sábado, 15 de agosto de 2009

"Keep quiet" - (Papaji)


"Papaji sempre negou que tivesse qualquer “ensinamento”. O que ele possuia, entretanto, era uma incrível habilidade de dar às pessoas que vinham ter com ele um insight direto do Eu Real. O seu método não era mandar as pessoas longe para meditar e praticar, como um objetivo espiritual a longo termo na forma de uma experiência espiritual grandiosa, mas sim o de mostrar às pessoas que vinham visitá-lo que a Auto-Consciência é possível aqui e agora se a pessoa a buscasse no lugar do qual surge a mente e o sentimento de identidade individual.

Em seus satsangs o Mestre colocava ênfase apenas no abandonar as identificações, os conceitos, as idéias, cessar todos os esforços e pensamentos, olhar para dentro e apenas ser, permanecendo em silêncio. Encoravaja os buscadores a fazerem isso agora mesmo, neste instante. Insistia na importância de se ter um desejo forte pela libertação, ou liberdade. Aconselhava também os buscadores a perguntarem-se “quem sou eu?” e “de onde eu venho” a fim de chegar na Fonte do eu, do ego.

[Deve ser notado que a expressão que o Papaji e outros discípulos do Ramana Maharshi usa, “keep quiet”, é uma tradução da expressão tamil summa iru, cunhada pelo Bhagavan, significando “permaneça quieto” ou “apenas seja”. Nos textos por mim traduzidos essa expressão, na falta de um par perfeito em português, é traduzida por “fique quieto”, “permaneça/mantenha-se em silêncio” ou “apenas seja”. Tal expressão refere-se a manter uma mente em paz, vazia, sem pensamentos, e não ao silêncio físico fruto de não falar.]"

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"Fique quieto, não pense, não faça esforço algum. Para estar aprisionado é necessário algum esforço, mas não para ser livre. A Paz está além do pensamento e do esforço. Não pense e não faça nenhum esforço, porque isso apenas obscurecerá Aquilo, mas não o revelará. É por isso que permanecer em silêncio é a chave ao oceano de amor e paz.

Essa quietude é a não mente; esse não-pensamento é a liberdade. Identifique-se com este Nada, esse Silêncio, mas tome cuidado para não fazer disso uma experiência, pois aí seria a mente aplicando-lhe um truque com a armadilha da dualidade.

Quando você se questiona “quem está pensando?” você interrompe o processo mental e retorna a sua verdadeira natureza.

O despertar perfeito é possível aqui e agora, para todos os seres humanos, independente da sua educação, prática, ou circunstâncias pessoais. Você já é livre! Qualquer coisa nova que seja obtida será perdida. O que é interno está sempre dentro de você, como seu Eu Real. Este é o substrato imutável sobre o qual suas esperanças e desejos são refletidos. São essas esperanças e desejos que ocultam a sempre-pura Consciência. O Eu Real revelará a si mesmo para si mesmo em um piscar de olhos assim que você abandonar toda esperança e desejo, que são doenças da mente. Mantenha-se em silêncio. Não deixe que surja nenhum pensamento. Não faça nenhum esforço e então em um instante descubrirá que você sempre foi livre.

Você é aquilo dentro do qual todos os acontecimentos acontecem. O que acontece deve acontecer, então permanença enquanto Paz, não afetado por nada. Seja pacífico e esta Paz se espalhará.

A melhor posição a tomar é aquela de não esquecer-se. Cumpra seu papel no mundo, mas não esqueça que tudo é apenas uma peça no palco. (...) Se você viver assim, sabendo que você é o Eu Real, poderá agir em qualquer lugar. Se você souber disso, todas as suas atividades serão muito bonitas, e você nunca irá sofrer. Quando você tiver um insight, uma experiência dessa vazio, você estará feliz o tempo todo, pois saberá que toda a manifestação, todo samsara, é a sua própria projeção.

Para alcançar a felicidade, simplesmente não pense, não deseje, mantenha-se em silêncio, porque pensamentos são o cemitério.

Se o desejo por liberdade é contínuo, todos os hábitos mentais e distrações cairão por terra. Pense apenas na Liberdade e você se tornará Liberdade, porque você é o que pensa. Pense no Self com a mesma persistência que uma dor de dente.

Dentre seis bilhões de pessoas e inúmeros bilhões de animais, quantos realmente desejam a liberdade? Quantos? Eu diria que vinte seria uma estimativa generosa. É um número muito pequeno. Eles são pessoas de sorte. Eles tem uma montanha de sorte, uma montanha de méritos passados. Apenas quando você tem uma montanha de méritos você realmente desejará a liberdade.

Se você não pedir nada e não desejar nada, tudo lhe será dado.

Este ciclo interminável é alimentado pelo desejo, o desejo de desfrutar de objetos sensoriais em um corpo. Quando cessa o desejo, o ciclo também cessa. Este aparentemente interminável ciclo de nascimentos e mortes cessa com a cessação do desejo. Não apenas o nascimento e morte cessam. Quando cessa o desejo, o universo mesmo cessa, como se nunca houvesse existido. É assim que é.

Os desejos serão um problema quando deixarem traços na mente. São os traços que são perigosos, e não os desejos em si. Quando um pássaro voa, ele não deixa marcas no ar. Quando um peixe nada, ele não deixa qualquer marca na superfície da água. Se nós pudéssemos viver sem deixar quaisquer traços, marcas, na mente, nós não teríamos problema algum.

Silêncio é abandonar todo o tornar-se, todos os pensamentos, todas as intenções, todos os conceitos. Simplesmente fique em silêncio.

A auto-inquirição é a verdadeira meditação, concentração na Consciência. Esta Consciência revelará a verdade para si mesmo: nenhum sujeito e nenhum objeto. A decisão “Apenas o Self é real” é meditação. Não direcione a sua mente ao passado ou futuro, mas deixe-a permanencer no aqui-agora sem vacilar, e medite. Medite apenas sobre quem é o meditador. (...) Meditação significa não fazer esforço algum, não agitar nenhum pensamento. Não é uma busca, porque a busca o faz perdê-lo. Meditação é direcionar sem esforço a mente em direção àquela Energia que vivifica a mente.

A suprema devoção é não despertar qualquer pensamento.

Podemos dizer que existem duas formas de expressar o que o Eu Real é: amor (bhakti) e sabedoria (jnana). Esses são também as formas de conhecê-lo. Na vichara, auto-inquirição, você busca a fonte do pensamento. Você retorna à fonte, mergulha nela e permanece enquanto Fonte. Isto é vichara. Esta investigação é chamada de “conhecimento”, jnana. Devoção é amar a sua Fonte. Quando você a ama com amor supremo, extremo, você será levado à Fonte e a conhecerá.

Maya [ilusão] tem uma grande rede com a qual ela pega peixes de diversas formas. Quando um homem rejeita o mundo, o samsara [ciclo de renascimentos, vida ilusória], existem inúmeras armadilhas a sua espreita. Ele pode ser pego de várias maneiras. Ele pode até deixar seus amigos, família e comunidade, mas pode acabar na armadilha de uma nova comunidade, um ashram. Ou ele pode cair na armadilha de ler livros espirituais. Ficar perdido nesses livros é uma grande armadilha. Onde quer que você vá, maya tem uma armadilha lá esperando por você. (...) Você pode ser um devoto que entoa mantras o dia todo, mas então seu rosário acabará sendo sua armadilha. Você pode pensar “Estou contando contas todos os dias. Estou indo bem!” (...) Quem está livre dessas armadilhas? Ninguém. Porque qualquer coisa que você faça ou pense, qualquer coisa que você imagine, é uma armadilha de maya.

Entretanto, deixe-me dizer que todas essas armadilhas são imaginárias. Uma vez que você saiba que elas são todas armadilhas, saberá que elas estão todas em sua imaginação. Não há porta que esteja lhe trancando. Você é livre para sair de qualquer armadilha na qual se encontre.

Qualquer coisa que você experimente, rejeite. Onde quer que você esteja, rejeite este lugar. Qualquer coisa que você perceba, conceba ou veja, rejeite tudo como “não isso, não isso”. Separe-se de todas essas coisas. No final você chegará a algum lugar, a um certo conhecimento, um conhecimento que não pode ser rejeitado. (...) Finalmente, o “eu” individual permanecerá desassociado de qualquer outra coisa, e então ele desaparecerá. E a dualidade desaparecerá com ele.

Para ser o que você é, para permanecer como o que você É, porque você precisaria de um mapa ou guia? Você já está lá. Qual exercício o trará mais perto? Qual caminho espiritual? Sob qual árvore bodhi você precisa sentar-se?

Eu lhe digo: ninguém está preso. Não há prisão. Ninguém é um buscador da liberação porque ninguém existe. Até mesmo a liberação não existe. Quem é você? Quem é aquele que irá meditar?

O ser Iluminado não nasce mais porque não há destino para ele. O destino é apenas para aqueles que não se iluminaram, e eles estão inescapavelmente sob seu poder. Mas para o ser Realizado não há destino desde o momento em que ele Realizou.

Se você souber e entender que é esta Luz, esta Consciência, que está lhe animando, e que é esta Luz que faz todas as suas ações, então você não mais terá qualquer responsabilidade pessoal pelas ações que o corpo fizer. Apenas seja o instrumento para essa Consciência fazer o seu trabalho. Deixe seu corpo agir de acordo com as instruções dessa Consciência. Saiba que você é apenas um instrumento. Se você viver na Consciência, como Consciência, sem tomar nada – tal como um corpo – como “meu”, você viverá uma vida muito livre. Você será a própria liberdade. Você viverá muito bem, muito feliz, sabendo que você é a Consciência que está por trás de tudo, e não nenhum dos dramas que se manifesta nela. O sofrimento pode surgir, a felicidade por surgir; eles podem surgir ou desaparecer, mas você não ficará chateado ou exaltado, pois conhecerá a verdade, que é a Consciência, e estará vivendo nela.
Enquanto houver sujeito-objeto, ou qualquer dualidade, você está sonhando. Quando você acordar perceberá que nada jamais existiu."

Fonte: http://www.advaita.com.br/Papaji/ensinamentospapaji.htm

Silence - (video Adyashanti)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O Poder do Silêncio - (Eckhart Tolle)


"A calma é a nossa natureza essencial. O que é a calma? É o espaço interior ou a consciência onde as palavras aqui escritas são assimiladas e se transformam em pensamentos. Sem essa consciência, não haveria percepção, não haveria pensamentos nem mundo. Você é essa consciência em forma de pessoa.

Quando você perde contato com sua calma interior, você perde contato com você mesmo. Quando perde esse contato, você fica perdido no mundo. Sua mais íntima noção de si mesmo, de quem você é, não pode ser separada da calma. Ela é o EU SOU, mais profundo do que seu nome e da sua forma externa.

O equivalente ao barulho externo é o barulho interno do pensamento. O equivalente ao silêncio externo é a calma interior. Sempre que houver silêncio à sua volta, ouça-o. Isso significa: apenas perceba-o. Preste atenção nele. Ouvir o silêncio desperta a dimensão de calma que já existe dentro de você, porque é só através da calma que você pode perceber o silêncio. Note que, quando você percebe o silêncio à sua volta, você não está pensando. Você está consciente do silêncio, mas não está pensando.

