terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Coruja - (Monja Coen)


"Era uma coruja pequena, de uns vinte centímetros de altura e talvez quarenta de envergadura. Entrara à noite na sala de zazen e se empoleirou no altar.

As pessoas haviam ido para o Zazen de Iniciantes. Sentavam-se calados e imóveis, de face para uma parede clara, ouvindo os sons internos e externos, transcendendo o comum e o sagrado, indo além do pensar e do não-pensar, procurando acessar à sabedoria completa, àquele saber-conhecer-perceber profundo que nos coloca face a face com a Verdade. Contato direto com a realidade real da grande unidade. Indo além de conceitos e de pré-conceitos. Antes do pensar se iniciar, antes da dualidade se criar. Antes do dividir e escolher. Antes do separar e julgar. Quando tudo apenas é. E nesse ser se percebe o interser. Inter-relacionamentos perfeitos e sincrônicos na grande sinfonia do universo. Nós tão pequenos humanos. Tão sonhadores de uma grandeza à qual não alcançamos. O planeta Marte vermelho e brilhante deixou nosso céu mais vasto e nos fez pensar nos marcianos. Eles eram verdes na minha infância. A vida em Marte era uma fascinação. Discos Voadores – Objetos voadores não identificados. Até pensei ter visto um assim de relance, na curva do prédio. Mas era apenas a ponta do dirigível sobrevoando a cidade. Dirigível é muito lindo.

Será que somos dirigíveis? Quero dizer, será que podemos dirigir a nós mesmos? Ter acesso à central de controle de nossas vidas? Guiarmo-nos a nós mesmos? Ou será que somos dirigidos por alguém mais? Será que somos controlados por radares espaciais? Será que as propagandas, revistas, televisões, modas e padrões determinam nossas opções? Estas e outras questões podem surgir nos momentos sentados quietos imóveis sedentos do encontro sagrado com o mais sagrado. Penetrar a origem da mente, a origem do ser, a origem da vida comum a toda a vida, a nossa própria mente procurando a mente, a própria vida procurando a vida. O que não nasce nem morre, que se revolve e transmuta, transforma e reforma incessantemente.

A coruja pequena marrom e cinzenta de olhos grandes e bico pequeno empoleirada no canto do altar. Voou baixo perto das cabeças dos que sentados estavam, em zazen entregados. Bateu a cabeça no vidro da porta. Estonteada voou para o outro lado. Bateu na parede e se sentou. Assentada ficou a coruja também. Será que meditava? Olhos semicerrados procurando o sagrado?

Meditar é um verbo transitivo que requer um objeto. Meditar sobre a vida. Meditar sobre as obras do Senhor. Meditar sobre suas ações. Mas também existe um meditar intransitivo, meditar a meditação meditando, sem objeto, sem objetivo, sem nada. A qual meditação se entregava a ave perdida na sala encontrada?

Nós outros, humanos, nos regozijamos, pois a coruja também simboliza a grande sabedoria que ali na sala se encontraria. Teria ela, a sabedoria, vindo nos visitar? Olhos enormes, que vê no escuro.

Que tesouro poder tudo ver compreender. Adeus aos rancores e tantos temores. Sabedoria brilhante, irradiante.

Os meditadores se levantaram e se foram alegres com o bom presságio. Fiquei encantada e preocupada em como lidar com a coruja na sala. Escurecemos o ambiente, deixando a luz de fora acesa, para que ela encontrasse o caminho da volta. Volta para onde? De onde viera a coruja tão pequena e tão bela? Teria fugido de alguma morada? Teria um ninho, uma árvore, uma casa? Seria sem teto? E o céu não é nada? Depois de momentos ela voou. Tão lindo vê-la de asas abertas. Obrigada, amiga, por sua visita.

Qual o objetivo do Zen? - me pergunta alguém.
Encontrar o sagrado secreto."

domingo, 6 de setembro de 2009

Abre Caminho - (Mariene de Castro)


"Diga a mãe que eu cheguei...
Cheguei. tô chegada
Esperei, bem esperado
Nessa minha caminhada
Sou água de cachoeira
Ninguém pode me amarrar
Piso firme na corrente,
que caminha para o mar
Em água de se perder
eu não me deixo levar
eu andei
Andei lá, andei lá, andei lá,
eu já sei
O caminho andei lá
Eu nasci e me criei
no colo das iabás
Andei por cima da pedras
Pisei no fogo sem me queimar
Andei onde mãe Clementina
andou,
E o samba mandou me chamar
Eu faço o que o samba manda
Eu ando onde o samba andar
Com a força da minha fé,
Eu ando em qualquer lugar
Na beira do mar
Andei lá no Gantois andei
No samba de Edith
andei lá no tororó
Andei no cortejo do Bonfim
andei, andei, andei lá
Na festa do Divino
Cantei pro menino, me Abençoar
Inda vou caminhar"

(Composição: Roque Ferreira, J. Velloso, Mariene de Castro)

Palavras não falam - (Mariana Aydar)


"Eu não escrevo pra ninguém e nem pra fazer música
E nem pra preencher o branco dessa página linda
Eu me entendo escrevendo e vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco e ele me mostra o que eu não
sei

E me faz ver o que não tem palavra
Por mais que eu tente, são só palavras
Por mais que eu me mate, são só palavras

Eu não escrevo pra ninguém e nem pra fazer música
E nem pra preencher o branco dessa página linda
Eu me entendo escrevendo e vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco e ele me mostra o que eu não
sei

E me faz ver o que não tem palavra
Por mais que eu tente, são só palavras
Por mais que eu me mate, são só palavras

Eu me entendo escrevendo e vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco e ele me mostra o que eu não
sei

E me faz ver o que não tem palavra
Por mais que eu tente, são só palavras
Por mais que eu me mate, são só palavras"

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Sobre o morrer todos os dias - (Krishnamurti)


"O pensamento é o resultado do passado a atuar no presente; as vagas do passado estão de contínuo submergindo o presente. O presente, o novo, está sempre sendo absorvido pelo passado, o conhecido. Para se viver no presente eterno, é necessário morrer para o passado, para a memória; nesta morte há renovação, sem a limitação do tempo.

Estende-se o presente para o passado e para o futuro; sem compreender-se o presente, fica- nos fechada a porta para a compreensão do passado. É tão fugaz a percepção do que é novo; nem bem o sentimos e já o submerge a rápida corrente do passado, e o novo deixa de existir.

Morrer para todos os dias passados, viver cada dia renovadamente — tal só é possível se formos capazes de estar passivamente vigilantes. Nessa vigilância passiva nada se nos acrescenta; nela há uma tranqüilidade intensa, na qual se assiste ao desenrolar perene do novo, na qual o silêncio se estende infinitamente.

Procuramos servir-nos do novo como meio de destruir ou consolidar o velho, e com isso corrompemos o presente, em que palpita a vida. O presente renova, e dá-nos a compreensão do passado. É sempre o novo que dá compreensão, e na sua luz assume o passado um significado novo e vivificante. Quando ouvimos uma coisa nova, ou a sentimos em nós, nossa reação instintiva é compará-la com o velho, com algo já conhecido e sentido, com uma lembrança já quase a apagar-se. Essa comparação dá força ao passado, desfigura o presente, e por essa razão se transforma o novo sempre em coisa passada e morta. Se fosse o pensamento-sentimento capaz de viver no presente, sem o desfigurar, veríamos, então, o passado transformar-se no presente eterno.

Para alguns de vós terão, porventura, estas palestras e exposições despertado uma compreensão nova e estimulante; o que agora importa é que se não ajuste o novo a velhos padrões de pensamento ou velhas fraseologias. Deixai o novo como está, livre de contaminação. Se for ele verdadeiro, a sua luz abundante e criadora dissipará o passado. O desejo de dar permanência ao presente criador, de torná-lo prático ou útil, despoja-o de seu valor. Deixai que o novo viva, sem estar ancorado no passado, sem a influência deformadora de temores e esperanças.

Morrei para vossa experiência, para vossas lembranças. Morrei para vossos preconceitos agradáveis ou desagradáveis. Morrer assim é tornar-se incorruptível; tal estado não é de aniquilamento porém de criação. É essa renovação que, se o permitirmos dissolverá os nossos problemas, por mais complicados, e os nossos sofrimentos, por mais intensos que sejam. Só na morte do “ego” haverá a vida."


Krishnamurti - Conferências com perguntas e respostas realizadas nos anos de 1945 e 1946, em Ojai, Califórnia, Estados Unidos da América. Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz – Ed. ICK - 1946

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Como "consertar" o mundo - (Conto zen)


"Era uma vez, um cientista que vivia preocupado com os problemas do mundo e decidido a encontrar meios de melhorá-los. Passava dias e dias no seu laboratório à procura de respostas.

Um dia, o seu filho de sete anos invadiu o seu santuário querendo ajudar o pai a trabalhar. Claro que o cientista não queria ser interrompido e, por isso, tentou que o filho fosse brincar em vez de ficar ali a atrapalhá-lo. Mas, como o menino era persistente, o pai teve de arranjar forma de entretê-lo, ali mesmo no laboratório. Foi então que reparou num mapa do mundo que vinha numa página de uma revista. Lembrou-se de cortar o mapa em vários pedaços e depois apresentou o desafio ao pequenote:

- Filho, vais ajudar-me a consertar o mundo! Aqui está o mundo todo partido. E tu vais arranjá-lo para que ele fique bem outra vez! Quando terminares chamas-me, ok?

