quarta-feira, 24 de junho de 2009

Você não é quem você pensa que é - (Satyaprem)


Você não pode ser nada que você esteja vendo, você é simplesmente aquele que vê. Você não pode ver a si mesmo, por que quem veria? Aquilo que nós somos, a Essência ( aqui eu estou usando a palavra Essência), é imensurável, portanto não tem como medir. Nem na largura, nem no comprimento e nem na profundidade. Por isso chama-se de imensurável. No entanto, pode-se saber, pode-se realizar, pode-se reconhecer isso pelo simples motivo de que isso é a nossa realidade.

O objetivo deste encontro é fazer com que você se encontre. Pode-se dizer como um fim de busca.

Pode parecer pretensioso para você nesse instante, mas é assim que é. A meta é fazer você saber quem você é. Não é quem você pensa que é, mas quem você é em realidade. É mostrar à vocês que existe uma série de mal-entendidos que têm sedimentado a sua busca. O que vai ser dito vai colocar, de uma certa forma, de cabeça para baixo uma série de coisas em que vocês têm acreditado. E está tudo vinculado, na verdade, com:"Quem é você?" Essa pergunta clássica, "Quem sou eu?"

Quantos de nós têm perguntado há tanto tempo... "Quem sou eu?" Ou, talvez nunca tenha cogitado tal pergunta, mas eu quero que nesse momento vocês não só perguntem, eu quero que vocês encontrem a resposta. Na verdade, não há resposta para essa pergunta... Há um "ver" nessa resposta, ela não é uma resposta com palavras, com entendimento em si, mas um "ver", um "ver" que não necessita dos seus olhos... Na verdade, não necessita de nenhum dos seus sentidos. Até esse presente instante, você tem vivido, sentido e experienciado o mundo através dos seus sentidos... Eu quero que você tire tudo do seu caminho, da sua frente, para que você possa "ver".

O que eu estou dizendo, são conceitos. Conceitos que apontam para algo. Eu quero que você olhe para esse algo e esqueça os conceitos. Tudo o que eu estiver falando ou que eu investigar será uma experiência minha. Eu quero que você também a tenha. Eu estou aqui para compartilhar com você essa realização, essa clareza. Eu quero que você acorde para quem você é e isso você pode fazer. Você está completamente habilitado a fazer. No entanto, a minha novidade é um tanto quanto frágil, porque eu vou lhe dar uma coisa que você já tem! Eu só quero que você atente e veja com consciência que você já tem, que você é aquilo. Essa é a minha única função.

Isso não vai melhorar a sua vida, mas vai simplificá-la. Você ainda vai morrer, você ainda vai sentir dor, mas tem uma coisa que em nosso processo completo de vida não levamos em conta, não é falado, não é tocado, não é elaborado de forma alguma. Nós vivemos dentro da nossa cultura de uma forma refletida! Nós nos refletimos nos outros, nós refletimos a nossa existência. E uma experiência refletida é secundária. Ela é indireta, não é uma experiência direta de quem somos. Por isso as pessoas sofrem, porque elas vivem de acordo com o reflexo e o reflexo não é o que você é. Você não é o seu reflexo! Você é aquilo que é refletido, você é aquilo que está atrás do espelho!

E o que eu quero trazer para vocês, de uma certa forma, vai ser complicado de "entender", porque isso passa por uma novidade absoluta. Nós nos relacionamos com o mundo como se o mundo fosse um objeto, as pessoas fossem objetos e nós fossemos um sujeito. Bem, a novidade que eu quero compartilhar com vocês é que vocês não passam de objetos também. Essa pretensão de ser alguém, que você chama de eu, é apenas um objeto. E aquilo que você é, transcende tudo isso, porque não pode ser manipulado por ninguém.

Trazer você direto para essa visão, é o propósito deste encontro. Você é capaz de "ver" isto, porque você é aquele que está "vendo"... Tenho uma sugestão: eu quero que vocês consigam, de alguma forma, suspender completamente as suas memórias e as suas idéias a respeito de tudo. Tudo aquilo a respeito do que vocês têm idéia, por mais sedimentadas e comprovadas, são apenas idéias. Ponha na prateleira, imagine que você tenha uma livraria dentro da sua cabeça e lá você tem todas as idéias colocadas em livros: sexo, família, verdade, iluminação, eu, o outro, nós, o que quer que seja. Deixe tudo isso na livraria e tente acessar aquilo que eu quero, diretamente, sem nenhum vínculo com aquilo que você já viu antes.

Você não tem nome, não tem forma, não tem tamanho. Tampouco há sensação que possa descrever você. Todas as sensações ocorrem "dentro" de Você. Não importa o que você faça, Você está observando... Não importa a imagem que venha, o pensamento que venha, a emoção que venha, quem é que sabe disso tudo? Esse, é quem Você é. O foco é nesse que Você é e não nos objetos de observação. Objetos vêm e vão.

Mas Consciência, Atenção... Não importa o que você faça, você está sempre ciente de alguma coisa, não é verdade? Pode não ser aquilo que a mente queira estar consciente de. Você queria falar uma coisa e você esquece, você está consciente de que esqueceu! A Consciência permanece como cortina de fundo para o que quer que seja que aconteça na periferia. É imutável e não depende de você fazer coisa alguma. Não importa o que você faça, se você beber 3 litros de whisky e ficar muito bêbado, você sabe que está muito bêbado e talvez desmaie, perca a consciência periférica, mas aquela Consciência, que não precisa de experiência, permanece, porque Ela é independente, Ela não pode ser experenciada por você, porque Ela é Você.

Mas, quando eu digo Ela é Você, você pensa em você como uma entidade, mas não é você como uma entidade, é você como uma não entidade. É uma imaginação sua que existe alguém que precisa de mais amor, alguém que precisa de menos amor, alguém que precisa de mais liberdade, alguém que precisa de mais dinheiro, alguém que precisa disso e daquilo e daquele outro e que pede para o outro, que também é um ninguém, que satisfaça as vontades desse alguém. É um sonho, que não funciona, já funcionou? Olhe bem para a sua própria vida e diga se funcionou...

De onde que eu foco? Para onde que eu foco? Onde você tem focado toda a sua energia até esse momento? Na periferia, tentando fazer com que os outros entendam você, tentando entender os outros e sempre o que resta é um nível de falência, um nível de fracasso, porque não existe ninguém; porque existe ninguém. Enquanto você foca na periferia você não sabe que não existe ninguém, você então pensa que existe alguém, e assim se complica.

Como é que você vai ver e ficar em paz com esse Silêncio, que é inerente a você, com essa natureza que você pensa ser? Se alguém não lhe dá aquilo que você quer, você observa e aceita, porque não tem outra coisa a fazer. O seu foco muda da periferia das satisfações, dos sentidos... O enfoque então, é naquilo que você verdadeiramente é.

É óbvio que você vai usar o seu nome. É óbvio que você vai se mexer normalmente, quanto mais, melhor. É essa a ordinariedade que o Osho pediu e da qual tanto falava. Seja ordinário! Os outros iluminados que a gente conhece são todos extraordinários. Você não foi ao Himalaia? Como é que você vai iluminar? Explique! Algum astrólogo fez a sua carta natal quando você era pequeno? Ou, você deu três passos quando nasceu? Alguém leu numa folha de bananeira o seu futuro, que você iria iluminar aos 33? Era a imaturidade dos tempos que precisava daquelas histórias. Você não precisa! Fique quieto, saiba, é a sua natureza!

A mentira é que você não é um Buda. A verdade é que não há o que dizer e quando não há o que dizer, o que a gente faz? A gente fica quieto. E a natureza desse Ser que você é, é o Silêncio. Vocês já notaram isso? É uma atenção silenciosa. É um êxtase que não pode ser provado, que não pode ser experenciado por você, porque ele é Você. Para ter uma experiência de alguma coisa você precisa estar fora dessa coisa...

A mente gostaria de fazer exatamente isso, experenciar o que eu estou dizendo. Mas a única prova que você pode ter é: Saiba! Fique quieto e saiba você mesmo. Você não precisa da aprovação de ninguém. Quem que vai lhe dar uma aprovação senão você mesmo? Senão esse Ser que você é? Se esse Ser que eu sou é o Ser que você é, como eu posso lhe dar uma aprovação? Não existe eu, não existe você, só Aquilo. Então é indiferente. Quando você sabe, a autoridade nasce de dentro de você inerentemente, naturalmente, sem você ter de fazer nada... E você pode até ser incapaz de transmitir ou conversar a respeito, mas quem se importa?... Esse não é o ponto. A preocupação única que pode ter é: saiba!

E, preocupe-se sem se preocupar, busque sem buscar, porque não está longe de você não está num lugar inacessível muito embora a mente duvide. Talvez você não veja, tem uma neblina e aí a neblina sai, e lá está o Himalaia, aí vem a neblina de novo e você diz:"não pode estar lá"; e aí sai a neblina e está lá. A neblina é a mente, deixe-a fazer isso por quantas vezes ela quiser, só lembre-se de uma coisa: o Himalaia está lá quer você veja ou não.

Você é iluminado quer você saiba ou não, porque é a sua natureza, entenda isso também. Você não pode possuir isso, ao contrário, isso o possui. Está claro? Não tem como você conter isso dentro de você, como é que a gota vai conter o oceano dentro de si mesma? Não tem como condensar a complexidade de tudo dentro de uma gota. É muito mais fácil, muito mais simples, a gota entregar-se, não é? E, se ela se entrega, ela deixa de ser gota e esse é o seu medo.

"Mas se eu não sou mais uma gota, o que é que vai acontecer?" Não vai acontecer nada, só vai acontecer que você não vai mais ter a ilusão de que você é uma gota e a mitologia diz que talvez você não tenha mais vontade de viver nesse corpo. Mas você não vive nesse corpo, essa é a ilusão da história. É esse corpo que vive em Você! É apenas uma brincadeira da Existência para compreender a si mesma, para ver a si mesma, ela lhe dá esses olhos e toda essa capacidade de compreensão. É tanta compreensão que chega a confundi-lo. A vaca não se confunde, não sei se vocês já observaram. Já viu uma vaca discutindo com o touro? "Por que tu vais com aquela outra vaca?" E quanta coisa acontece nessa incompreensão, nesse mal-entendido, inclusive aquela coisa que a gente chama de comparação. Conhece, não é?

"Eu não sou espiritual o suficiente, aquela pessoa é mais espiritual do que eu", ou o contrário,"eu sou muito mais espiritual do que aquela pessoa". É tudo periférico. A mente questiona tudo isso porque ela acha que a realização da Essência tem uma forma, uma cara, uma estrutura que, se realiza a Essência, você tem de se comportar de uma determinada maneira, provavelmente baseado nas outras maneiras que você já leu em algum lugar. Esse é o seu problema. Você está tentando comparar com as coisas de outros tempos.

A natureza desse Ser que eu sou, desse Ser que nós somos é Silêncio, é Paz. Todos vocês já provaram: ou andando de bicicleta, ou depois de uma transa, ou depois de uma boa comida e um copo de vinho, ou depois da Dinâmica, ou durante a Dinâmica, ou em algum grupo, ou em algum momento, não provaram? É uma coisa que independe , não está sob o seu controle."Não está no meu controle". Mas esse é o mal-entendido da casca da cebola, achando que de alguma forma eu tenho controle sobre o que acontece.Qual é o entendimento da pérola? Não está sob o meu controle, eu não controlo mais. Qual é a natureza dessa Essência que você é? Silêncio, Paz, Verdade são inerentes a esse processo. A Verdade é a natureza desse Ser que você é.

A gente fica esperando aquele livro que virá com aquela palavra chave que eu vou entender em totalidade, mas não tem nada para entender em totalidade. Quantos livros você já comprou e já botou na prateleira da sua casa? E você os leu sem compreendê-los, porque não tem palavras que possam transmitir isso diretamente. Elas podem apenas apontar. O que conta é a sua capacidade de "entender" o simples, e de novo, não é entender. É a sua natureza, não há necessidade de fazer nada, é saber coisas básicas.