Quando você percebe o silêncio, instala-se imediatamente uma calma alerta no seu interior. Você está presente. Nesses momentos você se liberta de milhares de anos de condicionamento humano coletivo.

Olhe para uma árvore, uma flor, uma planta. Deixe sua atenção repousar nelas. Note como estão calmas, profundamente enraizadas no Ser. Deixe que a natureza lhe ensine o que é a calma.

Quando você olha para uma árvore e percebe a calma da árvore, você também se acalma. Você se conecta à árvore num nível muito profundo. Você sente uma unidade com tudo o que percebe na calma e através dela. Sentir a sua unidade com todas as coisas é amor.

O silêncio ajuda, mas você não precisa dele para encontrar a calma. Mesmo se houver barulho por perto, você pode perceber a calma por baixo do ruído, do espaço em que surge o ruído. Esse é o espaço interior da percepção pura, da própria consciência. Você pode se dar conta dessa percepção como um pano de fundo para tudo o que seus sentidos apreendem, para todos os seus pensamentos. Dar-se conta da percepção é o início da calma interior.

Qualquer barulho perturbador pode ser tão útil quanto o silêncio. De que forma? Abolindo a sua resistência interior ao barulho, deixando-o ser como ele é. Essa aceitação também leva você ao reino da paz interior que é a calma. Sempre que você experimenta a calma e fica em paz.

Preste atenção nos intervalos - o intervalo entre dois pensamentos, o curto e silencioso espaço entre as palavras e frases numa conversa, entre as notas de um piano ou de uma flauta ou o intervalo entre a inspiração e a expiração. Quando você presta atenção nesses intervalos, a percepção de "alguma coisa" se torna apenas percepção. Dentro de você surge a pura consciência desprovida de qualquer forma. Você deixa então de identificar-se com a forma.

A verdadeira inteligência atua silenciosamente. A calma é o lugar onde a criatividade e a solução dos problemas são encontradas.

Será que a calma e o silêncio são apenas a ausência de barulho e de conteúdo? Não, a calma e o silêncio são a própria inteligência, a consciência básica da qual provêm todas as formas de vida. A forma de vida que você pensa que é, vem dessa consciência e é sustentada por ela. Essa consciência é a essência das galáxias mais complexa e das folhas mais simples. É a essência de todas as flores, árvores, pássaros e demais formas de vida.

A calma é a única coisa no mundo que não tem forma. Na verdade, ela não é uma coisa nem pertence a este mundo.

Quando você olha num estado de calma para uma árvore ou uma pessoa, quem está olhando? É algo mais profundo do que você. A consciência está olhando para a sua própria criação. A Bíblia diz que Deus criou o mundo e viu que era bom. É isso que você vê quando olha num estado de calma, sem pensar em nada.

Você precisa saber mais coisas do que já sabe? Você acha que o mundo será salvo se tiver mais informações, se os computadores se tornarem mais rápidos ou se forem feitas mais análises intelectuais e científicas? O que a humanidade precisa hoje é de mais sabedoria para viver.

Mas o que é sabedoria e onde ela pode ser encontrada? A sabedoria vem da capacidade de manter a calma e o silêncio interior. Apenas veja e ouça. Não é preciso nada além disso. Manter a calma, olhando e ouvindo, ativa a inteligência que existe dentro de você. Deixe que a calma interior oriente suas palavras e ações [...medite].

A maioria das pessoas passa a vida toda aprisionada nos limites dos próprios pensamentos. Nunca vai além das estreitas idéias já feitas, do sentido do "eu" condicionado ao passado.

Em você, como em cada ser humano, existe uma dimensão de consciência bem mais profunda do que o pensamento. É a essência de quem você é. Podemos chamá-la de presença, de percepção, de consciência livre de condicionamentos. Nos antigos ensinamentos religiosos, essa consciência é o Cristo interior ou a sua natureza búdica.

Descobrir essa dimensão liberta você do sofrimento que causa a si mesmo e aos outros, quando você conhece apenas esse pequeno "eu" condicionado e deixa que ele conduza sua vida. O amor, a alegria, a criatividade e a verdadeira paz interior só podem entrar em sua vida quando você atinge essa dimensão de consciência livre de condicionamentos.

Se você reconhecer, mesmo esporadicamente, que os pensamentos que passam por sua cabeça são meros pensamentos; se você consegue se dar conta dos padrões que se repetem em suas reações mentais e emocionais, é sinal de que essa dimensão de consciência está emergindo. Ela é o espaço interno em que o conteúdo de sua vida se desdobra.

A corrente do pensamento tem uma enorme força que pode muito facilmente levar você de roldão. Cada pensamento tem a pretenção de ser extremamente importante. Cada pensamento quer sugar sua completa atenção.

Eis um novo exercício espiritual para você praticar: não leve seus pensamentos muito a sério!

Com muita facilidade as pessoas ficam aprisionadas nas armadilhas de seus próprios pensamentos!

Como a mente humana tem um imenso desejo de saber, de compreender e de controlar, ela confunde opiniões e pontos de vista com a verdade. A mente afirma: "as coisas são exatamente assim". Você precisa ir além dos seus pensamentos para perceber que, ao interpretar a "sua vida" ou a vida e o comportamento dos outros, ao julgar qualquer situação, você está expressando apenas um ponto de vista entre muitos possíveis. Suas opiniões e pontos de vista não passam de um punhado de pensamentos. Mas a realidade é outra coisa. Ela é um todo unificado em que todas as coisas se interligam e nada existe em si e por si. Pensar fragmenta a realidade, cortando-a em pequenos pedaços, em pequenos conceitos.

A mente pensante é uma ferramenta útil e poderosa, mas torna-se muito limitadora quando invade completamente a sua vida, impedindo você de perceber que a mente é apenas um pequeno aspecto da consciência que você é.

A sabedoria não é um produto do pensamento. A sabedoria é um profundo conhecimento que vem do simples ato de dar total atenção a alguém ou a alguma coisa. A atenção é a inteligência primordial, a própria consciência. Ela dissolve as barreiras criadas pelo pensamento, levando-nos a reconhecer que nada existe em si e por si. A inteligência une a pessoa que percebe ao objeto percebido, num campo unificado de percepção. É a atenção que cura a separação."

Fonte: http://www.eradourada.com.br

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vende-se a alma - (Otávio Leal)


Vende-se saúde e compra-se doenças.
vende-se exercícios saudáveis e compra-se preguiça.
vende-se equilíbrio e compra-se desarmonia.
vende-se vida e compra-se morte.
vende-se coragem e compra-se medo.
vende-se compaixão e compra-se competição
vende-se vocação e compra-se a escravidão.
vende-se originalidade e compra-se a moda.
vende-se estudo e compra-se a TV.
vende-se teatro e compra-se a internet.
vende-se fazer amor e compra-se sites pornôs.
vende-se alma e compra-se o “ser normal”.
vende-se espírito e compra-se a matéria.
vende-se natureza e compra-se São Paulo.
vende-se Gandhi e compra-se Bush.
vende-se coragem e compra-se o pavor.
vende-se movimento e compra-se a paralisia.
vende-se “te amo” e compra-se o “vamos ficar”.
vende-se paz e compra-se o conflito.
vende-se perdão e compra-se processos.
vende-se amor apaixonado e compra-se uma relação “segura”.
vende-se trabalho criativo e compra-se um emprego que dê uns trocados.
vende-se contentamento e compra-se consumismo sem ética.
vende-se solidariedade e compra-se competição.
vende-se aventura e compra-se estabilidade.
vende-se tesão e compra-se rigidez.
vende-se movimento e compra-se inércia.
vende-se convivência amorosa e compra-se isolamento num apartamento.
vende-se liberdade e compra-se prisões.
vende-se árvores e compra-se prédios.
vende-se autogestão e compra-se prefeituras.
vende-se Budas e compra-se Lulas.
vende-se Danças sagradas e compra-se futebol.
vende-se prazer e compra-se poder.
vende-se autogestão e compra-se governos.
vende-se risco e compra-se imobilidade.
vende-se alegria e compra-se sofrimento.
vende-se equidade e compra-se exploração.
vende-se igualdade e compra-se hierarquia.
vende-se carinho e compra-se tortura.
vende-se diferença e compra-se preconceito.
vende-se manejo sustentável e compra-se depredação.
vende-se autonomia e compra-se subordinação.
vende-se indivíduos iluminados e compra-se massa inconsciente.
vende-se agora e compra-se futuro.
vende-se sinceridade e compra-se fobia.
vende-se real e compra-se imaginário.
vende-se sanidade e compra-se loucura.
vende-se sim e compra-se não.
vende-se cooperação e compra-se chantagem.
vende-se brincadeiras e compra-se seriedade.

Texto inspirado e baseado no Jornal Tesão, abril – setembro 2009
Fonte: http://www.humaniversidade.com.br/boletins/vende_alma.htm

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O que é AMOR? - (Osho)


"O que é AMOR ?
AMOR é radiância, a fragância de conhecer a si mesmo, de ser você mesmo.
AMOR é uma alegria transbordante. AMOR é quando você viu quem você é; então não resta nada exceto compartilhar o seu ser com outros. Amor é quando você viu que não está separado da existência.
AMOR é quando você sentiu uma unidade orgânica, orgástica com tudo que é.
AMOR não é um relacionamento. Amor é um estado de ser; não tem nada a ver com nenhuma outra pessoa. A pessoa não está em AMOR, ela é amor. E é obvio que quando alguém é amor, ele está em amor – mas isso é uma conseqüência, um subproduto, não é a fonte. A fonte é que a pessoa é amor.

Amor é quando você conheceu o seu céu interior.
AMOR é um profundo desejo de abençoar a existência toda."

O Observador e a Coisa Observada - (Jiddu Krishnamurti)


"Tende a bondade de continuar a acompanhar-me um pouco mais. Esta matéria poderá ser um tanto complexa e sutil, mas, por favor, continuai comigo a investigá-la.

Pois bem; quando formo uma imagem a respeito de vós ou de qualquer coisa, tenho a possibilidade de observar essa imagem e, assim, há a imagem e o observador da imagem. Vejo uma pessoa, suponhamos, de camisa vermelha, e minha reação imediata é de gostar ou não gostar dessa camisa. O gostar ou não gostar é resultado de minha cultura, de minha educação, minhas relações, minhas inclinações, minhas características adquiridas ou herdadas. É desse centro que eu observo e faço meu julgamento, e, assim, o observador está separado da coisa que observa.

Porém, o observador está percebendo mais do que uma só imagem; ele cria milhares de imagens. Ora, o observador difere dessas imagens? Não é ele apenas outra imagem? Está sempre a acrescentar ou a subtrair alguma coisa do que ele próprio é; ele é uma coisa viva, a todas as horas, ocupada em pesar, comparar, julgar, modificar, mudar, em virtude de pressões do exterior e do interior; vive no campo da consciência, que são seus próprios conhecimentos, as influências e avaliações inumeráveis. Ao mesmo tempo que olhais o observador, que é vós mesmo, vedes que ele é constituído de memórias, experiências, acidentes, influências, tradições e infinitas variedades de sofrimento, sendo tudo isso o passado. Assim, o observador é tanto o passado como o presente, e o amanhã o aguarda e faz também parte dele. Ele está meio vivo, meio morto, e com essa morte e vida é que observa. Nesse estado mental, situado no campo do tempo, vós (o observador) olhais o medo, o ciúme, a guerra, a família (a entidade feia e fechada chamada a família), e procurais resolver o problema da coisa observada, a qual é o desafio, o novo; estais sempre a traduzir o novo nos termos do velho e, por conseguinte, vos vedes num conflito perpétuo.

