quinta-feira, 13 de maio de 2010

Os Obstáculos no Caminho Segundo Patanjali - (Georg Feuerstein)


O processo yogue, que contraria a tendência exterio­rizante da mente humana vulgar, nem sempre se desenvolve tranqüilamente e sem percalços. Como já afirma o Bhagavad-Gitâ (6.6), oeu pode ser o pior inimigo do Si Mesmo. Patanjali, em seu Yoga-Sûtra(1.30),menciona nada menos que nove obstáculos (antarâya) que podem surgir no decurso da disciplina yogue:

A doença, a apatia, a dúvida, a desatenção, a preguiça, a dissipação, a falsa visão, a não-realização dos estágios [do Yoga] e a instabilidade [nesses está­gios] são as distrações da consciência; são estes os obstáculos.

Todos estes podem ser compreendidos como limi­tações que o próprio ser se impõe e que retardam ou mesmo inviabilizam o processo do Yoga. Podem ser vistos também como expressões do inconsciente que maculam a grande obra yogue e assim preservam o status presente da personalidade não iluminada, do eu não redimido. Mesmo quando o desejo de libertação (mumukshutva) está presente, o aspirante ainda está sujeito às forças antitéticas da Natureza (prakriti) que regem a sua psique. Acontecimentos aparentemente acidentais, como a doença, que frustrara o progresso yogue, são devidos em última análise à frutificação das sementes kármicas (karma-âshaya) e são, portan­to, induzidos pelo próprio ser que os sofre.

É significativo que Patanjali caracterize os nove obstáculos como "distrações da consciência" (citta­vikshepa). São distúrbios ou disfunções, como deixa bem claro o termo vikshepa, derivado do prefixo vi ­("dis") e da raiz verbal kship, que significa "lançar" ou "atirar". Os vikshepas dispersam a concentração mental do yogin e interpõem-se assim no caminho do seu esforço perseverante para cultivar a unicidade ou "unipontualidade" (ekâgratâ) da mente.

Segundo o Yoga-Bhâshya (1.1),os estágios ou níveis (bhûmi) da atividade mental são os seguintes:

1. Inquieta (kshipta) ouagitada em virtude de uma grande preponderância da qualidade rajas, o princípio psicocósmico dinâmico; no Yoga-Bhâshya-Vi­varana de Shankara Bhagavatpâda, a mente nesse estado é comparada a um celeiro excessivamente cheio cujas portas arrebentam.

2. Iludida (mûdha) oufascinada em virtude de um excesso de tamas, o princípio psicocósmico da inércia, que elimina a importante faculdade do discerni­mento (viveka).

3. Distraída (vikhsipta) ouapenas intermitente­mente estável em virtude da presença periódica de sattva, oprincípio psicocósmico da lucidez.

4. Unipontual (ekâgra) ouconcentrada em virtu­de da presença cada vez mais constante de sattva e do gradual predomínio de sattva sobre rajas e tamas.

5. Restrita (niruddha) oucontrolada em virtude da preeminência de sattva; Shankara Bhagavatpâda explica este estado como caracterizado pela ausência de pensamentos.

Os primeiros três níveis são estados mentais tipi­camente experimentados pela pessoa comum. Só os dois últimos descrevem a qualidade da consciência do yogin.

O Yoga-Bhâshya (1.30)explica que as distrações só podem ocorrer enquanto um dos cinco tipos de "flu­tuações" (vritti) mentais está presente. Em outras pala­vras, a mente tem de perceber, perceber erroneamente, imaginar, lembrar ou estar dormindo. Quando essas atividades mentais estão controladas (niruddha), porém, é evidente que os obstáculos mencionados por Patanjali perdem todo o seu poder. Ou seja, o yogin pode ficar doente, mas não será perturbado por sua doença. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o famoso sábio Ramana Maharshi de Tiruvannamalai, que viveu no século XX. No final de sua vida, ele sofria de câncer. A doença deve ter-lhe causado mui­ta dor, mas ele permanecia sereno e, vez por outra, fazia brincadeiras a respeito de seu corpo castigado pela dor e da preocupação que o médico sentia por ele.

Pode-se dizer, portanto, que os obstáculos só o são na medida em que afetam as atividades da mente. No Yoga-Bhâshya-Vivarana (1.30), Shankara Bhagavat­pâda explica da seguinte maneira a palavra antarâya: "Eles se movem numa direção ou criam um intervalo, lacuna ou rompimento - daí [serem denominados] obstáculos." Um "intervalo" (antara) é um rompi­mento da continuidade natural da apercepção pelo Si Mesmo (purusha), que é uma simples testemunha (sâkshin). Em outras palavras, é um momento em que o Si Mesmo se eclipsa e a pessoa se perde na corrente dos pensamentos, sentimentos e sensações que sur­gem em sua consciência. É daí que no Tattva­Vaishâradi (1.30)Vâcaspati Mishra afirma que os obs­táculos são especificamente "obstáculos ao Yoga" (yoga-antarâya) e "distrações em relação à consciên­cia contida pelo Yoga". Em seu Yoga-Bhâshya(1.30), Vyâsa fala dos "adversários do Yoga" (yoga-pratipa­ksha), "obstáculos ao Yoga" (yoga-antarâya) e "mácu­las do Yoga" (yoga-mala). Shankara Bhagavatpâda, no Vivarana (1.30),assevera que todos eles são igual­mente nocivos (tulya-pratyanîka), poisengendram estados mentais (em vez de colaborar com a transcen­dência da mente). Segundo o Vritti de Nâgojî Bhatta, esses nove são produzidos por rajas e tamas e condu­zem a um "estado de múltiplas flutuações" (aneka­vrittitva) da consciência. A Mani-Prabhâ declara: "Distraem a mente e fazem-na decair do Yoga." Essa afirmação encontra eco na Yoga-Sudhâkara-Candrikâ, que denomina-os "obstruções" (vighna).

Como são esses nove obstáculos em seus detalhes? Para lançar [ti: sobre essa questão, vou fazer uso das afirmações encontradas nos diversos comentários escritos em sânscrito sobre o Yoga-Sûtra.



A DOENÇA (Vyâdhi)
Vyâdhi não é definido pelo autor do Yoga-Sûtra, mas a palavra tem o sentido simples de "doença", "enfermi­dade" ou "distúrbio". É derivada dos prefixos vi e â e da raiz verbal dhâ, a qual significa "desfazer-se", "dis­persar-se". Vyâsa define a palavra como "um desequi­líbrio dos `instrumentos' [isto é, os órgãos dos senti­dos], das secreções ou dos humores". Vâcaspati explica: "Os humores - vento, bile e fleuma - são [assim denominados] porque sustentam o corpo. A secreção é uma modificação especial do alimento ingerido sob a forma sólida ou líquida. Os 'instru­mentos' são os sentidos. Um desequilíbrio deles é uma condição de falta ou excesso." 0 Bhoja-Vritti dá "febre, etc." como exemplo das causas de um tal dese­quilíbrio, e o mesmo se encontra na Candrikâ e no Yo­ga-Sudhâkara. Bhâva Ganesha substitui a palavra shleshma por kapha -ambas significam "fleuma" - e explica karana (instrumento) como "pele, olhos, etc." Sua paráfrase de vaishamya (desequilíbrio) é "perda da essência" (svabhâva-pracyava), ou seja, o abando­no do equilíbrio ou da saúde naturais do corpo. Tam­bém o Yoga-Sudhâkara fala dos três doshas (isto é, os humores ou dhâtus).

Shankara Bhagavatpâda diz: "O desequilíbrio é o estado de desigualdade (vishama-bhâva)." Afirma ain­da que o mesmo desequilíbrio é devido ao "uso exces­sivo de uma ou outra substância, etc." Acrescenta que um dhâtu pode aumentar por si mesmo ou em função de fatores exteriores. Menciona sete tipos de rasa ou secreções ("essências"): plasma (também chamado rasa), sangue (lohita), gordura (medas), carne (mâmsa), osso (asthi), medula (majjâ) e sêmen (shukla). Se­gundo ele, o "desequilíbrio dos instrumentos [senso­riais]" é a cegueira, a surdez, etc. Vijnâna Bhikshu, por sua vez, afirma que quando Vyâsa diz saha iti (jun­to com [as flutuações mentais], deve-se entender não uma simultaneidade completa, mas que Vyâsa igno­rou a diminuta fração de tempo que medeia entre a apresentação de um obstáculo e seus efeitos perturbadores sobre a mente.



A APATIA (Styâna)
Styâna (da raiz verbal styâ, que significa "adensar-se") é a apatia mental. O Yoga-Bhâshya (1.30)a define co­mo a "inatividade da mente". Vâcaspati dá "incapaci­dade para a ação". Vijnâna Bhikshu explica akarma­nyatâ ou inatividade como se segue: "Inatividade é a incapacidade de executar o Yoga. [Muito embora pos­sa haver uma] inatividade do corpo [devida à] consti­pação, etc., [não há] obstrução ao Yoga no que diz res­peito à mente. Por isso [Vyâsa] disse `da mente'." Shankara Bhagavatpâda limita-se a citar o Yoga ­Bhâshya e Bhoja faz o mesmo, ao passo que Bhâva Ganesha e Nâgoji Bhatta seguem a exegese de Vâcaspati Mishra. A Mani-Prâbha diz que "a indolência é uma incapacidade para a ação mesmo quando a mente anseia [por ela]". A Candrikâ diz simplesmente que "indolência é inatividade", ao passo que o Yoga-Sudhâ­kara afirma mais especificamente que "a indolência é a inatividade da mente". Pode-se interpretar esse obs­táculo como a procrastinação, uma forma de inércia mental pela qual as ações necessárias são adiadas.



A DÚVIDA (Samshaya)
Desde as épocas mais remotas, a dúvida foi identifica­da como um dos principais obstáculos a realizam espiritual (O Brihad-Aranyaka-Upanishad (4.4.23) declara que so podemos vir a conhecer a Realidade quando estamos livres da dúvida. 0 Bhagavad-Gitâ (4.40) assevera que a dúvida aflige a pessoa a quem falta a fé (shraddhâ) Os efeitos da dúvida podem ser devastadores e, no fim, autodestrutivos. O Matsya­Purâna (110.10) observa que o indivíduo que alimen­ta dúvidas colhe o sofrimento e não os frutos do Yoga.

0 Yoga-Bhâshya (1.30) explica: "A dúvida é o conhecimento que toca ambos os extremos [de um dilema], como `isto talvez seja assim', `isto talvez não seja assim'." Vâcaspati Mishra diz: "Muito embora isto exista pela permanência na forma, a dúvida e o erro não vêem diferenças entre ambos os extremos, que assim se tocam e não se tocam." Shankara Bhagavatpâda afirma: "A dúvida é a noção que toca nos dois extremos do dilema de saber se [um determinado objeto] é um poste ou um homem." Trata-se de um exemplo clássico do Vedânta para ilustrar a vacilação que a pessoa experimenta no estado de dúvida: vemos algo de longe e não sabemos o que é. Pode ser um poste de madeira ou um ser humano. Nossa vida é repleta dessas incertezas que vêm da percepção, mas mais importantes são as incertezas cognitivas: o Si Mesmo eterno é real ou não é? Sou idêntico ao corpo ou não sou? E assim por diante.