É da natureza da mente duvidar, duvidar que eu possa saber, duvidar que possa ser tão simples. Dê boas vindas às dúvidas, duvide! Olhe na direção certa e veja que a dúvida é irrelevante. Tem livros que dizem que aconteceu isto, que aconteceu aquilo. Aconteceu isto e aquilo e aquele outro para aquela pessoa, para aquele corpo-mente, para aquele mecanismo. Quem sabe para você é diferente. Uma coisa transcende essas diferenças periféricas, o que é?

O imperador Wu, da China, foi um imperador que fez muito, construiu muitos mosteiros e trouxe muito dinheiro para o Zen. Ele ouviu que Bodidharma estava vindo na direção da cidade onde ele morava. Ele, então, arranjou um encontro com Bodidharma, chamou-o para o castelo. Quando ele encontrou Bodidharma ele disse:"Eu tenho dado muito dinheiro para os mosteiros, para eles escreverem as escrituras, etc. Eu estou tendo muito mérito?" E Bodidharma respondeu: "Não está tendo mérito nenhum". Ele tinha gasto muito e sabia que Bodidharma era um dos patriarcas vivos e ficou irado com Bodidharma, é óbvio, e então perguntou: "Sabes com quem estas falando?" Bodidharma disse: "Sei". E o imperador: "Quem é você para me dizer uma coisa dessas?" Ao que Bodidharma disse: "Não tenho a menor idéia!" Está escrito, é a história. Eu não sei quem eu sou... É o mesmo significado do saber que você é uma coisa que não tem forma, não tem tamanho, não acontece, independe do que você pensa ou deixa de pensar, do que você faz ou deixa de fazer.

Nós, normalmente, visitamos o mundo através do que a gente pensa dele. Nós vemos as coisas sempre com um filtro. A gente dá nomes a tudo: árvore, animais... Tem uma coisa, no entanto, que não tem nome, e se você vê essa coisa, você não a reconhece, porque ela não é reconhecível. E essa coisa, definitivamente, não faz parte da sua experiência pretérita. Ela é uma coisa sempre nova porque ela vive no aqui e agora e no aqui e agora é onde ela mora.

É quem, na realidade, você é. É o que Bodhidharma disse: "Eu não sei quem sou" e veja bem, todas as pessoas que vieram aqui chegaram a mesma conclusão: "Eu não tenho a menor idéia de quem eu seja!", e é exatamente esse não saber "quem eu sou" que você verdadeiramente é!

Quando você sabe que você não sabe quem você é, você sabe quem você é, porque aí não se confunde mais. Você não vai ficar mais identificado com seu corpo ou com sua mente. E o que eu estou tentando compartilhar com vocês é que, se você percebe o seu corpo e a sua mente, você não pode estar "dentro" deles.

A Consciência transcende o corpo! Por isso é que os "loucos" fazem viagem astral, não sei mais o que... Porque é exatamente isso, eles estão em todo o lugar ao mesmo tempo, na verdade eles não estão viajando, eles estão simplesmente vendo o que pode ser visto e que umas pessoas tem mais discernimento para ver do que outras. Mas não estão viajando nada, não tem ninguém indo a lugar nenhum. Eles não estão saindo do corpo e indo à África.

Se você observar, dentro da própria experiência, você vê que não tem como estar contido no seu corpo. Se você fechar os seus olhos, o que você observa? Não observa que é maior? Maior de tal forma que não sabe onde termina nem onde começa. Veja bem, se a Consciência está em todo o lugar, se a Consciência é tudo, onde que os corpos estão? Não é dentro da Consciência? A Consciência contém tudo. Tudo o que existe é Consciência, mais nada. Não tem nada fora da Consciência!

Tem aquele dizer do Osho que eu vou repetir. Não há peixe dentro d'água que esteja com sede. Já viu peixe com sede? Não, porque a essência do peixe é a água, faz parte, ele está ali, dentro d'água. É apenas uma metáfora quando eu falo a Consciência contém o todo, não dá para pensar em termos de matéria e de que está dentro... É apenas uma linguagem... A expressão que eu quero que você compreenda é que eu estou aqui e o meu Eu, Ele não é contido no meu corpo, Ele transcende o meu corpo e todos os corpos. Tudo está dentro de mim, não dentro mim, mas desse Eu que Eu sou. Porque esse Eu que Eu sou não começa em algum lugar, nem termina em lugar nenhum. Tudo que existe é essa Essência!

Quando você realiza quem você é, o mundo da periferia se torna uma brincadeira. Essa brincadeira os indianos chamam de "Leela". Mas estar identificado com seu corpo-mente é pura ilusão. E essa sensação os indianos chamam de "Maya", a ilusão dos corpos separados. A verdade é que os corpos todos estão acontecendo "dentro" de quem Eu sou. Não é eu Satyaprem, quem eu sou, é a Essência de todas as coisas, a Consciência. Porque quando você entra em contato, quando você realiza a sua Essência, que não é sua, você cessa de ser quem você é, seu limite é perdido... Não há nada, não pode ter nada. Você não tem espaço e não tem tempo, o que há então?

(Texto extraído do livro "Fragmentos de Transparência", cap.4)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mãe da Eterna Felicidade - Amma


Seu nome em sânscrito é Sri Mata Amritanandamayi Devi, que significa “Mãe da Eterna Felicidade”, sendo também carinhosamente chamada por seus devotos simplesmente de Amma ou Mãe.

Em sua trajetória de vida encontramos alguns fatos inusitados. Nascida em 1953 em uma pequena vila de pescadores no sul da Índia, com apenas seis meses de idade Amma começou a falar e a andar. Com cinco anos ela começou a compor músicas devocionais para Sri Krishna, permeadas por profundo amor e devoção ao Senhor. Assim, começou a ficar conhecida em sua vila através das canções e melodiosa voz. Quando tinha nove anos sua mãe adoeceu e Amma então assumiu todos os afazeres da casa, cozinhando, atendendo os animais, lavando a roupa da família, limpando a casa e assim por diante. Qualquer tempo livre que encontrava, ela entrava em meditação e cantava para o Senhor Krishna. A partir deste momento, começou a ter muitas visões divinas e a experienciar o samadhi, um estado profundo de êxtase meditativo. Com dezessete anos, este estado se tornou mais intenso e se transformou em uma conexão permanente com o Divino.

Nessa época, iniciou uma época de muita austeridade, culminando com o aparecimento da Mãe Divina. Um dia ela ouviu uma voz interior dizendo: “Minha filha, você não veio para este mundo somente para viver a bem-aventurança do Ser, mas também para confortar o sofrimento da humanidade. De agora em diante, reverencie a Mim no coração de todos os seres, aliviando-os do sofrimento desta existência mundana.”

A partir dali, Amma tem dedicado todos os momentos de sua vida para o bem da humanidade. Todos os dias milhares de pessoas a procuram para receber o seu amor, sua condução e suas bênçãos, ou somente para contemplá-la.

O alcance de seu trabalho tem duas formas principais: primeiro, os programas de darshan, que nos envolvem individualmente com seu abraço e, segundo, sua obra de caridade, que busca melhorar a vida das pessoas através de uma forma mais ampla. Ensinando com seu próprio exemplo de vida, Amma combina a ampla consciência espiritual com a prática de serviços sociais. Suas atividades humanitárias incluem iniciativas ecológicas, programas educacionais e vocacionais, alimentação gratuita, assistência médica, habitação popular, renda para mulheres necessitadas e portadores de deficiência, passando também pela realização de atividades intensas de assistência às vitimas do terremoto em Gujarat, aos moradores atingidos pelas enchentes em Mumbai e às vítimas do tsunami.

Amma afirma não pertencer a qualquer religião formal e prefere dizer que sua religião é o Amor. Ela explica:

“Somos todos pérolas unidas por um mesmo cordão de amor. O verdadeiro propósito da vida humana é despertar esta união e difundir o amor, que é a nossa natureza inerente. Na verdade, o amor é a única religião que pode ajudar a humanidade a se erguer até alturas elevadas e gloriosas.”

Ela considera todas as religiões meios legítimos para realizar o Amor único que brilha em todas as tradições. Sequer pede às pessoas que acreditem em Deus, mas sim que investiguem sua própria natureza, afirmando:

“Minhas crianças, a Mãe não diz que vocês devem acreditar na Mãe ou em Deus no paraíso. É o suficiente acreditar em vocês mesmos. Tudo está dentro de vocês.”


Na visita ao Brasil, ela abraçou mais de 30.000 pessoas. Sua bênção é indescritível em palavras. Uma paz interior profunda se manifesta, algumas pessoas choram, outras entram em meditação. Perceber Professor Hermógenes profundamente emocionado pelo acolhimento da Mãe Divina foi inspirador também. Com certeza, sua presença em nosso país reverberou pelo coração de todos que aqui vivem.

“Uma”, profunda devota indiana de Amma, afirma: “Amma conhece a mente de todos, conhece o universo inteiro...

Se um dia você for abraçá-la, é porque ela te escolheu.”

Amma e suas obras assistenciais

Amma é mais conhecida pelo seu trabalho assistencial. Criadora da maior obra social do planeta, sua Fundação Mata Amritanandamayi Math foi reconhecida pela ONU como a “única organização não-governamental capaz de promover, em larga escala, um esforço humanitário completo”.

A Fundação mantém uma imensa rede de atendimento gratuito em hospitais, clínicas, orfanatos, farmácias ambulantes, asilos e creches, entre outros serviços e programas de combate à pobreza. Além disso, também contempla universidades, centros de pesquisa e formação acadêmica e projetos de conservação ambiental.

Todas as instituições criadas em nome de Amma são mantidas através de doações, vendas de produtos e trabalho voluntário de milhares de pessoas.
Mais informações: http://www.ammabrasil.org

Ensinamentos de Amma

Há amor e Amor. Você ama sua família, mas não ama seu vizinho. Você ama seu filho ou filha, mas não ama todas as crianças. Você ama seu pai e mãe, mas não ama a todos da mesma maneira. Você ama sua religião, mas não ama todas as religiões. Você pode até não gostar de outras fés. Da mesma forma, você tem amor por seu país, mas não ama todos os países e, talvez, sinta animosidade em relação a diferentes povos. Portanto, esse não é o Amor real; é apenas amor limitado. A transformação desse amor limitado em Amor Divino é o objetivo da espiritualidade.

Na plenitude do Amor, brota a bela e perfumada flor da compaixão. Quando as obstruções do ego, o medo e o sentimento de 'outro' desaparecem, você não pode fazer nada, a não ser Amar. Você não espera retorno por seu amor. Você não se importa em receber nada, você simplesmente flui. Quem quer que venha ao rio do Amor será banhado nele, seja a pessoa saudável ou doente, homem ou mulher, rica ou pobre. Qualquer um pode tomar quantos banhos desejar no rio do Amor. O rio do Amor não se importa se a pessoa se banha nele ou não. Se alguém o critica ou insulta, o rio do Amor não percebe. Ele simplesmente flui. Quando esse Amor transborda e é expresso em cada palavra ou ato, chamamo-lo de Compaixão.

Esse é o objetivo da religião. “Uma pessoa que está repleta de Amor e Compaixão compreendeu os verdadeiros princípios da religião.”

Ensinamentos

Eterna Verdade


"É nosso dever transmitir a gloriosa experiência dos santos e sábios do mundo. É muito importante que respeitemos os sentimentos e as fés das pessoas de outras religiões. Mas, ao mesmo tempo, devemos também deixar o mundo saber que o Sanatana Dharma (Eterna Verdade) não está confinado a certos indivíduos; é puramente uma experiência subjetiva de grande importância para todo ser humano. Todo mundo é uma personificação dessa grande Verdade.