Uma imagem-, na qualidade de observador, observa dúzias de outras imagens, ao redor e dentro de si mesmo, e o observador diz: "Gosto dessa imagem, vou conservá-la", ou "Não gosto dessa imagem e, portanto, vou livrar-me dela" - mas o próprio observador foi formado pelas várias imagens, nascidas da reação a várias outras imagens. Assim sendo, alcançamos um ponto em que podemos dizer: O observador é também imagem, porém separa a si próprio para observar. Esse observador, que se tornou existente por causa de várias outras imagens, julga-se permanente e entre si próprio e as demais imagens criou uma separação, um intervalo de tempo. Isso gera conflito entre ele e as imagens que ele crê serem a causa de suas tribulações. Diz, então: "Preciso livrar-me desse conflito", mas o próprio desejo de livrar-se do conflito cria outra imagem.

O percebimento de tudo isso, que é a verdadeira meditação, revela haver uma imagem central, formada por todas as outras imagens, e essa imagem central - o observador - é o censor, o experimentador, o avaliador, o juiz que deseja conquistar ou subjugar as outras imagens ou destruí-las de todo. As outras imagens resultam dos juízos, opiniões e conclusões do observador, e o observador é o resultado de todas as outras imagens - portanto, o observador ê a coisa observada.

Assim, o percebimento revela os diferentes estados da mente; revela as várias imagens e a contradição entre elas existente; revela o conflito daí resultante e o desespero por não se poder fazer coisa alguma em relação ao conflito, e as diferentes tentativas de fugir dele. Tudo isso foi revelado pela vigilância cautelosa, hesitante, e percebe-se, então, que o observador é a coisa observada. Não é uma entidade superior que se torna consciente dessas coisas, não é um "eu" superior (a entidade superior, o eu superior são meras invenções, outras tantas imagens); o próprio percebimento revelou que o observador é a coisa observada.

Se fazeis a vós mesmo uma pergunta, quem é a entidade que vai receber a resposta? E quem é a entidade que vai investigar? Se essa entidade faz parte da consciência, se faz parte do pensamento, nesse caso ela é incapaz de descobrir a resposta. O que pode descobrir é apenas um estado de percebimento. Mas, se nesse estado de percebimento continua a existir uma entidade que diz: "Preciso estar cônscia, preciso praticar o percebimento" - essa entidade, por sua vez, é mais uma imagem.

Esse percebimento de que o observador é a coisa observada não é um processo de identificação com a coisa observada. Identificar-nos com uma dada coisa é relativamente fácil. A maioria de nós se identifica com alguma coisa: com a família, o marido, a esposa, a nação; e essa identificação leva a grandes aflições e grandes guerras. Estamos considerando uma coisa inteiramente diferente, que não devemos compreender verbalmente, porém no âmago, na raiz mesma de nosso ser. Na China antiga, um artista, antes de começar a pintar qualquer coisa, uma árvore, por exemplo - ficava sentado diante dela durante dias, meses, anos (não importa quanto tempo) até ele próprio ser a árvore. Ele não se identificava com a árvore, mas era a árvore. Isso significa que não havia espaço entre ele e a árvore, não havia espaço entre o observador e a coisa observada, não havia um experimentador a experimentar a beleza, o movimento, o matiz, a intensidade de uma folha, a "qualidade" da cor. Ele era totalmente a árvore, e só nesse estado podia pintá-la.

Qualquer movimento por parte do observador, se ele não percebeu que o observador é a coisa observada, só cria outra série de imagens e, mais uma vez, nelas se vê enredado. Mas, que sucede, quando o observador percebe que o observador é a coisa observada? Andai devagar, bem devagar, pois estamos examinando uma coisa muito complexa. Que sucede? O observador não age, absolutamente. O observador sempre disse: "Tenho de fazer algo em relação a essas imagens; devo recalcá-las ou dar-lhes uma forma diferente"; está sempre ativo em relação à coisa observada, agindo e reagindo, apaixonada ou indiferentemente, e essa ação de gostar e não gostar, por parte do observador, é chamada ação positiva - "Gosto desta coisa, portanto, devo conservá-la; não gosto daquela, portanto, tenho de livrar-me dela". Mas, quando o observador percebe que a coisa em relação à qual está agindo é ele próprio, não há então conflito entre ele e a imagem. Ele ê ela. Não está separado dela. Quando separado, ele fazia ou tentava fazer alguma coisa em relação a ela; mas, ao perceber que ele próprio é aquilo, não há mais gostar nem não gostar, e o conflito cessa.

Pois, que pode ele fazer? Se uma coisa é vós, que podeis fazer? Não podeis revoltar-vos contra ela, ou fugir dela, ou, mesmo, aceitá-la. Ela existe. Assim, toda ação resultante da reação, de gostar e não gostar, cessa.

Descobrireis, então, que há um percebimento que se torna extremamente vivo. Não está sujeito a nenhum fator central ou a alguma imagem, e dessa intensidade de percebimento provém uma diferente qualidade de atenção e a mente, por conseguinte (pois a mente é esse percebimento), se torna sobremodo sensível e altamente inteligente."


Liberte-se do Passado

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

EU SOU - (video Flavio Siqueira)



http://flaviosiqueira.wordpress.com/

A Voz do Conhecimento - (D. Miguel Ruiz)


"A letra A é um A porque assim declaramos e concordamos. A palavra cão descreve o tipo de animal que concordamos em chamar de cão. Usado assim, o conhecimento é só uma ferramenta de comunicação. Mas é mentira quase tudo o que é abstrato, o que é certo ou errado, o que é bom ou mal, o que é belo ou feio. Descobri que mais de noventa por cento dos conceitos que tinha armazenado na mente se baseavam em mentiras, principalmente os conceitos que tenho a meu respeito: posso fazer isso; não posso fazer aquilo. Sou desse jeito; jamais serei daquele outro. O problema não reside realmente no conhecimento mas naquilo que contamina o conhecimento - a mentira. Percebi que havia muita insensatez na forma como aprendemos a escrever nossas histórias. Como isso aconteceu? Antes do meu nascimento neste corpo físico, já havia aqui uma sociedade inteira de contadores de histórias. A história estava em pleno curso, e a partir deles aprendi como criar a minha.”

Tem que ser agora mesmo - (ensinamentos da Gangaji)


(Traduzido do inglês por Darshano Swamdarsh. Tradução revista por Carla Sherman.)

"Estou aqui para lhe trazer a sugestão de minha mestra, Gangaji, para que neste momento você pare de buscar qualquer coisa que seja. Mais especialmente, que você pare de buscar a iluminação, que é uma metáfora para a felicidade. Pare de buscar a felicidade.
Como se para de buscar a felicidade, a iluminação, ou qualquer coisa que seja? É realmente bastante simples. Você apenas permite que o farol da sua atenção relaxe em sua fonte. É muito simples: relaxe. Simplesmente não preste a menor atenção em nenhum de seus pensamentos. Incondicionalmente, não preste atenção aos pensamentos, e simplesmente permita que sua atenção relaxe no infinito oceano de consciência que é a sua natureza. Se o impulso de buscar parecer tão poderoso que você pensa que não pode relaxar sua atenção, então minha sugestão é que você use todo o esforço, a inteligência e os recursos que você tenha à sua disposição para encontrar a si mesmo.
Abandone toda busca de qualquer outra coisa que não seja o seu ser. A verdade é que isso é realmente fácil. Todo o melodrama espiritual tem uma única conclusão: o fim da busca de qualquer coisa que seja, e a descoberta de que tudo que você sempre desejou já está aqui, como você mesmo. Se permitir que sua atenção relaxe na consciência, você encontrará a si mesmo. Se concentrar todo o esforço de sua atenção na busca de si mesmo, você encontrará a si mesmo. Nada mais tem qualquer utilidade.
Esta é a sugestão de minha Mestra. Isto é o que ofereço a você: pare agora mesmo. A iluminação é um mito. Todo o entendimento espiritual que você tem, todos os conceitos espirituais conservados a fim de continuar sua busca da felicidade, da verdade, da paz e da liberdade, são as únicas coisas que o impedem de encontrar a felicidade, a verdade, a paz que é o seu ser, a liberdade que é a sua natureza. Se você não consegue parar, descubra quem não consegue parar. A coisa mais impressionante é que no próprio coração do buscador, no coração daquele que não consegue abandonar a busca; no próprio coração do ego, no próprio coração do "eu" que se apega, que necessita, que quer, é onde seu ser há de ser encontrado. Seu ser, que é presença infinita, eterna e que está sempre aqui. Neste momento, é possível descobrir, de uma vez por todas, quem você é, sem considerar sequer o que isso deve ser.
Todos nós já ouvimos o que vamos descobrir. Todos nós adotamos idéias e conceitos magníficos acerca do que é o nosso ser. Adotamos idéias de como se sente alguém que encontrou a felicidade e qual é a sensação de "despertar" ou de "realização". Utilizamos essas coisas com nenhum outro objetivo a não ser o monitoramento do estado que está presente, a fim de determinar se ele condiz com o estado de "iluminação" ou "despertar" ou "realização". Assim, nos mantemos a uma distância segura disto que estamos procurando desde o momento em que nascemos: nosso ser.
Ouvi dizer que esse negócio de auto-investigação é apenas para alguns poucos seres especiais, para os mais "perspicazes". Entretanto, a minha experiência é que isso é tão simples, que está tão completamente disponível, que não requer nada mais do que a determinação de encontrar a si mesmo. Qualquer pessoa, neste momento, pode provar a natureza real de si mesma e, ao prová-la, a busca está encerrada. Não importa se formas-pensamento de busca, o imaginário da busca, os velhos hábitos e comportamentos neuróticos continuam a se manifestar. A busca está terminada.
Isso é tudo que você precisa fazer. Tudo que qualquer pessoa precisa fazer. Esqueça tudo que você sabe sobre absolutamente tudo, e descubra exatamente o que você é, neste momento: que sabor você tem, qual é a sensação de "você", o que é este "eu".
Isso é o que eu tenho para lhe dizer. Estou aqui para falar sobre o mito da iluminação; estou aqui para lhe falar sobre você mesmo. Estou aqui para lhe oferecer, a cada momento, em cada encontro, sempre agora mesmo, esta REALIDADE de "você mesmo" que é impressionante, inacreditável e intocável por qualquer idéia."

domingo, 9 de agosto de 2009

Homenagem ao "Pai Terreno" e "Pai Divino" - uma unica face, a Presença Eu Sou





"Shower of Grace
River of Love
Ocean of Peace and Truth

This Joyous World,
A Divine Play.

All This -
We Are.