A DESATENCÃO (Pramâda)
O caminho yogue depende por completo da atenção e é inviabilizado pela desatenção ou negligência. O Yoga-Bhâshya (1.30) explica este defeito como "o não-cultivo dos meios do êxtase", o que se pode compreender como uma falta de dedicação. Shankara Bhagavatpâda dá como glosa "falta de persistência".



A PREGUIÇA (Âlasya)
Se styâna é a apatia mental, âlasya é a preguiça devida ao peso do corpo (como o que decorre de se comer demais). Segundo o Yoga-Bhâshya (1.30), é a falta de esforço devida ao peso do corpo e da mente, peso esse que como nos informa Vâcaspati Mishra, decorre da preponderância de fleuma (no caso do corpo) e da presença e tamas (no caso da mente). Essa interpretação, porém, não nos permite distinguir adequadamente âlasya de styâna. Infelizmente, nenhum dos comentários nos esclarece quanto a este ponto.



A DISSIPACÃO (Avirati)
Virati vem da raiz verbal ram, que significa "parar" mas também "deleitar-se em". Virati significa, pois, "cessação", muitas vezes no sentido de "renúncia", mas ao mesmo tempo é estreitamente ligada ao termo rati, que tem o sentido de "prazer sexual". Avirati é, neste caso, o oposto de "cessação", e muitos tradutores optaram pelo termo "dissipação" para transmitir o significado da palavra sânscrita. James Houghton Woods, porém, traduziu-a por “mundanidade", baseando-se para tanto no Yoga-Bhâshya (1.30), que define a palavra como "a cobiça da mente sob a forma do apego às coisas". O mecanismo o apego e da cobiça foi formulado ­há muito tempo no Bhagavad-GYtâ (2.62-63):

Quando um homem contempla os objetos, nasce o apego a eles.
Do apego nasce o desejo e do desejo nasce a ira.

Da ira nasce a confusão. A confusão resulta na per­da da atenção.
A perda da atenção destrói a sabedo­ria. Com a perda da sabedoria, ele perece.

O Bhagavad-Gitâ (2.64) nos fornece também um antídoto contra esse processo: permanecer em meio aos objetos dos sentidos, mas mantendo a mente e os mesmos sentidos sob controle. Na tradição vedântica, o termo uparati (quietude) é usado com freqüência para designar o tipo de desapego que o sábio deve cultivar a fim de superar as emoções e atitudes negativas, das quais a tendência à dissipação (avirati) não é a menos importante.



A FALSA VISÃO (Bhrânti-Darshana)
Muito embora a dúvida seja um obstáculo significativo no caminho yogue e traga consigo um certo sofri­mento emocional (inquietude), ela é potencialmente um trampolim para uma visão e uma certeza mais pro­fundas. A falsa visão, por sua vez, envolve uma (pre­matura) sensação de certeza e, por isso, não partilha da agonia da dúvida; não obstante, é potencialmente mais nociva. Isso porque a falsa visão é essencialmen­te um erro (viparyaya). O Yoga-Bhâshya (1.30) explica que, se um praticante de Yoga incorresse no erro de pensar que um determinado estágio de realização yo­gue já é um grau suficiente, deixaria automaticamen­te de progredir na via espiritual. Só o entendimento claro, ou o que se chama de "discernimento" (viveka), pode nos dar uma orientação confiável no caminho de fio de navalha que leva à libertação.



A NÃO-REALIZAÇÃO DOS ESTÁGIOS (Alabdha-Bhûmikatva)
O progresso no caminho yogue varia de pessoa para pessoa e depende da capacidade psicológica do indi­víduo e, num nível mais profundo, do seu karma. Tudo aquilo que representamos no momento presente, representamo-lo em virtude das nossas volições passadas (expressas ou não no nível físico). Nosso DNA é o produto da somatória de todo o nosso pas­sado kármico, e o mesmo se pode dizer, de acordo com o Yoga, das nossas circunstâncias de vida e das experiências que temos e que se impõem a nós. Uma vez que boa parte daquilo que chamamos "mente" depende das funções cerebrais, e uma vez que o cére­bro é determinado pelo DNA, também a nossa vida mental e determinada em grande medida pelo karma. Se não fosse pela nossa natureza essencial (ou seja, o Si Mesmo ou purusha), que é transcendente e eternamente livre, seríamos simples robôs. Optando constantemente pelo Si Mesmo, pela Consciência Pura, podemos superar nossa carga kármica. A opção pelo Si Mesmo se traduz no cultivo da aten­ção e na desativação dos pensamentos, emoções e atitudes negativas.

Trata-se de um processo gradual que, segundo a filosofia yogue, pode prolongar-se por várias existências e envolver muitas ocasiões de aparente fracasso. A vida é uma escola; se não aprendermos com os nos­sos erros, teremos de fazer várias vezes as mesmas lições. A chave do sucesso no Yoga é a perseverança. Como afirma o Yoga-Sütra (1.13):

... [a prática só] se firma [depois de ter sido] cultiva­da adequadamente e ininterruptamente por muito tempo.

Os que ainda não adquiriram a energia e a determinação necessárias são incapazes de alcançar o nível seguinte do processo espiritual. Além disso, uma súbita irrupção de karma - talvez sob a forma de uma doença ou de outra adversidade - pode impedir o praticante de Yoga de seguir em frente.

O Yoga-Sutra (1.30) reconhece a incapacidade de alcançar o estágio seguinte de crescimento interior como um dos nove obstáculos. O Yoga-Bhâshya (1.30) nos diz que por "estágios" (bhûmi) entendem-se aqui os quatro estágios descritos mais adiante por Vyâsa em seu comentário (3.51): 1) prathama-kalpika (fase inicial), (2) madhu-bhûmika, que o Yoga-Bhâshya (1.30) também denomina madhu-matî (melíflua), (3) prajnâ-jyotis (luzda sabedoria) e (4) atikrânta-bhâvaniya (no processo de transcender [todas as coisas]).

O prathama-kalpika-yogin é o praticante (abhyâsin) para quem a luz interior está apenas nascendo. O madhu-bhûmika-yogin játem a sabedoria portadora da verdade (ritam-bharâ prajnâ) mencionada no Yoga-Sû­tra (1.48), que é doce e preciosa como o mel. O prajnâ-jyotir-yogin detém o pleno controle dos órgãos do corpo e dos elementos e é perfeitamente capaz de realizar o estágio restante. O atikrânta-bhâvaniya-yogin transcende todas as coisas e tem como único objetivo a resolução (pratisarga) da mente no âmago transcen­dente da Natureza (prakriti).

Para complicar um pouco as coisas, o Yoga-­Bhâshya (1.1) também aplica, como notamos acima, o termo bhûmi aos níveis de atividade mental, e por isso se torna legítimo perguntar a qual conjunto de estágios ele se refere. Como Patanjali não é específico, a não-realização de um determinado estágio ou a instabilidade em um estágio pode se referir a qualquer estágio ou tipo de estágio. Por outro lado, não se pode duvidar de que o autor do Yoga-Bhâshya (1.30) tem em mente os quatro níveis especificados acima.



A INSTABILIDADE (Anavasthitatva)
Se alcançar um determinado estágio do Yoga é difí­cil, mais difícil ainda, para a maioria dos pratican­tes, é permanecer no estágio já alcançado. Quanto mais elevado o estágio (bhûmi), tanto mais energia (compromisso, unipontualidade, etc.) é necessária para alcançá-lo e conservá-lo. O folclore do Yoga (especialmente o relatado nos Purânas) é repleto de histórias de yogins que, depois de alcançar altos graus espirituais, caíram calamitosamente por apego ou orgulho. Até a realização da libertação, não existe um estágio seguro. Anavasthitatva é a negação de avasthitatva (estabilidade), palavra formada do pre­fixo ava, da raiz verbal sthâ (estar, permanecer) e do sufixo tva ("dade"). Todo o Yoga pode ser visto como um esforço para se alcançar a estabilidade em meio às infindáveis flutuações (vritti) e transformações (parinâma) da Natureza. A estabilidade supre­ma só se encontra no Si Mesmo transcendente, do qual se diz que possui aparinâmitva ou "imobilidade" ou constância.

Patanjali não se contenta em listar os nove obstáculos; no Yoga-Sûtra (1.31), diz ainda o seguinte:

A dor, a depressão, o tremor dos membros e [os erros e] inalação e
exalação são [sintomas] associados às distrações.

Quando, pela desatenção ou pela frutificação do karma, o praticante depara com um ou mais dos nove obstáculos, eles freqüentemente têm repercussões desagradáveis. Patanjali especifica estas quatro: a dor, a depressão, o tremor dos membros e os erros de respiração.



A DOR (Duhkha)
O Yoga é feito para ajudar o praticante a superar o sofrimento (duhkha). Não obstante, quando ele é vitimado por qualquer um dos obstáculos, sua experiência de dor ou sofrimento não diminui, mas aumenta. AV palavra duhkha é composta de dur (mau) e kha (espaço/cubo da roda) e significa literalmente um "mau cubo da roda", ou seja, uma roda que não está nos eixos. O oposto de duhkha é sukha, derivado de su (bom) e kha. Uma tradução contemporânea seria "espaço bom". O sentido da palavra sukha no dicioná­rio é "alegria", "facilidade" ou "prazer". Todos os nove obstáculos tendem a gerar a dor ou o sofrimento. Na verdade, ligam-se inextricavel mente a uma mente que experimenta uma limitação e, portanto, sofre. Na doença, duhkha pode manifestar-se no nível corpóreo, mas provavelmente também no nível mental. Ou senão o praticante de Yoga pode cair vítima da dúvi­da, que traz consigo seu próprio sofrimento. A apatia tem conseqüências dolorosas, e o mesmo se pode dizer da desatenção, da preguiça e da dissipação. Tam­bém não é difícil ver como o fato de não se alcançar um determinado estágio ou de perder o grau já atingi­do podem acarretar muito sofrimento.

O Yoga-Bhâshya (1.31) diz que a dor ou sofrimento (duhkha) é de três tipos: (1) âdhyâtmika causada pelo próprio ser, (2) âdhibhautika - causada por outros seres, e (3) âdhidaivika - causada pelas divinda­des ou por forças naturais.



A DEPRESSÃO (Daurmanasva)
Quando um praticante depara com um ou mais obs­táculos, tem dificuldade para cultivar uma atitude positiva. Muitas vezes o yogin ou a yoginî ficam desencorajados e entram em colapso emocional, como aconteceu com Arjuna no campo de batalha, embora estivesse acompanhado de seu guru, o Senhor Krishna (ver a descrição no Bhagava-Gitâ). Arjuna foi tomado de compaixão (kripâ) por seus parentes e sofreu com a possibilidade de ter de vir a exterminá-los. Krishna admoestou o príncipe a que deixasse de lado seu pesar (shoka), não sucumbisse ao apego (râga) e à fraqueza de coração (hridaya-daurbalya) e não caísse no "estado de um eunuco" (klaibya). Em última análise, o desânimo (vishâda) ou o que Patanjali chama de depressão (daurmanasya) são formas de autocomiseração e resumem-se a uma incapacidade de praticar a transcendência de si mesmo.