O cientista estava convencido que a criança levaria dias a resolver o quebra-cabeças que ele tinha construído. Mas surpreendentemente, poucas horas depois, o filho já chamava por ele:

- Pai, pai, já fiz tudo. Consegui consertar o mundo!

O pai não queria acreditar, achava que era impossível um miúdo daquela idade ter conseguido montar o quebra-cabeças de uma imagem que ele nunca tinha visto antes. Por isso, apenas levantou os olhos dos seus cálculos para ver o trabalho do filho que, pensava ele, não era mais do que um disparate digno de uma criança daquela idade. Porém, quando viu o mapa completamente montado, sem nenhum erro, perguntou ao filho como é que ele tinha conseguido sem nunca ter visto um mapa do mundo anteriormente.

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando tiraste o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando me deste o mundo para eu consertar, eu tentei mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os pedaços de papel ao contrário e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que tinha consertado o mundo."

Beijando o Sapo - (Gangaji)


Intensivo em San Diego, Califórnia. - 9 de fevereiro de 2002, à tarde.


Gangaji: Oi.

Quest: Oi. Quero lhe perguntar sobre uma experiência que tive. Há momentos em que tenho a experiência de uma imensidão que simplesmente não tem limites e, realmente, não tem nada a ver comigo...

Gangaji: Ah! Espere um momento. Vamos devagar. Que declaração! Ser capaz de fazer uma declaração como esta é algo muito bonito. E saber, reconhecer, que "realmente, não tem nada a ver comigo."

Quest: Meu sofrimento geralmente aparece quando vivencio uma personalidade que tem muitos problemas.

Gangaji: Personalidade significa problemas. É uma palavra-código para problemas. Até mesmo personalidades encantadoras.

Quest: Mas o que faço com a personalidade?

Gangaji: Que tal se não fizer nada com a personalidade?

Quest: Ela simplesmente vai continuar sendo infeliz.

Gangaji: Creio que você jamais deixou de "fazer algo" com a personalidade. Acho que você lutou contra a personalidade, mudou a personalidade, jurou que nunca teria aquela personalidade, experimentou outras personalidades, adaptou a personalidade, ou tentou disfarçar a personalidade. Não fazer nada com a personalidade é ter um encontro real com o que está motivando e controlando a personalidade. No momento em que estávamos falando, era um medo enorme. Para todo mundo, geralmente, em algum momento, é o medo: um medo enorme, um medo divino. Se, neste momento, você não fizer nada com a sua personalidade; se você não a consertar, não a negar, não cair no sono e ignorá-la, não ceder a ela, não contar alguma história a si mesma sobre ela, o que acontece?

Quest:
Ela desaparece.

Gangaji:
Que mistério!

Quest: Mas o que é isso? É aí que preciso de ajuda.

Gangaji: Quando ela está presente é quando você não tem que fazer nada. Quando ela desaparecer, faça tudo que você quiser. Isso é tão sutil, mas se for dito um pouco mais explicitamente, torna-se um dogma. E esse não é o objetivo. Senão, teremos "Eu não faço nada", "Eu não sou nada, você também?"

Quest: Há um poema sobre isso. É mais ou menos assim: "Eu não sou nada, você também? Mas não conte a ninguém, porque vão querer formar um clube dos nadas."

Gangaji: Sim. Há um segredo escondido em seu coração, que sabe que não é absolutamente nada. E estamos em uma época na qual, de alguma maneira, pode-se falar disso em público.

(O grupo exclama: "Viva!")

Gangaji:
Viva! É uma celebração. Então, os hábitos da personalidade que aparecem no tempo e desaparecem no tempo, são reconhecidos como o que são realmente: insetos. Você pode ver a luz através da nuvem de insetos; você não pega a espingarda e tenta eliminá-los. Isso não funciona. E, se tentar, você será uma destas pessoas que carregam uma espingarda. E o que vamos fazer com você? É possível simplesmente ficar quieto. Na quietude, o que está debaixo da personalidade e o desejo de mudar a personalidade se encontram. Você tem consciência disso?

Quest: Sim.

Gangaji: Que foi?

Quest: Há uma repulsa, uma aversão a essa personalidade.

Gangaji: Sim, é um certo ódio, não é? Você está disposta a simplesmente deixar a sua consciência penetrar o ódio e senti-lo totalmente? Você está disposta a sentir o ódio sem contar uma história sobre ele? Este é o desafio. A história do autodesprezo é conhecida; em vez disso, mergulhe a sua consciência completamente no autodesprezo pré-verbal, sem lutar contra ele. E, se estiver lutando, pare de lutar e simplesmente deixe sua consciência afundar mais profundamente nesta repulsa.

Quest: Há uma convicção de que eu sou má.

Gangaji: Este é um "insight" que surgiu da exploração. Isso é bom, mas estou mais interessada na experiência direta da própria repulsa. Então, digamos que você é má, que esta convicção está correta. Você é má e isso é repulsivo. O que significa isso quando é acolhido? Não consertado, mas acolhido. O que você está sentindo?

Quest: Não tenho certeza.

Gangaji: O que você está sentindo, sem contar uma história? Simplesmente diga a verdade: neste momento, o que está aqui?

Quest: Apenas um bloqueio…

Gangaji: Isto é uma teoria.

Quest: Não sei.

Gangaji: A repulsa está presente? Antes você soube imediatamente quando ela estava presente. Não teve de questioná-la. Agora você pode criá-la novamente. Há um forte apego a este autodesprezo como identidade.

Quest: Sim, sim.

Gangaji: "Isto é realmente o âmago do meu ser, isto é o que tem que mudar para esta expansão ilimitada, que não tem nada a ver comigo, ficar permanentemente na minha vida." Estou dizendo que, se simplesmente penetrar neste âmago e sentir a repulsa completamente, você descobrirá que no âmago da repulsa está a expansão ilimitada e perfeita. A repulsa se transforma imediatamente em expansão. Mas isto exige a sua disposição, a sua vontade de conhecê-la completamente. É como beijar o sapo. Você sabe que, para uma jovem princesa, um sapo é uma coisa asquerosa. Mas este é o requisito. Você conhece a história? Você é a jovem princesa. E nós estamos conversando sobre o sapo que vive dentro de você, que é o seu Ser Amado perfeito, mas que lhe parece tão nojento. Portanto, a sua velha e sábia fada-madrinha está lhe dizendo para entrar e beijar o sapo. Você chegou bem perto; na verdade, por um momento, você nem conseguiu achar o sapo e, então, começou a fazer o que você faz, subconsciente ou conscientemente, para criar a "sapice", o caráter reptílico, a repugnância, o lamaçal e a feiúra. Perfeito. Isto é o que está esperando pelo seu abraço. Isso é o que tem que ser libertado. O ilimitado, a verdade de quem que você é, já é livre. A "sapice" está aparecendo em você para ser libertada, e o seu beijo a libertará. Não a sua rejeição, nem a sua agressão. Você já tentou isto e ela não larga você, porque ela precisa de você para se libertar. O que é que há, o que você está sentindo? Está certo, isso é bom; isso é muito bonito.

Quest: (Soluçando.) É muito bonito. Obrigada.

Gangaji: São boas novas, não? Sim, boas novas. Não é a sua beleza que precisa ser libertada; é a sua feiúra, que você mantém escondida. Aquilo que não pode ser exposto. Um simples beijo que é um reconhecimento, um encontro; que é, no mínimo, uma ausência de rejeição. Apenas um "Tudo bem, você está aí, então entre." Muito bom, obrigada por vir aqui falar comigo."

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Andarilho de Luz - (Flávio Venturini)

Livre para sempre - (Shankara)


"Ó Senhor, que habitais em nosso íntimo
Vós sois a luz
No lótus do coração.
Om é o vosso eu,
Om, a mais sagrada das palavras,
Origem e fonte das escrituras.
Não pode a lógica descobrir-vos,
Ó Senhor, mas os iogues
Vos conhecem na meditação.
Em vós estão todas as faces de Deus,
Suas formas e aspectos;
Em vós também
Encontramos o guru.
Estais em todos os corações
E se, uma vez que seja,
Um homem abrir
Sua mente para receber-vos,
Em verdade esse homem
Será livre para sempre."


Fonte: Viveka Chuda Mani - A Jóia Suprema do Discernimento; Shankara

A alegria de Viver - (Krishnamurti)


Já alguma vez cogitasses no por que muitas pessoas, ao se tornarem mais velhas, parecem perder toda a alegria de viver? No momento, a maioria de vós, que sois jovens, é relativamente feliz; tendes vossos pequenos problemas, vossas preocupações sobre os exames, mas, apesar dessas perturbações, há, em vossa vida, uma certa alegria, não é verdade? Há uma espontânea e natural aceitação da vida, uma visão das coisas despreocupada e feliz.

Mas, por que razão, ao nos tornarmos mais velhos, parecemos perder aquele ditoso pressentimento de algo transcendental, algo de mais significativo? Por que tantos de nós, ao alcançarmos a chamada maturidade, nos tornamos embotados, insensíveis à alegria, à beleza, ao céu sereno e às maravilhas da terra?

Quando urna pessoa faz a si própria esta pergunta, muitas explicações acodem-lhe ao espírito. Ternos muito interesse em nós mesmos - esta é unia delas. Lutamos para nos tornarmos alguém, para alcançarmos e conservarmos uma certa posição; temos filhos e outras responsabilidades, e ternos de ganhar dinheiro. Todas essas coisas que se agitam em nosso interior não tardam a deprimir-nos, e perdemos assim a alegria de viver. Vede os rostos dos mais velhos, de vosso círculo de conhecimentos, tristes que são, em maioria, e gastos, adoentados, reservados, alheados, não raro neuróticos, sem um sorriso. Não perguntais a vós mesmos por que são assim? E mesmo quando indagamos o porquê disso, a maioria de nós parece satisfazer-se com meras explicações.