O Sanatana Dharma não pertence a nenhuma classe, credo ou seita. O mundo deve saber disso. Realmente, o Sanatana Dharma é uma grande fonte de energia e inspiração para toda a humanidade. Como tal, seus seguidores devem trabalhar constantemente pela paz e harmonia do mundo. Então, apenas o sankalpa (resolução) dos Rishis (sábios) se tornará uma realidade. Uma vez que a pessoa entenda o significado da religião, ela não irá mais seguir falsos líderes religiosos. Não irá seguir os conselhos de tal pessoa porque saberá que somente aquele que ultrapassou o ego poderá guiá-la."

Vida

"Ver e sentir vida em tudo - isso é Amor. Quando o Amor preenche o coração, a pessoa vê a vida pulsar por toda e em toda a criação. "A vida é Amor" - essa é a lição que ensina a religião. A vida está aqui. A vida está ali. A vida está em toda parte. Não há nada além da vida. Assim, o Amor também está em toda parte. Onde há vida, há Amor e vice-versa. A vida e o Amor não são dois, são um. Mas a ignorância de sua unidade prevalecerá até chegar a Realização. Até lá, a diferença entre o intelecto e o coração continuará a existir. O intelecto sozinho não é suficiente. Para se atingir a Perfeição, para se alcançar a totalidade da vida, é necessário ter um coração repleto de Amor e compaixão. Chegar a conhecer essa verdade é o único propósito da religião e das práticas religiosas."

Compaixão

"Uma pessoa compadecida não vê os erros dos outros. Ela não vê as fraquezas das pessoas. Ela não faz distinção entre as pessoas boas e más. Quando alguém está repleto de Amor e compaixão, essa pessoa não pode traçar uma linha entre países, fés e religiões. Ela não tem ego. Assim, não há medo, cobiça ou paixão. Ela simplesmente perdoa e esquece. Compaixão é como uma passagem. Tudo passa por ela. Nada pode ficar ali, porque onde há Amor genuíno e compaixão, não há apego. Compaixão é Amor expressado em sua totalidade."

Amor

"Há amor e Amor. Você ama sua família, mas não ama seu vizinho. Você ama seu filho ou filha, mas não ama todas as crianças. Você ama seu pai e mãe, mas não ama a todos da mesma maneira. Você ama sua religião, mas não ama todas as religiões. Você pode até não gostar de outras fés. Da mesma forma, você tem amor por seu país, mas não ama todos os países e, talvez, sinta animosidade em relação a diferentes povos. Portanto, esse não é o Amor real; é apenas amor limitado. A transformação desse amor limitado em Amor Divino é o objetivo da espiritualidade.

Na plenitude do Amor, brota a bela e perfumada flor da compaixão. Quando as obstruções do ego, o medo e o sentimento de 'outro' desaparecem, você não pode fazer nada, a não ser Amar. Você não espera retorno por seu amor. Você não se importa em receber nada; você simplesmente flui. Quem quer que venha ao rio do Amor será banhado nele, seja a pessoa saudável ou doente, homem ou mulher, rica ou pobre. Qualquer um pode tomar quantos banhos desejar no rio do Amor. O rio do Amor não se importa se a pessoa se banha nele ou não. Se alguém o critica ou insulta, o rio do Amor não percebe. Ele simplesmente flui. Quando esse Amor transborda e é expresso em cada palavra ou ato, chamamo-lo de compaixão. Esse é o objetivo da religião. Uma pessoa que está repleta de Amor e compaixão compreendeu os verdadeiros princípios da religião."

Fonte: http://beija-flor.org/site/modules/news/ e http://www.ammabrasil.org/

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Terapia X busca espiritual - (Satyaprem)


"Você busca sua essência fora de você, por isso que você faz tudo o que faz. Terapia, inclusive... E o que é mais moderno é que as terapias estão se confundindo com busca espiritual. Mas isso é impossível. Porque nenhuma terapia vai encontrar o "Espírito". Nenhuma. Ela não foi desenhada para fazer isso. Todas as terapias vão ter que ser abandonadas num certo momento. A terapia é desenhada apenas para o seu sistema se desintoxicar de pensamentos negativos, sentimentos negativos e química negativa que está fluindo no seu corpo. As coisas que você comeu... Mas veja bem: todas essas coisas são temporárias, porque chega um ponto que você não pode ficar continuamente fazendo terapia. Porque não existe aperfeiçoamento. Você nunca vai atingir a perfeição absoluta num nível mental, sentimental ou corporal. Porque é da natureza do corpo, da mente e dos sentimentos permanecerem fluidos; eles são afetados pelo meio ambiente... A comida que você come, alguma coisa que acontece... E mais cedo ou mais tarde todos os "budas" morrem, não morrem?! Os corpos morrem. Se houvesse, de alguma forma, o encontro através da perfeição do corpo e da mente, nós teríamos "budas" de dois mil anos andando entre nós. Se esse fosse o segredo... Mas o segredo é transcender a forma. Só que a maioria das coisas que estamos lendo, a maioria das coisas que estão acessíveis, muito pouco apontam para essa transcendência do corpo, da forma. Ou se apontam, apontam de tal maneira que fica muito difuso, confuso de entender, escuro, e você não entende direito.

É preciso ter o olhar correto! A atenção correta. É preciso que se abram algumas frestas, e você veja. Evite terminantemente, atenciosamente, os objetos. Eles são quatro basicamente: seu corpo é um objeto que pode ser observado, seus sentimentos, seus pensamentos e o mundo externo, o que está fora do corpo. Todas essas coisas são objetos. São observáveis. Essas quatro coisas têm que ser completamente evitadas. E como se faz isso? Stop! Quando você fica muito, muito, muito, quieto; nesse momento, os objetos não importam. E esse momento não é difícil, ele está aqui e agora, é só parar tudo. Pára! Pare até a sua respiração, e observe. A natureza desse momento é pacífica. É paz em si. E você ainda diz: "Eu quero que a minha mente fique em paz".Mas mente não pode ficar em paz, porque mente é turbulência, uma mente em paz não é mente, então não existe. É contradição em termos, dizer "mente em paz". Não tem mente! E a paz não pode ser alcançada. Porque essa paz seria um objeto que foi conquistado. E algo que pode ser conquistado, pode ser perdido. "A paz" para onde eu estou apontando não pode ser perdida e nem pode ser conquistada, porque está anterior a todos os outros objetos que existam. Você é simplesmente "essa paz".

Basicamente o meu convite é simples: É parar de fazer absolutamente tudo o que você vem tentando fazer. Tudo! Mas você pensa: "Se eu não fizer nada, nada vai acontecer!" É exatamente isso o que vai acontecer: "Nada". E é "Nada" o que tem que acontecer para você. Se não, você está querendo que alguma coisa aconteça, e essa coisa que você quer que aconteça, ela é só uma idéia. É uma idéia que você tem, e você projeta essa idéia na realidade. Você fica tentando que "sua idéia" se realize, mas não vai se realizar. Quando você remover todas as suas idéias, e parar de tentar fazer com que alguma coisa aconteça, aí algo acontece. Aí, "Nada" acontece. Essa foi a pergunta que fizeram a Buda: "O que aconteceu a você, embaixo da árvore de bodhigaya?" E ele disse: "Nada! O nada aconteceu para mim".É claro, se você vier com o pensamento retilíneo, extremamente racional, você não vai entender o que estou dizendo. Mas se você ouve com seu coração, ou além, se você deixa "sua essência" ouvir o que eu estou dizendo, "ela" vai entender. Porque é "ela" que está falando. É uma ressonância... Tem que haver ressonância nisso que está sendo dito. Nada vai acontecer! E é exatamente esse o meu convite: que "Nada" aconteça para você. Porque tudo o que acontece, desacontece.

Eu sei que na cabeça de cada um de nós foi colocada a idéia de aperfeiçoamento, de perfeição, de aprimoramento, de limpeza, de sintonização, de equilíbrio... E tudo isso o coloca na perspectiva de que você tem que prorrogar o seu "dar-se conta", o seu "acordar". O "acordar" fica prorrogado para um novo momento, para uma nova possibilidade. E você justifica isso colocando-se para baixo: "Eu não sou capaz ainda de entender, eu não estou 'limpo' o suficiente, não estou equilibrado o suficiente". Ou colocando a culpa naquele que vos fala: "Ele não tem o que eu quero!"

Mas você já experimentou tantas coisas, e todos os seus experimentos só restaram como memória. Você se encontra tão vulnerável quanto antes de todos esses experimentos. Não se engane! Todos os experimentos são apenas experimentos e ficam como memória. E agora você apenas lembra-se deles, e quando você está mal, lembra daquele momento. Tem até livros que sugerem isso: "Quando você estiver mal, pense nos momentos bons que aconteceram na sua vida". Oras! É uma forma de sonambulismo, de hipnose. Porque a grande pergunta é: Por que essa pessoa está se sentindo mal? Provavelmente, se for investigado, ela está presa a um pensamento, e ela faz alguma coisa para sair disso...

É óbvio que eu não tenho esperança que vocês dirão assim: "Ok! Vou largar todos os meus interesses agora!" Eu não tenho essa esperança. Mas isso não me impede de compartilhar o que estou compartilhando com vocês. Porque eventualmente alguns de vocês vão perdendo seus interesses. E quando os perderem saibam que existe esperança nessa "des-esperança". Essa é exatamente a "esperança suprema", é o encontro com Deus. E não o Deus da dualidade, porque quando se diz "encontro com Deus", sugere o encontro de duas coisas. Mas na verdade é a dissolução: "Eu me entrego. Seja feita a Tua vontade!" Existem tantas formas de dizer isso, de responder a isso. Mas a verdade é essa: você chega a um ponto onde você simplesmente se entrega. E isso não significa que você vai parar de ter amigos, que você deva parar de ir ao cinema, que você vai parar de fazer sexo... Você não pára. Ou até pára, se quiser, é completamente individual. Mas não tem mais o "gancho" que você tinha, aquilo não mais te "engancha", você não mais morre por nada daquilo, você não sofre por nada daquilo.

Sua natureza já é satisfeita em si. Tudo o que você precisa, você já tem. É claro que você não acredita, é claro que o seu trabalho é encontrar sentido em tudo o que estou compartilhando, e experimentar no seu dia-dia. Quando você sofre ou quando você se ilude com uma alegria extrema em relação a um objeto qualquer que lhe apareceu. Sim, porque às vezes aparece um objeto que te dá extrema felicidade, e você logo diz: "Agora estou salvo!" Só até, em pouco instante, você descobrir que não era nada daquilo que você estava pensando. Se você já teve essas experiências, você pode criar um afastamento, esse afastamento é inteligente. É estar no mundo, sem fazer parte dele."

Trecho de Satsang acontecido em Recife, junho de 2001.

"O mundo das imagens" - (Entrevista com Satyaprem)

"Leela, a brincadeira divina" - (Entrevista com Satyaprem)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Shri Hastamalakiyam stotram - (Sri Hastamalakacharya)

"Conta-se que uma vez, o grande mestre Shankaracharya e seus discípulos estavam viajando pela região de Mukambi, no estado de Karnataka, quando chegaram num Shribali agrahara, uma cidade de brâmanes. Lá, encontraram um sacerdote chamado Prabhakara.

Ele era uma pessoa muito bem preparada, versada nos Shastras, com uma bela família e tudo para ser feliz. No entanto, tinha uma preocupação que o deixava infeliz: seu filho, embora com treze anos de idade, não falava, não brincava com as outras crianças nem se comunicava, embora aparentasse ser muito brilhante e saudável. Não ia à escola, comia muito irregularmente e ficava inerte, sem ação, por longos períodos.