TREMOR DOS MEMBROS (Angam-Ejayatva)
O Bhagavad-Gitâ (1.29) diz que Arjuna tremeu diante de seu dilema. Também a raiva nos faz tremer, e a mesma coisa acontece, na verdade, sempre que o nos­so sistema nervoso é excessivamente estimulado. Assim, o tremor dos membros é a manifestação externa da agitação mental (kshobha).



OS ERROS DE INALAÇÃO E EXALAÇÃO (Shvâsa-Prashvâsa)
Os comentários tradicionais compreendem o termo composto shvâsa-Prashvâsa simplesmente como a respiração involuntária que acontece toda vez que não praticamos o controle deliberado da respiração (prânayâma). Parece, porém, que Patanjali tinha outra coisa em mente: aquele tipo de respiração irregular que acompanha a agitação mental e que podemos caracte­rizar como um "erro" de respiração. A palavra "erro" não se encontra no Yoga-Sútra, mas, pelo contexto, parece implicada no composto shvâsa-prashvâsa.

Os nove obstáculos podem ser resolvidos direta­mente no nível da mente. Mesmo assim, as intervenções que partem do corpo como uma dieta correta e um programa adequado de exercícios - podem colaborar. Porém, para fazer uso desses remédios físi­cos, já temos de ter um certo grau de visão correta (samyag-darshana). As muitas práticas do Yoga constituem um todo integrado, mas sempre é preciso começar por algum lugar. Felizmente, a tradição yo­gue nos oferece muitas opções para dar o primeiro passo e, depois, cultivar diligente e perseverantemen­te nossa prática espiritual.



Fonte: Livro – Tradição do Yoga - Cultrix

Espiritualidade e Natureza - (Dalai Lama)


Penso que vocês vieram aqui com alguma expectativa, mas essencialmente eu nada tenho a oferecer-lhes. Quero simplesmente tentar compartilhar algumas de minhas próprias experiências e meus pontos de vista. Cuidar do planeta não é algo especial, algo sagrado, ou algo santo. É como cuidar de nossa própria casa. Não temos outro planeta ou casa a não ser este. Embora haja tantas perturbações e problemas, a nossa única alternativa é esta. Não podemos ir para outros planetas. Veja a lua, por exemplo, ela parece ou surge belamente à distância, mas se for viver lá, será horrível. E isto que eu penso. Então, o nosso planeta azul é muito melhor e mais feliz. Portanto, precisamos cuidar de nosso próprio canto, ou casa, ou planeta.
Afinal, o ser humano é um animal social. Freqüentemente digo aos meus amigos que eles não precisam estudar filosofia, estes assuntos profissionais complicados. Só de olhar estes animais, insetos, formigas, abelhas, etc. inocentes, eu desenvolvo com freqüência algum tipo de respeito por eles. Como? Porque eles não têm qualquer religião, qualquer constituição, qualquer força policial, nada. Mas vivem em harmonia através da lei natural da existência, ou da lei ou sistema da natureza.

O que há de errados em nós, seres humanos? Nós humanos temos inteligência e sabedoria humana. Penso que freqüentemente usamos a inteligência humana de maneira errada ou na direção errada. Como resultado, de certa forma, estamos fazendo certas ações que essencialmente vão contra a natureza humana básica.

De certo ponto de vista, a religião é, um pouco, um luxo. Se você tiver uma religião, ótimo; até sem religião você pode sobreviver e consegue manejar, mas sem afeto humano não consegue sobreviver.

Embora a raiva e o ódio, como compaixão e amor, sejam parte de nossa mente, eu ainda acredito que a força dominante de nossa mente é a compaixão e o afeto humano. Portanto, normalmente chamo estas qualidades humanas de espiritualidade, não necessariamente no sentido de uma mensagem religiosa ou religião. Ciência e tecnologia junto com afeto humano serão construtivas. Ciência e tecnologia sob o controle do ódio serão destrutivas.

Se praticarmos a religião corretamente, ou com sinceridade, podemos ver que a religião não é algo fora de nós, mas algo que está em nossos corações. A essência de qualquer religião é um bom coração. Às vezes chamo amor e compaixão de religião universal. Esta é minha religião. Uma filosofia complicada, isto ou aquilo, às vezes cria mais transtornos e problemas. Se estas filosofias sofisticadas forem úteis para o desenvolvimento do bom coração, então isto é bom: use-as inteiramente. Se estas filosofias ou sistemas complicados se tornarem um obstáculo para o bom coração, então é melhor deixá-las de lado. É assim que eu sinto.

Se olharmos atentamente para a natureza humana, vemos que o afeto é a chave para o bom coração. Penso que a mãe é um símbolo da compaixão. Todos nós temos uma semente do bom coração. O que importa é se cuidamos ou não de realizar o valor da compaixão.

(Um discurso feito no quarto dia do Simpósio Ecumênico de Middlebury sobre religião e o meio ambiente, Universidade de Middlebury, Vermont, EUA, de 14 de setembro de 1990. Traduzido por Marly Ferreira.)



Fonte: http://www.dalailama.org.br/

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Oração ao Sol - (Carlos Cardoso Aveline)

Brota botão ... - (Tagore)


Brota botão, e floresce!

Explode teu coração, e desabrocha!

Fostes surpreendido pelo espírito

que abre todas as coisas.

Poderás continuar sendo apenas um botão?

Primeiro seja - (Osho)


Um homem foi a Buda e disse: "Eu tenho muito dinheiro. Tenho muito poder." Ele era um dos homens mais ricos daquela época. E ele disse: "Apenas me diga como servir às pessoas, como servir à humanidade."

E diz-se que Buda ficou muito silencioso. Ele fechou os olhos. O homem estava perturbado, confuso. Ele ficou irrequieto. Ele perguntou:" por que você fechou seus olhos, e por que está tão triste?"

Buda abriu os olhos e disse: "Sinto uma grande compaixão por você. Você quer servir à humanidade e você não é. Seja, primeiro!"

Essa é a exigência básica: primeiro seja! Entregando-se, pela primeira vez você atinge aquele estado de ser. Você entrega tudo o que não é, você entrega apenas o falso, você entrega apenas a persona, você entrega apenas a máscara, você entrega aquilo que pensa que tem, mas não tem, você obtem aquilo que já tem e que sempre teve. O falso tem apenas de desaparecer para que o real seja revelado. Isso é crescimento.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Confia - (Chandra Lacombe)

"A Voz do Conhecimento" - capítulo 9 - (Dom Miguel Ruiz)


Transformar o Contador de Histórias
Os Quatro Compromissos como ferramentas favoritas




“Você viu como criar uma realidade virtual, o sonho de sua vida, e sabe que sua vida é uma história. Agora, com esta consciência, a questão é: você está satisfeito com sua historia? É importante entender que você pode ser o que quiser, já que você é o artista, e sua vida é criação sua. É sua história. É sua comédia ou sua tragédia, e de uma forma ou de outra a história fica mudando, então por que não usar a consciência para conduzir a mudança?

Agora que você é um artista com consciência, poderá avaliar se gosta da sua arte e melhora-la. A prática faz o mestre. Mas é a ação que faz a diferença. Quando descobri isso, a ação que empreendi foi assumir responsabilidade por minha arte e purificar meu programa. Na qualidade de artista comecei a investigar as possibilidades – cada ação e cada reação. E, a propósito, esta é a nossa verdadeira natureza: investigar. Mas investigar o quê? A vida! O que mais poderíamos investigar?

Mudar a própria historia de vida é o que os toltecas chamam de o domínio da transformação. Envolve a transformação do próprio individuo, o contador de historias, o sonhador. A vida muda muito depressa, e você se percebe em constante transformação, mas só tem domínio sobre ela quando deixa de resistir à mudança. Em vez de resistir você tira partido da mudança e se alegra com ela.

Dominar a transformação é viver o tempo todo no momento presente. A vida é um eterno agora, pois a força da vida está criando tudo nesse exato momento, e transformando tudo neste exato momento.

Como você mudará sua história? Bem, agora você sabe que a está criando de acordo com as crenças que tem sobre si. A forma de transformar o que você acredita sobre si é desaprender o que já aprendeu. Quando você desaprende recupera sua fé, amplia seu poder pessoal e pode investir sua fé em novas crenças."

Se quiser saber a verdade, se está disposto a retirar sua fé das mentiras, então lembre-se: não acredite em si e não acredite nos outros. Isso lhe dará clareza sobre muitas coisas. Mas você talvez precise de um pouco de apoio para deixar de acreditar nas mentiras e romper com todos os compromissos que lhe prejudicam.

Os Quatro Compromissos oferecem o apoio necessário.

Eles se destinam exatamente a você, o personagem principal de sua história. Esses compromissos simples podem conduzir você pelo caminho inteiro até alcançar sua integridade:

Seja impecável com sua palavra.

Não leve nada para o lado pessoal.

Não tire conclusões.

Dê sempre o melhor de si.


Muitas ferramentas podem lhe ser úteis para mudar sua historia, mas os Quatro Compromissos são minhas ferramentas de transformação favoritas. Por quê? Porque têm o poder de ajudar você a desaprender as diversas maneiras que aprendeu de usar a palavra em detrimento de si mesmo. Com a mera adoção desses compromissos você desafia todas as opiniões que não passam de superstições e mentiras. Seja impecável com sua palavra porque você usa a palavra para criar sua historia. Não leve nada para o lado pessoal porque você vive em sua própria história e as outras pessoas vivem nas histórias delas. Não tire conclusões porque na maioria das vezes elas não correspondem à verdade; elas são ficção, e quando o contador de historias inventa histórias – especialmente sobre outros contadores de histórias - isso cria muita dramaticidade. Dê sempre o melhor de si porque isso evita que a voz do conhecimento julgue você, e ao empreender ação você evita que a voz lhe fale.


O contador de histórias, o mentiroso em sua mente, lhe faz usar sua própria palavra contra si.

Ele induz você a levar tudo para o lado pessoal, tira muitas conclusões e impede você de dar o melhor de si.

O primeiro compromisso, seja impecável com sua palavra, é o supremo compromisso porque ajuda você a reconhecer todas as mentiras que governam sua vida.

Ser impecável é usar o poder de sua palavra na direção da verdade e do amor.

Já os três compromissos restantes são mais um apoio ao primeiro compromisso – eles são a prática que faz o mestre – porém o objetivo é o primeiro compromisso.

Pela prática dos Quatro Compromissos você chega a um momento em que vivencia a verdade e sua reação emocional é incrível.

Escrevi um livro sobre os Quatro Compromissos e tentei mante-los com a máxima simplicidade possível. O livro talvez lhe traga a sensação de já saber sobre os compromissos. E isso é verdade, porque os compromissos se originam do verdadeiro você, e o verdadeiro você é também e exatamente o verdadeiro eu.

Seu espírito está lhe dizendo a mesma coisa, e é questão de puro bom senso. O livro é uma mensagem de amor. É como um portão aberto que lhe levará pelo caminho até o verdadeiro você, que, no entanto, é exatamente quem precisa fazer o percurso. Você precisa ter a coragem de aplicar as ferramentas para se encontrar e recriar sua própria historia à sua maneira. Você pode transformar sua historia inteira mediante a simples pratica dos Quatro Compromissos. Vamos examinar de perto cada um deles.