Ontem de tarde vi um barco que subia o rio, de velas pandas, impelido pelo vento oeste. Era um barco grande e transportava pesada carga de lenha destinada à cidade. O sol se punha e a embarcação, desenhada contra o céu, mostrava singular beleza. O barqueiro só tinha de guiá-la; nenhum esforço era necessário, pois o vento fazia todo o trabalho. Analogamente, se cada um de nós compreendesse o problema da luta e do conflito, penso que poderíamos viver sem esforço, felizes, de rosto sorridente.

Para mim, é o esforço que nos destrói, esse lutar em que despendemos quase todos os momentos de nossa vida, Se observardes, ao redor de vós, as pessoas mais velhas, podereis ver que para quase todos a vida é uma série de batalhas consigo mesmos, com suas mulheres ou maridos, com seu próximo, com a sociedade; e essa luta incessante dissipa energia. O homem que vive alegre, verdadeiramente feliz, está livre de todo esforço. Viver sem esforço não significa tornar-se estagnado, embotado, estúpido; ao contrário, só os homens sensatos, altamente inteligentes, estão verdadeiramente livres do esforço e da luta.

Mas, quando ouvimos falar em viver sem esforço, queremos viver assim, desejamos alcançar um estado em que não haja luta nem conflito; tornamo-lo, pois, esse estado, nosso alvo, nosso ideal, e por ele lutamos; e desde esse momento perdemos a alegria de viver. Estamos de novo empenhados em esforço, luta. O objeto da luta varia, mas toda luta é essencialmente a mesma. Um luta pela promoção de reformas sociais, ou para achar Deus, ou para criar melhores relações no lar ou com o próximo; outro senta-se à margem do Ganges ou se prostra devotamente aos pés de um guru - etc. etc. Tudo isso representa esforço, luta. O importante, por conseguinte, não é o objeto da luta, porém, sim, compreender a própria luta.

Ora, é possível a mente não apenas perceber ocasionalmente que não está a lutar, porém estar a todas as horas completamente livre de esforço, de modo que possa descobrir um estado de alegria em que não haja nenhuma idéia de superioridade e inferioridade?

O caso é que a mente se sente inferior e por esta razão luta para "vir a ser" alguma coisa, ou conciliar seus vários desejos contraditórios. Mas, não estejamos a dar explicações sobre por que a mente tanto luta. Todo homem que pensa sabe por que há luta, interior e exteriormente. Nossa inveja, avidez, ambição, nosso espírito de competição, que nos impele à mais impiedosa eficiência - são obviamente estes os fatores que nos fazem lutar, no mundo atual ou no mundo do futuro. Por tanto, não temos necessidade de estudar livros de psicologia para sabermos por que lutamos; e o que certamente, tem importância é que descubramos se a mente pode ficar totalmente livre de luta.

Afinal de contas, quando lutamos, o conflito é entre o que somos e o que deveríamos ou desejamos ser. Pois bem; sem se procurarem explicações, pode-se compreender todo esse processo de luta, de modo que ele termine? Como aquele barco levado pelo vento, pode a mente existir sem luta? A questão é esta, sem dúvida, é não como alcançar um estado em que não haja luta. O próprio esforço para alcançar tal estado é, em si, um processo de luta e, por conseguinte, aquele estado nunca pode ser alcançado. Mas, se observardes, momento por momento, como a mente se deixa colher nesse torvelinho de incessante luta - se observardes simplesmente o fato, sem tentar alterá-lo, sem impor à mente um certo estado que chamais "de paz" - vereis que, espontaneamente, a mente deixará de lutar; e nesse estado ela é capaz de aprender infinitamente. Aprender já não é, então, mero processo de acumular conhecimentos, porém de descobrimento de extraordinárias riquezas existentes além do alcance da mente; e para a mente que faz tal descobrimento, há grande alegria.

Observai a vós mesmo, para verdes como lutais da manhã à noite, e como vossa energia se dissipa nessa luta. Se tratardes apenas de explicar por que lutais, ficareis perdido numa floresta de explicações e a luta prosseguirá; mas se, ao contrário, observardes vossa mente, com serenidade e sem dardes explicações; se deixardes simplesmente que vossa mente esteja cônscia de sua própria luta, vereis que muito depressa surgirá um estado no qual nenhuma luta haverá, um estado de extraordinária vigilância. Nessa vigilância, não há idéia de "superior" e "inferior", não há homem importante nem homem insignificante, não há guru. Todos esses absurdos desapareceram, por que a mente está inteiramente desperta; e a mente de todo desperta está cheia de alegria...

...Afinal de contas, que é "contentamento" e o que é "descontentamento"? "Descontentamento" é a luta pela consecução de mais, e o "contentamento" a cessação dessa luta; mas, não se chega ao contentamento, se se não compreende todo o "processo" relativo ao mais, e por que razão a mente o exige.

Se sois mal sucedido num exame, por exemplo, tereis de repeti-lo, não é verdade? Os exames, em qualquer circunstância, são uma coisa sumamente deplorável, porquanto nada representam de significativo, já que não revelaria o verdadeiro valor de vossa inteligência. Passar num exame é, em grande parte, um "golpe" de memória ou, também, de sorte; mas, vós lutais para passardes em vossos exames e, quando sois mal sucedidos, perseverais nessa luta. O mesmo "processo" se verifica diariamente, na vida da maioria de nós. Estamos lutando por alguma coisa e nunca nos detivemos para investigar se essa coisa é digna de lutarmos por ela. Nunca perguntamos a nós mesmos se ela merece nossos esforços e, portanto, ainda não descobrimos que não os merece e que devemos contrariar a opinião de nossos pais, da sociedade, de todos os mestres e gurus. É só quando temos compreendido inteiramente o significado do mais, que deixamos de pensar em termos de fracasso e de êxito.

Temos sempre medo de falhar, de cometer erros, não só nos exames, mas também na vida. Cometer um erro é coisa terrível, porque seremos criticados, censurados, por causa dele. Mas, afinal, por que não se devem cometer erros? Toda gente, neste mundo, não vive cometendo erros? E o mundo sairia da horrível confusão em que se encontra, se vós e eu nunca cometêssemos um erro? Se tendes medo de cometer erros, nunca aprendereis coisa alguma. Os mais velhos estão continuamente cometendo erros, mas não querem que vós os cometais e, com isso vos sufocam toda a iniciativa. Por quê? Porque temem que, pelo observar e investigar todas as coisas, pelo experimentar e errar, acabeis descobrindo algo por vós mesmo e trateis de emancipar-vos da autoridade de vossos pais, da sociedade, da tradição. É por essa razão que vos acenam com o ideal do êxito; e o êxito, como deveis ter notado, sempre se traduz em termos de respeitabilidade. O próprio santo, em seus progressos para a chamada perfeição espiritual, tem de tornar-se respeitável, porque, do contrário, não encontrará "aceitação", não terá seguidores.

Estamos, pois, sempre pensando em termos de êxito, em termos de mais; e o mais é encarecido pela sociedade respeitável. Por outras palavras, a sociedade estabeleceu, com todo o esmero, um certo padrão, pelo qual mede o vosso sucesso ou o vosso insucesso. Mas, se amais uma coisa e a fazeis com todo o vosso ser, então já não vos importa o êxito nem o fracasso. Nenhum homem inteligente se importa com isso. Mas, infelizmente, são raros os homens inteligentes, e ninguém vos aponta essas coisas. Tudo o que importa ao homem inteligente é perceber os fatos e compreender o problema - e isso não significa pensar em termos de êxito ou de fracasso. Só quando não amamos o que fazemos, pensamos nesses termos.

Depois de algum tempo ... - (William Shakespeare)


“Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama, contudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Moha Mudgarwn - O Fim da Ilusão (Shankara)


"Quem é a esposa? Quem é o filho?
Estranhos são os caminhos deste mundo.
Quem és tu? De onde vieste?
Vasta é a ignorância, meu bem-amado.
Medita, pois, sobre essas coisas e adora o Senhor.

Vê a loucura do Homem:
Na infância ocupado com seus brinquedos,
Na juventude seduzido pelo amor,
Na maturidade curvado sob as preocupações -
E sempre negligente com o Senhor!
As horas voam, as estações passam, a vida se escoa,
Mas a brisa da esperança sopra continuamente em seu coração.

O nascimento traz a morte, a morte traz o renascimento:
Esse mal não necessita de prova.
Onde, pois, ó Homem, está a tua felicidade?
Esta vida tremula na balança
Qual orvalho numa folha de lótus -
Não obstante, o sábio pode nos mostrar, num instante,
Como atravessar esse mar de mudanças.

Quando o corpo se cobre de rugas, quando o cabelo encanece,
Quando as gengivas perdem os dentes, e o bordão do ancião
Vacila sob o seu peso como um caniço,
A taça do seu desejo ainda está cheia.

Teu filho pode trazer-te sofrimento,
Tua riqueza não te garante o céu:
Não te vanglories, pois, de tua riqueza,
Nem de tua família, nem de tua juventude
Todas elas passam, todas hão de mudar.
Sabe isso e sê livre.
Entra na alegria do Senhor.

Não busques a paz nem a discórdia
Com amigos ou parentes.
Ó bem-amado, se queres alcançar a liberdade,
Sê igual em tudo."