Prabhakara levou a criança à presença do mestre, buscando ajuda e conselho. Shankaracharya, dirigindo-se à criança, perguntou-lhe: ”Ó criança! Quem é você? De quem você é filho? Qual é seu nome? De onde você vem? Para onde você vai? Você parece ser atraente, brilhante, e amoroso. Por favor, responda-me, para o meu prazer”.

Pode parecer absurdo falar para alguém que não responde mas, por algum motivo, a crianca fala com Shankara. A resposta dada pelo garoto é este texto em quatorze estrofes conhecido como Hastamalakiyam stotram. Basicamente, ele responde não ser um autista (jada), nem um objeto inerte, mas plena consciência.

Ele sabe que todas as ações, todos os elementos da criação, tanto no micro quanto no macrocosmos, derivam da consciência, e são pura consciência. Provavelmente, Shankara não esperava que o garoto respondesse. Muito menos, que desse esse tipo de resposta.

Quem ensinou para ela? A Bhagavad Gita (VI:40), Sri Krishna ensina que qualquer esforço em direção ao autoconhecimento feito em nascimentos prévios, não se perde. Ou seja, que os esforços feitos em vidas anteriores são retomados no mesmo ponto em que foram deixados na existência anterior. Isso explica por que o garoto é tão dotado, e fala de maneira tão clara sobre o autoconhecimento.

O contato com Shankaracharya é uma bênção para o menino. Ele lembra de tudo o que sabia e realizou nas encarnações anteriores. Então, o mestre, dirigindo-se ao pai da criança, Prabhakara, diz que ela não é de nenhuma utilidade na casa, e que gostaria de adotá-lo para que ele pudesse continuar no processo de autoconhecimento. O pai aquiesce, com relutância. O garoto viveu e aprendeu com Shankara e passou posteriormente a ser conhecido como Hastamalakacharya, tornando-se um dos quatro mais importantes discípulos dele.

A palavra hastamala significa “o amala na mão”. Amala ou amla é uma fruta ácida, rica em vitamina C, largamente usada na Índia, tanto na culinária quanto em preparados ayurvédicos, como em forma de óleo cosmético para a pele ou o cabelo. “O amala na mão” é uma parábola que explica o brilhantismo da sabedoria do garoto, que explica as coisas de forma tão simples e direta, que o autoconhecimento fica tão acessível quanto uma fruta na palma da mão.

Todos os grandes temas do Vedanta e do Jñana Yoga estão aqui: dharma, autoconhecimento, meios para se livrar do sofrimento, propósitos humanos, etc.



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Eu sou atma, o Ser, cuja natureza é a consciência ilimitada, e que é a causa do funcionamento da mente, do olhar e dos demais sentidos, assim como o Sol é a causa das ações de todos os seres na Terra. Contudo, quando não associado com os fatores limitadores [na forma do corpo, a mente e os sentidos], Eu, o Ser, sou como o espaço [que tudo abrange]. 1.

Eu sou o Ser, cuja natureza é a consciência ilimitada, que é eterno e uno [não-dual], cuja verdadeira natureza é a eterna consciência, assim como o calor é a real natureza do fogo. É graças a essa consciência que a mente, o olhar e os demais sentidos (que são, per se, inconscientes), funcionam. 2.

O reflexo de um rosto num espelho não tem existência separada da face refletida. Similarmente, o jiva, que é reflexo do Ser na inteligência, não tem, de fato, existência separada dele. Eu sou esse Ser, que é da natureza da eterna consciência. 3.

Assim como quando o espelho é removido, o reflexo cessa de existir mas o rosto permanece, similarmente, o Ser existe sem seu reflexos, na ausência da inteligência. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 4.

Sendo o Ser livre da mente e dos órgãos sensoriais, ele é o pensar da mente e o olhar do olho. Sua própria natureza não pode ser alcançada pela mente nem pelos órgãos de percepção. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 5.

Aquele que é Uno, auto-efulgente, brilha através da pessoa de mente pura. Mesmo brilhando com luz própria, o Ser aparenta ser muitos e variados nos indivíduos, assim como o Sol, que é um só, aparenta ser muitos nos diversos reflexos em diferentes corpos de água. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 6.

Assim como o Sol dá a luz para os olhos, sem precisar revelar os objetos para cada olhar sucessivamente [mas a todos ao mesmo tempo], da mesma forma, a consciência única não ilumina as muitas mentes uma a uma, [mas a todas simultaneamente]. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 7.

Assim como o olho vê claramente apenas aqueles objetos que são iluminados pelo Sol, mas não aqueles que a luz não alcança, o próprio Sol torna o olho capaz de enxergar os objetos, apenas por que ele é, por sua vez, iluminado pela luz do Ser. Eu sou esse Ser, cuja Natureza é consciência ilimitada. 8.

O único Sol parece ser muitos ao se refletir em diferentes corpos de água. Ele permanece imóvel, mesmo quando as águas se movem. Similarmente o Ser, embora refletido em distintas mentes sempre mutantes, permanece sempre o mesmo, intocado por essas mudanças. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 9.

Assim como o tolo imagina que o Sol perde o brilho quando é escurecido pelas nuvens, da mesma forma, aquele que é enganado pela ignorância acredita que o Ser é condicionado. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 10.

O Ser que permeia o universo, mas a quem nada pode atingir, que é sempre puro como o espaço, que é livre das impurezas do apego e a aversão, que é imortal, esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada, sou eu. 11.

Assim como, em presença dos objetos, o claro cristal aparenta ser algo diferente do cristal, da mesma forma, você, ó Vishnu, aparenta ser distinto em presença das diferentes mentes. Assim como a lua parece mover-se nos reflexos na água, similarmente, você aparenta movimentar-se aqui [na criação]. 12."

Tradução e apresentação por Pedro Kupfer, baseadas nos ensinamentos de Swami Dayananda.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Eu sou o vento, você é o fogo - (Rumi)

O AMADO

"Oh meu Amado!
Leve-me
Liberte minha alma
Me preencha com seu amor
e liberte-me dos dois mundos.
Se eu colocar meu coração
Em algo mais que não você
Oh fogo, me queime por dentro!
Oh meu amado
Leve tudo o que eu quero
Leve tudo o que eu faço
Leve tudo
e leve-me para você.

Eu nada sei sobre os dois mundos -
Tudo o que eu sei é sobre o Uno -
Eu busco apenas o Uno,
Eu conheço apenas o Uno,
Eu encontro apenas o Uno,
E eu canto apenas o Uno.
Estou tão embriagado
no vinho do Amado
que os dois mundos
escorregaram para fora do meu alcance.
Agora não tenho mais negócios aqui
Apenas alcançar o copo do meu Amado.

O Amante está embriagado de amor;
Ele é livre, ele é louco,
Ele dança em êxtase e delícia.
Preso por nossos próprios pensamentos
nos preocupamos com cada pequena coisa.
Mas quando nos embriagamos neste amor,
Aquilo que tiver de ser será, será.

Meus olhos vêem apenas a face do Amado.
Que gloriosa visão,
pois esta visão é amada.
Por que falar em dois? -
O Amado está na visão,
e a visão está no Amado.

Uma baleia vive para o oceano,
Uma pantera vive para a floresta,
O avarento vive para a riqueza,
O amante vive por uma visão de seu Amado.

Sua doce água limpou minha alma
e removeu toda a tristeza
Agora estamos unidos em perfeita união.
Eles dizem que o amor abre a porta
de um coração para o outro;
Mas se não existem paredes
como poderá haver uma porta?

Quando você dança
todo o universo dança.
Que maravilha eu vi
e agora não posso virar minha face!
Leve-me ou não
as duas coisas são a mesma -
Pois enquanto houver vida neste corpo,
eu sou seu escravo.

Como o Amado preenche meu coração -
Como um milhão de almas em um corpo
Um milhão de colheitas em um feixe de trigo,
Um milhão de céus girando
no buraco de uma agulha.

Sem Você
eu plantei algumas flores;
elas se tornaram espinhos.
Eu vi um pica-pau, ele se transformou numa serpente.
Eu toquei o rubah - nada, além de barulho.
Eu fui para o mais alto dos céus;
ele era um inferno queimando.

Em um doce momento
Você explodiu de meu coração.
Ali, nos sentamos no chão,
e bebemos um vinho vermelho como rubi.
Encantado com sua beleza
eu vi e toquei -
Toda a minha face se transformou em olhos,
todos os meus olhos se transformaram em mãos.

Meu coração é o rubah, seu amor é o arco
Minha alma geme quietamente
enquanto você me toca seu som.
Toque, meu Amado!
Não me deixe perder uma única nota de sua melodia
e nem uma só batida de seu coração.

Descrente é aquele que não se rejubila junto com você.
O cadáver é aquele que não dança quando você dança.
O maior sábio do mundo é um tolo
se ele não abre seu coração junto a você.

Se eu rezo
isso é apenas meu coração virando em sua direção.
Se eu olho para a Kaaba
isso é apenas meus olhos virando-se em sua direção.
De outra forma,
eu me livraria do mundo da oração,
eu lançaria fora a Kaaba.

Eles dizem que é noite,
mas eu nada sei sobre dia e noite.
Eu apenas sei da face daquele
que preenche os céus de luz.
Oh noite, você é escura
porque você não O conhece.
Oh dia, vá e aprenda com ele
o que significa brilhar.

Seu amor me preencheu
com uma loucura
que ninguém jamais pode conhecer.
Contemplá-lo preencheu meu coração
com um poema
que ninguém jamais poderá escrever.

Eu estive com Ele na última noite;
com aquele que eleva minha alma ao céu.
Tudo o que fiz foi rezar e me curvar.
Tudo o que ele fez foi virar sua cabeça e sorrir.
A noite terminou antes de nossa história
Mas não foi um erro da noite -
foi o jogo que durou muito tempo.

O amante veio, cheio de desespero -
Não posso dizer nada mais além disso.
Sua maneira era audaciosa e inflamada -
Não posso dizer nada mais além disso.
O Amado disse, "não faça"
O amante disse, "não farei"
Então, ambos se olharam e sorriram -
Não posso dizer nada mais além disso.

O Amado olhou para mim
com compaixão e disse,
"Como você pode continuar a viver sem mim?"
Eu disse, "Eu juro, viverei como um peixe fora d'água".
Ele disse, "Então por que se manter agarrado à terra seca?"

Para este Amado,
flores e espinhos são a mesma coisa;
Um verso do Corão
e um fio do Brahman são a mesma coisa.
Não tente impressioná-lo
Para este Amado,
o herói e o tolo são a mesma coisa.

Eu recitei um verso,
o Amado riu.
Ele disse "Você está tentando me prender
em sua pequena rima?"
Eu disse, "Você não precisava quebrá-la em pedaços".
Ele disse, "Ela era tão pequena!
Eu não coube nela
Por isso ela ficou em pedaços!"

Eu bebi um pouco de seu doce vinho
e agora estou doente -
meu peito dói, minha febre está alta.
O médico diz, "tome essas pílulas".
Ok, hora de tomar pílulas.
O médico diz, "beba este chá"
Ok, hora de tomar chá.
O médico diz, "afaste o doce vinho de seus lábios".
Ok, hora de afastar-se do médico.

Se eu morrer, enterre-me junto ao Amado.
Se Ele olhar para mim, não se surpreenda.
Se Ele beijar meus lábios, não se surpreenda.
Se eu abrir os olhos e sorrir, não se surpreenda.

Seu amor é minha razão,
o lugar de descanso de minha alma.
Eu disse, "eu irei deixa-lo sozinho por 2 ou 3 dias"
Mas eu não pude. Oh meu Amado,
Como poderia afastar este amor de você?

Eu enlouqueci, estou em total confusão -
Pegue minha mão.
Estou vazio, não posso encontrar a mim mesmo -
Pegue minha mão.
Este mundo está cheio de potes
Cada qual com uma tampa.
Mas, olhe para mim, estou perdido, não tenho ninguém -
Pegue minha mão.