Om"



***Paizinho,
Toda minha gratidao e amor!
Sou com vc!

sábado, 8 de agosto de 2009

Ensinamento da Vedanta - (Swami Vivekananda)


"O mundo não é bom nem mau; cada homem constrói seu próprio mundo. Um cego pensa num mundo duro ou macio, frio ou quente. Somos uma mistura de felicidade e sofrimento, como já tivemos ocasião de comprovar centenas de vezes em nossa vida. Em geral os jovens são otimistas e os velhos, pessimistas. Os jovens têm a vida diante de si, os velhos queixam-se de que seu tempo já passou; centenas de desejos insatisfeitos debatem-se em seus corações. Contudo ambos são tolos. A vida é boa ou má de acordo com o estado de espírito com que a contemplamos. Em si mesma, não é nada. O fogo, em si mesmo, não é bom nem mau. Quando somos aquecidos por ele, dizemos: “Como é lindo o fogo!” Ao queimar-nos os dedos, nós o condenamos. De acordo com o uso que fazemos dele, ele nos causa uma sensação boa ou má. O mesmo se dá com o mundo. É irrepreensível, no que se refere a estar perfeitamente habilitado para realizar seus desígnios. Podemos estar certos que continuará a existir maravilhosamente bem sem nós, e por isso não precisamos ter a preocupação de querer ajudá-lo.

Precisamos fazer o bem. O desejo de fazer o bem é a nossa maior e mais poderosa aspiração, desde que tenhamos plena consciência de que é um privilégio ajudar aos outros. Não suba num pedestal, com cinco centavos na mão, e diga: “Tome, meu pobre coitado.” Seja grato que o mendigo esteja ali, porque ao dar-lhe uma esmola, você está ajudando a si mesmo. Abençoado não é quem recebe, mas sim, quem dá. Dê graças por poder exercitar sua bondade e compaixão nesse mundo, tornando-se, dessa forma, puro e perfeito."

Fonte: Swami Vivekananda, "O que é Religião", pág. 223 e 224.

Purificar-se, necessário. Purificar, se necessário - (Tales Nunes)


"O que é purificação? Em que consiste purificar-se? Venho refletindo sobre isso nos últimos dias. Talvez eu não fale nada de novo, mas não custa falar. Para os que não sabem, será novo, para os que já ouviram, pode ser que sirva de novo.

A partir do julgamento do que é bom ou o que é ruim para nós, temos a idéia de que purificar-nos consiste em nos livrarmos de algo ruim que está nos poluindo. Eu prefiro, porém, tentar quebrar essa dualidade, puro e impuro, sujo e limpo e pensar que purificar-se é renovar-se. Partindo desse princípio, purificação é desvencilharmo-nos, com reverência, daquilo que talvez não seja mais necessário para nós e abrirmos espaço para o novo.

O nosso corpo físico está diariamente se purificando. O ato de excreção, por si só, é uma purificação. Tirar melecas (e colar embaixo da mesa de trabalho), escovar os dentes, soltar pum (seja ele de qualquer natureza sonora ou olfativa) fazem parte do nosso ritual diário de purificação. O Hatha Yoga nos ensina algumas outras técnicas de purificação como Kapalabhati, Nauli Mas o que são esses atos senão formas de deixarmos para trás coisas das quais não precisamos mais? Digo que não precisamos mais porque é evidente que caso a gente insista em manter esses objetos em nosso organismo, eles podem causar desequilíbrios ao mesmo. Assim, um corpo limpo, é um corpo em equilíbrio.

Indo do corpo ao ambiente, penso que temos a tendência de acumular coisas que não nos servem mais, que não são mais úteis: roupas no armário, cacarecos na garagem... Talvez seja muito melhor passar adiante esses objetos estagnados e torná-los úteis a alguém. A estagnação material traz a estagnação energética e vice-versa. Assim, ao limparmos um ambiente da nossa casa, varrermos, mudarmos móveis de lugar, ajudamos a circular a energia estagnada e a renová-la. Talvez ali, naquele ambiente, tenha tanto poeira quanto energia estagnada de anos. E essa energia estagnada nos ambientes que freqüentamos tende-nos a estagnação também. O simples fato de ver as coisas sempre nos mesmos lugares, de percorrermos sempre os mesmo caminhos, trazem à nossa paisagem mental e emocional o mesmo tom, muitas vezes um monótono amarelo burro. Dar cores novas ao dia-a-dia é fundamental para se viver.

Por falar em paisagem mental e emocional, por vezes cultivamos e somos movidos, ou “assombrados”, por pensamentos de situações passadas, pensamentos padrões que são gerados por crenças profundas. Crenças que se encontram nos nossos inconscientes por causa de alguma vivência passada. Essas crenças se manifestam através de pensamentos e emoções que surgem em determinadas situações que vivemos hoje, similares ou não àquelas que as produziram no passado. Esses pensamentos, na maior parte das vezes, não são mais necessários e nos impedem de estar em contato mais próximo e de compreender a situação presente da maneira como ela se coloca para nós. Eles são leves ou densas poeiras do passado que encobrem o nosso presente. Como, então, remover a poeira?

Bom, os pensamentos que vêm à tona gerados por essas crenças profundas, trazem-nos emoções de igual valor, padronizadas e repetidas. Purificarmos pensamentos e emoções seria, portanto, não eliminá-los, pois isso é impossível. Pensamentos e emoções não são “deletáveis”. Mas purificação, aqui, seria dar-se conta dos pensamentos, emoções e os padrões que estão movendo-os, através da observação passiva e pacífica de si mesmo. E a partir daí, então, se necessário, “sugerir-se” o contrário do padrão e cultivar o oposto dos pensamentos e emoções gerados por ele. Essa atitude traz um grande alívio, uma sensação de leveza e liberdade, próprias a toda purificação.

Vamos supor que exista o seguinte padrão inconsciente: “sou responsável pela infelicidade dos outros”. Esse padrão traz à pessoa forte sentimento de culpa interior que a consome e ora faz com que ela se afaste das outras pessoas para tentar aliviar-se desse sentimento, ora a aproxima para tentar apaziguá-lo através de uma falsa ajuda ao outro. Mas, na verdade, a compaixão e não a culpa deveria nos mover a ajudar os outros. Então, para purificação da culpa, que é um sentimento EGOísta, poderiam ser feitas concentrações e meditações no seu oposto, a compaixão. Quanto ao padrão, ele continua lá, mas podemos sugerir, por meio de auto-sugestões, o seu oposto: “somos todos responsáveis por nossas alegrias e tristezas”. Essa, possivelmente, é uma das “faxinas” que ajuda no processo mais sutil de purificação dos pensamentos e emoções.

Resta-nos, talvez, um pequeno e grande impasse. Quando saber se é necessário ou não a renovação, a purificação?

A pergunta fica, mas o alerta vai: é preciso ter o cuidado para não cairmos, movidos por uma insatisfação interior - consigo próprio e às vezes projetada nos outros - no padrão da transformação e entrarmos na “paranóia” de mudança e na crença de que as coisas não estão bem do jeito que estão. Termino, então, como comecei: Purificar-se, necessário. Purificar, se necessário."

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Raga Anandi Kalyan - (Ravi & Anoushka Shankar)

Este coração que explode - (Roslyn Moore)



"Esta história é uma tentativa de falar sobre o realinhamento de uma vida. Sinto que estou em águas perigosas. Por que será que eu, com todas as minhas limitações, quero escrever uma história sobre mim? Será que estou tentando provar algo? Não deveria ficar quieta e voltar minha atenção para a fonte de todas as histórias? O chamado para escrever é forte. Se eu for sincera, talvez a história seja bem-sucedida e sirva para um bem desconhecido. Eu ofereço esta história ao despertar de todos os seres.

Um cliente, com muita persistência, conseguiu me passar dois vídeos de Gangaji. De acordo com a capa de "River of Freedom" [Rio de Liberdade], um documentário sobre Gangaji, ela é uma mulher americana que foi atraída à Índia em 1990, onde recebeu uma transmissão viva de auto-realização de H.W.L Poonja, um satguru iluminado, discípulo de Ramana Maharshi. Ramana é conhecido como um dos maiores seres iluminados de nossa época. Na capa, Gangaji nos convida a descobrir que já somos Isso que estamos procurando.

As palavras eram intrigantes, mas eu nem pensava que estivesse à procura de uma "Gangaji" em minha vida. Entretanto, mais tarde, depois de assistir aos dois vídeos, um após o outro, fiquei completamente estarrecida. A quietude de Gangaji era tão palpável que eu tinha de conhecê-la.

No domingo de Páscoa de 1996, meu marido, Bruce, e eu assistimos a nosso primeiro satsang público. Satsang quer dizer "associação com a verdade", e Gangaji estava oferecendo satsang, uma reunião aberta gratuita, em San Rafael, na Califórnia. Vieram aproximadamente 300 pessoas.

Sentados em almofadas no chão, Bruce e eu estávamos bem perto da frente do salão, onde havia uma plataforma guarnecida de um pequeno sofá branco muito simples, adornada com buquês de flores e fotos de Sri Poonjaji e Sri Ramana Maharshi. Quando vi a foto de Ramana, especulei se era realmente uma coincidência o fato de Gangaji e Ramana estarem conectados. Quantos anos haviam se passado desde que eu vira, pela primeira vez, uma foto de seu rosto tão expressivo, e sentira algo despertar bem dentro de mim? Este ano mesmo, atraída mais pelo seu semblante do que por seus ensinamentos, eu tinha feito uma cópia xerox e emoldurado uma foto sua, que colocara no altar em nosso quarto. Conseguimos um lugar na frente porque chegamos cedo e esperamos muito tempo. A espera tinha sido prazerosa, do lado de fora, onde o frescor da primavera se misturava à antecipação e reverência de todos na fila. Sabia de antemão que iríamos meditar durante uns vinte minutos, e então Gangaji entraria no salão.

O que vi quando Gangaji entrou na sala não fez sentido algum. Ela era uma mulher de cinqüenta e poucos anos, trajando um vestido azul simples e elegante, e um requintado lenço azul e branco nos ombros. Seu rosto forte e belo, habilmente maquiado, era salientado por cabelos cacheados, provavelmente tingidos e com permanente. Atraente, pensei, mas certamente não era o meu tipo. Não era natural o suficiente.

Mas como a amei de imediato, "meu tipo" teve que mudar. Ou, mais precisamente, descobri que o que a minha mente pensava que eu gostava ou não gostava não significava nada. Algo mais fundo dentro de mim estava ressoando com este ser que inspecionava o salão com uma compostura tão genuína, sorria com tanta sinceridade, e exibia um entusiasmo tão jovial que meu coração se enchia de alegria. Como poderia ocultar qualquer coisa desta mulher, cujos olhos encontravam os meus, tão aberta e completamente, com um "sim" ressonante, enquanto eu tentava analisá-la secretamente, sentada no meu lugar?

Misteriosamente, senti-me como se estivesse vendo a minha própria inocência perdida, minha verdadeira face, perfeitamente fresca, refletida diante de mim. Logo após aquele satsang, fui ao meu primeiro retiro silencioso com ela, em Napa, na Califórnia. Na estância hidromineral de White Sulphur Springs, localizada nos bosques úmidos ao longo de um riacho chamado Sulphur Creek, Bruce e eu penetramos profundamente no silêncio. Só falamos uma vez durante os oito dias que estivemos lá, apenas umas poucas palavras, para esclarecer um engano.