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

INDIALUCIA ... a linda combinação de música indiana e flamenco - (video)



Indialucia é um projecto musical que combina dois estilos de música fascinantes: a música indiana e flamenco. Todos os músicos praticam uma meditação chamada Sahaja Yoga, que lhes permite expressar as suas capacidades criativas de uma forma mais espiritual.

domingo, 30 de agosto de 2009

A árvore da nossa vida ... - (Amma)


"Que a árvore da nossa vida esteja firmemente enraizada no solo do amor. Que as boas ações sejam as folhas desta árvore, palavras gentis sejam suas flores e que a paz seja seus frutos."

Una mujer contemplando el cielo ... - (Rumi)


"En la imagen, una mujer contemplando el cielo, con los cabellos al viento.

Una extraña pasión se mueve en mi cabeza
Mi corazón es ahora como un pájaro que revolotea en el cielo.
Cada parte de mí va en una dirección distinta...
Será porque el que amo se encuentra en todas partes?"

Verdade - (Satyaprem)



"Agora, dizer o que mais fundo me toca, a verdade,
essa coisa que sua comigo, que dorme comigo, que sonha,
que anda, desanda, poemas escreve, se encanta,
desdobra-se em mil sombras e alimenta
o prazer de se manter feliz e inteiro
quando todos os cacos já não grudam,
quando a palha já era, quando as cartas colapsam,
quando os amigos partiram e queridos se foram,
quando nem mesmo as lágrimas adiantam,
quando nem o riso inebria, quando a sensação de estar
e meramente a materialidade de um casaco sobre os ombros,
quando nem resta esse sentido de pertencer
ou possuir, quando tanto faz tanto fez.
no entanto, sem remorso, tristeza ou saudade
mas um profundo ser no instante eterno do aqui e agora.
verticalmente no eterno instante.
vertiginosamente silencioso, integrado às mais finas freqüências,
sem fim nem começo, transcendental."

sábado, 29 de agosto de 2009

Simples Desejo - (Luciana Mello)



"Que tal abrir a porta do dia-a-dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar,
Pensar em nada…

Legal ficar sorrindo à toa,toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver
Não é preciso muito
Atenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

Legal ficar sorrindo à toa,toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver
Não é preciso muito não
Atenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez não
Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem"

(Composição: Daniel Carlomagno e Jair Oliveira)

Não viemos aqui nem para ser ou fazer prisioneiros ... - (Hafiz)


"Não viemos aqui nem para ser ou fazer prisioneiros, mas para rendermo-nos mais e mais profunda à liberdade e à alegria. Não viemos neste mundo esquisito para nos mantermos reféns do amor. Fuja meu querido, de tudo que não possa fortificar suas preciosas asas que brotam. Corra desesperadamente meu amado, de qualquer um capaz de enfiar uma faca afiada na visão sagrada e suave de seu belo coração. Temos o dever de favorecer aqueles aspectos de obediência que ficam fora de nossa casa e gritar para nossas razões "Ó por favor, por favor, saia e participe". Pois não viemos aqui para ser ou fazer prisioneiros, ou confinar nossos extraordinários espíritos, mas para experimentar mais e mais profundamente nossa divina coragem, liberdade e luz!"

Mapa de anatomia: o olho - (Cecília Meireles)



"O Olho é uma espécie de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globo brilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são inventadas.


O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas."

É preciso não esquecer nada - (Cecília Meireles)


"É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence."


(1962)

Ensinamentos: Bondade e Compaixão - (Dalai Lama)


"Esta noite, gostaria de falar a vocês sobre a importância da bondade e da compaixão. Ao discutir esses temas, não me vejo como budista, Dalai Lama ou tibetano, mas sim como um ser humano e espero que vocês, no auditório, pensem em si mesmos dessa maneira. Não como americanos, ocidentais ou membros de um determinado grupo, pois essas condições são secundárias. Se interagirmos como seres humanos, podemos chegar a esse nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou budista", as afirmações serão, em comparação com a minha natureza de ser humano, temporárias. Ser humano é básico. Uma vez nascido assim, não se poderá mudar até a morte. Outras condições, ser ou não instruído, rico ou pobre, são secundárias.

Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de ideologia, religião, raça, situação econômica ou outros fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em níveis mais profundos. Em nível humano, condição essa que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na confiança mútua, na compreensão, no respeito e na solidariedade, independentemente de diferenças culturais, filosóficas ou religiosas.

Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito a isso. Em outras palavras, é importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família humana. O fato de brigarmos uns com os outros deve-se a razões secundárias, e todas essas discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para ferir uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram, resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança. E, consequentemente, em mais divisões.

O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos, particularmente o econômico. Os países estão mais próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário, pensar mais em nível humano do que em termos do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam escutando com o pensamento: "Sou um ser humano e estou ouvindo outro ser humano falar".

Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o objetivo de alcançá-la, entretanto, devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não solucionará os problemas maiores.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado de progresso material, que é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão resolvidos, se não procurarmos desenvolver nosso interior.

No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local, ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido usada. Embora possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o ódio não são meios para solucionar problemas.

A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua reação for semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá gradativamente. Do mesmo modo, problemas mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor, compaixão e pura bondade.

Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria força. A responsabilidade permanece em nossa mente, de onde se comandam as ações. Portanto, controlar em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou falando de meditação profunda, mas apenas de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres humanos.

Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranqüilidade, mas por causa da ignorância somos acometidos por sentimentos como esses. A raiva nos faz perder uma das melhores qualidades humanas, o poder de discernimento. Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não têm. Esse órgão nos permite julgar o que é certo e o que é errado. Não apenas em termos atuais, mas em projeções para daqui dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar nosso bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos. Contudo, se nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de discernimento e nos tornaremos mentalmente incompletos. Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos de criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da bondade. Se refletirmos a respeito dessas questões com freqüência, podemos incorporar a idéia e, então, controlar a mente.

Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e conscientização, isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado por dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente. É o que penso e também o que pratico.

É perfeitamente claro que todos necessitam de paz interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da compaixão. O resultado é uma família em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre casais. Em uma nação, essa atitude pode criar unidade, harmonia e cooperação com saudável motivação. Em nível internacional, precisamos de confiança e respeito mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas. Tudo isso é possível.

Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes têm feito o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este, surge mais um em outro lugar. Chegou o momento então de tentar uma abordagem diferente.

É certamente difícil realizar um movimento mundial pela paz de espírito, mas é a única alternativa. Caso houvesse outro método mais fácil e prático, seria melhor, porém não há. Se com armas pudéssemos chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva paz, mas tal é impossível.

As armas não permanecem empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da transformação interior. E, mesmo que essa transformação não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que, apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco de que tal visão seja considerada pouco realista, vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá, expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque mais pessoas têm sido receptivas a elas.

Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com seu bem-estar. Mesmo que você não possa se sacrificar inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão, em última análise, você é quem irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade."

(Texto extraído da obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990.)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Flauteando e Almas Gemelas - (Musica Vivencial - Elleen Burhum & Adriana Mezzadri )





http://www.musicavivencial.com/
http://www.adrianamezzadri.com.br/

Meditação - De que lado de seu guarda-chuva você deixou seus sapatos? - (Tarô da Transformação - Osho)



"Faça as pequenas coisas da vida com uma consciência relaxada. Quando estiver comendo, coma com totalidade - mastigue com totalidade, saboreie totalmente, cheire totalmente. Toque no seu pão, sinta a textura. Cheire o pão, sinta o sabor. Mastigue-o, deixe-o dissolver-se no seu ser, e permaneça consciente - você estará meditando. E então meditação não estará separada da vida.

Sempre que a meditação é separada da vida, algo está errado. Ela se torna negação da vida. Nesse caso a pessoa começa a pensar em ir para um monastério ou para uma caverna no Himalaya. Assim a pessoa quer fugir da vida, porque a vida parece ser uma distração da meditação.

A vida não é uma distração, vida é uma ocasião para meditação.


Um discípulo veio para ver Ikkyu, seu mestre. O discípulo já estava praticando por algum tempo. Estava chovendo, e quando ele entrou, deixou os sapatos e guarda-chuva do lado de fora.

Após ter prestado seus respeitos, o mestre perguntou a ele de que lado dos seus sapatos ele havia deixado seu guarda-chuva.

Agora, que pergunta...? Você não espera que mestres perguntem tais questões bobas – espera que eles perguntem a respeito de Deus, sobre a energia kundalini, chacras se abrindo, luzes acendendo na sua cabeça. Você pergunta a respeito de grandes coisas – oculto, esotérico. Mas Ikkyu fez uma pergunta bem comum. Nenhum santo Cristão teria feito essa pergunta, tampouco um monge Jainista ou um swami Hindu. Isso só pode ser feito por aquele que realmente está com Buda, dentro doo Buda – que realmente ele mesmo é um Budha.

O mestre lhe perguntou de que lado dos sapatos ele havia deixado seu guarda-chuva. Agora, o que sapatos e guarda-chuva tem a ver com espiritualidade? Se a mesma pergunta lhe fosse feita, você teria ficado aborrecido. Que tipo de questão é essa? Mas há algo imensamente valioso nela. Tivesse ele perguntado sobre Deus, sobre sua energia kundalini e chacras, isso teria sido bobagem, totalmente sem sentido. Mas isso tem significado. O discípulo não pôde lembrar-se – quem se importa onde foram deixados os sapatos e de qual lado você deixou seu guarda-chuva, à direita ou à esquerda. Quem se importa? Quem dá tanta atenção assim a guarda-chuvas? Quem se importa com calçados? Quem é tão cuidadoso assim? Mas isso era o bastante: o discípulo foi recusado.