Eu estava acenando com um cachecol
Sob sua janela -
Você achou que era para você?
Não, não
Vá, vá
Não era para você
Apenas aconteceu de estar acenando
sob sua janela.

Vejo a lua -
ela não precisa estar cheia.
Eu vejo a lua -
ela não precisa ter nascido.
Ele é a água da vida
Oh que lua eu vi
refletida em Sua água!

A suave luz da lua
parece você.
As doces asas de um anjo
parecem você.
Não, não -
o que estou dizendo?
Apenas Você se parece com Você.

Veja-o
enrubescendo com uma menina pequena!
Oh que dor teria sentido
se alguém tivesse coberto meus olhos.
No reflexo de sua face
brilha toda a beleza dos céus
Sem Ele,
existe apenas lama.

Eu envelheci,
mas não por causa do tempo.
Eu envelheci,
mas não por causa dos sorrisos e jogos
do meu Amado.
Em cada respiração,
estou pronto e não estou pronto.
A cada passo
eu me transformo na armadilha
e naquele que coloca a isca.

Você me chama de infiel.
Você me chama de velho, jovem, recém-nascido.
Quando deixar esse mundo, não me chame de morto.
Diga antes, ele estava morto,
então subitamente, veio à vida
e fugiu com o Amado.

Um lampejo do Amado é como alquimia -
ele transforma minha alma de cobre em ouro.
Eu busquei por ele com milhares de mãos -
Ele me alcançou e me agarrou pelo pé.

Estou seguro e aquecido
Sob a coberta do amante
Embora permaneça pensando
Que ele não me ama.
Certamente se ele ouve meus pensamentos tolos -
Escondido,
de uma forma doce -
ele irá rir e rir.

Eu avisei meu coração -
"Fique distante,
Ele irá lhe trazer apenas tristeza,
Ele é amargo,
Ele não quer você…"
Meu coração riu e disse:
"Desde quando
o mel é amargo?"

Às vezes eu o chamo de Vinho
Às vezes, Copo
Às vezes, Fogo
Às vezes, Ouro
Às vezes a Semente, às vezes a Planta,
Às vezes o Caçador, às vezes a Armadilha
Tudo isso permanece um mistério
Até que eu o chame por seu nome.

Na noite passada ele estava no meio de uma multidão,
e eu não pude estreitá-lo abertamente em meus braços.
Então coloquei minha face perto da sua
Como se estivesse sussurrando um segredo em seu ouvido.

Toda a alegria deste mundo
não pode aliviar essa saudade.
Existe só um remédio - o Amado.
Eu pensei: "Quando eu o vir
quanto irei dizer!"
Então eu o vi e nenhuma palavra surgiu.

Eu entrei na Cidade Sagrada,
e jurei fidelidade;
Vestindo um traje branco de peregrino,
eu envolvi a Qaaba com mantos.
Mas no momento em que vi sua face
Quebrei todos os votos que um dia havia feito.

Alguns dizem, "Amor combinado com sabedoria é o melhor".
Outros dizem, "Disciplina e prática regular é o melhor".
Oh, estas palavras são mais preciosas que ouro,
Mas minha vida oferecida a Shams é o melhor."

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Prá Rua me Levar - (Ana Carolina e Seu Jorge)



"Já sei olhar o rio
Por onde a vida passa
Sem me precipitar
E nem perder a hora
Escuto no silêncio
Que há em mim e basta

Outro tempo começou"


“O único ensinamento é o silêncio” (Ramana Maharshi)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Respira Fundo - Entrevista com Hermógenes - (Por Karla Monteiro)


"Precursor da Ioga no Brasil, ele criou sua primeira academia no Rio de Janeiro há quase 50 anos. Conheça o professor Hermógenes, um ex-militar que depois de usar a Ioga para salvar-se de uma tuberculose quase fatal, publicou 30 livros sobre o tema – e, indiretamente detonou no país uma pequena revolução na forma de melhorar recriar e repensar o corpo.
Nos anos 60, o professor Hermógenes demonstra a prática de nauli, em que o abdômen é sugado ao se expandir o peito, sem ar (o praticante não respira), isolam-se os músculos do abdômen num movimento ondulatório, da dir. para a esq. e vice-versa. É um exercício abdominal que serve para limpar o cólon e é excelente massagem para os órgãos internos desta região.

O senhor que me abre a porta é um velhinho. Tem no rosto as marcas inconfundíveis dos anos vividos. O caminhar é lento, mas com uma firmeza que chama a atenção. A voz é baixa, rouca – e, ao mesmo tempo, precisa, afiada. Os olhos azuis o traem logo à primeira vista. São vivos, brilhantes demais, do tipo que emitem sabedoria, sem deixar de ainda questionar. O potiguar José Hermógenes de Andrade Filho, o professor Hermógenes, tem 85 anos e mais de 50 dedicados à ioga. Sentado em uma cadeira antiga, perto de uma janela que enquadra perfeitamente o pão de açúcar, ele conta que começou a estudar a filosofia oriental empurrado por uma doença, a tuberculose, que o levou ao “sofrimento extremo”. Com a prática constante de ásanas (as posturas físicas da ioga), passou de um homem gordo e envelhecido a um corpo esculpido, como
ele mesmo define. “Ganhei um alongamento prodigioso. Já não havia mais sinais de doença. Fiquei cheio de paz” afirma. Em 1960, publicou um livro revolucionário para a época, o primeiro compêndio em português de hatha ioga. A obra Autoperfeição com Hatha Yoga está na 48ª edição. “Estudei muito para escrever. Não queria que o livro virasse objeto de riso dos profissionais, dos médicos”, comenta. “Ninguém falava em ioga no Brasil. Eu estava sozinho nessa aventura fantástica.”
Na voz do professor, nenhum sinal de heroísmo. Ele não se gaba. Só conta a sua história. Casou-se duas vezes, com Ione Maria e Maria Bicalho, ambas falecidas. Foi militar. Tem duas filhas, Ana Lúcia e Ana Cristina, seis netos e três bisnetos. Já escreveu 29 livros, após o sucesso do primeiro. Traduziu outros oito, sendo três dos mais famosos gurus indianos, Sai Baba. E ainda ensina no mesmo espaço, a Academia, no centro do Rio, onde está há exatos 45 anos. Divertido, do tipo piadista, o professor Hermógenes fala uma língua estranha. A compreensão profunda, sem dúvida, exige transcendência. Em suas reflexões – são centenas –, ele catalogou duas doenças que explicariam todas as neuroses modernas: a “egoesclerose” e a “normose”. “A egoesclerose é a hipertrofia do ego, do fulano de tal que eu penso que sou. Só se trabalha para si próprio, só se serve a si mesmo”, explica. “Já a normose é a doença de ser normal. As pessoas querem se encaixar num padrão, o que leva a doenças como anorexia, bulimia, depressão, síndrome do pânico. A moda é uma conseqüência fantástica da normose”, completa. E ele inclui nesse balaio da normose o modismo da ioga. O antídoto para as duas enfermidades seria o que ele chama de “Des-Ilusionismo”.“Preciso que você coloque isso aí na revista, porque estou procurando sectários. Estou fundando a Igreja Universal do Des-Ilusionismo. Mas nem eu consegui ainda virar um fiel seguidor. Eu ainda sou um iludido”, brinca. Assim a conversa de mais de três horas seguiu a sua toada. Durante o prazeroso encontro, o professor percorreu vários aspectos da vida, da fé e, principalmente, vários aspectos da busca da felicidade. Sempre apresentando uma visão particular, original de tudo. Concordemos com ele – ou não, diga-se. “Estou conseguindo ser feliz amando, sendo a pessoa que ama. Na nossa cultura, queremos sempre ser amados. Ficamos na dependência do que o outro nos concede. Felicidade não pode nunca depender daquilo que não depende de você, conclui. Em um dos momentos sublimes do papo, o professor soltou a sua pérola, aquela que me fez entender que eu estava diante do Senhor da Ioga no Brasil: “Só alcançarei a felicidade se me desiludir, inclusive de que sou Hermógenes. Eu pareço Hermógenes, eu penso ser Hermógenes, eu estou Hermógenes, mas eu não sou Hermógenes. Eu não sei o que sou”. Falou o menino do signo de peixes de 85 anos, que completa 86 no dia 9 de março próximo. O senhor que me fechou a porta naquela tarde memorável, quando saí para voltar no dia seguinte para mais uma rodada de conversas, não era, sem dúvida, um velhinho. Eu me iludi.

É verdade que o senhor considera como o seu início na ioga um afogamento?
Quando comecei a estudar ioga, me impressionei com a proposta de ahimsã [princípio da não-violência irrestrita]. Fiquei feliz de ver uma coisa tão inteligente e comecei a praticar sempre o ahimsã. Tive muitos fracassos, claro, mas continuava e continuo tentando. Um dia me lembrei que desde criança tenho um encontro com o ahimsã: com uns 8 anos, no cinema ainda sem som, vi um filme do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. O rei, para demonstrar a precisão de sua espada e a força do seu braço, deu um golpe seco em uma barra de ferro e a quebrou. Saladino, então, pegou uma gaze, jogou para o alto e ela veio dançando, sem pressa nenhuma. Ele botou a lâmina de sua espada no pulso, e a gaze, ao pousar, se dividiu em duas. Foi a minha primeira lição de ahimsã.

Mas o afogamento...
Sim... estava tomando banho na praia com uns amigos em Natal quando uma onda me arrastou para o fundo. Fiquei subindo e descendo, engolindo água – estava, de fato, me aproximando da morte. Aconteceu outra coisa que tem guiado a minha vida: a isvara-pranidhana, que significa se entregar a Deus – e dizer o nome de Deus. Claro, não sabia esses nomes hindus, foi instintivo. Comecei a repetir mentalmente o nome de Jesus Cristo, quando vi um rapaz se aproximando. Dizia para eu não ajudá-lo, não agarrá-lo. Me entreguei com uma brandura que até hoje me impressiona.

Quem é Deus na filosofia da ioga?
Há linhas da ioga que nem falam a palavra Deus. Falam, por exemplo, de atmã [alma]. Deus é a nossa realidade. É o real que mora em você. No Ocidente, Deus está em um lugar distante e é absolutamente diferente de nós. Pensar o contrário é heresia. Cultiva-se o medo, a culpa. No Oriente, Deus é tão diferente e distante de nós, como cada onda é diferente e distante do mar.

Voltando ao Rio: como o senhor trocou a farda pela ioga?
Eu era militar, tinha família, duas filhas. E estava me preparando para ir para a Itália para lutar na Segunda Guerra. Fazia parte da FEB [Federação Expedicionária Brasileira]. Minha mãe rezou tanto que a guerra acabou. Então comecei a pensar em lecionar. Tinha feito um curso de técnicas pedagógicas.

Quantos anos o senhor tinha nessa época?
Não me lembro... Tenho problemas com o tempo. Não sei por que, mas tenho problemas com a contagem do tempo.

Virou professor no Colégio Militar?
É. E passei a vender seguros também. Precisava prover minha família. Todo o estresse com a preparação para a guerra, a falta de dinheiro... Na época também publiquei meu primeiro livro, A Pergunta que Ensina, um método didático para ensinar história do Brasil. Com todo esse trabalho, comecei a ter febrículas no fim de tarde. Minha voz também começou a desaparecer. Procurei um bamba da medicina, caríssimo, que deu um diagnóstico errado. Meses depois, meu dentista me mandou fazer um exame e uma radiografia para ver a possibilidade de tuberculose.

Uma doença maldita naquele tempo...
O médico disse que meu pulmão estava todo furado! Teria de tomar medicamentos e iniciar o pneumotórax [técnica usada na época, em que eram aplicadas injeções de ar entre a massa pulmonar e a pleura]. Não senti pavor porque tinha estudado livros de várias linhas espirituais e, para minha felicidade, tinha lido o Bhagavad-Gita [livro sagrado do hinduísmo].