O primeiro compromisso, seja impecável com sua palavra, significa que na criação de sua historia você nunca usa contra si o poder da palavra. Impecável significa “sem pecado”.

Qualquer coisa que induza você a agir contra si é um pecado.

Quando você acredita em mentiras, está usando contra si o poder da palavra.

Quando acredita que ninguém lhe quer bem, que ninguém lhe entende, que você nunca vencerá, está usando a palavra contra si.

Neste mundo, muitas filosofias tiveram conhecimento do fato de que as mentiras são uma distorção da palavra, e algumas tradições chamam de perversidade essa distorção.

Prefiro dizer que estamos usando a palavra contra nós, porque quando nos julgamos e nos consideramos culpados não chamamos a isso perversidade.

Quando nos rejeitamos e nos tratamos pior do que a nossos animais de estimação não chamamos a isso perversidade.

Quando você é impecável, nunca fala contra si, não tem crenças que lhe sejam prejudiciais e não ajuda outros a agirem contra você.

Ser impecável significa que você não usa contra si seu próprio conhecimento, e não permite que a voz em sua mente cometa abuso contra você. Talvez agora o primeiro compromisso, seja impecável com sua palavra, faça um pouco mais de sentido.

Você usa a palavra para criar o principal personagem de sua historia.

Cada opinião pessoal, cada crença se expressa em palavras: “Eu sou inteligente, eu sou burro. Eu sou lindo, eu sou feio.” Isto é poderoso.

Mas sua palavra é ainda mais poderosa, porque ela também representa você na interação com outros sonhadores.

Cada vez que você fala, seu pensamento se transforma em som, seu pensamento se transforma na palavra, e agora pode entrar nas mentes dos outros.

Se as mentes deles são férteis para aquele tipo de semente, eles a devoram e agora o pensamento também vive dentro deles.

O mundo é uma força que você não pode ver; mas pode ver a manifestação da força, a expressão da palavra, que é sua própria vida.

Você mede como usa a palavra pela sua reação emocional.

Como saber quando está usando a palavra de forma impecável? Bem, quando você está feliz.Quando se sente bem consigo mesmo.Quando sente amor.

Como saber quando está usando a palavra contra si? Ora, quando você está sofrendo por causa da inveja, da raiva, da tristeza. Qualquer tipo de sofrimento é o resultado do mau uso da palavra; é o resultado da crença em conhecimento contaminado por mentiras.

Se limpar a palavra, você recupera a impecabilidade dela e nunca se trai.
Assumir o compromisso de ser impecável com sua palavra é o quanto basta para voltar ao paraíso que os humanos perderam. É o quanto basta para levar você de volta à verdade e para trsnformar sua história inteira. Seja impecável com sua palavra. É muito simples.


O Segundo Compromisso
O segundo compromisso, não leve nada para o lado pessoal, lhe ajuda a desfazer as numerosas mentiras com as quais concordou em acreditar.

Quando você leva as coisas para o lado pessoal, reage e sente magoa, e isso cria um veneno emocional. Então você deseja vingança, deseja uma desforra, e usa a palavra contra os outros.

Agora você sabe que, seja lá o que for que alguém projete em você, é apenas como um Picasso dizendo: “Isto é você.” Sabe quer é apenas o contador de história daquela pessoa, simplesmente contando uma historia a você.

Não levar nada para o lado pessoal lhe traz imunidade ao veneno emocional em todas as relações.

Você já não perderá o controle ao reagir por ter recebido uma ferida emocional. Isto lhe dará clareza, o que coloca você um passo adiante de outras pessoas incapazes de ver suas próprias historias.

O segundo compromisso orienta você a demolir centenas de pequenas mentiras, até atingir o núcleo de todas as mentiras em sua vida.

Quando isso acontece a estrutura completa do conhecimento desmorona, e você tem uma segunda chance de criar uma nova historia, a seu estilo.

A isso os toltecas chamam perder a forma humana. Quando você perde a forma humana, tem a oportunidade de escolher aquilo em que acreditar, segundo sua integridade.

Na infância, você usou a atenção para criar o primeiro sonho de sua vida. Você nunca teve oportunidade de escolher no que acreditar; tudo com o que você se comprometeu em acreditar lhe foi imposto.

Agora tem uma oportunidade que não teve quando criança – você pode usar sua atenção pela segunda vez, para fundamentar sua historia na verdade, em vez de baseá-la na mentira.

Os toltecas chamam a isso o sonho da segunda atenção. Eu o chamo a sua segunda historia porque continua a ser um sonho, ainda é uma historia! Mas agora a escolha é sua.

Quando você perde a forma humana, sua vontade fica livre novamente. Você recupera o poder da fé e não há limite para o que fazer com ela. Você pode recriar sua vida em grande estilo, se assim desejar.

Mas o objetivo não é salvar o mundo. Não, a única missão que você tem na vida é fazer feliz a si mesmo.

A questão é muito simples. E a única forma de se fazer feliz é criar uma historia que lhe faça feliz.

Qualquer um de nós está sujeito a que lhe aconteça qualquer coisa. Você não pode controlar o que está acontecendo ao seu redor, mas pode controlar a forma como conta a historia.

Você pode narrar a historia como um grande melodrama, e ficar triste e deprimido com tudo o que lhe acontece, ou pode narrar a historia sem todo esse drama.


Terceiro Compromisso
O terceiro compromisso, não tire conclusões, é um verdadeiro salvo-conduto para a liberdade pessoal. O que acontece quando tiramos conclusões? O contador de historias está inventando uma historia, acreditamos nela e não conseguimos fazer as perguntas que poderiam lançar alguma luz sobre a verdade. A maior parte de nosso sonho se apóia em pressupostos, e estes criam um mundo inteiro de ilusão, no qual acreditamos, apesar de não ser absolutamente verdadeiro.

Fazer suposições e leva-las para o lado pessoal é o começo de uma situação infernal neste mundo. Os seres humanos criam muitos problemas porque fazem suposições e acreditam que estas sejam verdadeiras! Nisso se baseiam quase todos os conflitos.

Ter consciência é ver o que é verdade, ver tudo tal qual é, e não como desejamos que seja, para justificar aquilo em que já acreditamos. O domínio da consciência é a primeira maestria dos toltecas, mas também podemos chama-la o domínio. Primeiro você precisa ter consciência de que a voz em sua mente está sempre lhe contando uma historia. Você está sonhando o tempo todo.

De fato, você percebe, mas a forma como o contador de historias justifica, explica e faz suposições sobre aquilo que você percebe não é verdade - é apenas uma historia.

Em seguida, você precisa ter a consciência de que a voz do contador de historias em sua mente não é necessariamente sua. Todos os conceitos em sua mente têm uma voz que deseja se expressar. É o sonho. É apenas uma historia que procura atrair sua atenção e justificar a própria existência. A outra parte de você, a parte que está escutando, aquele que está sonhando o sonho é vitimado pelo abuso.

Por fim, você precisa praticar a consciência até adquirir domínio sobre ela. Quando domina a consciência como um hábito, você passa a ver a vida como ela é, e não como deseja vê-la.

Você pára de tentar colocar as coisas em palavras, de explicar tudo a si mesmo, o que lhe impede de sair tirando conclusões. Só usa a palavra para se comunicar com os outros, sabendo que aquilo que está comunicando não passa de um ponto de vista fundamentado no que você acredita. E aquilo em que você acreditaé só um programa; nada além de idéias que são, na maioria, mentiras. É por isso que você precisa ouvir e fazer perguntas. Com uma comunicação clara, receberá das pessoas todas as informações de que necessita, e já não precisará tirar conclusões.


O Quarto Compromisso
O quarto compromisso é sempre dê o melhor de si. Quando você dá o melhor de si, não deixa que a voz do conhecimento julgue você. Se a voz não julga você, não há necessidade de sentir culpa ou de se punir. Ao dar o melhor de si, você será produtivo, o que significa que agirá. Dar o melhor de si envolve agir e fazer o que se ama, pois a ação nos traz felicidade. Você está fazendo porque quer fazer, e não por ser forçado a tal.

Os melhores momentos de sua vida são aqueles em que você é autentico, em que está sendo você mesmo.

Quando está em sua criação, está fazendo o que ama, torna-se de novo aquilo que realmente é. Não está pensando naquele momento – você o está expressando.

Quando você dá o melhor de si em sua criação, a mente pára. Você está vivo de novo. Suas emoções vão brotando e você nem percebe o quanto se sente bem. A simples ação lhe faz sentir bem-estar.

Quando você está inativo, sua mente precisa entrar em ação, o que representa um convite aberto à voz do conhecimento para que fale com você. Mas quando você é absorvido pelo que está fazendo, a mente quase não fala.

Quando você está criando, a voz do conhecimento não está presente, mesmo que em sua arte você esteja usando palavras. Se você está escrevendo um poema, não está pensando sobre as palavras que usará para escreve-lo; está simplesmente expressando suas emoções. As palavras são um instrumento; são o código que voe usa para se expressar. Se você é um musico que está tocando, não há diferença entre você e a música. No exato instante em que está criando a música, é você quem está desfrutando cada nota, cada som. Você se torna um só com o que está fazendo, o que é um prazer supremo. Qualquer músico sabe do que estou falando. Você está expressando aquilo que você realmente é, o que constitui a melhor coisa que pode acontecer a alguém. Somente por meio de sua expressão você atinge o êxtase, porque está criando.
Isso é a vida como a arte.

Dar o melhor de si envolve confiar em si e confiar na Criação, a força da vida. Você estabelece uma meta e se lança nela integralmente, sem nenhum apego a sua obtenção. Você não sabe se conseguirá atingir a meta, e tampouco se preocupa. Você se empenha na meta e alcança-la é maravilhoso. E se não alcançar, será também maravilhoso. Seja como for, você está completo, porque o amor em movimento é uma coisa maravilhosa. Empreender ação é uma expressão de si mesmo, é a expressão do espírito e sua criação.



Incentivo a você a assumir a responsabilidade de cada decisão tomada em sua vida. Nenhuma decisão é certa ou errada; o que importa é a ação posterior à escolha feita.

Tudo na vida é só uma escolha. Você controla o sonho por meio de escolhas. Cada escolha tem uma conseqüência, e um mestre dos sonhos está consciente das conseqüências.

Também podemos dizer que para cada ação experimentamos uma reação. Se seu conhecimento é a ação, e suas emoções são a reação, então você pode ver a importância de estar consciente da voz do conhecimento.

A voz do conhecimento está sempre sabotando a felicidade do individuo. Nos momentos mais felizes de sua vida você está brincando, está agindo como uma criança. Mas a voz penetra em sua mente e diz: “Isto é bom demais para ser verdade. Vamos botar o pé no chão e voltar à realidade.” E a realidade de que a voz do conhecimento está falando se relaciona ao sofrimento.