Ikkyu disse, “Assim vá e medite por mais sete anos.”

“Sete anos?” disse o discípulo. “Apenas por essa pequena falta?”

Ikkyu disse, “Essa não foi uma falha pequena. Enganos não são grandes nem pequenos – você ainda não está vivendo meditativamente, isso é tudo. Volte, medite por mais sete anos, e depois volte aqui.”

Essa é a parte essencial da mensagem:
Seja cuidadoso, tenha cuidado com tudo. E não faça qualquer distinção entre as coisas, dizendo que isso é trivial e aquilo é espiritual. Isso depende de você. Preste atenção, seja cuidadoso, e tudo se torna espiritual. Não preste atenção, não seja cuidadoso e tudo se torna não-espiritual.

Espiritualidade é atribuída Às coisas por você, é seu presente para o mundo.

Quando um mestre como Ikkyu toca seu guarda-chuva, este guarda-chuva é tão divino quanto qualquer coisa pode ser. A energia da meditação é alquímica. Esta transforma o metal base em ouro; ela vai transformando o básico no mais elevado.

No pico máximo, tudo se torna divino. Esse mesmo mundo é o paraíso, e esse mesmo corpo o Buda."

Hoje eu Sei - (Monja Coen)


Hoje eu sei que a compaixão é capaz de transformar o mundo e transformar o ser.

Hoje eu sei que a compaixão pode ser desenvolvida, cultivada, que as áreas do cérebro responsáveis pela compaixão podem ser estimuladas.

Hoje eu sei que é possível "musculação de neurônios" através da meditação e do pensamento amoroso, terno, inclusivo, compreensivo, sábio.

Hoje eu sei que Buda se manifesta em cada ser que se entrega à bondade e ao Caminho do Bem, que é o Caminho Iluminado.

Hoje eu sei que a Verdade é o Caminho. A Verdade com "V" maiúsculo, onde tudo está incluso - até mesmo as mentiras.

Hoje eu sei que não sei, que não há nem mesmo um "eu" que sabe e não sabe.

Hoje eu sei que intersomos, interconectados com tudo que existe. Somos um só corpo e uma só vida. Estamos em rede. Na rede de Indra, feita de raios luminosos e em cada intersecção uma jóia recebendo e emitindo raios em todas as direções.

Hoje eu sei que somos co responsáveis pela realidade em que vivemos, pelo mundo em que estamos e que não adianta reclamar, é preciso agir para transformar.

Hoje eu sei que a juventude passa, os amores passam, a velhice passa, os desamores passam. Tudo é transitório e passageiro. O que se une inevitavelmente se separa. E assim é.

Hoje eu sei que a pessoa mais forte é aquela que se pende primeiro - assim como o bambu - flexível.

Hoje eu sei que a água é capaz de se moldar ao recipiente que a contém e que o gelo é duro e pode ferir. Então faço dos ensinamentos sagrados o sol que derrete o gelo e nos liberta de nossa própria frieza.

Hoje eu sei que é preciso sentir, que a indignação é uma alavanca para as grandes transformações e que as grandes transformações são feitas de pequenos gestos simples no dia a dia.

Hoje eu sei que palavras amorosas e ternas afetam as moléculas de água e que somos mais de 75% água. Então eu cuido do que falo, do que penso e como ajo.

Hoje eu sei que a mudança depende de mim, de cada um de nós. E que só há um caminho: ação amorosa e não violenta para resolver conflitos e atritos.

Hoje eu sei que a vida vale a pena ser vivida em sua plenitude deste instante eterno.

E tudo que temos é este instante. Aqui e agora.

Mãos em prece
Monja Coen

Mãos - (Monja Coen)


"Minha mãos estão envelhecendo.
Eu as vejo envelhecer, os dedos engrossados pela artrose.
Raramente vejo meu corpo.
De repente, em um hotel, há um espelho e me surpreende encontrar esta senhora de carnes flácidas.
Sou eu.
Quem sou eu?
O corpo que se transforma e a mente que não percebe.
Surpresas.
Então me proponho a fazer dietas, exercícios.
Quimeras.
Sento-me na janela do hotel, em frente ao mar.
Mar de Salvador.
Há de me salvar.
Ondas pequenas, marolas.
Um navio a passar.
Nas pedras batem ondas brancas de espuma
E uma piscina transparente se forma.
Só há o som da água.
Marolas.
Respiro e me inspiro
A meditar.
Zazen.
Silêncio interior.
Não importa mais o corpo, a mente, a alegria, a dor.
Integração.
Ao Zazen o meu perdão, minha gratidão, minha vida.
Não sou eu quem faz Zazen.
É o Zazen que me faz.

Uma hora passa rápido.
Tem gente a me esperar.
Palestras, conversas, reflexões.
A monja que fala de lucro, empresas, felicidade.
Monja que índio desenha em transformação.
“Sua voz me é conhecida, muito conhecida.”
Intimidade.
Falar ao íntimo do ser.
Pois intersomos.
Baixo.
Alto.
Dorme uma cabeça loira que no final me abraça com olhos úmidos.
Lindo demais.
Não há corpo e há o abraço.
Que sente coração batendo
Que recebe ternura
Que acolhe tristezas
Que transforma em beleza
Momento perene, eterno

No dia seguinte outro avião.
Do céu vou lembrando Caymi
E as ondas verdes do mar.

Outra cidade -
Goiânia.
Só para mulheres.
Hotel cinco estrelas por duas horas.
Almoço abrindo restaurante
A loja mágica
Estátuas de Buda, Haruman, Shiva, Kannon
Pinturas, incenso, música, autor, artista, sensível
Platéia feminina
Alguns homens sentados
Entre tantas mulheres
Ouvindo a monja falar

Fala da vida, fala da morte
Fala da paz
Fala que fala
Sem parar
Fala, medita, levanta, agita
Senta
Tranqüiliza
A mente que pretende
Não há outra espiritualidade
Do que viver coerente
Valores, princípios
Profundos da gente

Amor liturgia
Incondicional
Sem cobrança
Transforma em bem todo o mal

Demora?
Que importa.
Pouco a pouco.
E se acolhe.
Ama a si mesma mulher brasileira
Não permite o abuso, a violência
Encontra meios expedientes
Sem cólera
Sem raiva,
Sem rancor
Afasta essa dor
Ensina os meninos
A compartilhar
Trabalhos de casa, crianças a educar
Mulheres e homens em parceria
Construindo uma nova maneira de ser
Viver
Harmonia
Compartilhamento
Cuidado
Ternura
E retorna ao convento"

Gassho
Monja Coen

Trecho de "Com fé em 'Deus' pode-se alcançar qualquer coisa na vida" - (Sathya Sai Baba)


Data: 26/12/2007 – Ocasião: Divino Discurso – Local: Prasanthi Nilayam

“O homem com raiva não realiza nada. Comete erros e se entrega a ações Pecaminosas;
ele é desprezado por todos. O Amor é Deus e Deus é Amor.
Sem amor, os seres humanos não podem existir”
(Poema em télugo)



A falta de amor é a responsável por todas as diferenças, argumentos e conflitos no mundo, especialmente nos tempos atuais. Várias pessoas dizem que hoje o mundo é atormentado pelo sofrimento, perdas e dificuldades. Eu não concordo com esse ponto de vista. Eu lhes digo, essas coisas são apenas ilusões. Na verdade, não existem desassossego e sofrimento neste mundo. Eu só vejo paz, paz e somente paz em todo lugar. Quando existir paz em nossos corações, seremos capazes de ver a paz em todos os lugares. A intranqüilidade, o sofrimento, a raiva etc. são a reação, o reflexo e a ressonância do estado do nosso ser interno. Os sofrimentos e as dificuldades, a raiva e a ansiedade são de nossa própria produção e criação. Não são fenômenos naturais no mundo.
Quando alguém lhes pergunta o seu nome, vocês dão algum nome (nesse momento, Swami perguntou o nome de um estudante sentado diante Dele. O garoto respondeu “Vikas”.) De fato, esse não é o seu verdadeiro nome. Similarmente, se perguntam a cada um, eles lhes darão nomes diferentes. Entretanto, se Deus fosse mencionar o Seu nome, Ele diria Aham Brahmasmi (Eu sou Brahman). Na verdade, todos nós deveríamos repetir o mesmo nome, uma vez que todos somos encarnações do Ser Divino. Todos
os nossos nomes são dados a nós pelos nossos pais. Não nascemos com nenhum nome em particular. Aqueles que não podem compreender essa verdade, não podem levar uma vida feliz.