O Bhagavad-Gita lhe deu conforto?
Tranqüilidade em relação às provações. Já estava praticando a ioga espiritual e não sabia.

É o que os hindus chamam de bhakti-ioga - ou ioga da devoção?
Sim. Não me sentia ameaçado, não me queixava. Nos repousos, aprendi a me entregar ao relaxamento. Fui fazendo uma aproximação profunda com a verdade de Deus.

Quanto tempo ficou em tratamento?
Não me lembro exatamente. Depois de uns dois anos, perguntei para meu médico quando poderia parar o pneumotórax. Ele não só me disse que estava longe da cura, mas que teria de fazer uma cirurgia!

Sentiu medo?
Não. Era só uma teimosia contra minha pretensão. Fomos à cirurgia, num hospital em Jacarepaguá. O médico me comunicou que o procedimento com entradas de catéteres no pulmão para cauterizar as feridas teria de ser feito sem anestesia. Ele disse que eu teria de suportar a dor sem gritar, sem me mover nem me defender. Teria de ficar imóvel.

Mas por que sem anestesia?
A anestesia era um gás inflamável e, em contato com a brasa da cauterização, poderia causar uma explosão no meu pulmão... Fiquei segurando uma barra de ferro, enquanto ele furava minha caixa torácica dos dois lados. Uma dor terrível. O médico tinha me dito que iria demorar uns minutos, mas o tempo passava e não acabava. Senti um desejo enorme de morrer. Então, me lembrei do Bhagavad-Gita, que diz que nosso destino depois de deixar o corpo é determinado pelo nosso último pensamento. Aquelas pessoas que morrem dizendo o nome de Deus vão para Deus. Comecei a falar o nome de Jesus. Nessa hora exata, o médico disse: “Está terminado”. Aos poucos fui entendendo o que é o caminho estreito, que o grande iogue Jesus Cristo mencionou no Evangelho.

E o que é o caminho estreito?
Existe o caminho estreito e o caminho largo. O largo leva à procura sem direção. O estreito, a Deus. Ou seja, a você mesmo. É nas horas de profundo sofrimento que você alcança a metanóia. Metanóia é uma palavra grega que significa “mudar a direção da mente”. O filho pródigo veio ao mundo buscar algo que não encontrou, teve decepções e, na hora do extremo sofrimento, ocorreu a metanóia. Ou seja, ele fez o caminho de volta à casa paterna. Sacou a analogia?

Acho que saquei. O senhor atingiu a metanóia naquele momento?
Não. Ali, vi que já tinha feito a metanóia. Não estava procurando no mundo o que todos buscam. Estava procurando coisas que os homens não valorizam. Paz, amor, verdade, retidão. Já estava no caminho da porta estreita. Senti que uma provação daquele tamanho só poderia ser uma característica do esforço da volta. Sacou?

Nesse momento o senhor descobriu a hatha ioga, a ioga física?
Ainda não. Voltei para casa, um calor tremendo na Tijuca. Resolvi me deitar em uma esteira velha no quintal. Só que não percebi que a esteira estava cheia de ácaros. Imagina? Comecei a espirrar. Não sabia se estava espirrando pelo nariz ou pela ferida no tórax. Caí de cama de novo. Quando levantei, dias depois, e passei diante do espelho, vi que estava adernado feito a Torre de Pisa. O médico me disse que era pleurisia, água no pulmão. Quando fiquei bom da pleurisia, tive de voltar ao tratamento com pneumotórax.

De novo?
O médico veio fazer a primeira sessão, enfiou a agulha, me olhou estranhamente e disse que faria outra tentativa. No fim, meu pulmão tinha virado um paliteiro. Aí ele me disse que tinha feito tantas investidas porque eu não poderia estar curado. Ainda era cedo. Mas eu estava curado! A explicação médica é que o líquido da pleurisia sarou a ferida no pulmão.

Para o senhor, a explicação é outra?
Isvara-pranidhana. A fé é um grande remédio.

Até então o senhor não praticava ásanas [posturas físicas da ioga] ou pranayama [controle rítmico da respiração]?
Não. Nesse mesmo momento, me chegou um livro publicado na Suíça, de um mestre chamado Selvarajan Yesudian [Yoga and Sports, de Elizabeth Haich e Selvarajar Yesudian].

E o livro do Sai Baba, que o senhor traduziu?
Me libertou. Minha mudança foi radical. Fazia a prática dos ásanas no lugar menos apropriado do mundo: trancado no banheiro da minha casa. Não queria que meu médico e minha esposa se metessem na minha pratica. Era uma experiência aventureira. Como eu, saindo de uma doença grave, ainda convalescendo, podia ficar ali me contorcendo? Descobria então a grande riqueza da minha vida: que a ioga é misericordiosa e tem o poder de curar, o poder de transformar as pessoas.

Como foi essa transformação fisicamente?
Quando me curei da doença, estava envelhecido e gordo por conta da superalimentacão. Com a hatha ioga, em pouco tempo esculpi meu corpo. Ganhei um alongamento prodigioso. Nenhum sinal de doença. Fiquei cheio de paz.

Como virou professor?
Demorei a dar aulas. A primeira necessidade foi falar disso para todo mundo. Ninguém falava em ioga. Soube depois que havia dois professores em São Paulo. Mas não os conhecia. Me sentia sozinho naquela aventura maravilhosa. Comecei a estudar muito. Imagina o tanto que estudei?

Ai publicou o livro Autoperfeição com hatha Ioga?
Em i96o. Virou um clássico já tem 48 edições. Ate hoje ninguém reclamou, apontando qualquer equivoco. Para escrever, fiz um grande estudo em terapias, alimentação, psicologia, filosofia ocidental e hindu. Não queria lançar um livro que virasse objeto de riso de profissionais e médicos.

O senhor seguia sendo militar?
Não, porque era professor no Colégio Militar. Tinha uma grande alegria de estar no meio de jovens e poder ensinar algo além daquilo que já se ensinava.

Quando virou professor de ioga?
Depois da publicação do meu livro,fui procurando por conhecidos e desconhecidos. Todos me pediam para dar aulas. Dizia que não podia, não queria me arriscar a alugar um lugar sem dinheiro.Dizia que não ia ensinar, que tudo o que sabia já tinha botado no livro. Mas as pessoas começaram a me pressionar. Meu argumentos era que ioga significava desapego. Como eu iria me desapegar e, ao mesmo tempo, conseguir dinheiro para pagar uma sala?

O senhor não queria “vender” a ioga?
De jeito nenhum! Nem queria gente atrás de mim, me considerando um “mestre”. Até que e a maior psicóloga do Rio na época, Ofélia Boasson, me telefonou. Elogiou o livro, disse que eu não estava na Índia antiga, no Himalaia, então não podia me negar a desenvolver o ensino de ioga no Rio. Depois disso, fiquei com uma atitude mais tranqüila. Aí, um colega meu, que tinha estudado comigo em Natal, um judeu e empresário da construção civil, marcou um encontro comigo na rua Uruguaiana, 118. Quando cheguei lá, ele me levou ao 12º andar. Era um salão grande, de 100 metros quadrados.

Assim nasceu a Academia?
É. A Academia faz 45 anos este ano. Ensino a ioga misericordiosa, para quem precisa de algo mais substancial na sua alma, para quem está doente, para quem envelhece. Para quem como eu, aos 85 anos, precisa continuar se sentindo feliz. Toda minha obra é voltada para quem sofre.
Dá aulas?
Tenho uma turma de idosos. Mas quero deixar. Hoje me proponho a trabalhar mais no nível espiritual e filosófico.

Como?
Ioga é um estilo de vida - liberto, feliz, sadio, bem-disposto. Não tem hora e local marcado para fazer. Ioga é a dedicarão total da vida. Neste momento estou te amando, estou agradecendo a Deus sem palavras a beleza daquelas árvores, do Pão de Açúcar, daquela andorinha ali. É um estilo de vida que não se resume a prática de ásanas.

Mas o senhor faz ásanas?
Muito menos. Tenho algumas limitações por causa da idade.

Acha que o conhecimento do corpo físico, a hatha ioga, é o caminho para o autoconhecimento e por conseqüência, para a felicidade?
O corpo entra da mesma forma que a mente, o conhecimento das energias, a visão filosófica do mundo. Jesus Cristo, por exemplo, foi um grande iogue. Já viu representações dele fazendo ásanas? Madre Teresa de Calcutá foi uma iogue. Já ouviu falar de alguma prática física de Madre Teresa? Ioga não á ginástica. Há muitas propostas por aí hoje que eu respeito, mas não concordo. Não é a minha história. Não quero e nunca falo nada negativo de ninguém. Então me abstenho de comentar.

Falando em iogues, como o senhor encontrou Sai Baba?
Meu primeiro contato foi através de livros, que me levaram a traduzir O Homem dos Milagres. Traduzi três livros seus e escrevi um livro sobre ele. Bem, logo depois desse livro, fui para a Índia com um grupo para conhecê-lo. Viajei levando um exemplar da primeira edição na bolsa. Nosso primeiro contato foi maravilhoso. Me sentei no meio da pequena multidão para a bênção com os olhos, uma prática comum na Índia chamada darshan. Pus o livro no meu colo, Bem á vista.

Tipo uma isca...
Ele olhou bem para o livro e, depois, para mim. No dia seguinte, ele chamou nosso grupo para uma entrevista. Uma coisa impressionante, porque e muito difícil falar com ele. Entrei por último na sala, com uma estola no pescoço que passava dentro de um anel com a efígie do rosto dele. Na época, Sai Baba devia ter uns 6o anos. Nos sentamos, então, em torno dele. Ele virou para mim e perguntou, com um lenço na mão: "O que e isso?". Respondi: "Um lenço". "Feito de que?" "De tecido” "E o que compõe o tecido?" .”Fibras." "Se tirarmos uma fibra, depois outra, e outra, o que sobra?" "Nada." Ele concluiu: "Isso representa a mente de vocês, formada de desejos, que são as fibras. Se tirar mos um desejo, depois outro, e outro, a mente já não será obstáculo para voce encontrar a verdade".

Sai Baba visou o seu guru?
Já vinha vivendo as lições que não tinha aprendido dele fisicamente. Havia uma comunhão de verdades, de idéias, que já estava nos meus livros.

Voltando ao corpo físico como o senhor se alimenta? Tem uma dieta?
Transformei minha alimentação quando estava saindo da tuberculose. Com a pratica da ioga, me tornei vegetariano. Mas não tenho fanatismos. Minha proposta é equilibrada. Sem agressão ao meu corpo.

O senhor tem mestres?
Sai Baba e um deles. Tive cinco entrevistas com ele. Tampem tive contato com o Shivananda [um dos iogues indianos mais famosos]. Estive 12 vezes na Índia.

O que acha da relação guru – discípulo?
Olhando com os olhos de hoje, a gente enxerga como um exagero de obediência. Na época, estava tudo bem. Era outra situação. No Brasil tem havido abusos disso. Tem surgido iluminados, mestres com nomes escalafobéticos que embasbacam ingênuos que se rendem...

Se considera um guru?
Não tenho categoria para isso. Mestre é quem ensina a viver. Em Ioga, quem ensina o sãdhana [realização espiritual] na pratica, sendo exemplo.

O senhor foi professor de DeRose?
Vamos mudar de assunto.

Considera o Osho um Guru?
Vamos mudar de assunto.

O que é felicidade para o senhor?
A felicidade não deve ser confundida com necessidade nem com prazer. o prazer nasce e acaba. Felicidade é um prazer que nem nasceu nem acabará. É o estado da verdade dentro de nós. É o que você é, agora. Não está ligada ao desejo, nem ao tempo. É o prazer eterno. Não tem opostos. É o real em nós. É nossa essência.