Em Santa Helena, fiquei extasiada quando percebi que, quem quer que tenha inventado o ditado "O silêncio é de ouro", não havia sido uma pessoa tapada e antiquada, com o intento de manter as crianças caladas. Esta moralização tão popular no passado estava apontando para a verdade viva. Foi uma bênção descobrir diretamente o "ouro", o inestimável valor do silêncio.

No silêncio do retiro pode-se ver que todo acontecimento, todo pensamento, toda emoção, toda percepção, se origina de uma vasta ausência de som, um espaço aberto que está sempre presente, mas que geralmente passa despercebido.

Uma experiência que tive naquele retiro, que incluía dois satsangs por dia, precisa ser contada. Em um dos satsang matutinos, realmente vi a compaixão de Gangaji. Era óbvio que, com quem quer que ela falasse, Gangaji via diretamente através da personalidade da pessoa. Uma pessoa estava tentando simplesmente fazer a pergunta certa. Eu estava vendo um homem magro que era intelectual demais, tenso demais, demais isto ou aquilo. Raramente não sentia uma afinidade com qualquer pessoa que falasse com Gangaji, e meus julgamentos estavam me perturbando. Enquanto Gangaji mostrava a tensão desnecessária, estava claro que ela estava vendo alguém que era bonito, sincero e merecedor, sem quaisquer qualificações. Em um nível mais profundo, ela via este homem como o seu próprio ser.

Tive que admitir que sempre tivera uma obsessão pela aparência das pessoas. Na sala de jantar, depois daquele satsang, minha obsessão com minha aparência diante dos olhos das outras pessoas também foi vista claramente. Eu queria mudar, mas não sabia como. Depois de anos de luta, reconheci a futilidade de tentar me tornar mais compassível. Lembrando-me da ordem de Gangaji, parei de tentar. Deixei que a discussão interna fosse reabsorvida no silêncio do retiro.

Uma prece espontânea e fervorosa foi articulada mais tarde naquele mesmo dia: "Que eu possa transcender todo apego às aparências." Mais tarde, enquanto caminhava em silêncio pelo riacho, que corria impetuosamente, houve um momento de revelação, que me atravessou como uma golfada de vento.

Um rio de seres havia passado pela minha vida inteira, um fluxo interminável de indivíduos aparecendo na consciência. Eu podia vê-los mergulhando e voltando à tona no rio. De repente, soube (com um saber perfeito) que todos estes seres eram o mesmo ser. Então, da mesma maneira que fui inundada pela alegria de reconhecer isso, tive certeza de que este ser era o meu próprio ser. Meu próprio ser!

Naquele momento, meu coração se expandiu e eu senti que estava pronta para morrer. Filtrado, o pensamento era mais ou menos esse: "Se eu morrer agora, não tem problema, porque agora esta vida valeu a pena ser vivida." Mas, naquele momento, eu morri de verdade. Em um instante, desisti de minha vida inteira, pela verdade que estava sendo revelada.

Quase imediatamente notei um desenvolvimento revoltante. Poucos momentos após a revelação, minha mente começou a tentar imaginar uma maneira de usar esta revelação em benefício próprio. Foi chocante assistir à minha mente tentando diligentemente construir uma auto-imagem melhor, uma imagem à medida de alguém que tivesse tido uma experiência tão elevada.

Durante aquele primeiro retiro, tive a boa sorte de, em muitos momentos, estar consciente de não ser ninguém em particular. Tais momentos foram inesperadamente agradáveis. Foi exatamente como Gangaji tinha prometido. Estar vazia de "mim" não era vivenciado como uma ausência, como eu imaginara, mas como a mais verdadeira alegria. Minha compreensão do funcionamento da minha mente estava crescendo. O ambiente silencioso do retiro me deu a oportunidade de conferir empiricamente a minha mente pensante, e descobri que não podia confiar nela de modo algum. Vi que todo pensamento, por mais esclarecido que fosse, era seguido de outro pensamento, e depois de outro pensamento, e mais outro pensamento. Eu estava vendo o que Ramana viu. Não há nenhum pensamento verdadeiro, com a exceção de um. E esse é "Pare! Fique quieto!" Cerca de seis semanas depois do retiro tive uma experiência profunda de iluminação. Gangaji descreve as experiências de iluminação como experiências que estão em alinhamento com a Verdade Absoluta. Elas são eventos abençoados, a serem lembrados carinhosamente por toda vida. Ainda assim, são apenas experiências, e todas as experiências, ela lembra impiedosamente, vão e vêm.

Bruce e eu fomos a um pequeno satsang em Stinson Beach, em uma sexta-feira. Em um determinado momento, logo depois que começou, de maneira completamente inesperada, Gangaji olhou diretamente para mim e disse: "Você reconheceu a verdade do seu ser. Vejo isto claramente. Isto não pode ser escondido. Você tem uma tendência ou um padrão de autodiminuição. Não sei o que é. Talvez seja alguma crença no seu não-merecimento, ou algum mau uso de poder no passado, ou algo assim. Mas não importa. O que importa é que você percebe a verdade."

"Vou lhe contar o que Papaji me disse quando viu esta mesma autodiminuição em mim." Ela imitou a postura física, deixando cair os ombros e fazendo seu corpo parecer menor e seu rosto parecer estúpido. "Papaji disse:" e voltou à sua postura normal, 'Sem Restrições!' Este é o meu conselho para você. Você entende? Não tente se fazer menor do que o que reconheceu que é verdadeiramente."

Eu fiquei estupefata. Especulei se tinha sido escolhida por engano, dentre uma série de nomes em uma lista. Mas não tão estupefata a ponto de não dizer, mais adiante no satsang: "Gangaji, você tem mais alguma dica para mim sobre a autodiminuição?" Novamente o seu olhar direto: "Não, você entendeu tudo que eu disse perfeitamente." E eu tinha entendido. Só que havia aquela voz de elogio e culpa, tentando diligentemente decidir se o que ela me dissera me elevava, "Você é auto-realizada", ou me diminuía: "Você se vê como alguém sem valor, e agora seus medos estão expostos e todo mundo vai saber que você é insignificante." Que oportunidade para ver minha bagagem, na clareza de sua presença, e deixar que tudo se queimasse.

Nas duas manhãs seguintes, quando acordei no quarto de dormir em Berkeley, vi conscientemente o momento em que minha mente se tornava ativa, como se eu fosse um brinquedo mecânico que tinha sido ligado na tomada. Então, misteriosa e espontaneamente, vi que despertei novamente, mas desta vez estava despertando de tudo o que pensava. Eu me expandi e soube que este fluxo mental não era nada além de um ponto de luz em uma tela. Quem eu sou é um espaço vasto e interminável. Espaço preenchido pela cama, pelo canto dos pássaros, os galhos das árvores do lado de fora da janela, por mim. Eu vejo o espaço aberto e vejo as formas que emergem no espaço, mas não qualquer distinção real entre coisa e não-coisa.

Não há verdadeiramente nenhuma separação. Nenhum aspecto de "mim" está em oposição à vacuidade da qual é feito. Eu não existo. Mais precisamente, eu sou a própria existência. Eu incluo tudo que vejo e tudo que não vejo. Eu não sou limitada pelo surgimento de "mim". O surgimento de "mim" é impregnado de quem eu sou verdadeiramente.

Havia uma alegria e confiança insondáveis, resultantes da percepção direta. O véu tinha sido levantado. Não era mais possível retornar à minha falta de compreensão anterior. O que eu tinha ouvido Gangaji dizer, e o que tinham dito os Grandes Mestres, agora eu sabia que era a verdade. Sem dúvida. Não sabido pela mente, mas conhecido diretamente, por experiência própria.

Mais tarde, uma dúvida surgiu. Eu não duvidava do que tinha visto, mas de que poderia alinhar corretamente a minha vida com a perfeição que tinha sido revelada. De fato, pensei que estava fazendo um trabalho malfeito, e uma espécie de tortura mental se iniciou.

Através de uma graça, eu tinha recebido o presente incomparável de saber a verdade. Será que eu não tinha a responsabilidade monumental de ser um testamento vivo do que recebera? Tendo aceitado a responsabilidade, como poderia estar entretendo este fluxo de humores, pensamentos e emoções que continuavam a aparecer? Em suma, por que eu não era feliz?

Quando já não podia mais suportar a tensão da separação aparente, desabalei-me para um pequeno satsang, para falar com Gangaji sobre isto. A caminho, fui forçada, de uma vez por todas, a ver a inutilidade de tentar entender Isso. Durante a viagem de carro de quatro horas até Stinson Beach, minha mente dava voltas implacavelmente. Eu estava desesperada, queria entender o que estava fazendo de errado. Por fim, tornou-se óbvio que eu não ia entender nada e, finalmente, tornou-se óbvio também que eu estava enlouquecendo com minhas tentativas. Então, por pura necessidade, desisti. Completamente. E então houve paz.

Agora, sempre que percebo que estou dizendo a mim mesma que tenho que entender isto, que é importante entender aquilo, ou que preciso chegar ao fundo de algo mais, este momento é um chamado que me convida a parar. Parar e me render ao que existe neste momento, independente de quaisquer detalhes que minha mente esteja inventando. De repente, e inesperadamente, percebi instantaneamente que tinha uma imagem em minha mente de como é ser feliz. A imagem surgira quando eu era ainda muito jovem e permanecera inalterada. Ao ver uma foto minha aos sete anos, na qual eu estou dando pulinhos de alegria na calçada, com um semblante feliz, só podia mesmo desistir. A aparência de Roslyn, quando se sentia feliz e realizada não podia ser modelada de acordo com uma imagem infantil de felicidade. A imagem era uma obstrução à possibilidade da verdadeira felicidade.

De repente, soube que teria que abandonar todas as imagens que estavam ocultas em meu subconsciente. Mas como? A "Roslyn" não era nada além de uma coleção de fixações: medos e desejos. Este foi um reconhecimento poderoso de como era sério o problema. Não havia escapatória.

Apesar da aparente impossibilidade, ou talvez por causa dela, eu rezei. Fiz um convite de todo o coração, a que todas minhas imagens ocultas se revelassem. Por mais apavorantes que fossem, aonde quer que tivessem sido socadas. Agora tinha a sensação de que estava pronta, de que finalmente sabia o que fazer. Este saber não vinha da minha mente, mas do âmago do meu ser. Eu me casaria com a Verdade. Seria um verdadeiro matrimônio. Minha imperfeição era secundária. Qualquer coisa que surgisse e por mais tempo que levasse, esta relação entre mim e a Verdade permaneceria imutável.

Quando anunciei meu matrimônio no pequeno satsang, Gangaji me disse que tinha esperado por isto, embora não conscientemente. Ao término da reunião, quando os comes-e-bebes foram servidos, ela disse brincando que era hora de servir o bolo de casamento. Umas duas semanas depois do pequeno satsang, comecei a escrever um pequeno relato a Gangaji em minha mente, como freqüentemente fazia naqueles dias. As palavras surgiam espontaneamente. "Amada Gangaji, 'eu' e 'meu' continuam sofrendo, mas eu permaneço intacta." Sim, era isso. Isso descrevia a minha experiência exatamente.