Encarnações do Amor Divino!
De fato, amor é o outro nome de Brahman (a Divindade Suprema). Na verdade, Amor, Atma, Prema, Aham ou Brahman – todos esses nomes têm o mesmo significado. Nada existe neste mundo exceto o Amor. Mas, infelizmente, não somos capazes de entender o que é o Amor. Consideramos o Amor como um sentimento relativo ao mundo. Nós o consideramos como físico. Na realidade, o Amor não é, de maneira alguma, relacionado ao mundo físico. Na realidade, o Amor é a verdade. Você não é uma pessoa, mas três: aquele que você pensa que é, aquele que os outros pensam que você é e aquele que você realmente é. O que os outros pensam é só imaginação. O Ser dentro de você é a única verdade.
Quem é esse Ser? Ele é “Eu”. Esse “Eu” é o mesmo em todos. Os cristãos reverenciam a cruz (†). A cruz é um símbolo que exorta as pessoas a se livrarem do ego. Ninguém é diferente de vocês. Portanto, vocês devem sempre sustentar a verdade de que todos nós somos um (Eu). Aqueles que nascem devido ao sem karma, crescem e, finalmente, perecem (isso é, os corpos físicos) são irreais. Portanto, vocês são sempre Brahman, de acordo com a declaração Védica, Aham Brahmasmi (Eu sou Brahman). Somente quando vocês considerarem a si mesmos como Brahman, é que poderão compreender essa Verdade. Até lá, estarão confinados a diferentes nomes como Ramanna, Krishnananna etc., que lhes foi dado pelos seus pais com o propósito de identificação. Certamente, vocês não vieram a este mundo com nome algum.
Quando alguém pergunta para os pais o nome de seu filho recém-nascido, eles podem responder que ainda não deram nome à criança. Assim, fica claro que os nossos nomes nos foram dados por alguém e não são inatos. Esses nomes são dados com o propósito de identificar os indivíduos em questão. Existem milhões e milhões de pessoas vivendo no mundo, mas ninguém parece ter compreendido a verdade de que é Deus. Infelizmente, hoje, levamos as nossas vidas com os nomes que nos foram dados por alguém. O que é Brahman? É o “Eu”. O Absoluto - Brahman não nasce nem morre. Essa é a única verdade; os outros acontecimentos vêm e vão. Por exemplo, Eu quis criar esta corrente. (Swami materializou uma corrente de ouro com Suas Divinas mãos.) Ela foi criada pela Minha Divina Vontade. Não estava aqui antes. Desse modo, todas as coisas e seres deste mundo nasceram através de sankalpa (Vontade Divina). Portanto, a divina Vontade é a causa de toda a criação.
Além disso, maya (ilusão) também desempenha o seu papel. Quando maya e a Verdade se reúnem, a criação acontece. Sem maya, não pode existir criação. Maya é como uma sombra para o ser humano. Mas essa sombra nos engana. Ao nascer do sol, nossa sombra é longa. À medida que o sol se levanta a sombra vai para baixo de nossos pés, ao meio dia. Dessa maneira, a sombra cresce e diminui. Nós não devemos, então, confundir a sombra com a nossa base.


Fonte: Organização Sri Sathya Sai do Brasil
www.sathyasai.org.br

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Borboletas - (Voz: Luciana Mello - Composicao: Jair Oliveira)



Borboletas são tão belas o que seria delas
Se não pudessem voar?
O céu e as estrelas não poderiam vê-las passar
Lá fora eu vejo um mundo
E sinto lá no fundo
Que aqui não é o meu lugar
Eu sou pequenininha e fico aqui sozinha a sonhar
O meu coração me diz
Que um dia ainda vou ser feliz
Voar para bem longe como eu sempre quis
Um dia eu tive a chance de ter ao meu alcance
O que fez transformar
Sonho em realidade, escuridão em brilho no olhar
Eu vi que na verdade
A dor um dia pode ter fim
Achei a liberdade, ela tava dentro de mim
O meu coração me diz
Agora eu já sou feliz
Voei para bem longe como eu sempre quis

Trecho do livro "O Caminho para o Amor" - (Deepak Chopra)


REVIVENDO UMA HISTÓRIA DE AMOR

Todos nós precisamos acreditar que somos amados e capazes de ser amados. Começamos a viver confiando nesses dois conceitos, banhados pelo amor de uma mãe e envoltos em nossa própria inocência. O amor nunca foi questionado, mas com o tempo nossa certeza vai sendo obscurecida. Quando você olha para si mesmo, hoje, ainda pode fazer as duas afirmações que todo bebê faria se pudesse falar?

'Sou completamente amado.'
'Sou completamente digno de ser amado.'

Poucas pessoas o podem, pois ao se contemplar honestamente, você vê falhas que o tornam menos digno de ser amado na plenitude e menos amado de modo perfeito. De certa forma, isso pode parecer correto para você, já que o amor perfeito supostamente não é deste mundo. No entanto, em sentido mais profundo, o que chama de falhas são realmente apenas as cicatrizes das mágoas e feridas acumuladas durante toda uma vida. Ao se olhar no espelho, você imagina estar se vendo de maneira realista, mas espelho não revela a verdade que persiste apesar de todas as mágoas:
Você foi criado para ser completamente amado e completamente digno de amor por toda sua vida.
De certo modo, é incrível não perceber isso, porque por baixo de tudo que você pensa e sente, a inocência ainda está intacta. O tempo não pode macular sua essência, sua parcela de espírito. Contudo, se você perder de vista essa essência, vai confundir a si mesmo com suas experiências - pois não há dúvida de que a experiência pode fazer muito para obliterar o amor. Num mundo muitas vezes hostil e brutal, manter a inocência parece impossível. Portanto, você acaba experimentando apenas uma determinada dose de amor e sente apenas um certo direito de ser amado.
Isso pode mudar.
Embora você perceba a si mesmo em termos limitados, como uma mente e um corpo confinados no tempo e no espaço, há um tesouro de ensinamentos espirituais que diz o contrário. Em espírito, você é ilimitado pelo tempo e espaço, intocado pela experiência: em espírito, você é puro amor.
O motivo por que você não se sente completamente amado e digno de amor é não se identificar com sua natureza espiritual. Seu senso de amor perdeu a única coisa que não pode ser deixada de lado: sua dimensão mais elevada. Como restaurar essa parte perdida de si mesmo?

Mente, corpo e espírito se uniram - essa união cria o amor que você tem para dar.
Você e seu amado (a) se uniram - isso cria o amor que você precisa compartilhar .

Em sua natureza mais profunda, cada pessoa foi feita para ser o herói ou heroína de uma história de amor. A história começa na inocência, com o nascimento de um bebê nos braços amorosos da mãe. Prossegue através de estágios de crescimento, à medida que a criança salta para nosso mundo. A experiência vai crescendo cada vez mais, e o círculo de amor se amplia, incluindo primeiro a família e amigos, depois parceiros íntimos, mas também assimilando o amor por coisas abstratas, como o aprendizado e a verdade. A jornada de amadurecimento nos leva ao amor da doação e ao florescimento de valores mais elevados, tais como a compaixão, o perdão e o altruísmo. Finalmente, existe a experiência direta do próprio espírito, que é o puro amor. A jornada chega ao clímax no mesmo estágio inicial de conhecimento do bebê, muito embora não pudesse articular esse conhecimento: eu sou amor.

Você sabe que experimentou plenamente o amor quando se transforma em amor - essa é a meta espiritual da vida.

São poucas as pessoas que encontram a meta espiritual da vida. A dolorosa carência criada pela falta de amor só pode ser preenchida aprendendo-se novamente a amar e a ser amado. Todos nós precisamos descobrir por conta própria que o amor é uma força tão real quanto a gravidade, e que ser mantido no amor todo dia, toda hora e todo minuto não é uma fantasia - esse deveria ser nosso estado natural.
Este livro é sobre como reviver histórias de amor que nunca deveriam Ter-se apagado. A união da personalidade e do espírito não só é possível como inevitável. O significado espiritual do amor é mais bem medido pelo que pode fazer - que é muito.

- O amor pode curar.
- O amor pode renovar.
- O amor pode nos tornar seguros.
- O amor pode nos inspirar com seu poder.
- O amor pode nos aproximar de Deus.