Na nossa cultura, a felicidade está ligada a desejos externos e temporários, certo? Isso que buscamos todo o tempo tem outro nome?
É a suposta felicidade. Por isso digo sempre que quem pratica hatha ioga pensando em dar beleza e força ao corpo está se auto-iludindo. O corpo não tem eternidade. A felicidade, sim. Ultrapassa mesmo o existência do corpo físico. A ioga está me ajudando a compreender a felicidade nesse sentido essencial. Não sou um sábio. Não cheguei a uma verdade eterna. Sou um aspirante a verdade eterna. Até por isso não posso me colocar na posição de guru.

Quais são as causas de doenças modernas como depressão, síndrome do pânico, anorexia, bulimia?
Há duas doenças, que os patologistas ainda não classificaram, por trás de tudo isso: a egoesclerose e a normose. A egoesclerose é a hipertrofia do ego, do fulano de tal que eu penso que sou. Só trabalha para si próprio, só serve a si mesmo. É o egoísmo, a autopromoção. A asmitã, de Pantajali [principio do “eu”. Senso individualidade]. Já a normose é a doença de ser normal. As pessoas querem se encaixar num padrão. Para mim, essas duas doenças explicam todo o sofrimento humano.

A egoesclerose seria a supervalorização do eu, e a normose a necessidade de se ser aceito socialmente?
Exato. “Meu time é o melhor, minha religião a única”: isso e a egoesclerose. Agora. “o que esta na moda” é a normose - procurar segurança e preenchimento imitando o outro. A moda é uma conseqüência fantástica da normose. Sofremos sem necessidade. Vivemos em uma ilusão que só a des-ilusao, com hífen separando o prefixo, salva. Só alcançarei a felicidade se me des-iludir. Inclusive do que sou Hermógenes. Pareço Hermógenes, penso ser Hermógenes, estou Hermógenes, mas não sou Hermógenes.

Quem é, ou o que o senhor é?
Não sei. Não me pergunto. Procuro deixar que a resposta venha algum dia. Se me der a resposta para minhas perguntas, sim , é iluminação. Sabe que eu fundei uma religião? Estou procurando sectários: é o Dês-ilusionismo.

Já tem adeptos?
Não. Nem eu consegui ainda virar um fiel seguidor... Ainda sou um iludido!

O que acha de cirurgias plásticas e outras intervenções no corpo?
É a associação de egoesclerose e normose. Um perigo.

E o modismo da ioga?
Normose. “O Fulano fez, se deu bem, então também vou fazer: Minha filha não fez Faculdade, não tem jeito para coisa nenhuma, mas agora estou feliz porque ela esta dando aula de ioga..." Doença da referencia né? Vê as revistas de celebridades? Pessoas lindas, ricas, bem-sucedidas. E todas, sem exceção, praticando ioga. Ioga e fashion!

Como o senhor vê o sexo, o prazer carnal?
Na ioga existe uma palavra para isso, brahmachãri, que significa o caminho de Deus. O sexo é uma benção. Mas quando está a serviço da egoesclerose cria muito sofrimento. Só se encaminha para Deus quando o sexo não é amado acima ou além de Deus. O amor é a grande solução. O sexo com amor é divino.

O sexo pelo puro prazer não é divino?
Não. É egoesclerose. O amor é que precisa ser descoberto, para que haja salvação.Conhecer é poder. Tem-se de procurar o conhecimento de si mesmo e o entendimento do prazer sexual. O amor nos leva à verdade, à unidade e à eternidade. O sexo nos dá um prazer volúvel, transitório, que não deixa de fazer falta, claro. Mas o amor é o sentimento que nos leva ao prazer eterno, á libertação.

Vivemos a era das relações descartáveis. Hoje se ama, amanhã não se ama mais...
Está tudo confundido. O amor é a milagrosa ausência do ego. É incondicional, quando nada mais importa. Quando aquilo que é externo, transitório, como beleza ou dinheiro, deixa de ter importância. Isso é amor.

O senhor já amou?
Eu continuo amando. Estou te amando agora. O amor me leva a prestar serviços. Sai Baba diz: ame e sirva. Nos meus relacionamentos amorosos, procuro criar condições de felicidade para aqueles que eu amo. Não consegui ainda atingir o amor incondicional, na plenitude que estou dizendo. Mas consegui ser feliz amando, sendo a pessoa que ama. Na nossa cultura, queremos sempre ser amados. Ficamos na dependência de que o outro nos concede. Felicidade não pode nunca depender daquilo que não depende de você.

Se tivesse que dar um conselho, qual seria?
Dês-iludam-se
"


Fonte: Revista – Trip – fevereiro 2007

domingo, 31 de maio de 2009

Tão loucos quanto nós - (Rumi)


"O mundo não é nada. Nós não somos nada.
Nossa vida neste mundo não é nada além de sonhos e imagens.
Sendo assim, por que continuar lutando?
Se a pessoa que está sonhando sabe que está sonhando
Por que sofrer com os pesadelos?

Você me concedeu tantos favores
Que me sinto tentado a pedir por mais.
Como Moisés quando ouviu a voz de Deus
E desejou ver sua face.

Eu irei oferecer meu coração para aquele que
está doente da mesma doença.
Os doentes podem beber a mim como se eu fosse um elixir.

Eu me pareço com um falcão doente
Preso à terra por causa de sua doença.
Não pertenço mais às pessoas da terra
Nem sou capaz de voar para o céu.

Oh pobre falcão
Como você pode viver com estes corvos?
Você foi hipócrita
Fechando seus olhos para o amor
Enquanto o fogo brilhava em seu coração
Como você pode esconder o amor quando as lágrimas
Fluem de seu coração como cachoeiras?

A morte é um tipo diferente de vida para o Senhor
A alma se torna calma e tranqüila
A morte é união e não tortura e sofrimento
É diferente da do ignorante
Que morre todo o tempo

Seja como o sol pela graça e misericórdia
Seja como a noite para cobrir as faltas dos outros
Seja como a água corrente pela generosidade
Seja como a morte para a raiva e o ódio
Seja como a terra pela modéstia
Pareça ser aquilo que você é
Seja aquilo que você parece ser

Medindo seu amor, eu fui medido
Vestindo seu amor, eu fui vestido
Não posso viver os dias nem dormir de noite
Para ser seu amigo
Tornei-me inimigo de mim mesmo.

Se você pudesse livrar-se de si mesmo
Apenas uma vez
O segredo dos segredos se abriria para você.
A face do desconhecido
Oculto além do universo
Apareceria no espelho de sua percepção.

Primeiro ele me ofereceu uma centena de favores
Então me dissolveu no fogo da tristeza
Depois ele me selou com o selo do amor.
Eu me transformei nele
Então ele expulsou meu eu de mim.

Pergunte para mim sobre um amor
Que o leva para a total insanidade
Coisas como perder a vida ou a mente
Uma aventura de centenas de longos dias
Pergunte sobre o fogo e o sangue
De centenas de desertos.

Na verdade, sua alma e a minha são a mesma
Este é o real significado de nossa relação
Entre nós não existe mais eu e você.

Acredite em mim. Tudo o que aparece
são as sombras e imagens.
A mão que as desenha é a mão do senhor
Esta magnificente mentira não alcança
A magnificente verdade
O conhecido existe por causa do desconhecido.

Eu sou um rio
Você é o meu sol
Você é o remédio
Do meu coração ferido
Eu vôo ao seu lado, na calmaria.
Eu sou a agulha
Você, o meu magneto.

Os ferimentos que você inflige são melhores
que o carinho dos outros
Sua cobiça é mais graciosa
que a generosidade dos outros.
Seu tormento cura mais
que o consolo dos outros
Sua maldição é mais desejada
que a oração dos outros.

A pessoa não ama
A menos que ilumine sua alma
Ele não é um amante
A menos que gire como estrelas ao redor da lua
Ouça. As folhas não se movem sem vento.

Você não pode nos ver com este espelho velho
Você não nos pode manter nesta casa emprestada
Você não pode prender uma pessoa
Cuja algema é o cabelo dele.

Se você olhar cuidadosamente, verá
que cada partícula no ar
Feliz ou triste está mergulhada
Dentro do sol do Universo Absoluto
Cada partícula está tão bêbada
e louca quanto nós.

União … é o jardim do Paraíso
Separação .. é o sofrimento do Inferno
O amor permanente no universo
Sempre permanece coberto
E torna nu aquele que está coberto
Este é o ponto sutil.

Oh alma, quem é o seu amor? Você sabe?
Oh coração quem está dentro de você? Você sabe?
Oh carne, você busca um caminho para escapar
de forma desonesta.
Quem está puxando você para Ele?
Olhe. Quem está buscando por você?

O universo estava repleto de milagres.
O orvalho do amor estava misturado com a argila humana
Centenas de sacrifícios por amor
Entraram nas veias da alma e produziram uma única gota
Que é chamada de coração

Oh Amado, estamos mais próximos de você que o Amor.
Somos o solo no qual você anda
É razoável, na crença do amor,
Ver todos os universos através de você
Mas não ver você?

É necessário maturidade para o caminho do amor.
É necessário estar fora dos problemas da terra.
Curar a própria cegueira.
A verdade preenche o universo
Você tem olhos para vê-la?

Eu colhi uma rosa rapidamente
Com medo do Jardineiro.
Então, ouvi sua voz suave
"Qual o valor de uma rosa?
Dei a você todo o jardim".

Eu desejo ir para longe,
Centenas de milhas da mente.
Desejo me libertar do bom e do mal.
Quanta beleza por trás dessa cortina!
Aqui está meu ser real.
Oh ignorantes,
é por mim mesmo que desejo estar apaixonado.

Não posso dormir enquanto estou com você
por causa de seu amor.
Não posso dormir sem você
porque choro e grito.
Permaneço acordado em ambas as noites
Mas que diferença entre elas.

Este vale é diferente
Para além de religiões e cultos.
Aqui, quietamente, abaixe sua cabeça
Mergulhe nas maravilhas de Deus
Aqui, não há salas para religiões ou cultos.

No começo, enquanto consolava a mim mesmo
com seu amor,
Os vizinhos não podiam dormir
por causa do meu lamento.
Agora, meus lamentos cessaram.
Meu amor aumentou
e como fumaça, desapareço
quando o fogo crepita.

Ele é o Todo e o Nada
Ele criou alegria e tristeza
Por que você não percebe
Que você não é nada além dele?

Da luz divina do céu
Nossa graça e beleza fez os anjos sentirem ciúmes.
Algumas vezes os espíritos superiores invejam
Nossa pureza e claridade
Algumas vezes o diabo sente medo de nossos vícios.

Oh sol, apareça. As partículas estão dançando.
Eu vejo espíritos sem cabeça e sem pés
dançando em êxtase.
Alguns dançam nas cúpulas do céu.
Chegue perto.
Eu lhe direi para onde eles estão indo.

Quem é mais miserável
Que um amante impaciente?
Este amor é uma doença
sem remédio ou fantasia.
A cura do amor
não é nem a hipocrisia e nem a moderação.

Gostaria de falar com você sem usar palavras
Gostaria de dizer segredos em seu ouvido.
Mesmo se dissesse essas coisas entre estranhos
Nenhum deles me entenderia.

Oh, aquele que não conhece a essência interior
Aquele que orgulha-se e gosta da própria pele
Acorde seus sentidos. Existe um amor
No interior de sua alma.
A percepção é a essência de seu corpo.
A alma é a essência de sua percepção.
Mas se você for para além do corpo, percepção e da alma
Tudo se transformará nele.

Oh, amor, todos estão despertos
com seu despertar
Todos os que dormem
Dormem na sua porta da Graça
Não há outro Secreto além de ti.

Oh razão, vá embora.
Não há sábios aqui.
Mesmo se você se tornar um pequeno fio de cabelo,
Não haverá lugar para você.
É de manhã agora.
Qualquer vela que você queimar
Ficará constrangida frente à luz do sol.