Sentei-me confiante à minha escrivaninha. Foi fácil escrever a parte sobre continuar sofrendo. Saiu voando da minha caneta. Surpreendentemente, quando comecei a escrever as palavras "eu permaneço intacta", minha caneta parou de se mover. Foi realmente chocante ver quanta resistência eu sentia a escrever essas palavras especificas, a pronunciá-las alto para Gangaji. Era como se, ao dizê-las, eu estivesse negando toda a minha vida passada, as minhas vidas passadas, de sofrimento. Não só isso, mas eu teria que admitir, antecipadamente, que qualquer sofrimento que pudesse acontecer no futuro tampouco poderia me atingir. Porque, se eu permanecia intacta, quem estava sofrendo? Ocorreu-me que talvez eu tivesse investido demais neste eu inexistente, neste sofredor inexistente, em abandoná-lo. Eu não estava pronta. Eu escreveria outra coisa a Gangaji, ou não escreveria nada.

Então ouvi a sua voz claramente: "Simplesmente diga a verdade!" A pura verdade era que eu permanecia intocada por qualquer sofrimento pessoal, passado, presente, ou futuro. Assim eu ganhei coragem e contei a coisa do jeito que era, e um peso enorme foi aliviado.

Depois do retiro em Santa Helena, concluí que as bênçãos que recebera lá eram um resultado direto do silêncio. Então, é claro, quando cheguei a Crestone, no Colorado, para o meu segundo retiro de silêncio com Gangaji, eu já antecipava um encontro importante com o silêncio.

Em Crestone, eu estava cercada de montanhas cobertas de neve, um céu de um azul intenso, uma sinfonia de nuvens, as árvores, a terra deserta, e uma consciência do espaço. Em vez de me hospedar no local do retiro, onde poderia simplesmente atravessar a estrada para ir ao restaurante e ao salão dos satsangs, decidi montar uma barraca em um acampamento que ficava a uns cinco quilômetros de distância, uma caminhada cheia de subidas e descidas. Ainda em casa, tinha considerado meus apetrechos de acampamento cuidadosamente; tinha praticado armar minha barraca no gramado em frente à nossa casa. Mas, depois de uma noite completamente insone em meu colchão inflável que se esvaziava cada vez mais, decidi que acampar, pelo menos a uma altitude de 2.500 metros, nestas circunstâncias, não era para mim.

Felizmente, pude alugar uma tenda fixa de um homem que estava no retiro, por um preço módico. Naquela noite, a temperatura baixou até 1 grau centígrado e, embora estivesse usando várias camadas de roupas e deitada debaixo de vários cobertores, meu nariz estava frio demais para eu conseguir pegar no sono.

Em seguida, dei um jeito de mudar para um apartamento pequeno na mesma propriedade. Tudo isso envolveu um bocado de atividade, muita mudança, e muita conversa. Acrescente-se a isto uma viagem até um templo hindu, com um amigo que não parecia ter qualquer idéia de que o retiro era em silêncio, e você pode ver que a minha expectativa de que o retiro seria de um silêncio externo perfeito, que apoiaria minha quietude interna, estava se mostrando estar incorreta.

Fiquei surpresa e achei divertido ver que as coisas não estavam se desenrolando como eu esperava. Não obstante, estava me divertindo a valer e jamais poderia esperar ter uma experiência mais linda. Eu estava fisicamente perto de Gangaji, assistindo a dois satsangs por dia com ela. Um privilégio sem igual. Eu estava em um lugar sagrado e muito especial. No satsang no domingo de manhã, tive a grande sorte de falar com Gangaji. Eu estava sendo dissolvida pela graça.

Hoje é domingo, 25 de maio, e este é o terceiro satsang do Retiro de Crestone. Estou sentada no chão e sei que hoje vou levantar a mão. Sei até mesmo que serei chamada. Pretendo descrever para Gangaji a experiência de "despertar" que tive em Berkeley. Pergunto-a mim mesma por que este encontro é tão importante para mim, mas não sei a resposta.

O tempo que passo aguardando ser chamada por Gangaji é intenso, e provoca uma mudança em minha vida. É um tempo carregado energeticamente. Enquanto as duas primeiras pessoas falam, imagino como será quando eu estiver lá em cima. Como vou me comportar? Será que vou parecer inteligente? Iluminada? Completamente ridícula? Tenho medo de que as pessoas terão inveja das minhas experiências e não gostarão de mim. Esta é a primeira vez que vou falar com Gangaji em um satsang grande. Sei que a excitação de ser o centro das atenções e o medo de me expor não têm importância.

"Simplesmente seja fiel à verdade", digo a mim mesma. Repito estas palavras freqüentemente. Sempre que começo a imaginar o que poderá acontecer quando eu estiver no palco, com o coração palpitando, retorno àquelas palavras: "Simplesmente seja fiel à verdade, e se renda."

Agora estou sentada com ela. Com a nova disposição no palco, com duas cadeiras uma próxima da outra, é como estar na sala de estar de Gangaji. Estou muito feliz de estar com ela, ser vista por ela, e vê-la. Ficamos de mãos dadas por um bom tempo. Oceanos de amor e reconhecimento. Não consigo parar de sorrir.

Eu:
Bem, eu tive uma experiência há mais ou menos um mês e acho que preciso contá-la e depois você me diz... Nem que seja só para contá-la e esquecê-la, tudo bem, mas ela tem que ser contada.

Gangaji:
Ótimo. Não posso negar isso.

Eu:
Aconteceu em duas manhãs seguidas: eu acordei de manhã e foi como se eu estivesse saindo do sono e sendo ligada em uma tomada, como se fosse uma coisa mecânica, e então eu estava acordada.


Estou tentando fazer os gestos de um brinquedo mecânico e não faço a menor idéia se os pequenos movimentos abruptos das mãos e as contorções faciais que estou fazendo estão comunicando o que eu quero expressar.

Continuo, sem saber se as minhas palavras estão sequer comunicando isso. "Os pensamentos e tudo mais, sabe, simplesmente começaram a acontecer. E então eu acordei novamente." Quando Gangaji responde com um "Ah!" espontâneo, sei que ela está me entendendo e me incentivando a continuar.

Eu:
E então despertei de novo. Despertei! E eu nem mesmo estava presente. É difícil de falar, mas eu só quero falar sobre isso.

Gangaji:
Sim, eu quero que você fale.

Eu:
É como se as coisas estivessem ao redor de mim, e nós éramos todos a mesma coisa.

Gangaji:
Nós, coisas?

Eu:
Nós, coisas, éramos todos o mesmo.

Gangaji:
Sim.

Eu:
E se podia ver o espaço entre as coisas, que não estava exatamente entre elas, porque o espaço e as coisas eram todos o mesmo. Completamente. E eu... Meu primeiro pensamento foi que eu não existia, e meu segundo pensamento foi que eu sabia que era isso que eu era. Era isso que eu era. Completamente.

E tudo mais simplesmente não existia... Sabe, simplesmente não existia... Tudo o que você pensa, não existe.


Ouço pessoas rindo no salão. Acho este negócio de conversar com Gangaji no palco muito agradável. Meus olhos se fecham para eu poder retornar à sensação. "E eu sabia que eu não tinha começo nem fim, e que eu era o todo. E queria lhe agradecer por isso." Gangaji recusa com um gesto, e ficamos rindo, e ouço risadas vindo de todos os lados.

Eu:
Só para... Eu sei que você vai dizer... Quero dizer eu senti... Senti tanto que isso estava acontecendo através da sua graça, senão por que isto aconteceria? Você tinha me dito no dia anterior...

Gangaji:
É verdade que você recebeu a transmissão. E a única maneira de esquecê-la é se você tentar se lembrar dela como uma coisa. Como um acontecimento. Se tentar fazer da experiência da totalidade do ser o ponto de referência para a memória.


Sei exatamente o que ela quer dizer porque tentei isso, e por isso estou rindo. Quando vê isto Gangaji diz: " Ótimo. Você já tentou isto. Isto é maturidade. Você já tentou e viu a sua inutilidade." Ela tem toda a razão, e novamente rio, em reconhecimento. Digo a ela que já tentei de tudo

Gangaji:
Isso é maturidade espiritual. "Já tentei de tudo." E agora, nada. Agora, a vigilância. A resolução. Viver sendo fiel à verdade. Como quer que ela se apresente. Qualquer que seja a experiência. Sim, estou profundamente feliz por você falar sobre isso, que isto tenha acontecido. Agora você sabe, por sua própria experiência, o que eu tento dizer inutilmente.

Eu:
Exato. Se há uma coisa que eu poderia dizer, ao falar disso com outra pessoa, é que isto não é uma metáfora. Eu achava que era... Mas não é uma metáfora.


Isto é recebido com risos calorosos, e sinto que Gangaji e eu nos entendemos perfeitamente, quando ela afirma claramente que "não é uma metáfora."

Quando o salão muito quieto, Gangaji me agradece de todo o coração e diz que sem receber não se pode dar, e eu lhe agradeço de todo o coração. Há algo muito sólido na maneira como ela olha para mim e diz: "Ótimo" e então eu desço da plataforma.

Enquanto me dirijo de volta ao meu lugar, há uma pausa muito longa. Os olhos de Gangaji estão fechados. Quando se abrem, ela diz: "Esta é a consciência de Ramana. A consciência daquilo que está vivo no âmago de todos os seres, e que se reconhece como ISSO. Não através de esforço, ou pela tentativa de se lembrar, ou fazer algo. Não indo em busca ou evitando alguma coisa. Simplesmente despertando enquanto se está acordado."

Quando retorno ao meu lugar no chão, sinto como se, de algum modo, Gangaji tivesse me libertado. A essas alturas, já tinha descoberto que não há nenhuma possibilidade de se aterrissar em lugar algum, mas eu previra que, ao contar o que estava acontecendo comigo, Gangaji daria um sentido a tudo aquilo. Em vez disso, estou queimando. Gangaji me acendeu. Desde o momento em que saí do lado dela, é como se houvesse fogos de artifício, uma explosão de reconhecimento depois da outra.

Não há mais espaço para a vozinha egocêntrica que diz: "Nossa! Ela disse que eu recebi a transmissão? Oba! Agora sim!" Como odeio a vozinha, empurro-a para debaixo da superfície da consciência. Não só isso, mas confundo este ato de repressão com vigilância.

Deitada de costas em meu quarto, aberta, quieta, com uma grande sensação de vivacidade, mergulho na experiência da totalidade mais profundamente. É tão incrivelmente próxima. Eu estou procurando cuidadosamente a separação entre o que está dentro de mim e o que está fora de mim, e não consigo encontrá-la. O que pensava que era importante não é importante.

O que pensava que era insignificante, porque sempre fora verdade e não exigia minha atenção para ser verdade, é o que eu estou examinando agora.

Vejo que há somente um campo. A idéia de que eu sou a parte que está dentro deste corpo, e não a parte que está fora deste corpo, é completamente absurda. Que tolice ter atribuído tanta importância à aparência da pele como um limite significativo. Que diferença meros fenômenos físicos como sangue, tecido, órgãos, ossos, podem fazer neste vasto oceano de consciência?

Tento encontrar o limite entre dentro e fora, o limite entre mim e o silêncio, o limite entre mim e o outro. Não há palavras. Não há tempo. EU SOU CONSCIÊNCIA ILIMITADA. Estou me dissolvendo em ondas de bem-aventurança. Uma ondulação em expansão constante. Imensa. Orgástica. Delicada. Sutílima.

Ao anoitecer, tenho o pensamento de que talvez seja realmente a bem-aventurança que eu quero, afinal de contas. Como posso organizar minha vida de modo a ter mais bem-aventurança? Mudar-me para a Índia? Achar uma caverna? Gangaji me preveniu sobre a bem-aventurança, a grande sedutora. Querer a bem-aventurança, querer qualquer coisa, só pode me afastar do auto-reconhecimento.

Quando o medo surge, o medo de perder o estado desperto, descobre-se que ele se baseia em falsos pressupostos. Como posso perder qualquer estado, quando todos os estados já estão aqui?

Noto que a palavra "eu" continua a surgir. E todavia não há nenhum "eu". Eu sou a iluminação. Sou a ignorância. Sou todas as coisas e todas as não coisas. Que problema se tornou esta palavra!

Toda a estrutura do meu sistema de crenças está desmoronando. Vejo que todas as minhas convicções se baseiam na falsa convicção de que o que está dentro do meu corpo está separado e é mais importante do que a totalidade de mim. A partir desta falsa convicção, eu construí um universo inteiro. Criei comparação, avaliação e julgamento. Penso em alguém que conheço, que sei que é ignorante. É como se fosse meu primeiro julgamento, e eu o vejo pelo que é realmente. Eu sou esse mesmo "alguém". Vejo que todas as rivalidades mentais são imaginárias. Agora que se soltou o laço mais apertado do nó da identificação equivocada (a identificação de mim mesma como sendo um corpo), tenho uma confiança renovada em que todos os laços relacionados a ele vão se soltar naturalmente na consciência. Aleluia! Agora eles podem simplesmente se desenrolar na imensa tela da consciência.

A caminho do salão de refeições, para o café da manhã, deleito-me com a presença das montanhas, das árvores, a luz e a sombra, o céu. Esta vida vibrante é infinita! Lembro-me de um velho medo de que, se eu superasse todos os meus apegos, a vida seria um tédio. Eu rio. Pela primeira vez, tenho um vislumbre da verdadeira possibilidade. Quando tudo é "eu mesma", o enfoque da minha atenção se amplia e inclui tudo, sem limitação. Eu sou apegada a tudo. A possibilidade de descoberta é infinita. A possibilidade de amor é infinita.

Dou uma outra boa risada quando entro na sala de jantar. Percebo que estou levemente embaraçada. Num instante, entendo a piada. Eu não sou ninguém, e este ninguém pensa que é alguém! Que bela peça estou pregando em mim mesma.

A sensação de ser inundada por reconhecimento continua. Um "aha!" depois do outro irrompe do silêncio desperto. "Aha! Vigilância não é aquela voz que censura meus pensamentos e me diz o que não pensar. Não. É simplesmente render-se à verdade de quem eu realmente sou, a cada momento."

Agora é terça-feira de manhã. Ao contrário de outros retiros silenciosos, neste haverá dois encontros nos quais todos os participantes do retiro conversarão uns com os outros. Eu me inscrevi para participar de um grupo chamado "Satsang na Vida Cotidiana". Muitas pessoas escolheram o mesmo grupo, tantas que nem vamos caber todos numa sala só. Fui designada para o Grupo dos Excedentes. Após dois dias de revelação, reluto em me dirigir à reunião. Em dialeto psicodélico, não quero "cortar o barato". Não sabendo se irei ou não, descubro a casa onde a reunião acontecerá, e então vou passear no bosque. E percebo que estou retornando à casa.

Quando entro na sala, vejo que esta não será uma reunião convencional. A discussão é sobre ir ou não a uma estação de águas térmicas local. Aparentemente, a noção de realmente discutir a questão do satsang na vida cotidiana já fora descartada.

Olho ao redor da sala. À minha esquerda, estão dois jovens de cabelos longos, Jimmy e Michael. Eu não tinha notado Jimmy antes, mas Michael falara com Gangaji em satsang no dia anterior. Ele tem um corpo grande e relaxado, um sorriso espontâneo, e me parece imaturo. À direita deles está Paldrom. Presente, modesta e sábia, ela trabalha na Satsang Foundation [Fundação Satsang] e talvez seja a facilitadora responsável pelo grupo. Carol é do sul. Com cabelos louros ondulados e um ar de sinceridade, ela me lembra Gangaji. Lelia é o meu verdadeiro amor. Quando olho em seus olhos claros e luminosos, afundo neles. Todos nós nos apresentamos, e percebo que me apresento excentricamente como "não". A conversa flui livremente. Três de nós falaram com Gangaji em satsang e descrevemos o encontro. Terapia de Satsang, como diz Carol. Quando falo, sinto que Jimmy e Michael estão zombando de mim. Jimmy me pergunta sobre a experiência que descrevi a Gangaji quando falamos no domingo e diz, descartando-a: "Ah, você ainda estava vendo objetos, portanto não foi uma experiência de nirvikalpa samadhi." Diz que já esteve naquele estado, ou algum outro estado com um nome em sânscrito que não conheço, durante vários dias.

Digo que foi importante para mim o fato de Gangaji ter me dito que eu tinha recebido a transmissão, e Jimmy sussurra para Michael que eu não podia ter acreditado que Gangaji estava falando sério quando disse isso. Será que eu não tinha visto aquele sorriso trapaceiro em seu rosto enquanto ela falava comigo? Quem era ela para transmitir o quê para quem?

Não posso acreditar no que está acontecendo. Eu não sabia o que esperar depois das ocorrências dos dois últimos dias. Eu seria possivelmente identificada como alguém que tinha se realizado e seria tratada com reverência, ou talvez ninguém notasse. Estava preparada para ambas as possibilidades. Mas não para isto. Olho para as mulheres. Nem Carol nem Paldrom parecem se lembrar da conversa que tive com Gangaji. Lelia diz que foi muito importante para ela. Diz que quando Gangaji e eu conversamos, ela viu faíscas de luz saindo de nossas cabeças e iluminando a sala.

Quando temos um intervalo para o almoço, não sei se voltarei para a reunião da tarde. Não quero admitir o que estou sentindo. Humilhação. Raiva. Quando penso em Jimmy, percebo que o detesto. Parece que há anos eu não tinha uma reação tão forte a alguém. Volto para o meu quarto e vou para a cama. No início, estou desesperada. Como posso estar num estado tão desprezível? Depois, abandono o desespero, apenas o suficiente para investigá-lo. Vejo que aquela emoção forte surgiu quando o pensamento de que eu era iluminada ou auto-realizada, ou pelo menos era melhor do que antes, fora desafiado. Eu paro. Tenho a sensação de que a contração está pairando sobre mim. Abro-me a ela.

Na verdade, eu tinha visto um sorrisinho no rosto de Gangaji quando conversamos, não tinha? Para mim, ela estava não apenas confirmando a transmissão, mas também comunicando de maneira não-verbal que ambas estávamos apenas jogando um jogo uma com a outra, o jogo de professor e aluno, de guru e discípulo. Ela estava me informando que a auto-importância que eu estava trazendo para este jogo era desnecessária. Mas naquela altura, eu não estava pronta para reconhecer isto. Aquele aspecto de mim que queria usar as experiências de iluminação para elevar a minha auto-imagem não queria ser desalojado.

Eu vinha notando um certo orgulho de proprietária em relação às experiências que estava tendo, e tinha esperanças de que, para lidar com ele, bastaria estar consciente dele. Mas este orgulho era recalcitrante. Ele tinha camadas. Por trás do orgulho estava o orgulho do orgulho. Este orgulho não significava que havia algo correto a meu respeito, algo de que me orgulhar, já que eu estava tendo que lidar com ele? Sem me mover, deixei toda a devassidão penetrar até o fundo.

Um sorriso enorme se abriu em meu rosto. É simplesmente engraçado demais para eu poder manter a minha seriedade. A astúcia da mente egóica! Gangaji tinha razão. A declaração de união com Deus é um convite a todos os velhos fantasmas para que saiam das trevas. Mas também é certo que eles vêm somente para serem liberados.

Quando volto ao grupo, à tarde, todo mundo me parece belo. O que eu percebera como sinal da imaturidade de Michael, agora vejo como uma brincadeira amável. Cada um de nós está desempenhando seu papel totalmente. Juntos, iniciamos em uma peregrinação aos centros espirituais em Crestone. Quando andamos ao redor de um pagode budista tibetano, seguimos no sentido horário, como prescrito, com exceção de Jimmy, que segue no sentido oposto. Ele é o coiote. Eu agradeço ao coiote, em meu coração, pelo rude despertar que recebi. Este tempo que passamos juntos é glorioso. O Grupo dos Excedentes está transbordando de amor.

No dia seguinte ao dia em que Gangaji e eu conversamos, Gangaji disse em satsang que mesmo este negócio de despertar, até mesmo este negócio de iluminação, existiam dentro da leela [jogo divino]. Eu estivera ponderando o que as suas palavras significavam, tentando compreendê-las, usando a minha idéia conceitual sobre a iluminação como o ponto de chegada. Agora elas fazem sentido perfeitamente. Tanto a experiência de despertar quanto a experiência de sofrimento são fenômenos que surgem da mesma fonte imutável. O desafio não é ter mais experiências de iluminação, por mais reveladoras que sejam. O desafio é permanecer quieto. Não se mover da quietude, que é naturalmente aberta e determinada, seja qual for a experiência.

Paldrom tinha me contado que uma vez havia dito a Gangaji que nada de extraordinário jamais acontecia com ela, e Gangaji disse que nada precisava acontecer, que ela já sabia. Foi importante ouvir isso. Pensei em uma querida amiga de satsang, que mora na minha cidade, que estava despertando para a verdade do seu ser. Ela também me dizia que em sua história não havia fogos de artifício.

Dois dias depois do Grupo dos Excedentes, na tarde de quinta-feira, há um satsang em que tantas pessoas levantam a mão para falar com Gangaji, que me faz pensar em um frenesi de alimentação. Fico muito contente quando Gangaji pede para Amber cantar. Toda vez que Amber parece ter terminado, Gangaji pede, com uma voz infantil adorável: "Mais?" Ela faz o mesmo com Dana. Em seguida, com Al e Yani. Até aparecer a quarta cantora, uma mulher chamada Kirtana, eu tinha concluído que não poderia haver nada melhor. A consciência do grupo está elevada.

Não reconheço Kirtana quando ela se aproxima da plataforma com seu violão. Tenho a impressão, por sua breve conversa com Gangaji, que a última vez em que haviam conversado fora perturbadora para Kirtana. A conversa delas não me prepara de forma alguma para a canção de abertura de Kirtana, que ela está cantando pela primeira vez para Gangaji. A sua voz sussurrante me convida a escutar cada palavra atentamente.

Antes do corpo
Antes da história
Antes do nome
Além da tentativa
Da mente de achar
Ou explicar
Antes da respiração
Além da sensação de prazer ou de dor
E após a morte
E após a morte
Eu existo.
(copyright 1997 Wild Dove Music)

Que beleza! Estou chocada. Sei mais profundamente agora como foi tolice pensar que o abençoado reconhecimento refletia algo sobre a minha pessoa. Quando o Satsang Cantado termina, coloco uma nota no quadro de avisos: "Estou completamente humilhada. Eu amo todo mundo aqui."