Tudo que o amor deve fazer é possível. Saber disso, contudo, só se tornou o hiato entre o amor e o não-amor mais doloroso. Um número incontável de pessoas experimentou o amor - como prazer, sexo, segurança. Como Ter alguém que satisfaça suas necessidades diárias - sem ver que um caminho especial se abriu para elas. Socialmente, o ciclo 'normal' do amor se reduz simplesmente a encontrar um parceiro ou parceira adequado (a) casar e criar uma família. Mas esse padrão social não é um caminho, porque a experiência do casamento e de criar uma família não é automaticamente espiritual. É triste verificar que muitas pessoas entram em relacionamentos para toda vida em que o amor se vai com o tempo ou fornece um companheirismo duradouro, sem crescer na dimensão espiritual. Um caminho espiritual só possui um motivo de existência: mostrar o modo como a alma pode crescer. À medida que a alma cresce, é revelada mais verdade espiritual e é redimida mais da sua própria promessa.
Quando você encontra seu caminho, também encontra sua história de amor. As pessoas, hoje, são consumidas por dúvidas sobre seus relacionamentos: encontrei o parceiro certo? Estou sendo fiel a mim mesmo? Entreguei a melhor parte de mim? Por isso, existe um tipo de usuário intranqüilo procurando parceiros, como se o parceiro 'certo' pudesse ser encontrado avaliando-se seus prós e contras até que o número de prós e contras até que o número de prós corresponda a algum padrão mítico. O caminho para o amor, contudo, nunca está relacionado com fatores externos. Por melhor ou pior que você se sinta quanto ao relacionamento, a pessoa com que você está neste momento é a pessoa 'certa', porque ele ou ela é um espelho de quem você é por dentro. Nossa cultura não nos ensinou isso (assim como deixou de nos ensinar muito sobre as realidades espirituais). Quando você luta com seu parceiro (a), está lutado consigo mesmo(a). Cada defeito que vê nele ou nela toca uma fraqueza negada em você mesmo (a). Cada conflito em que você se envolve é uma desculpa para não encarar um conflito interior. O caminho para o amor, portanto, elimina um erro monumental que milhões de pessoas cometem - o engano de acreditar que alguém 'lá fora' vai dar (ou tomar) algo que já não seja seu. Quando você verdadeiramente encontra o amor, encontra a si mesmo.
Portanto, o caminho para o amor não é uma escolha, pois todos nós precisamos descobrir quem somos. Este é nosso destino espiritual. O caminho pode ser adiado; você perder a fé nele ou até mesmo perder a esperança na existência do amor. Nada disso é permanente; só o caminho. A dúvida reflete o ego, que está preso no tempo e no espaço; o amor reflete Deus, a eterna essência divina. A suprema promessa do caminho para o amor está em você caminhar na luz de uma verdade que se estende para além de qualquer verdade conhecida atualmente por sua mente.
Estruturei os capítulos seguintes de modo a conduzir o leitor novamente pelo caminho para o amor, desde os primeiros alvoroços do romance até os estágios finais do êxtase. Apaixonar-se é uma ocorrência acidental para muitas pessoas, mas não é casual em termos espirituais - é o ponto de entrada para a jornada eterna do amor. O romance possui várias fases distintas que podemos explorar - atração, enamoramento, corte e intimidade - cada uma delas participando de um significado espiritual especial.
Na aurora do estágio seguinte, o romance transfigura-se num relacionamento de compromisso, geralmente o casamento, e o caminho se transforma. Passado o enamoramento [no original ' falling in love' - literalmente 'cair no amor'], o estar bem amando [being in love] começa. Espiritualmente, a palavra 'being' [ser, estar] implica um estado da alma; é nesse estado em que um casal aprende a nutrir-se através da entrega, a palavra chave em todo relacionamento espiritual. Pela entrega, as necessidades do ego, que podem ser extremamente egoístas e sem amor, são transformadas na verdadeira necessidade do espírito, que é sempre a mesma - a necessidade de crescer. À medida que se cresce, trocam-se sentimentos superficiais e falsos por emoções profundas e verdadeiras: assim, compaixão, confiança, devoção e serviço tornam-se realidades. Esse casamento é sagrado; nunca pode falhar, porque baseia-se na essência divina. Esse casamento é sagrado; nunca pode falhar, porque baseia-se na essência divina. Esse casamento também é inocente, porque seu único motivo é amar e servir a outra pessoa.
A entrega é uma porta que precisa ser atravessada para que a paixão seja encontrada. Sem a entrega, a paixão fica centrada no desejo de prazer e estímulo da pessoa. Com a entrega, a paixão é direcionada para a própria vida - em termos espirituais, a paixão é o mesmo que se permite ser levado pelo ria da vida, que é eterno e inesgotável em seu fluxo.
O fruto final da entrega é o êxtase; quando você se livra de todos os seus apegos egoístas, quando acredita que o amor é realmente o núcleo de sua natureza, sente uma paz completa. Nessa paz existe uma semente de doçura percebida no âmago do coração e, a partir dessa semente, com paciência e devoção, você nutre o supremo estado de alegria, conhecido como êxtase.
Este, então, é o caminho para o amor desenvolvido nas páginas a seguir, embora não seja o único. Algumas pessoas não se apaixonam mas entram em relacionamentos com um ente querido. Porém, isto não significa que não exista um caminho para elas, só que o caminho foi internalizado. Para essas pessoas, o ser amado está inteiramente dentro delas desde o início. Ele é sua alma ou a imagem que elas fazem de Deus; é uma visão ou uma vocação; é uma solidão que floresce no amor pelo Uno. A seu próprio modo, uma história de amor dessas também é sobre relacionamento, porque as descobertas finais são as mesmas para todos nós. Descobrir que 'eu sou amor' não é algo reservado apenas para aqueles que se casam; é uma descoberta universal, valorizada em todas as tradições espirituais. Ou, para colocar a questão de maneira mais simples, todos os relacionamentos são em última instância um relacionamento com Deus.
Eu queria que esta fosse uma obra prática, assim como, espero, uma obra inspiradora. Cada capítulo inclui exercícios (intitulados de 'Prática Amorosa') que lhe permitirão firmar-se nos conceitos discutidos no texto. Depois, segue-se uma história de amor (intitulada de 'Em Nossas Vidas') para tornar o texto mais personalizado. Estou envolvido em todas essas histórias, geralmente como ouvinte compassivo de amigos e pacientes. Às vezes, vou além desse papel para funcionar como consultor ou conselheiro, mas não assumo o papel de terapeuta profissional. Quero apenas abrir o caminho para a compreensão, agindo como seu parteiro; depende de cada pessoa chegar a dar à luz.
Mas antes de embarcar nas histórias de amor neste livros, deixe-me contar um pouco de minha história. O espírito está sempre deixando pistas sobre sua existência, muito embora possamos não estar atentos para elas, e lembro-me das primeiras pistas que recebi de minha avó cósmica. Ela era minha avó materna, casada com um velho sargento do exército indiano que soprara seu clarim do telhado na manhã em que eu nasci. À primeira vista, aquela mulher pequenina não parecia cósmica. Sua idéia de contentamento era bater a massa de farinha num pão perfeitamente circular para meu desjejum, ou ir antes da aurora até um templo escuro onde os mil nomes de Vishnu eram entoados. Mas certo dia, enquanto estava sentado junto ao forno de carvão, esperando por meu paratha de desjejum com recheio de batatas e temperos, ela me passou um pouco de sabedoria cósmica.
Tínhamos um vizinho, na rua do acantonamento de Poona, sr. Dalal, de quem ninguém gostava. Ele era curvado e grisalho, muito magro, e cumprimentava todos com uma expressão azeda e dolorosa. Curiosamente, ele tinha uma esposa pequena e vivaz - seu oposto exato - que o adorava. Estavam sempre juntos e, se eu passasse por eles no caminho para a escola, a sra. Dalal acenava para mim por trás de seu sari azul, sempre mantendo um olhar amoroso no marido, Que batia na calçada com a bengala.
'Eles são como Rama e Sita', dizia minha avó com admiração quando eles passavam. Eu duvidava muito disso, já que Rama e Sita eram encarnações divinas do homem e da mulher, e os amantes mais perfeitos na mitologia hindu. Quando Rama disparava seu arco causava relâmpagos e trovões, enquanto Sita era a própria beleza. Aos 11 anos e obcecado com o críquete, eu tinha pouco tempo para Rama e Sita ou para os Dalals, até que uma sombra passou sobre nosso lar. O sr. Dalal estava morrendo a apenas algumas portas de nossa casa.
Minha avó fez uma visita ao bangalô deles e voltou sombria e pálida. 'Só mais algumas horas', ela contou à minha mãe. Garotos pequenos podem ser insensíveis quanto à morte, e eu me ressentia do sr. Dalal pela vez em que tinha me cutucado com a bengala e ordenado que eu pegasse um pacote que ele deixara cair na calçada. Anos depois, quando entrei para a escola de medicina, compreendi que o sr. Dalal sofria de angina, e seu coração fraco não permitia nem mesmo que ele se curvasse. Uma intensa dor no peito explicava sua expressão de sofrimento, e agora ela o levara até à beira da morte.
Naturlamente, a agonia do sr. Dalal era o assunto da vizinhança. Naquele dia, minha avó nos informou que a sra. Dalal decidira morrer no lugar do marido. Ela rezava fervorosamente por esse desejo. Nossa família ficou aturdida, exceto meu pai, que era cardiologista. Ele ficou em silêncio, só nos garantindo não haver esperanças de o sr. Dalal recuperar-se do infarto. Uma semana depois, sua previsão foi desmentida quando um sr. Dalal extremamente frágil e sua esposa apareceram novamente na rua. A sra. Dalal, cheia de vida, acenava por trás de seu sari azul, parecendo alegre como sempre, apesar de um pouco mudada.
Minha avó esperou, e passaram-se alguns meses até que a sra. Dalal adoeceu. Um pequeno resfriado transformou-se em pneumonia: naqueles dias, a penicilina não era tão imediatamente disponível nem as pessoas comuns nela acreditavam - e ela morreu, subitamente, no meio da noite.
'Como Rama e Sita', murmurou minha avó, com uma expressão no rosto que poderia ser confundida com triunfo. Ela descreveu a última cena entre marido e esposa, quando o sr. Dalal pegou suas contas de orações e as colocou com ternura ao redor do pescoço da esposa enquanto ela fazia a passagem. 'Esta é uma verdadeira história de amor', declarou ela. 'Só o amor pode realizar tamanho milagre.'
'Não', protestei, de pé, impaciente, junto do fogão. 'A sra. Dalal está morta. A senhora chama isso de amor, mas agora nenhum dos dois tem nada'. Meu pai já havia me dito, em sua voz clínica e comedida, que a sobrevivência do sr. Dalal fora um adiamento, e não um milagre. Provavelmente morreria em menos de um ano.
'Você não está entendendo', minha avó me censurou. 'Quem você acha que concedeu à sra. Dalal seu desejo? Quando ela amava o marido, estava amando a Deus, e agora ela está com ele. Toda verdadeira história de amor é uma história de amor com Deus.'
Uma velha com uma mente cósmica é um bom início para falar sobre o amor. Porque essa história não é sobre a sra. Dalal. Um ocidental poderia duvidar de que ela houvesse conseguido qualquer coisa de valor ao morrer pelo marido, caso houvesse acontecido realmente isso. O ponto importante da história está nas crenças mais profundas de minha avó:

Um homem e uma mulher podem refletir o amor divino em seu amor um pelo outro.

Amar o seu amado é o modo como você ama a Deus.

O amor humano sobrevive à morte.

Se você também puder acreditar nisso, seu amor poderá conter força e significado profundos. Na verdade, eu não deveria privar a morte da sra. Dalal de seu próprio significado. Os vizinhos sussurraram que ela murmurava 'Rama' quando morreu. Qualquer pessoa que pode dizer o nome de Deus nesse momento pode muito bem estar fazendo a corte a seu amado. Olhando para trás, agora percebo que, para ela, a própria morte foi uma cura. Quantas pessoas modernas no Ocidente podem dizer o mesmo?