O destino não está sob o controle do nosso coração.
Ser é o meio de alcançar o não-ser
Há alguém que nos olha
Por detrás da cortina.
Na verdade, não estamos aqui.
Esta é nossa sombra.

Alguém dentro de sua respiração
Também lhe dá a respiração, promessas de União.
Respire com ele até sua última respiração.
Ele lhe deu isto por causa de sua doçura e graça,
não como uma piada.

Não seja indolente e permaneça distante.
Venha. Junte-se a nós.
Uma pessoa sem trabalho come ou dorme.
Aqui está a música. Aqui está o Samá.
Venha. Junte-se a nós.

"Quem é o Uno?" eu perguntei
"Aquele que adiciona alma às nossas almas,
Confere a vida através das estrelas?'
Às vezes ele cobre nossos olhos como os de um falcão
Às vezes ele nos lança depois da presa.

Existe uma alma dentro de sua alma.
Busque por ela.
Existe uma jóia na montanha que é seu corpo.
Olhe para a mina que contém essa jóia.
Oh sufi andarilho
Busque dentro de você e não fora.

"Voarei como uma pomba de suas mãos".
"Se você voar, você merecerá ser
preso com minha mágoa", ele respondeu.
Eu disse, "Estou cansado e fraco
Morrendo em seu amor".
"A morte será uma honra para você", ele disse,
"Se você morrer com meu amor".

A fé na religião do amor é diferente.
A embriagues do vinho do amor é diferente.
É diferente de tudo o que você aprende na escola.
É diferente de tudo o que você aprende sobre o amor.

Você tem sido escravo de frios invernos,
Vivendo afastado do rouxinol e dos jardins de rosas.
Acorde! Este é o momento.
Se você o perder, ele nunca irá retornar.

No Dia do Julgamento
Muitas pessoas irão se aproximar
Com as faces aterrorizadas pelo medo.
Eu irei colocar teu amor à minha frente
E pedirei que ele preste contas.

No amor não há alto ou baixo,
nem mal comportamento ou bom comportamento,
Nem líder, nem seguidor, nem devoto;
Apenas indiferença, tolerância e desistência.

O Amado caminha em lugares solitários
onde os amantes perambulam.
O devoto reza nas contas de seu rosário.
Um dorme na beirada da água.
Outros ajoelham-se por um pedaço de pão.
Eles sofrem de sede e fome.

Estamos felizes mesmo se não temos vinho e copo.
Estamos felizes se nos chamam de bons ou maus.
"Não haverá fim para eles", dizem de nós.
Estamos preenchidos de alegria por não termos fim.

Venha para o jardim na primavera
Ali existe luz e casais de namorados por entre as flores de romã.
Se você não vier, estas coisas não interessam.
Se você vier, estas coisas não interessam.

Quando perco seus lábios,
Eu beijo a pedra vermelha do anel.
Se seus lábios não estão por perto, eu beijo o anel.
Se não posso alcançar seu céu,
Eu me ajoelho e beijo o chão.

Quem não tem o ser completamente aniquilado
não pode ser aceito em União.
A União não é a encarnação de Deus no homem.
União é a auto-aniquilação.

Tudo em volta está verde. As flores estão em todos os lugares.
Todas as partículas sorriem refletindo a Beleza.
Tudo brilha como pedras preciosas.
Amado e amante estão em união em todos os lugares.

Feche seus olhos. Meu coração será um olho para você.
Com este olho, outro mundo lhe será mostrado.
Quando você decidir não ser vaidoso,
Todos irão admirá-lo.

Não sei quem se senta em meu coração
Ou porque ele sorri para mim.
Não sou mais eu mesma.
Meu coração é como o ramo de uma rosa
Que perdeu suas folhas na brisa da manhã.

Você é aquele que faz com que todas as minhas inquietudes desapareçam.
Você faz com que o cedro, a rosa e o jardim se percam de si mesmos.
A rosa está alegre. O espinho está embriagado.
Dê a nós mais um copo, para que fiquemos todos iguais.

Não há forma deste coração escapar de você.
Oh, amor, você deve tomá-lo.
Se a dor do amor não preenche este coração,
não me importo se tenho um ou não.

Meu amor me disse, "Você pede
um beijo para tudo o que é belo.
Por que não o pede para mim?"
"Você gostaria de ouro?", eu perguntei.
"Não", ele disse, "apenas sua vida".

Meu coração está tão repleto de seu amor
Que todo o resto desapareceu.
Ele me fez esquecer dos livros, da ciência e da temperança.
Ensinou-me apenas sobre o lirismo, poemas e métrica.

Quem procura por um jardim, encontra você.
Quem pensa no vinho e na vela, ama você.
Eles dizem, "O sono é alimento para o cérebro."
Quem tiver visto o Amado, que importância dará para o cérebro?"

sábado, 30 de maio de 2009

“NORMOSE" - (Martha Medeiros)

Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal.Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Quem não se “normaliza” acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós?
Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha “presença” através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, sejam lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo.
A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?
Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.
É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera.
Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes!"

Fonte: Martha Medeiros (05.08.07) Jornal Zero Hora - P.Alegre-RS

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Comunhão - Harmonia dentro e fora - (Osho)


O homem está vivendo como uma ilha, e daí vem toda a miséria. Através dos séculos o homem tem tentado viver independentemente da existência - isso não é possível, pela própria natureza das coisas. O homem não pode ser independente nem dependente. A existência é um estado de interdependência: tudo depende de tudo mais. Não há hierarquia, ninguém é inferior e ninguém é superior. Existência é uma comunhão, um eterno caso de amor.


Mas essa ideia de que o homem tem que ser superior, especial, mais elevado, cria confusão. O homem precisa não ser nada, precisa dissolver-se na totalidade das coisas. E quando deixamos cair todas as barreiras, comunhão acontece e essa comunhão é uma bênção. Ser um com o todo é tudo. Este é o núcleo da religiosidade.

Heráclito, o antigo pensador Grego, nos diz: se as coisas acontecessem ao homem exatamente como ele deseja isso de nada adiantaria. A menos que você espere o inesperado, jamais encontrará a verdade, pois isso é difícil de descobrir e árduo chegar até ela. A natureza adora esconder-se. O senhor cujo oráculo está em Delfos nem revela nem dissimula – mas nos envia sinais.

A existência não possui linguagem... e, se você depender da linguagem não conseguirá comunicar-se com a existência. Existência é um mistério, não é possível interpretá-la. Se você tentar, irá errar. Existência pode ser vivenciada, mas não pensada. Ela é mais como poesia, menos como filosofia. É um sinal, uma porta. Ela se mostra, mas nada diz.

Não é possível abordar a existência através da mente. Se você pensar a respeito dela, você pode continuar pensando, mais e mais, mas você nunca irá alcançá-la – pois a barreira está, justamente, nos pensamentos. Pensar é um mundo privado, pertence apenas a você – assim você fica encerrado, encapsulado, prisioneiro de si mesmo. Com o não-pensar, você deixa de ser; você não está mais encerrado. Você se abre, fica poroso, a existência flui através de você e você flui através da existência.

Aprenda a escutar – escutar significa que você está aberto, vulnerável, receptivo, mas não está pensando de jeito nenhum. Pensar é uma ação positiva. Escutar é passivo: você se torna como um vale e recebe; você se torna como um útero e você recebe. Se puder escutar, então a natureza fala – mas isso não será uma linguagem. A natureza não usa palavras. Então o que ela usa? Heráclito diz que são sinais. Você encontra uma flor: que sinal é esse? Ela nada está dizendo – mas você pode realmente afirmar que ela não está dizendo coisa alguma? Ela está dizendo muito, só não está utilizando palavras: é uma mensagem sem palavras.

Para ouvir o inexprimível você terá que abandonar as palavras, pois só o semelhante pode ouvir aquele que lhe é semelhante, apenas os semelhantes podem se relacionar.

Diante de uma flor, não seja uma pessoa, seja uma flor. Ao lado de uma árvore, não seja uma pessoa, seja uma árvore. Tomando banho em um rio, não seja humano, seja um rio. E assim milhões de sinais lhe serão dados. E isso não é uma comunicação – é uma comunhão. Assim a natureza fala, fala em milhares de línguas, mas não numa linguagem.

Paciência - (Lenine)



Aparentemente tantas as faces,
vozes e notas,
...
Na Verdade, apenas o Divino!
Somos Um!

Acidente Supremo - (Osho)

Chiyono e seu balde d'água
Não é uma determinada seqüência de causas que levam a iluminação. Sua busca, seu desejo intenso, sua disposição para fazer o que for preciso - tudo isso junto talvez crie uma certa aura ao seu redor na qual esse grande acidente se torna possível



A monja Chiyono estudou durante anos, mas não foi capaz de atingir a iluminação. Uma noite, ela estava carregando um velho balde cheio de água. Enquanto caminhava, ela observava a lua cheia refletida na água do balde. Subitamente, as tiras de bambu que sustentavam o balde rebentaram, e o balde caiu. A água escorreu pelo chão, o reflexo da lua desapareceu – e Chiyono tornou-se iluminada. Ela escreveu este verso:

Desse e daquele jeito tentei manter o balde inteiro,
esperando que o frágil bambu nunca rebentasse.
De repente o fundo caiu.
A água se foi. O reflexo da lua na água sumiu -
Vazio em minhas mãos.


Iluminação é sempre como um acidente pois é imprevisível – você não pode controlá-la, não pode fazê-la acontecer. Mas não me entenda mal, pois quando digo que a iluminação é como um acidente, não estou dizendo para não fazer nada para alcançá-la. O acidente só ocorre com aqueles que fizeram muito para isso acontecer. Entretanto, este nunca acontece devido ao fazer deles. O fazer é só uma causa que gera a situação dentro deles, assim eles se tornam propensos a essa forma de acidente, apenas isso. Esse é o significado desse lindo acontecimento.

Há uma coisa que preciso dizer sobre Chiyono. Ela era uma mulher muito bonita – quando jovem, até mesmo imperadores e príncipes a procuravam. Ela recusou todos eles pois só queria ser amante do divino. Ela foi de um monastério a outro para tornar-se uma monja; mas mesmo os grandes mestres a recusaram. Havia tantos monges, e ela era tão bela que faria com que eles se esquecessem de Deus e tudo o mais. Em todos os lugares, as portas se fechavam para ela.

O que fez Chiyono? Não encontrando outro jeito, ela queimou o próprio rosto. Criou cicatrizes em todo o rosto. Depois ela foi ter com um mestre; que não soube nem mesmo reconhecer se ela era um homem ou uma mulher. Assim ela foi aceita como monja. Ela estudou e meditou continuamente por trinta, quarenta anos.

Então, uma noite, ela estava olhando a lua refletida no balde. De repente o balde caiu, a água escorreu, e o reflexo da lua desapareceu – e isso disparou todo o processo.

Sempre há um evento que cria esse momento singular no qual o velho desaparece e o novo começa, de onde você renasce. Foi esse evento que disparou o processo: subitamente a água escorreu e não havia mais o reflexo da lua. Ela deve ter olhado para o alto, e a verdadeira lua estava ali. Nesse instante ela despertou para esse fato, que tudo era um reflexo, uma ilusão, pois estava sendo visto através da mente. Quando o balde se quebrou, a mente também quebrou por dentro. Ela estava pronta. Tudo que podia ser feito havia sido feito. Tudo que era possível, já havia sido feito. Nada foi deixado, ela estava preparada, tinha merecido isso. Esse incidente ordinário tornou-se o ponto de disparo do processo.

Subitamente o fundo caiu - era um acidente. A água se foi; o reflexo da lua na água sumiu – vazio em minhas mãos.

Isso é iluminação: quando vacuidade está em suas mãos, quando tudo fica vazio, quando não há mais ninguém, nem mesmo você. Então você alcançou a face original do Zen."