Quando me inscrevi no retiro, fiquei decepcionada ao descobrir que o tema seria "Uma vida vivida a serviço da verdade" e que o programa incluía algumas reuniões faladas. Eu pensava que um retiro deveria ser em silêncio. Ao confirmar a minha presença, percebi que dois satsangs listados no Calendário de Eventos tinham o mesmo título, e fiquei imaginando quem os conduziria. Estava receosa que fosse Maitri, a diretora da Satsang Foundation & Press [Fundação e Editora Satsang], ou um grupo de membros da diretoria. Eu esperava, porém, que fosse Gangaji. Seria uma pena perder dois satsangs formais com a Amada.

No começo da semana, quando nos reunimos para o primeiro desses dois satsangs, Maitri se senta na cadeira de Gangaji. Ela está radiante. Não sinto a sensação antecipada de decepção. Na verdade, há uma abertura. É emocionante vê-la. Maitri nos convida a responder ao chamado de servir que é inerente ao nosso encontro com Gangaji. Da mesma forma que Gangaji, ela nos assegura que as possibilidades são infinitas, e não há como prever de que forma cada indivíduo atenderá a este chamado.

Reconheço a existência deste chamado mais profundo. À medida que se desenrola o retiro, fico impressionada com a sua força. Enquanto isso, algo incrível acontece. Depois de décadas tentando alcançar a iluminação pessoal, descubro que já não estou mais tentando. Não estou pensando em quão iluminada eu sou, ou quão iluminada é qualquer outra pessoa. Este hábito, como mais tarde verei, está terminado.

Será possível que o fim do desejo de iluminação pessoal abra espaço para um desejo mais profundo, o desejo de servir? Não sei. Mas na quinta-feira, estou incendiada por ele. Estou pensando se há alguma arrogância na idéia de ser casada com a Verdade, porque agora sinto que quero somente ser a Serva da Verdade. Como acontece tão freqüentemente, Gangaji aborda exatamente esta questão no satsang seguinte.

"Estou falando do nível de compromisso que reconhece que, qualquer que seja o sentimento, qualquer que seja a experiência, existe um laço de amor verdadeiro entre a alma e Deus, entre você e a Verdade, com a qual sua vida está casada. Como esposa, como a esposa tradicional à moda antiga. Não como uma parceria fria, não como o líder, mas como a esposa. A esposa aguardando a oportunidade de servir, esperando que lhe digam o que fazer, aguardando para seguir uma ordem." Sim! Este é exatamente o relacionamento para o qual eu estou despertando.

Antes de deixar o retiro, ofereço-me à Fundação como voluntária, para fazer qualquer trabalho que possa ser feito à distância. Também decido comprar um computador, algo a que resistira durante anos, pensando que isso me dará a possibilidade de fazer mais. Que bênção para mim encontrar-me neste retiro em especial, com o tema de serviço. Quando deixei Crestone, minha vida se tornou uma simples prece consciente de que eu possa ser aproveitada. De fato, vejo agora, é por isso que estou escrevendo esta história.

Sou eternamente grata que esta prece perfeita, que existira o tempo todo, tenha finalmente me encontrado. Compreendo que, de algum modo inexplicável, não existe separação entre uma prece feita de todo coração, para que se possa servir à verdade, e a sua realização. Não existe separação entre a prece eterna, sua segura realização, este coração que explode e mim."

No silêncio da noite ... - (Krishnamurti)



"No silêncio da noite e na serena tranquilidade da manhã, quando o Sol começa a iluminar os montes, apercebemo-nos de um grande mistério. Este mistério está em todas as coisas vivas. Se nos sentamos debaixo de uma árvore, sentimos este velho planeta com todo o seu incompreensível mistério. Na quietude da noite, quando as estrelas cintilam e parecem estar muito próximas, temos consciência do espaço a expandir-se e da ordem misteriosa de todas coisas, do imensurável e também do nada, do movimento dos montes na escuridão e do grito da coruja.
Nesse completo silêncio da mente, o mistério vai aumentando, sem tempo nem espaço... A experiência é a morte desse indizível mistério...para estar em comunhão com esse mistério, a nossa mente, o todo que nós somos deverá estar no mesmo nível, sincronizado, com a mesma intensidade que isso a que chamamos misterioso. E isso é amor. Com este amor todo o mistério do universo se abre."


*** Compartilhado pela minha irmãzinha de alma Dagmar Witt, uma grande expressão da leveza do Ser e do Amor.

O Amor Interno - (Shri Mataji Nirmala Devi)


Não é fácil descrever ou explicar o Amor em palavras humanas. Vocês podem apenas senti-lo dentro de Si mesmos. É aquilo através do que, quando vocês começam a sentir, podem saber quem é o seu Guru, por quem vocês pensam que estão sendo ensinados, persuadidos e induzidos a viver de uma determinada maneira. Tudo isso é possível. Tudo é possível, humanamente possível, mas amar e regozijar o Amor não é tão fácil, a menos e até que vocês estejam imersos nisso. É muito gratificante, é muito amável ver como as pessoas amam umas às outras e então esse Amor se espalha. O Amor gera Amor. Se alguém tem Amor, isso simplesmente se espalha. Vocês não precisam dizer a ninguém, não precisam confessá-lo, mas ele irá se espalhar. E isso é o que deve ser aprendido, como perceber esse Amor em outra pessoa.

De alguma forma, nós já estamos no Amor por causa do advento da Sahaja. Nós todos amamos e regozijamos o amor, demonstramos em nossos rostos que estamos no Amor, em nosso caráter, em nossas vidas, que estamos no Amor. Uma coisa, a qual não é muito comum, torna-se tão comum e tão facilmente disponível. É uma bênção muito grande que vocês sejam seres humanos e que essa fonte de Amor e esse sentimento de Amor existam. É uma situação muito intrincada, a qual não pode ser explicada em palavras, apenas pode-se estar nela e deleitar-se com ela.

Hoje é o dia em que estamos celebrando o Puja do Guru. O maior guru que nós temos é o Amor. O Amor Sahaja é o Guru interior que nos ensina, que de uma forma ou outra nos guia. Somos guiados para esse grande patamar de compreensão, para o que não precisamos ir a nenhuma universidade, a nenhuma escola para nos instruirmos. É algo tão interior que funciona e expressa a si mesmo, expressa-se como uma luz. Podemos sempre distinguir pessoas assim porque elas são completamente iluminadas. Elas têm luz e através dessa luz elas veem um mundo inteiro que é muito inocente e simples para elas. Nós temos amor por nossos filhos naturalmente, temos amor por nossos pais naturalmente. Temos amor por algumas pessoas, mas esse amor é diferente do Amor de Deus que Eu estou lhes falando, que tem algumas conexões, alguns significados, mas este Amor não pode ser descrito em palavras, tem que ser sentido interiormente.


Da mesma maneira, quando vocês falam do seu Guru, vocês deveriam ter esse Amor dentro de vocês. Por que vocês sentem tanto isso? A razão é que o Guru os ama e vocês amam o Guru. Esta é a única razão pela qual vocês deveriam amar seu Guru. Agora, não há nenhuma razão para isso. Porque o Amor é Amor. É dessa maneira que o Guru se torna muito importante na vida. Nós temos pessoas que amam seu Guru e têm uma compreensão muito casta de seu Amor. Então esta é uma grande oportunidade de Amor que temos, nós estamos aqui para regozijarmos uns aos outros plenamente, com nossos corações, onde há esse oceano dentro de nós. Temos apenas que submergir nesse oceano. Se estivermos perdidos nesse oceano, então não teremos problemas, nenhuma pergunta. Tudo será nosso e nós podemos organizar tudo sem nenhuma discussão, sem nenhum questionamento. Isso é que é ser Sahaja. A maneira Sahaja, se vocês têm esse Amor, vocês regozijam. Vocês podem deleitar-se com si próprios e com todos os outros, porque isso é Sahaja.

Vocês não têm que fazer nenhum esforço, não têm que tentar nada. Isso apenas existe e funciona. O sentimento do Amor não tem nenhuma maneira para se expressar. Ele apenas existe, ele não pode se expressar porque é algo sem expressão. É apenas para ser sentido dentro de vocês mesmos. Então vocês querem fazer tantas coisas: querem ajudar a todos, querem ajudar a si mesmos, querem fazer bem aos outros. Muito tem sido feito por grandes líderes mundiais porque eles tinham esse Amor. Eles não tinham nada mais do que esse Amor, o qual eles não conseguiam conter dentro de si mesmos e, portanto, tentaram divulgá-lo. E agora eles são chamados de nossos Gurus, nossos mestres. Com esse amor interior, que abordou as pessoas de uma maneira única. É aquilo que não podemos possuir, não podemos reivindicar, ele existe e funciona. Funciona automaticamente.

Isso é o que nós temos que saber agora, que nós somos esse Amor. Esse Amor dentro de nós. Nós temos que ter conhecimento, temos que ter um conhecimento completo de que nós somos esse Amor. Isso irá resolver nossos problemas, porque vocês podem explicar tudo, todo o seu comportamento, todas as suas falhas, - vocês podem explicar tudo quando vocês sabem que estão dotados desse Amor. Isso é o que o Guru é, o Amor interior que deseja dividir o Amor com os outros, deseja dar Amor aos outros. Isso é que é paz e alegria. Posso continuar a falar sobre o Amor, mas senti-lo dentro de si mesmo é a maior coisa. Como água: se vocês estão com sede, podemos lhes dar água, mas não podemos beber. Vocês têm que beber a água e têm que sentir o sabor, ter a sensação, o que ela faz, - e tudo isso é um conjunto, não é separado.

Não acho que esse assunto seja muito sutil para vocês. Todos vocês alcançaram uma certa dimensão de compreensão sobre esse Amor. Eu espero que ele cresça e vocês cresçam nele, todos vocês, e regozijem isso. Possa Deus abençoá-los!
(S.S. Shri Mataji Nirmala Devi, Puja do Guru, 2004)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Menina - (O Teatro Mágico)




"Já sonhei nossa roda gigante esconde-esconde em você
Já avisei todo ser da noite que eu vou cuidar de você
Vou contar histórias dos dias depois de amanhã
Vou guardar tuas cores, tua primeira blusa de lã

Menina vou te guardar comigo
Menina vou te guardar comigo

Teu sorriso eu vou deixar na estante para eu ter um dia melhor
Tua água eu vou buscar na fonte teu passo eu já sei de cor
Sei nosso primeiro abraço, sei nossa primeira dor
Sei tua manhã mais bonita, nossa casinha de cobertor

Menina vou te casar comigo
Menina vou te casar comigo...Vou te guardar comigo

Sou teu gesto lindo
Sou teus pés
Sou quem olha você dormindo

Ô menina guardo você comigo
Menina guardo você comigo

Nosso canto será o mais bonito Mi Fá Sol Lápis de cor
Nossa pausa será o nosso grito que a natureza mostrou
A gente é tão pequeno, gigante no coração
Quando a noite traz sereno a gente dorme num só colchão

Menina vou te sonhar comigo
Menina vou te sonhar comigo

Sou teu gesto lindo
Sou teus pés
Sou quem olha você dormindo

Ô Menina guardo você comigo
Menina guardo você comigo"