A vida pode ser maravilhosa. Se você se ama, se procura dar o maximo de si, isso em breve se transforma em hábito. Quando você cria o hábito de dar o maximo de si, tudo se conjuga para sempre lhe deixar feliz, exatamente como nos tempos de criancinha. Mas primeiro você precisa silenciar o dialogo interno. Este é um dos maiores milagres que qualquer ser humano pode vivenciar. Se você conseguir impedir a voz de falar com você, então estará quase livre de ser alvo do abuso de todas as mentiras.


A Voz do Conhecimento
Já me perguntaram se incentivo o uso de um mantra para eliminar o dialogo interno. Bom, incentivo a você a usar qualquer truque de que disponha para interromper o falatório. Não há receita. Você pode explorar uma infinidade de maneiras até descobrir a mais apropriada. Para alguns, um mantra pode ser a solução milagrosa. Para outros, a meditação, a contemplação ou a musica podem ser a operação de um milagre. Para outros ainda, o milagre poderia ser caminhar ao ar livre ou viver cercado de beleza natural. Poderia ser dançar, fazer ioga, corrida, natação ou qualquer exercício. Você decide.

Quando eu era adolescente, meu avô me disse: "A música é a solução para interromper a voz em minha mente. Substituas a voz pela musica, porque esta você não pode explicar. Como poderia explicar a Quinta Sinfonia de Beethoven? Você pode usar as opiniões que tem dela, mas não pode explica-la. Você precisa tocá-la..."

Entendi o que meu avô dizia, porém eu não gostava de música. Meu avô gostava de música clássica, portanto recusei completamente aquele método. Retruquei: “ Não concordo. Música é um tédio”. É claro que, de toda forma, eu ouvia música, mas a música de que gostava era a dos Beatles. Bem, as letras eram escritas em inglês, e na época eu só falava espanhol. Eu sabia cada palavra das canções, mas as palavras não tinham significado para mim. Se naquelas canções havia algum sentimento dramático, eu não o percebia como tal; eu o percebia como beleza.

E em meu caso, realmente dava certo ouvir os Beatles, pois as vozes funcionavam exatamente como um instrumento a mais, e a música ocupava o espaço da voz do conhecimento. Em certos momentos a voz estava presente, mas em outros não havia voz. Eu gostava tanto da música que em minha cabeça só havia música, quando eu não estava colocando a atenção em qualquer outra coisa. Comecei a fazer isso sem consciência porque mesmo tendo ouvido o que disse meu avô, eu tinha formado a suposição de que ele estava falando sobre música clássica!

Ora, a música pode ser tambores, trombetas ou qualquer tipo de instrumento, desde que não haja palavras em língua que você conheça, palavras que lhe podem prender a atenção.

O problema é quando a música tem palavras de significado claro para você, o que lhe permite pensar nelas.

Há muitas formas de silenciar a mente, e basta coloca-las em prática; mas, do meu ponto de vista, a melhor forma é usar os Quatro Compromissos. Eles têm o poder eliminar milhares de pequenos compromissos que agem contra você, porém não são tão simples quanto podem parecer. Muita gente diz: “Entendo os Quatro Compromissos, e eles estão mudando a minha vida, mas depois de certa altura não consigo continuar o avanço.” Se você não consegue avançar naquele momento é porque está enfrentando uma crença forte. E a fé investida naquela crença é mais forte do que a fé de que você dispõe para muda-la. Por isso é importante que a recuperação de sua fé seja praticada por intermédio de pequenas crenças, após as quais você poderá enfrentar as crenças maiores.

Cada vez que você pratica os Quatro Compromissos, o significado deles se aprofunda um pouco mais.
Quando lê o livro Os quatro compromissos pela segunda vez, ou pela terceira, em certo momento a sensação é de estar lendo um outro livro. A sensação se deve ao fato de você já ter rompido muitos pequenos compromissos. Agora você pode ir um pouco mais fundo, e depois um pouco mais, até chegar ao momento em que terá aberto seus olhos espirituais. Quando finalmente você se transforma, sua vida se torna uma obra prima do sonho, uma expressão de seu corpo emocional, exatamente como ela foi antes do conhecimento.

O fantasma do desamor - Maria Silva Orlovas


É impressionante a quantidade de gente que sofre por amor. Parece que o amor é o maior bem que podemos alcançar nessa vida, mas também é o maior sofrimento que uma hora ou outra enfrentamos.

Quem ainda não sofreu por amor, infelizmente, ainda sofrerá. Isso é um fato. E até aí acho normal, porque de uma forma ou de outra sempre passaremos por uma situação de incompreensão afetiva. Pode ser que tenhamos vivido isso na infância ou adolescência, em nossa família, ou com amigos e colegas, ou na vida amorosa com nossos pretendentes e parceiros. O fato é que o desamor nasce da incompreensão. O sentimento de desamor acompanha ou ressoa quando nos sentimos incompreendidos e, infelizmente, muitas vezes somos incompreendidos.

Muitos dos meus clientes acham que o desamor nasceu na infância, quando foram deixados de lado pelos pais, ou quando foram muito cobrados, ou ainda incompreendidos. Algumas pessoas carregam esses sentimentos até a idade madura e não há nada mais triste do que ver um adulto, pai de família, auto-suficiente financeiramente preso a situações da infância. Muito triste mesmo, porque uma pessoa com estes traços acaba maltratando todos os outros que passarem por sua vida, num processo inconsciente de vingança.

Percebo que a maioria das pessoas que sofre por amor quer descontar o desgosto em alguém. Veja, amigo leitor, que se trata de um processo inconsciente. A pessoa não percebe que está fazendo isso, mas quando se apaixona, ou simplesmente começa uma amizade, carrega todo o ranço do desamor consigo. Assim, vem para essa nova história totalmente carente, coloca a nova pessoa na sua vida de forma rápida, sem muito critério, transforma sapos em príncipes e depois desmorona quando descobre quem é o outro.

Embalada no sofrimento não dá tempo ao tempo. Não se permite olhar para ver quem é a pessoa que está chegando em sua vida. Faz julgamentos apressados e cai constantemente na decepção. Tudo isso porque não se sentiu amado, aceito na infância. Será?

Em se tratando de um entendimento mental/emocional/espiritual nada é assim tão linear.

Sempre pergunto para meus clientes o que vem primeiro: o ovo ou a galinha. Espiritualmente, aprendemos que nascemos nos ambientes compatíveis com a nossa vibração (lei da atração). Também sabemos que podemos mudar tudo isso, mas não se trata de um processo mental, porque, afinal todos queremos ser amados, compreendidos, ter saúde, sucesso profissional. O que muda é abrir a mente e o coração.

Como ensina a oração de São Francisco, precisamos amar mais do que esperamos ser amados. E o lindo dessa história é que no momento que amamos de forma ampla, altruísta, fazemos isso porque começamos a compreender melhor o próximo e deixamos de julgar de forma prematura, ou desesperadoramente carente, pois estamos descobrindo que o amor nos faz muito bem, pelo sentimento de oferecer. Assim, naturalmente, vamos nos aproximando de pessoas que também estejam nessa busca de se melhorar, entender e amar.

O passado nos abre para essa compreensão e mostra que a cura do desamor começa em nós.


Fonte: Núcleo de Yoga Shanta - http://www.shanta.com.br/

domingo, 9 de maio de 2010

Que mãe é essa? - (blog "A Grande Fraternidade Branca Universal")


"Tem bicho mais estranho do que mãe?
Mãe é alma contraditória.
É alegria no choro.
É carinho na raiva.
É o sim no não.

Só mãe mesmo pra ser o oposto...
E depois o contrário de novo.

Vai ver que é porque filho não vem com manual de instrução. e pra conduzir as crias no mundo, ela usa só de intuição, pra tentar fazer tudo direito.

Mas como pode ser assim, tão incoerente?

Ela diz:
Filho, você não come nada...
E logo se contradiz:
Para de comer, que eu estou botando o jantar!

E aí ela lamenta:
Ai, que eu não vejo a hora desse menino crescer!
Mas logo se arrepende:
Deixa que eu faço, você ainda é uma criança...

E quando ela manda:
Tira essa roupa quente, menina!
E logo em seguida:
Veste o casaco, quer pegar um resfriado?

Esse menino dorme demais...
Esse menino não descansa...

Essa menina vive na rua!...
Filha, sai um pouquinho, vai pegar um sol...

Pois é, gente, que pessoa é essa que jura que nunca mais...
E no momento seguinte promete que vai ser pra sempre?

Essa pessoa é assim mesmo:
Igual e diferente de tudo o que a gente já viu.
É a fortaleza que aguenta o tranco, só pra não ver o filho chorar.
É o sorriso de orgulho escondido, só pra não se revelar.

Mãe dá uma canseira na gente.
E às vezes tira do sério...

Até que um dia a gente se depara com uma ausência insuportável:
É a mãe que vai embora, deixando um vazio enorme, escuro, silencioso.
E aí descobre que, mesmo errando, ela sabia de tudo, desde o início.
E fez de tudo pra acertar.
Porque criar filho não tem regra - é doação e amor simplesmente.

Então, se você tiver privilégio de abraçar sua mãe nesse segundo domingo de maio, agradeça, porque o presente é seu. E esteja certo:
Mesmo sem manual de instrução, ela continua aí, atrapalhada, contraditória...
Mas com o olhar atento, querendo entender como você funciona.
E fazendo de tudo pra você não falhar.

Feliz dia das mães!"


Fonte: "A Grande Fraternidade Branca Universal" - http://agrandefraternidadebrancauniversal.blogspot.com/2010/05/que-mae-e-essa.html

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Como dar vida às nossas vidas - As Transformações Começam Conosco - (Monja Coen)


"Há um antigo ditado japonês:
"Se houver relacionamento, faço; se não houver relacionamento, saio".
Um Mestre Zen, no final do século passado, fez a seguinte alteração:
"Havendo relacionamento, faço; não havendo, crio relacionamento".

Essa mudança de paradigma é extremamente importante. Devemos também lembrar que criar um relacionamento não significa, necessariamente, obter resultados imediatos, embora muitas vezes estes ocorram.

Novos relacionamentos em padrões antigos perdem seu significado. Precisamos criar relacionamentos a partir de novas maneiras de nos relacionar, de ver o mundo, de ser, de inter ser. Essa nova maneira pode, inclusive, recarregar de energia positiva antigos relacionamentos.

Para descobrirmos novas maneiras precisamos, primeiramente desenvolver a capacidade de perceber como estão nossos relacionamentos atuais.

Observe e considere meticulosamente a si mesmo. Perceba como está se relacionando em casa, na rua, no trabalho, no lazer. Perceba como respira, como anda, como toca nos objetos, como usa sua voz, como são seus gestos e como são seus pensamentos e os não pensamentos. Esse observar não deve ser limitante, constrangedor, confinador. Apenas observe. Como você se relaciona com o meio ambiente, biodiversidade, reciclagem, justiça social, melhor qualidade de vida, guerras, violência, terror, paz, harmonia, respeito, garantia dos Direitos Humanos? Como você e o seu logos se relacionam entre si e em relação aos projetos de sucesso, de lucro, de desenvolvimento e progresso de sua organização?

Como está se relacionando com o mais íntimo de si mesmo, com a essência da Vida, com o Sagrado?

Será que é capaz de ver, ouvir, sentir e perceber a rede de inter relacionamentos de que é feita a vida? Percebe e leva em consideração, na tomada de decisões, a interdependência?