O Dominio do Ser - (Swami Paramananda)


"A sede pela felicidade é um instinto comum em toda a humanidade; mas nem todos possuem o segredo de adquiri-la, nem o poder de retê-la quando ela surge. Isto requer sabedoria e paciência. Talvez por esta razão os grandes homens de todos os países e épocas enfatizaram tremendamente a vida de autodisciplina e autocontrole. A autodisciplina nos capacita a organizar e unir todas as nossas forças fragmentadas. Isto necessariamente aumenta nosso poder para o pensamento e para a ação. Não é verdade, apesar de parecer ser, que nós temos muitos fatores isolados em nossa vida. A mesma energia que pulsa através de nosso coração e cérebro também opera nossas mãos e pés; por isso aprender a acumular e controlar esta energia inerente, que agora desperdiçamos pela falta de coordenação e cooperação, significaria o bem mais desejável em nossa vida.

O autodomínio é um bem muito maior que qualquer bem deste mundo. Se nós não possuirmos a nós mesmos podemos possuir todas as belas coisas da vida e seremos incapazes de usá-las para qualquer vantagem. Mais do que isso, nós podemos inconscientemente derrubar a própria raiz de nossa vida. Sob a influência da raiva ou de qualquer emoção violenta e descontrolada, uma pessoa pode fazer algo de que sempre se arrependerá, aquilo que ele sabe que é destrutivo. Se você perguntar a ele por que fez isso, ele dirá que não pode evitar fazê-lo, foi feito antes que soubesse disso, por um impulso. Mas por que tal impulso surgiu afinal? Ele surgiu porque nós construímos o alicerce para ele. Não é por acaso que caímos sob a influência destes males. Somos nós que tornamos possível que tais influências prejudiciais surjam; e também está em nosso alcance torná-las impossíveis.

Se refletirmos e penetrarmos nas profundezas de nosso ser, jamais deixaremos de encontrar que cada evento em nossa vida está baseado em uma causa justa. Se um homem faz algo destrutivo para si mesmo ou para outro, é porque permitiu que o pensamento destrutivo o dominasse; ele já não é mais ele próprio. Ele pode estar ao alcance do sucesso, mas se ele perder o domínio de si mesmo, em um momento poderá fazer algo que significará desfazer tudo o que fez anteriormente.

Há uma parábola que um dos grandes místicos da Índia costumava ensinar que ilustra isto. Um homem estava trabalhando em seu pomar em um dia quente e seco do verão. Ele estava trazendo água de seu poço e trabalhou duramente por um longo tempo, mas quando ele foi examinar as árvores ele descobriu que toda a água tinha desaparecido levada pelos grandes buracos de ratos nos canais de água. O mesmo acontece conosco. Nós rezamos, meditamos, estudamos, fazemos todas as práticas que julgamos que nos darão um ímpeto espiritual e ainda assim ficamos estacionados ou até voltamos para trás. Por que acontece isto? Porque não nos fortificamos. Um homem pode usar palavras muito elevadas que expressam idéias morais, mas se a ele faltar o princípio fundamental da vida, se a ele faltar paciência, autocontrole, capacidade de perdoar, ele explodirá de raiva algum dia e então todos os seus dogmas e teorias não servirão para nada.

Sem equilíbrio não podemos esperar ter felicidade. Felicidade é uma qualidade da mente. É algo que possuímos internamente. Se nós não temos a felicidade internamente, nada externo poderá dá-la para nós. Se nós a temos internamente, não importa quais obstáculos são colocados diante de nós, nós os ultrapassaremos. O filosofo romano Marcus Aurelius coloca isto de forma bastante firme, “Seja alegre e não busque ajuda externa nem a tranqüilidade que os outros dão. Um homem deve ficar de pé e não ser mantido de pé por outros.” Aquele que possui a si mesmo totalmente pode ser confinado em uma prisão ou pode ser colocado com multidões de pessoas sem o seu temperamento, ainda assim se manterá equilibrado. Isto é o que todos nós precisamos aprender a fazer.

A disciplina da vida é algo maravilhoso. O domínio não é para aqueles que estão sempre tentando fugir e evitar tudo que é desagradável. Se continuarmos evitando o que é difícil jamais daremos um passo para frente. É isto que desperta nossas faculdades internas.

Existem dois caminhos para lidar com a auto-conquista: podemos nos aproximar dela com o espírito do auto-esforço ou com o espírito do auto-entrega. Estas parecem ser duas idéias contrárias; ainda assim encontramos homens santos em completa posse de si mesmos, com perfeito domínio sobre seus apetites e paixões, que são inteiramente livres de todo sentido de agressão ou auto-esforço. Eles entregaram-se tão totalmente ao Supremo que não há mais lugar em seus corações para qualquer escuridão, nenhuma possibilidade do aparecimento da raiva ou da maldade. Quando tivermos nos transformado de forma completa, não seremos mais pessoas calculistas: “Ficarei com raiva ou não? Falarei duro com ele ou irei me conter?” Estes pensamentos não surgirão porque nossa mente não terá mais nenhum lugar para eles.

Aquele que deseja cumprir bem seu papel, que deseja que sua ação seja frutífera, estudará sua natureza mais profunda. Ele descobrirá ser mais sábio fazer uma pausa de alguns momentos antes de agir, do que passar seu tempo futuro lutando para desfazer o que fez em um momento de precipitação ou loucura. Autocontrole ou autodomínio não é meramente um tema de estudo interessante para estudantes de religião ou filosofia. É uma necessidade vital em nossas vidas se desejarmos manter a ordem social ou a harmonia e vida familiar saudável. Nossos amigos podem lutar para criar condições pacíficas para nós, mas se nossa mente não estiver em paz, teremos apenas uma satisfação momentânea. Existem aqueles que jamais estão satisfeitos; eles sempre querem algo diferente. Não é gratificando nossos desejos que nós atingiremos alguma calma, e sim os unindo e fazendo-os harmoniosos com nosso propósito mais elevado. Isto não implica que devemos destruir qualquer desejo que surgir em nossa mente. Seria como cobrir o fogo com cinzas, - o fogo ainda estaria intacto. Nós não nos libertaremos de nossas baixas tendências por este método, e sim adquirindo maior conhecimento, conseguindo maior unidade dentro de nós mesmos.

Quando nosso pensamento, mente e coração, - quando todo o nosso ser estiver focado em absoluta união, então descobriremos os ideais elevados surgindo dentro de nós espontaneamente; então as coisas que pertencem aos níveis inferiores não mais nos tocarão. Será deste modo que venceremos e não de forma calculista. Espiritualidade não é uma questão de cálculo nem é uma questão de doutrinas, palavras ou teorias. É algo que desenvolvemos dentro de nós e após este desenvolvimento outros se beneficiam dele. É claro que somos os primeiros a nos beneficiar, pois nossa vida se transforma. Nós somos os mesmos e ao mesmo tempo nós não somos os mesmos. Temos as mesmas mãos e pés, mas eles estão disponíveis para um melhor uso; temos as mesmas mentes e corações, mas eles estão cheios de idéias e ideais mais elevados.

O único modo de levantarmos, o único modo que podemos elevar outros seres humanos é atingir um nível de consciência mais elevado. Se temos um padrão mais nobre de vida, se possuímos autocontrole, se somos mestres de nós mesmos, não precisamos mostrar isto em palavras. Tudo que está vivo ao redor de nós – filhos, irmãos, irmãs, amigos, - se beneficiarão pelo que somos. Eles podem ficar impacientes conosco, intolerantes por sermos diferentes deles, mas se nos seguramos firmes em nossos ideais eles virão a nós nos momentos de necessidade. Em tempo de calamidade, raiva, impaciência, ou grande sofrimento, aquele que não é molestado por estas coisas, torna-se como uma rocha; os outros se ligarão a ele e terão seu conforto.

Isto significa que para ganhar autodomínio temos que ser insensíveis como um bloco de madeira ou uma pedra? Não devemos confundir estas idéias. Pessoas insensíveis são geralmente egoístas. O autodomínio não é para elas, ou para a pessoa que é dura e rude, e sim para ele cuja consciência se expandiu, que ao invés de se envolver completamente com os pequenos sentimentos egoístas, subitamente chega a possuir outra parte de sua vida. Ele é infundido com divino poder e naturalmente não é mais capaz de fazer qualquer coisa que é baixa ou ignóbil. Estas grandes características não chegam por acidente; elas são o resultado do nosso pensar e viver.

Não existe carência de altos ideais. Mesmo do ponto de vista da auto-preservação, da felicidade pessoal, devemos cultivar o domínio do ser, pois nele está o segredo de toda força e realização. Os mesmos esforços que estamos fazendo agora nos trarão o mais elevado. Tudo que é necessário é direção e esforço correto. Isto é o que autodomínio significa. O domínio do ser nos dá tal sabedoria que podemos sempre em todas as circunstâncias depender de nossa própria força interna."

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Serra do Luar - (Na voz de Leila Pinheiro - Letra de Walter Franco)



Amor, vim te buscar
Em pensamento
Cheguei agora no vento
Amor, não chora de sofrimento
Cheguei agora no vento
Eu só voltei prá te contar
Viajei...Fui prá Serra do Luar
Eu mergulhei...Ah!!!Eu quis voar
Agora vem, vem prá terra descansar

Viver é afinar o instrumento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo
Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro