra budista que descreve o mundo como uma rede de inter relacionamentos. Como se fosse uma imensa teia de raios luminosos e em cada intersecção uma jóia capaz de receber essa luz e emitir raios em todas as direções. Qualquer pequena mudança afeta o todo. Cada ser que se transforme em um ser de paz, de harmonia, de ternura, carinho e respeito pela vida em todas as suas formas estará sendo uma mudança viva e influenciando tudo e todos.

Qual o primeiro passo? Conhecer a si mesmo. Conhecer nossos mecanismos.

O que nos afeta, nos incomoda? O que nos alegra? O que nos irrita? Como transformar a raiva em compaixão? Como transformar o desafio em competição leal, justa, empreendedora, enriquecedora? Sem nos preocuparmos com os créditos, se formos capazes de fazer o bem, não fazer o mal, fazer o bem aos outros estaremos transformando nossos lares, nossas amizades, nosso ambiente de trabalho, nossas organizações, nossas cidades, estados, países, nações, mundo... e a nós mesmos...no florescimento da Cultura da Paz.

"Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Transcender corpo e mente seu e dos outros. Nenhum traço de iluminação permanece e a Iluminação é colocada à disposição de todos os seres." (Mestre Zen Eihei Dogen - 1200-1253)

É importantíssimo que iniciemos este "estudar a si mesmo", já. Cada um de nós que perceber seu próprio mecanismo ficará em controle desse mecanismo e não mais à mercê de seus sentimentos e emoções, desejos e frustrações, puxado, empurrado, espremido e puxando, empurrando, espremendo - envenenados pela ganância, raiva e ignorância.

Imagine um mundo aonde podemos brilhar uns para os outros, sem ódios, mas com carinhoso respeito e terna compreensão. Percebendo nossas diferenças, aceitando a diversidade da vida e juntando nossas capacidades tanto intelectuais como físicas na construção desse verdadeiro Céu, Paraíso, Terra Pura, Shambala de que falam as religiões, todas elas.

Cabe a nós, a cada um de nós criar esse relacionamento de carinho com a vida, de ternura com todos os seres, de compreensão, de sabedoria e compaixão para percebermos o Caminho Iluminado e o Nirvana permeando toda a existência.
Isso é dar vida à nossa própria vida.

* * *

Haverá explicação e prática da meditação sentada e caminhando, exercícios de plena atenção, momentos de pausa e de reflexão a fim de desenvolver a percepção de si mesmo, do outro e do meio ambiente, de como agimos, reagimos atualmente - nosso relacionamentos - e do que seria conveniente fazer para ocorrer mudanças (caso as considerem necessárias) ou direcionar transformações individuais e coletivas."


Fonte: http://www.monjacoen.com.br/textos-budistas/textos-da-monja-coen/142-como-dar-vida-as-nossas-vidas