Tanto individualmente, como no coletivo, nossa participação e compreensão como estão? Será que estamos conscientemente vivendo nossas vidas e direcionando nossos pensamentos, ações e palavras para o sentido de mudança que queremos e sonhamos?

Mahatma Gandhi disse: "Temos de ser a transformação que queremos no mundo".

Geralmente pensamos no mundo como alguma coisa distante e separada de nós, mas nós somos a vida do universo em constante movimento. Podemos até dizer que o mundo somos nós. Nossa vida forma o mundo, é o mundo, não apenas está no mundo. Inclui todas as formas de vida e seus derivados e nos inclui neste instante, instante após instante. Há um monge chinês do século VII, Gensha Shibi , que dizia : "O Universo é uma jóia arredondada. Somos a vida desse universo em constante transformação. Nada vem de fora, nada sai para fora".

De momento a momento tudo está mudando, nós fazemos parte dessa mudança e podemos escolher, discernir qual o caminho que queremos dar a esse constante transformar. É por isso que digo que a transformação começa em nós. Na verdade vai além de apenas começar. É em nós. Nossa capacidade humana de inteligência e compreensão nos permite fazer escolhas. E o que estamos escolhendo?

Outra frase de Mahatma Gandhi:
"Quando uma pessoa dá um passo em direção à Paz, toda a humanidade avança um passo em direção à Paz"

A minha decisão, a sua decisão pode transformar ou influenciar a direção da mudança.
Há um sutra budista que descreve o mundo como uma rede de inter relacionamentos. Como se fosse uma imensa teia de raios luminosos e em cada intersecção uma jóia capaz de receber essa luz e emitir raios em todas as direções. Qualquer pequena mudança afeta o todo. Cada ser que se transforme em um ser de paz, de harmonia, de ternura, carinho e respeito pela vida em todas as suas formas estará sendo uma mudança viva e influenciando tudo e todos.

Qual o primeiro passo? Conhecer a si mesmo. Conhecer nossos mecanismos.

O que nos afeta, nos incomoda? O que nos alegra? O que nos irrita? Como transformar a raiva em compaixão? Como transformar o desafio em competição leal, justa, empreendedora, enriquecedora? Sem nos preocuparmos com os créditos, se formos capazes de fazer o bem, não fazer o mal, fazer o bem aos outros estaremos transformando nossos lares, nossas amizades, nosso ambiente de trabalho, nossas organizações, nossas cidades, estados, países, nações, mundo... e a nós mesmos...no florescimento da Cultura da Paz.

"Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Transcender corpo e mente seu e dos outros. Nenhum traço de iluminação permanece e a Iluminação é colocada à disposição de todos os seres." (Mestre Zen Eihei Dogen - 1200-1253)

É importantíssimo que iniciemos este "estudar a si mesmo", já. Cada um de nós que perceber seu próprio mecanismo ficará em controle desse mecanismo e não mais à mercê de seus sentimentos e emoções, desejos e frustrações, puxado, empurrado, espremido e puxando, empurrando, espremendo - envenenados pela ganância, raiva e ignorância.

Imagine um mundo aonde podemos brilhar uns para os outros, sem ódios, mas com carinhoso respeito e terna compreensão. Percebendo nossas diferenças, aceitando a diversidade da vida e juntando nossas capacidades tanto intelectuais como físicas na construção desse verdadeiro Céu, Paraíso, Terra Pura, Shambala de que falam as religiões, todas elas.

Cabe a nós, a cada um de nós criar esse relacionamento de carinho com a vida, de ternura com todos os seres, de compreensão, de sabedoria e compaixão para percebermos o Caminho Iluminado e o Nirvana permeando toda a existência.
Isso é dar vida à nossa própria vida.

* * *

Haverá explicação e prática da meditação sentada e caminhando, exercícios de plena atenção, momentos de pausa e de reflexão a fim de desenvolver a percepção de si mesmo, do outro e do meio ambiente, de como agimos, reagimos atualmente - nosso relacionamentos - e do que seria conveniente fazer para ocorrer mudanças (caso as considerem necessárias) ou direcionar transformações individuais e coletivas."


Fonte: http://www.monjacoen.com.br/textos-budistas/textos-da-monja-coen/142-como-dar-vida-as-nossas-vidas

terça-feira, 4 de maio de 2010

O ciclo da vida - (Amma)


"Pergunta: "Mãe, você pode ver todos os mundos dentro do seu Ser. Por favor, explique o que acontece quando deixamos o corpo físico."

Amma: "Ao perguntar sobre a vida após a morte, você também está perguntando sobre a lei do karma. Analisar o karma não é importante. O mais importante é saber sair dele, saber ir além de seu ciclo, que é causado pela ignorância sobre seu próprio Ser.

Ações negativas feitas no passado podem não gerar frutos imediatos, e o mesmo se aplica às boas ações. Podemos observar uma pessoa sem muitas virtudes que vive aparentemente usufruindo de muitos prazeres na vida, e podemos ver também uma boa pessoa sofrendo sem razão aparente. Isto parece contradizer a lei do karma, e pode levar alguém até a pensar que ela nem existe. Ao mesmo tempo, para compreender seu significado, a lei do karma deve ser examinada e avaliada de um patamar mais alto da consciência. Para se elevar até este patamar e ver o karma de um nível mais elevado requer fé e prática espiritual. Aqui, o critério não é intelecto, mas intuição espiritual.

Tudo na vida se move em ciclos; o universo é cíclico. Assim como a terra gira em torno do sol em ciclos regulares, toda a Natureza se move em um padrão cíclico também. As estações são cíclicas: primavera, verão, outono, inverno, novamente primavera, e assim por diante. A árvore vem da semente, e, em troca, provê as sementes pelas quais outras árvores irão crescer. É um ciclo. Da mesma forma, há o nascimento, infância, juventude, velhice, morte, e nascimento novamente. É um ciclo contínuo. O tempo se move em ciclos, não em uma linha reta. O karma e seus resultados são inevitáveis para os seres vivos, até que a mente seja parada e se atinja o estado de contentamento e bem-aventurança do próprio Ser.

Ciclos acontecem incessantemente, como a ação e reação. O tempo se move em ciclos. Isso não quer dizer que acontecimentos exatos acontecem várias vezes, randomicamente, mas que o jivatman (alma individual) assume diferentes formas, de acordo com seus vasanas(tendências latentes). Reações são os resultados de ações feitas no passado. Isso acontece constantemente. Como a vida acontece em ciclos, as ações do passado geram frutos. Nós não podemos afirmar quando ao certo esses frutos virão, de que tipo serão, ou como virão. É um mistério conhecido apenas pelo Criador. Você pode acreditar nisto, ou não. Mas se você acredita ou não, a lei do karma continua a operar, e os frutos vêm. Karma é algo que não tem uma origem, mas tem um fim, que é quando o ego é transposto e se atinge o estado de Realização.

Os homens e mulheres se tornam Deus. Cada ser humano é, em essência, Deus. A evolução de homem a Deus é um processo lento, que requer muitos cortes, polimentos e remodelagens. Necessita de muito trabalho e requer uma grande paciência. Não pode ser feito revolucionariamente. A revolução é rápida, mas mata e destrói. Os homens são revolucionários. Deus é evolucionário.

O ciclo da vida se move lenta e constantemente. O verão chega, em seu próprio tempo, nunca com pressa. Todas as outras estações – outono, inverno e primavera – levam seu próprio tempo para chegar. Por trás do mistério repousa o poder invisível de Deus. Este poder não pode ser analisado. Só confie que ele existe.

Tente se esquecer do ciclo do karma. Não há necessidade de se pensar sobre o passado, ele é um capítulo encerrado. O que está feito, está feito. Confronte o presente. O que importa é o presente, pois o futuro depende inteiramente de como você vive o momento presente. Tendemos a transitar a maior parte do tempo entre o passado e o futuro. Mas o presente habita neste momento, e quase sempre o perdemos. Quando vivemos 'neste momento', estamos no 'aqui', completamente presentes, e o próximo momento não importa. Viver no momento presente, em Deus, no Ser Superior, irá parar a lei do karma de atuar em nossas vidas."

Fonte: http://www.ammabrasil.org/ensinamentos/karma.htm

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Sentido "Eu Sou" - (Nisargadatta Maharaj)



Pergunta: É um fato da experiência diária que, ao despertarmos, o mundo repentinamente aparece. De onde ele vem?

Maharaj: Antes que algo possa chegar a ser, deve existir alguém a quem ele chega. Todo aparecimento e desaparecimento pressupõem uma mudança em relação a um fundo imutável.

P: Antes de despertar, eu estava inconsciente.

M: Em que sentido? No de haver esquecido ou no de não ter experimentado? Você não experimenta mesmo estando inconsciente? Você pode existir sem conhecer? Um lapso na memória é uma prova de inexistência? E você pode falar com validade sobre sua própria inexistência como uma experiência real? Nem sequer pode dizer que sua mente não existia. Não despertou ao ser chamado? E, ao despertar, não foi o sentido de “eu sou” que chegou primeiro? Alguma semente de consciência deve ter existido inclusive durante o sonho ou o desmaio. Ao despertar, a experiência é assim: “Eu sou o corpo no mundo”. Pode parecer que surja na seqüência, mas, de fato, tudo é simultâneo, uma única idéia de ter um corpo no mundo. Pode existir o sentido de “eu sou” sem ser alguém ou outro?

P: Eu sempre sou alguém com recordações e hábitos. Não conheço outro “eu sou”.

M: Talvez algo o impeça de conhecer? Quando você não sabe o que os demais sabem, o que faz?

P: Busco a fonte de seu conhecimento sob sua instrução.

M: Não é importante para você saber se é um mero corpo ou outra coisa? Ou talvez nada em absoluto? Não vê que todos os seus problemas são os problemas de seu corpo – alimento, vestuário, casa, família, amigos, nome, fama, segurança, sobrevivência. Tudo isto perderá seu significado no momento em que você compreender que talvez não seja um mero corpo.

P: Que beneficio há em saber que não sou o corpo?

M: Mesmo dizer que você não é o corpo não é totalmente verdadeiro. Em um certo modo você é todos os corpos, corações e mentes, e muito mais. Aprofunde-se no sentido de “eu sou” e você encontrará. Como você encontra algo que você perdeu ou esqueceu? Você o mantém na mente até que lembre dele. O sentido de ser, de “eu sou”, é o primeiro que surge. Pergunte-se de onde ele vem ou simplesmente observe-o calmamente. Quando a mente permanece no “eu sou” sem mover-se, você entra em um estado que não pode ser verbalizado, mas pode ser experimentado. Tudo o que necessita fazer é tentar e tentar novamente. Depois de tudo, o sentido de “eu sou” sempre está com você, apenas você acrescentou a ele todo tipo de coisas: o corpo, sentimentos, pensamentos, idéias, posses, etc. Todas estas auto-identificações são errôneas. Devido a elas você acredita ser o que não é.

P: Então, que sou eu?

M: É suficiente saber o que você não é. Não necessita saber o que é. Enquanto o conhecimento significar descrição em termos do já conhecido, oriundo da percepção, ou conceptual, não poderá haver conhecimento de si mesmo, pois tudo o que se é não pode ser descrito, exceto como negação total. Tudo que você pode dizer é: “Eu não sou isto, eu não sou aquilo”; você não pode dizer significativamente “isto é o que sou”. Simplesmente não tem sentido. O que pode assinalar como “isto” ou “aquilo” não pode ser você. Também não pode ser “outra coisa”. Não é algo que possa ser percebido ou imaginado. E, por sua vez, sem você, não pode haver percepção nem imaginação. Observe o sentir do coração, o pensar da mente, o atuar do corpo – o próprio ato de perceber mostra que você não é o que percebe. Pode haver percepção ou experiência sem você? Uma experiência tem que “pertencer” a alguém. Alguém deve vir e a proclamar como própria. Sem um experimentador, a experiência não é real. O experimentador é o que dá realidade à experiência. Uma experiência que você não possa ter, que valor tem para você?

P: O sentido de ser o experimentador, o sentido de “eu sou”, não é também uma experiência?

M: Obviamente, tudo o que se experimenta é uma experiência. E, em cada experiência, surge seu experimentador. A memória cria a ilusão de continuidade. Na realidade, cada experiência tem seu próprio experimentador, e o sentido de identidade se deve ao fator comum na raiz de todas as relações entre experimentador e experiência. A identidade e a continuidade não são a mesma coisa. Exatamente como cada flor tem sua cor própria, mas todas as cores são causadas pela mesma luz, do mesmo modo aparecem muitos experimentadores na Consciência não dividida e indivisível, cada um separado na memória, mas idênticos em essência. Esta essência é a raiz, a base, a “possibilidade” atemporal e ilimitada de toda experiência.

P: Como posso chegar a ela?

M: Você não necessita chegar a ela, já que você é ela. Se você lhe der uma oportunidade, virá a você. Abandone seu apego ao irreal e o real aparecerá por si mesmo, suave e tranqüilamente. Deixe de imaginar-se sendo ou fazendo isto ou aquilo, e a compreensão de que você é a fonte e o coração de tudo despontará em você. Com isto surgirá um grande amor que não será escolha ou predileção, nem apego, mas um poder que fará todas as coisas dignas de amor.

(De "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre os ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita.)
Fonte: http://avidaimpessoal.blogspot.com/2010/04/o-sentido-eu-sou-nisargadatta.html

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O mestre do afeto - Rolando Toro - (Texto: Liane Alves; Revista Bons Fluídos)


Criador da biodanza, a dança da vida, o psicólogo chileno Rolando Toro nos fala por que o desenvolvimento da afetividade e do amor é o grande desafio deste século.


Ele tem 86 anos. Mesmo assim, sua voz é firme, tranquila, e sua lucidez, impressionante. Porém, o que Rolando Toro mais transmite no contato pessoal é a afetividade. Ele tem amor pelo seu trabalho, que faz há mais de 60 anos, pela humanidade, que o motivou a elaborar um método que aliviasse seu sofrimento e, mais do que tudo, pela vida. Sempre está aberto para aprender com ela e até hoje aprofunda sua compreensão sobre como a dança, a música e o contato em grupo atuam no corpo, na mente e no espírito.

“A biodanza é um sistema de integração humana, de renovação da vitalidade e de reeducação afetiva. Ela também é um reaprendizado da sensação ancestral de estarmos ligados à vida e fazermos parte de um universo vivo e dinâmico”, diz Rolando. “Essa sensação de pertencer a tudo que está vivo foi perdida em nossa cultura. A civilização atual, considerada racional e objetiva, nos roubou a vivência plena dos nossos sentidos, a vitalidade, a afetividade e até mesmo uma espiritualidade mais enraizada”, diz ele. “Somos seres despedaçados, desconectados, que pensam de um jeito, sentem de outro e atuam numa terceira direção.”

Hoje, existem mais de dois mil grupos de biodanza em todo o mundo e um instituto — o International Biocentric Foundation (IBF), com sede em Santiago, no Chile — dedicado a pesquisar a aplicação da cultura biocêntrica, que fundamenta a biodanza, em áreas diversas, como a educação, a psicologia e a saúde. O método é ensinado em todos os continentes, mas tem grande força na Itália e no Brasil. A biodanza foi introduzida há 40 anos no país e tem duas escolas de formação de professores em São Paulo: a Escola Paulista de Biodanza, dirigida por Maria Luiza Appy, e a Escola de Biodanza da Zona Sul, sob a direção de Teresa e Mauro Lima. Além das escolas, os professores por elas formados criam outros grupos, atuantes em todo o Brasil.

Qualquer pessoa pode fazer a biodanza, não é necessária nenhuma experiência anterior. “Não é uma dança formal, com uma coreografia que tem de ser aprendida. Pelo contrário, vamos recuperar a naturalidade e a espontaneidade que há em nós”, diz Monica Vilhena, professora de grupos de biodanza em São Paulo.

Veja agora, na entrevista de Rolando Toro para a revista BONS FLUIDOS, como podemos desenvolver nossa afetividade e também o nosso potencial de amor através do corpo, da música e da dança.



BF Como surgiu a biodanza?
RT
Minha sensação é de ter procurado realizar durante muitos anos o trabalho de aumentar a afetividade no ser humano. Somos mais cerebrais, e em nosso mundo a inteligência não está unida ao afeto. E isso tem consequências terríveis. Refleti muito sobre como elas foram marcantes durante a Segunda Guerra Mundial, que produziu acontecimentos catastróficos, como o Holocausto e o lançamento de bombas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Percebi que vivemos numa sociedade doente, em que a vida não é considerada sagrada. Os princípios ideológicos pairam sobre os relacionados à vida, que celebram o amor, a comunhão com os semelhantes, a solidariedade. Busquei por muitos caminhos uma maneira de fazer essa mudança, que precisava ser tanto individual quanto coletiva. Parecia uma quimera sonhar com a formação de um novo ser humano, mas sempre fui estimulado pelo impossível.

BF Como o senhor acha que a sua formação de antropólogo o ajudou na criação dos valores da cultura biocêntrica, que alicerça a biodanza?
RT
Sou psicólogo, com especialização em antropologia médica. Isto é, meu trabalho é refletir sobre como a cultura de uma sociedade influi na saúde ou na doença do indivíduo. Atuei em hospitais psiquiátricos no Chile com essa função, além de ter sido encarregado de procurar soluções que melhorassem a relação médico-paciente, para que ela se tornasse mais humana. Lembre-se que venho do tempo dos eletrochoques, das lobotomias (intervenção cirúrgica no cérebro para curar doenças mentais graves). Tinha de lidar com aquela realidade brutal e procurar transformá-la.

BF E o que o senhor fez, então?
RT
Uma das ideias que tive foi de fazer um baile para congregar os pacientes. Escolhi as músicas que considerei as melhores, todas calmas, melódicas e até mesmo melancólicas. Eles se arrumaram, houve um movimento de recuperação da autoestima e da dignidade. Alguns até se apaixonaram durante o baile. Mas, depois, de madrugada, muitos entraram em surto psicótico. As enfermeiras ficaram enlouquecidas. Nesse momento, vi como a música tranquila, na verdade, tinha estimulado a eclosão do estado psicótico. Isto é, esses pacientes já estavam regredidos, deprimidos, sintomas que são característicos da psicose, e esse tipo de situação os deprimiu ainda mais. Fiquei chocado com a influência da música na psique. Mais tarde, fiz outra festa, com músicas e danças alegres, rítmicas. Os pacientes dormiram como anjos.

BF Como foi feito o trabalho de recuperar movimentos e danças que celebrassem a vida em diferentes culturas?
RT
As culturas tribais conservam os movimentos naturais, intuitivos, que expressam as emoções. Com elas, aprendi que existia uma espécie de matriz corporal e gestual universal ligada a cada um dos sentimentos. Expressá-las fazia muito bem ao ser humano e era uma forma esplêndida de entrar em contato com o mundo afetivo interno e assim desenvolver nossa afetividade atrofiada. Minha proposta tem a finalidade de resgatar a “selva interior” de cada um, pois considero necessário ver as manifestações instintivas sob uma perspectiva de exaltação da vida e da graça natural.

BF Qual a relação entre vida e afetividade?
RT
A afetividade é o potencial inato que garante a conservação da vida. A vida se torna sagrada porque a amamos. Vivemos um vazio existencial que tentamos preencher com a busca incessante de juventude, beleza, conforto e consumo, distanciando-nos muito do essencial, que é a vivência do amor, da união, da empatia e da solidariedade.

BF Por que vivemos numa sociedade tão agressiva e tão pouco nutridora de afeto?
RT
No fundo, o que todas as pessoas querem é apenas amar e ser amadas. Porém, é exatamente isso o mais difícil de acontecer hoje, pois vivemos numa civilização em que as emoções e os sentimentos são bloqueados. Ela pretende ser racional, quando na verdade é apenas absurda. A inteligência não está mais unida à afetividade e é ela que nos faz sentir parte do todo. Também é o afeto que nos dá alegria de viver, a sensação de nos sentirmos vivos, ligados à natureza e aos outros seres humanos. Por isso não temos mais emoção ao vermos a morte de 100, 200 mil pessoas numa guerra. Não consideramos mais a unidade, não a vivenciamos. Nosso mundo fez progressos tecnológicos maravilhosos, como construir um avião de 200 toneladas que levanta voo e nos leva a outros países, e a internet, que nos dá acesso a informações de todos os gêneros. Mas, infelizmente, essa tecnologia não está a serviço do desenvolvimento da emoção. Falta-nos um outro tipo de formação e compreensão para podermos vivêla, e a tecnologia não nos dá isso.

BF Como surgiu a biodanza?
BF Essa dissociação sempre aconteceu ou é uma característica dos nossos tempos?

RT As primeiras civilizações, alicerçadas no matriarcado, tinham outra dimensão da afetividade, pois a nutriam constantemente e sabiam de sua importância. A mulher é uma geradora de vida e a ela é dado o papel de alimentar as relações, primeiro da família, depois do grupo e da comunidade. Ela é nutridora de afeto, de entendimento, de compreensão. Por ter em si essa capacidade de gerar, alimentar e nutrir, tem também um respeito inato pela vida. Com o surgimento do patriarcalismo, isso mudou. O foco não é mais dirigido à vida, mas ao poder, à competição, à guerra. Os homens não estão interessados na felicidade, no amor, e sim no poder. E é nessa civilização patriarcal que nasce o machismo, o massacre da mulher e dos valores associados a ela. Considero o machismo uma doença mais grave que a esquizofrenia e o câncer, pois não destrói só o indivíduo, mas sociedades inteiras. Stálin queria construir um paraíso social, e para isso matou 20 milhões de pessoas. Hitler queria uma nova civilização, e na Segunda Guerra morreram 40 milhões de seres humanos. Os homens não sabem governar.

BF Mas essa situação não pode se transformar?
RT Sim, aos poucos, já está mudando. Está nascendo um novo homem, mais inteiro, mais sensível, mais amoroso, que integra, sem medo, seu lado feminino ao masculino. Mas é preciso uma nova educação, uma nova pedagogia para que esses homens sejam em maior número, pois ainda são poucos. Essa tarefa é desenvolvida na International Biocentric Foundation, que usa o conceito do amor à vida na dança (biodanza) e em outros campos do desenvolvimento humano.

BF Como a neurociência avalia os efeitos da biodanza?
RT Os resultados são espetaculares. Vemos, por exemplo, que os efeitos de uma música eufórica, rítmica, podem durar até por oito, nove minutos depois do término da dança. E que os efeitos de uma dança romântica, com olhos nos olhos, podem permanecer por até 24 horas! São diferentes deflagrações hormonais, de durações diversas. A natureza das mudanças que ocorrem no indivíduo também varia. Mas podese dizer, com base em pesquisas científicas, que a proximidade de um outro ser humano já nos modifica. Não estou falando que as emoções que uma pessoa provoca em nós nos modificam, mas que nossos processos internos mudam completamente apenas com a presença de alguém, tal a nossa sensibilidade para o outro. Acontece uma relação energética invisível, com uma linguagem invisível, que nos influencia. Também há diversos estudos sobre as carícias e como elas afetam os seres humanos. Mas, em resumo, quanto mais afeto recebemos, mais somos capazes de dar afeto.

BF Quem não recebeu amor ou cuidado durante a infância, por exemplo, como fica?
RT Pessoas adultas que tiveram uma infância carente podem recuperar boa parte do seu afeto praticando a biodanza. Sou suspeito para falar disso, é claro, mas posso afirmar com total segurança que os efeitos são extraordinários.




UMA AULA DE BIODANZA COM ROLANDO TORO

Numa sala de 150 metros quadrados, um grupo de 50 pessoas ouve atentamente seu mestre. São praticantes e professores de biodanza que se reúnem toda vez que Rolando Toro vem ao Brasil. A maioria já faz parte do grupo há alguns anos, mas também há aqueles que estão ali pela primeira vez, como eu. Sinceramente, não sei o que esperar. Uma parte de mim está ansiosa: será que vou conseguir fluir com os outros? Após breves palavras, Rolando conduz uma rápida meditação. Faz, em seguida, alguns exercícios simples para relaxar o corpo e se dirige ao gravador que está ao lado de uma caixa com centenas de CDs. Como um DJ da psique, o antropólogo começa a aula com músicas alegres oriundas do mundo todo. Ele faz alguns movimentos que traduzem aquela alegria — são as matrizes, isto é, os passos que geram e expressam determinadas emoções e sentimentos. Ele fala sobre a emoção que a música irá provocar, o sentimento com o qual vamos entrar em contato. Logo em seguida, cada pessoa repete esses movimentos à sua maneira. Ainda não formamos pares, mas ele logo sugere que cada um escolha alguém para dançar, apenas por uma única música. Depois, todos trocarão de parceiro, e assim até o final. Há mais mulheres que homens e, por insegurança, prefiro escolher uma moça de olhar doce e amistoso. Coincidentemente, a música e os movimentos propostos são destinados a expressar a doçura da amizade. Fazemos movimentos de mãos dadas, dentro do que foi sugerido pela matriz. Fluo com incrível facilidade, assim como ela. E realmente nasce uma sensação de conforto, cumplicidade e segurança, exatamente o que nos proporciona o sentimento da amizade. Outras matrizes serão propostas durante a aula. Há aquelas que recuperam o amor filial, outras, o amor maternal, ou, ainda, nosso lado infantil. Em algumas dessas vivências há muita proximidade — fiquei pensando como reagiria alguém que fosse excessivamente tímido. No entanto, parece que a timidez pode ser ultrapassada com a própria energia do grupo, que é muito amorosa. No final, todos aplaudem o mestre Rolando Toro. Saio dali nutrida de afeto.


Fonte: Revista Bons Fluidos - edição janeiro/2010.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Eu sou a onda - (Chandra Lacombe)

Repetição do Mantra ou Meditação Ma-Om? - (Amma)


O mar azul-esverdeado e um lindo entardecer tornou-se o pano de fundo para uma outro satsang acarinhado pela presença da Amma. Ela sentou-se debaixo de um coqueiro na praia, próximo ao prédio de Ayurveda. Depois de uma breve meditação, a Amma respondeu a uma pergunta feita por um brahmachari.

Pergunta: "Qual é a diferença entre a repetição de mantra (Mantra Japa) e a técnica de meditação Ma-Om, como Sadhana (prática espiritual)?"

A Amma respondeu: "Todas estas práticas são para irmos mais a fundo dentro de nós mesmos. Deus e o Guru estão dentro de nós. Mas a mente vê apenas o material e não percebe a verdade. A Amma se lembrou da história de seus dias de escola. Um corvo sedento viu um jarro com água, mas com um nível muito baixo para alcançar a bebida. No desejo de saciar sua sede, o pássaro começou a jogar pedras no recipiente até o nível da água subir para ele poder beber. Por causa da sede, o corvo fez um esforço. Da mesma forma, é preciso colocar esforço para trazer o conhecimento à tona dentro de nós. Através de nosso esforço e com atenção, podemos despertar o conhecimento interior."

"No mundo de hoje, as pessoas fingem que estão dormindo. Não se pode acordá-las. Da mesma maneira, ainda não estamos prontos para acordar. De fato, o discípulo tem de abrir a porta para que o mestre possa entrar ", explicou Amma.

Amma falou: "Nossa mente está sempre nos puxando em todas as direções. Através do Mantra conseguimos concentrar a mente e, com isso, ganhamos energia. Como uma lupa que faz com que os raios do sol possam convergir em um ponto de tal intensidade que o fogo é produzido. Através de práticas espirituais, pode-se economizar muita energia e usar a mesma para fazer o bem para o mundo. Se uma pessoa normal pode ser comparada a uma lâmpada, um Tapasvi (Sadhak avançado) é como um transformador. Ele pode fazer muito bem para o mundo".

Amma se lembrou então de um advogado que tinha o hábito de carregar a caneta enquanto discutia seus casos. Com o clique constante ele era capaz de aliviar a tensão e se concentrar e, assim, ganhava vários processos. Um dia, ele se esqueceu da caneta e a tensão mental tomou conta dele, resultando em um argumento patético e, por fim, a perda do caso. A caneta insignificante foi útil para aliviar suas tensões. Pode parecer irracional, mas ela tinha valor prático. Da mesma forma, as práticas espirituais nos ajudam a aliviar a mente.

"Muitas pessoas falam de Pranayama (exercícios respiratórios) e dizem que o controle da retenção da respiração é bom para a concentração. Se fosse assim, todos os pacientes asmáticos atingiriam a Auto-realização", brincou Amma.

Ela continuou: "Nós precisamos fazer práticas com conhecimento e consciência". A Amma também nos explicou como a meditação Ma-Om foi descoberta. Quando ela era pequena, costumava caminhar pela praia. O fluxo e refluxo das ondas do mar soava como Ma e Om para a Amma. Ma-Om tornou-se como a respiração, contínua e automática. Assim, cada passo na praia era a meditação.

A Amma apontou como estamos vivendo a vida de forma agitada. "As pessoas estão tão impacientes... Eles pulam para conclusões súbitas. A ave estava sentado em um porto e queria ir para o outro lado. Viu um navio e pensou que ele poderia levá-la ao outro lado do porto, então voou para o mastro e pousou sobre ele. O navio começou em seu curso e em algum momento foi parar longe no mar. Enquanto o tempo passava, o pássaro ficou entediado e começou a voar para o norte esperando chegar à terra. Depois de um tempo, se cansou e voltou. Mais tarde, tentou voar para o sul. Teve que voltar, já estava ficando esgotado. A ave então procurou o Oriente e o Ocidente e, não vendo nenhuma terra à vista, teve que voltar para o navio outra vez. Só quando a nau se aproximou do porto de novo, o pássaro conseguiu avistar o continente, e pouco tempo depois chegaram à praia. Se o pássaro tivesse sido paciente, teria permanecido em solo, sem viajar tanto com o navio nem voado para cá e para lá, sem chegar a lugar algum.

A Amma concluiu o satsang, explicando: "Da mesma forma, a verdadeira felicidade já está em nosso interior. Seja firme em sua prática. Pratique regularmente. Quando cresce a consciência, vemos mesclar à realidade essa felicidade dentro de nós".

Método da Meditação MA-OM - (Amma)


O método de meditação MA-OM é bem simples e é instruída pela Amma durante os encontros que realiza por todo mundo. Este método não precisa de uma iniciação formal.

Passos:
1) Sente-se confortavelmente. Mantenha a coluna reta.
2) Relaxe.
3) Concentre-se na sua respiração, mantendo-a normal.
4) Calmamente e suavemente, respire conscientemente.
5) Deixe que os pensamentos passem como uma brisa, sem brigar com eles, deixe-os passar.
5) Ao inspirar, imagine o som MA, sem pronunciá-lo verbalmente.
6) Ao expirar, imagine o som OM, sem pronunciá-lo.
7) Concentre-se na vibração dos sons e não na respiração.
8) Imagine o som MA e OM, vibrando em todas as células do corpo.
9) Respire lentamente, mas confortavelmente.

MA é o Amor Divino. OM é a Luz Divina. Abra seu coração e mente e permita essa conexão.
Gradualmente, você se encontrará num estado mental bem relaxado, ausente de pensamento.
Este é o estado meditativo a ser conquistado por este método.
Desfrute da paz interior! Jay Ma!



Fonte: http://www.ammabrasil.org/praticas/MA-OM.htm

Amma, uma oferenda ao mundo - (Amma)


"Pergunta: "Amma, o que você espera de seus discípulos?"

Amma: "A Amma não espera nada de ninguém. A Amma se ofereceu ao mundo. Uma vez que você se torna uma oferenda, como você pode esperar algo de alguém? Todas as expectativas nascem do ego."

Pergunta: "Mas Amma, você fala tanto sobre entrega ao Guru. Isto não é uma expectativa?"

Amma: "É verdade, a Amma fala bastante sobre isso, mas não porque Ela espera entrega de seus filhos, mas porque isto é crucial na vida espiritual deles. O Guru oferece tudo o que tem ao discípulo. Como o Satguru (Mestre Perfeito) é uma alma completamente entregue, é isto que sua presença oferece e ensina ao discípulo. Acontece espontaneamente. Dependendo da maturidade e entendimento do aspirante espiritual, ele pode aceitar ou rejeitar isto. Qualquer que seja a atitude do discípulo, o Satguru continuará se doando – ele simplesmente não pode agir de outra maneira."

Aum Amriteswaryai Namah"


Extraído do Livro: "From Amma's Heart – Conversations with Sri Mata Amritanandamayi Devi", por Swami Amritaswarupananda

Sonho da Amma - (Mata Amritanandamayi)


"Que todos no mundo possam ser capazes de dormir sem medo, pelo menos por uma noite. Que todo mundo possa ser capaz de comer até se saciar, pelo menos por um dia. Que haja pelo menos um dia em que os hospitais não tenham pessoas internadas por causa da violência. Fazendo serviço altruísta, pelo menos um dia, que todos possam ajudar aos pobres e necessitados. Esta é a oração da Amma - que pelo menos este pequeno sonho seja realizado."

"Desejo a você ..." - (Carlos Drummond de Andrade)


"Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu."